Livre Arbítrio: Eu Escolho Você.
4 Capítulo 4
Quando eu atravessei o portão principal, parecia que eu tinha levado um tapa. Eu percebi, realmente percebi, o que eu tinha feito. Mas eu não me arrependi. Sabia que era o certo. Meu coração doía. Eu sabia que nunca mais veria Daniel, e isso me cortava. Quando estávamos do lado de fora o banido afrouxou seu aperto do meu braço, sem libertar-me, entretanto.
- Temos que nos apressar, o tempo é curto demais. Demoramos mais do que deveríamos. Eles vão ser capazes de nos alcançar! – Disse uma imortal que estava perto de mim. Ela era linda. De um jeito exótico e assustador. Ela tinha longos cabelos negros e seus olhos eram vermelhos como sangue, como o de todos os outros banidos. A maneira como ela falou me pareceu como se ela tivesse algum poder sobre os outros, algum tipo de autoridade.
- Ainda existem muitos dos nossos lá dentro, o que devemos fazer, Norah? – perguntou a outra que lutou com Taurus.
- Deixá-los, é claro. – respondeu a primeira, Norah.
Haviam ainda, além do imortal que me segurava pelo braço e as duas a minha frente, um grupo de aproximadamente vinte banido que saíram de Shoreline. Norah, a banida de cabelos negros, começou a andar em direção a floresta que cercava a escola. Shoreline tinha uma localização privilegiada, em cima de um pequeno e intocado morro, com o vasto e belo oceano de um lado e uma densa e rica floresta do outro. E era em direção a ela que iríamos.
- Vamos nos dividir. Façam pequenos grupos de três ou quatro e sigam em direções diferentes. Daqui a pouco os anjos virão e se nos separarmos conseguiremos. – Ordenou Norah. — Vamos!
Quando nos viramos em direção à floresta, um dos banidos do grupo de trás soltou um horrível som, de uma dor agonizante. Virei rapidamente, a tempo de ver várias coisas vindo em nossa direção. Eu me abaixei, bem a tempo de ver uma flecha passar pela minha cabeça e atingir uma árvore perto de mim. Então eu percebi que um grupo de nephilins não havia desistido. Eles estavam atirando contra os banidos e vindo para cima deles. Era um grupo pequeno, pelo menos metade no número de imortais. Liderando o grupo eu vi a forma corpulenta de Taurus. As flechas assustaram os banidos o suficiente para que os guerreiros se aproximassem. Eles estavam empunhando espadas e outras armas medievais que eu não saberia dizer os nomes. Eles começaram uma batalha, mas eu não pude ver muita coisa porque o imortal que estava me segurando começou a me puxar em direção a floresta com as outras duas imortais em nossas costas. Eu fiz força para tentar me soltar. Quem sabe eu não poderia escapar dessa ou, pelo menos retardá-los mais um pouco. Faltava tão pouco para que os anjos acordassem, eu podia sentir! Minha ridícula tentativa foi como nada para o banido, que apertou ainda mais sua mão em torno de meu braço a ponto de eu achar que quebraria.
- Vamos, não temos mais tempo! – Gritou Norah.
Nesse momento, uma flecha passou de raspão em meu braço a atingiu o ombro do meu seqüestrador. Ele urrou de dor e me soltou instintivamente, a mim e a bela espada prateada que tinha na outra mão. Eu não hesitei. Em um movimento rápido peguei a espada e rolei para o lado, apoiando minhas costas em tronco largo e apontando a espada para frente, defensivamente, com as duas mãos. Nessa hora, Taurus se lançou em cima de Norah e da outra banida que estava perto. Em um movimento rápido com a velha espada, ele cortou a cabeça da imortal, bem na minha frente. A outra imortal, Norah, havia conseguido desviar do golpe de Taurus e, bem quando eu pensei que ela iria voar no pescoço dele, ela se virou e começou a correr em direção a floresta. Taurus a seguiu sem pensar duas vezes. Droga. Uma batalha horrível estava acontecendo a minha frente e eu estava sozinha com um banido ferido vindo em minha direção. Eu ainda empunhava a espada a minha frente. Ele se aproximou com o rosto sedento de fúria. Ele levou a mão direita até a flecha que atravessava seu ombro esquerdo e a arrancou num movimento brusco, enquanto andava em minha direção. Quando ele arrancou a flecha, respingos de sangue me alcançaram. Eu apertei firme a espada nas mãos apontando diretamente para ele.
- O que você pensa que está fazendo? – Ele perguntou com algo que deveria ser um sorriso nos lábios. Era incredulidade mesmo.
- Não se aproxime! – Eu berrei.
- Ou o quê? – Ele perguntou já voando pra cima de mim.
Eu nem sei como, mas consegui me esquivar de seu ataque. Ele ainda tinha a flecha na mão. Estava ensangüentada, mas inteira. Seu ombro sangrava muito e a dor e a raiva estavam estampados em seu rosto. Eu vi que tudo o que ele queria era me matar.
O banido virou a flecha em minha direção, como uma fina e estranha espada improvisada. Eu e ele começamos a nos rodear. Todo meu corpo estava tenso. Eu estava encarando um imortal experiente em batalhas e não fazia idéia do que fazer. Tudo a minha volta sumiu. Éramos somente eu e ele e minha luta por sobrevivência. Engraçado eu estar lutando tanto. Há alguns minutos eu estava disposta a morrer. Mas quando se tem a chance de sobreviver, de ficar com quem você ama, você agarra. E eu queria viver. Muito. Ele tentou uma investida, usando a flecha como espada, mirando em meu coração. Eu facilmente bloqueei o ataque, fazendo um movimento rápido de semicírculo com minha arma prateada. Peraí. Foi muito facilmente mesmo. Estranho. Ele tentou novamente. Dessa vez eu girei o corpo e usei o impulso do giro para desarmá-lo. Minha espada bateu na flecha dele com tanta força, que ela caiu no chão. Eu rapidamente assumi uma posição de ataque. Era tão fácil. Estava fluindo tão bem. Eu ataquei o imortal desarmado e desorientado. Consegui um profundo corte em seu peito onde, imediatamente, começou a brotar uma linha escarlate. Eu voltei para posição de defesa, com minhas pernas flexionadas, minha perna de apoio atrás e segurando a espada em minha frente na altura do peito. Como tudo isso fluiu tão bem? Como eu sabia que essa posição era a correta? Como eu sabia como usar esse troço em minhas mãos?
Eu acho que parecia chocada demais, pois ele percebeu minha confusão e aproveitou para atacar. Com um movimento rápido ele chutou minha espada para longe e já vinha para cima de mim com os braços estendidos. Seria meu fim, sem dúvida. Mas ele parou. Com as mãos estendidas a centímetro do meu pescoço ele parou completamente e seus olhos perderam o foco. Foi aí que eu percebi o que havia acontecido. Uma ponta dourada estava saindo do peito do banido, praticamente em câmera lenta, enquanto o sangue escorria pela ferida e pela boca dele. A ponta dourada era a ponta de uma espada. Eu estava paralisada, meu corpo tremia. O corpo ensangüentado do imortal caiu diante dos meus pés. Quando eu olhei pra cima eu vi um anjo. Meu anjo. Daniel.
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