Livre Arbítrio: Eu Escolho Você.
30 Capítulo 30
Daniel e eu caminhamos pelo campus em silêncio. Eu estava guiando nossos passos e minha mente estava com um vazio imenso. Acho que eu simplesmente não sabia o que fazer, ou o que dizer, estava tão envergonhada e confusa. O calor da mão dele na minha só piorava tudo.
Eu tomei um rumo diferente. Fomos andando para o oeste do campus, na direção dos portões principais. Eu queria ir para a floresta, bem longe de tudo. A praia só havia me levado a problemas...
Havia dois nephilins no portão de entrada. Normalmente eu seria parada e interrogada sobre o motivo de minha saída, mas eles se afastaram sem fazer nenhuma pergunta quando viram Daniel ao meu lado. Nós passamos por eles e adentramos a densa e sombria floresta que cercava este lado da escola. Eu lembrei da noite em que os banidos tinham vindo, há algumas semanas atrás.
Aquele lugar me marcou e agora eu teria um desafio muito maior pela frente.
Nós paramos perto de um carvalho lindo, imenso. Havia uma mini-clareira ao redor da árvore. Eu soltei a mão de Daniel e fui em direção ao tronco úmido. Não chovia, mas o frio era congelante. O ar gelado com cheiro de terra molhada invadiu meus pulmões.
- Meu anjo, o que aconteceu? – a voz de Daniel era tranqüila, bem longe daquela voz fria de outrora.
Ele se aproximou de mim e eu percebi que o vermelho havia se dissipado de seus olhos, deixando apenas o violeta profundo que eu amava. Encarei-o envergonhada. Eu tinha que dizer a verdade.
- Daniel... ontem, depois que eu deixei você, eu fui pra sala de dança, pra espairecer. – comecei a falar. Eu estava apoiada no tronco do carvalho e Daniel a minha frente – e... eu não percebi de imediato, mas Cam tinha me seguido até lá.
Respirei fundo, e minha pausa serviu pra eu tentar encontrar as apalavras certas.
- Ele fez alguma coisa com você? – ele perguntou prontamente.
- Não... quer dizer... – eu não fazia idéia de como contar. Minhas mãos suavam e minha voz tremia – Eu... ele e eu começamos a conversar e ele me disse que...
- O que, Luce? – sua voz era suave, mas preocupada.
- Cam me disse que... que estava apaixonado por mim, e me beijou.
O corpo de Daniel tremeu e eu senti todos os seus músculos contraírem. Tive que me apressar em acrescentar:
- Eu não sei o que deu em mim, mas... – desviei meu olhar do dele – eu o beijei de volta.
Silêncio. Como eu detestava esse tipo de silêncio. O corpo dele relaxou, mas não senti a tensão diminuir, pelo contrário.
- Hoje depois do almoço ele me seguiu até meu quarto, eu queria me afastar dele porque estava confusa demais. – falei rapidamente, ainda sem ter coragem de olhar pra ele. As raízes do carvalho me pereceram muito mais fáceis de encarar – Então, nós nos beijamos novamente e... bem quando eu estava pedindo pra ele me deixar, você apareceu.
Uma brisa gelada passou por nós, bagunçando meu cabelo solto. Eu pus uma parte para trás da orelha, mantendo minha cabeça o mais baixa possível. Eu acho que nunca tinha me sentido tão triste e encabulada. Eu não sabia qual seria a reação dele, mas tinha certeza de que o tinha decepcionado. Muito.
Minutos se passaram sem que ele dissesse nada, ou que eu o encarasse. Senti lágrimas mornas e lentas escorrerem em meu rosto. O silêncio estava me enlouquecendo, eu precisava que ele gritasse comigo ou me xingasse, sei lá. Mas sua atitude me surpreendeu: ele me abraçou.
Daniel me apertou contra seu corpo e pôs uma das mãos em minha cabeça, alisando meu cabelo. Eu não compreendi.
- Daniel... – falei em seu peito molhado pelo meu choro.
- Xiii... – ele me acalmou, acariciando meu cabelo – Tá tudo bem.
Afastei-me um pouco e o encarei. Seu rosto estava tranqüilo, mas eu vi um pouco de dor em algum lugar.
- Como assim, está tudo bem? – perguntei incrédula.
- Luce... eu não vou dizer pra você que não estou sentindo nada com isso – ele disse se reaproximando – mas... eu sei que muito disso foi culpa minha, eu não tinha que ter mentido pra você.
- Não, pára! – eu falei me afastando novamente ficando nervosa – Não tem nada a ver! Eu... isso não é desculpa pra mim. Eu errei Daniel. Traí você, traí sua confiança, seu amor, eu não mereço sua benevolência. Eu... tô me sentindo péssima.
Ele pegou minha mão, tentando me acalmar.
- Eu também traí sua confiança quando menti pra você. – ele falou simplesmente. Daniel pôs a outra mão em meu queixo me fazendo olhar diretamente pra ele.
- Não é desculpa... não é... – resmunguei. As lágrimas voltaram a escorrer.
- Meu amor... eu já sabia que ele sentia algo diferente por você e também sabia da sua atração por ele. – eu engoli seco, enquanto Daniel prosseguiu calmamente depois de respirar profundamente – Eu... acho que sabia que isso podia acontecer e minha atitude facilitou a aproximação de vocês. Eu... não sei o que estou sentindo, eu só sei que eu amo você e que vou lutar por você sempre.
- Você não tem motivo pra lutar com ninguém, Daniel. Eu te amo e vou te amar sempre. Mas... eu sinceramente não sei o que aconteceu, não sei porque o beijei.
- Você está atraída por ele. – Daniel falou com amargura.
Sacudi a cabeça em negação, mas minha voz não saiu. Era isso, eu sabia que Daniel estava certo, eu tinha essa atração louca por Cam e saber dos sentimentos dele por mim só aflorou a coisa toda.
- Como é possível? Eu não compreendo... me sinto tão mal... – falei abaixando a cabeça.
Daniel me abraçou novamente e sussurrou em meu ouvido.
- Eu não vou te perder, Luce. Eu sei que errei e que isso trouxe conseqüências. Eu também sei que Cam não vai desistir de você, mas eu vou fazer o que for preciso pra manter você ao meu lado.
- Eu não quero que vocês fiquem brigando, Daniel. Existem coisas maiores e muito mais importantes. Vocês não podem ficar brigando entre si quando têm um inimigo muito pior lá fora. Eu não quero ser responsável por isso.
- Eu sei, meu anjo. Mas você tem que compreender que isso vai ser inevitável porque nós dois queremos você. Mas eu vou tentar fazer isso ser... o mais saudável possível, prometo.
Eu o apertei. Era tão bom senti-lo contra mim. Sentir seu cheiro, seu calor. Era tão diferente de Cam. Com Cam era uma coisa carnal, física, incontrolável. Com Daniel não era apenas físico, ía além. Além de muitas vidas, além de tudo o que existia.
- Você... está com raiva? – perguntei timidamente. Tinha medo da resposta.
Senti Daniel sorrir.
- Dele sim, de você não.
- Mas isso não faz sentido. – falei confusa.
Ele pegou meu rosto entre suas mãos e falou baixinho me encarando com os olhos brilhantes:
- Como eu poderia sentir raiva de você?
Eu sabia do que ele estava falando. Logo após me contar toda a verdade eu também não sabia o que estava sentindo por Daniel. Eu sabia que deveria sentir raiva, mas era impossível ter esse sentimento por ele. Eu entendia seus sentimentos.
- Me desculpa por te magoar assim. – falei.
Ele sorriu e me deu um selinho demorado.
- Eu amo você – ele disse com tanto carinho que meu coração deu um salto.
- E eu amo você. – respondi antes de beijá-lo de volta.
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