Livre Arbítrio: Eu Escolho Você.
26 Capítulo 26
Notas iniciais
Eu saí do ginásio e fui direto para o meu quarto. Lá eu apanhei meu casaco cáqui que estava jogado na cadeira e saí. Eu não queria ficar presa aqui dentro. Como o dia estava muito frio, eu não tinha usado a legging de sempre para o treinamento, eu tinha posto uma calça preta de helanca, tipo das que eu usava para dançar, há muito tempo atrás, e tênis também pretos. Eu vesti o casaco por cima de minha blusa branca, que depois da luta com Daniel não era mais tão branca assim.
Caminhei pela margem do belo campus de Shoreline, evitando ao máximo os locais que poderiam estar repletos de alunos curiosos. Eu fui em direção do penhasco e logo achei o estreito caminho que levava a praia lá embaixo. O mar sempre era capaz de me acalmar, não que eu achasse que algo me traria paz nesse momento. Enquanto descia pela trilha escorregadia, eu me peguei pensando em tudo o que aconteceu e minha cabeça começou a doer. As lágrimas, finalmente, haviam parado de descer, mas a tristeza ainda estava em mim.
Alcancei a praia, justo quando uma garoa começou a cair. Fechei completamente meu casaco e pus o capuz para proteger minha cabeça.
Com os braços cruzados, comecei a andar pela orla na direção do extremo leste. O cheiro de chuva e água salgada penetrou em mim e o frio cortante fazia meu corpo tremer. Avistei a enorme pedra que tombava na parte mais longínqua da praia e fui em sua direção. Escalei-a devagar, sua superfície estava muito escorregadia e impressionantemente fria. Lá em cima o frio era muito maior e o vento castigava meu corpo. Mas eu não queria sair dali, eu queria que o frio congelasse meus sentimentos e minhas dores. Talvez pensar no frio me fizesse esquecer o motivo de eu estar ali.
Poucos minutos se passaram em que eu fiquei sozinha refletindo sobre tudo o que eu fiz. Não me espantei quando senti a presença de Daniel atrás de mim. Eu estava de olhos fechados, de frente para o oceano revolto, e mesmo que ele tenha se aproximado de forma suave e silenciosa, eu pude senti-lo.
- Luce... – sua voz era um turbilhão de sentimentos e tinha um poder incrível sobre mim.
Não respondi e ele se aproximou. Sentir seu calor, seu corpo, sempre me faziam perder os sentidos, mas não agora.
- Nós precisamos conversar – ele continuou suave.
- Eu não quero conversar, Daniel. Não se for para ouvir mais desculpas, mais mentiras. – falei permanecendo na mesma posição.
- Então você terá a verdade. – foi tudo o que ele disse. Meu coração acelerou.
- Isso é tudo o que eu quero, tudo o que eu sempre quis. – falei voltando-me para ele.
- Eu prometo. – ele respondeu me enviando uma onda de calor através de seus olhos violetas. Era o tom mais suave de violeta que encontrei em seus olhos desde que o conheci.
Ficamos nos encarando em silêncio.
- Vamos descer. – ele falou indicando o lado da pedra que era oposta ao mar, exatamente onde eu e Cam estivemos no dia anterior. Eu sabia que ele queria me proteger do frio. Eu aceitei e passei por ele para poder descer. Já na areia, o vento cortante não me fazia tremer tanto, apoiei minhas costas na enorme pedra atrás de mim e cruzei os braços sobre o peito. Ele se posicionou a minha frente e formou com suas asas uma espécie de cabana, posicionando-as de cada lado do meu corpo, me protegendo totalmente do vento e da garoa. Suas asas eram tão quentes e acolhedoras quanto as de Cam, mas essa proximidade, pela primeira vez, não estava me afetando.
- Eu fui designado a tirar deste plano a vida de uma pessoa. – ele começou – Não só por eu ser uma Dominação, mas também por ser o Príncipe, eu poderia determinar esta tarefa para qualquer outro anjo competente; mas eu resolvi realizá-la por mim mesmo. Eu não sei o porquê, mas eu sentia que deveria fazer isso pessoalmente. Eu já tinha feito isso antes, em ocasiões importantes, raríssimas vezes. Então eu apenas comuniquei a alguns sobre o motivo da minha ausência.
Daniel falava com a voz firme e eu sabia pelo seu olhar e sua decisão que ele estava me contando toda a verdade dessa vez. Minha atenção era total.
“Era meados do século XIV entre os humanos e naquela época, havia diversos grupos de pessoas que se reuniam para combater as injustiças e as desigualdades impostas pela nobreza. Eu fui designado para matar uma pessoa em particular, um dos rebeldes que lutavam contra os nobres. Era uma mulher que, acidentalmente, durante a batalha, iria assassinar uma pessoa muito importante, um guardião”
- Você estava do lado da nobreza, então? E que guardião era esse? – perguntei confusa. Daniel explicou-me calmamente, retomando a história.
“Eu não estava de lado nenhum, Luce. Eu só tinha que proteger uma pessoa em particular, o guardião, que estava com sua vida ameaçada. Anjos não interferem na história humana, vocês precisam passar por todos os processos, todas as fases. Meu único objetivo era fazer com que o guardião de uma das partes da escritura de Enoque não fosse assassinado durante o combate que os rebeldes encabeçariam. Se isso acontecesse, a escritura seria perdida.
Eu fui atrás do meu objetivo, que era encontrar a responsável, mesmo que acidental, pela morte dele, e encontrei você.”
Eu estava mais confusa que nunca, muitas informações não faziam sentido pra mim.
- Você quer dizer que eu ia ser responsável pela morte de uma pessoa importante e que por isso eu teria que morrer?
- Sim – Daniel respondeu – Mas seria uma morte acidental, ele não era o seu alvo. Mas sendo seu alvo ou não, iria acontecer e eu precisava impedir.
- Mas você disse que anjos não influenciavam na história humana, como você ia tirar minha vida?
- Eu quis dizer que anjos não podem guiar o rumo da humanidade como um todo, o que acontece com vocês é puramente fruto das suas escolhas. Nós apenas podemos intervir quando uma ordem direta é dada dos seres divinos da primeira hierarquia, como foi o caso. Durante a batalha do seu grupo rebelde, você acidentalmente mataria uma pessoa muito importante para a manutenção dos segredos divinos. Isso não poderia acontecer. O seu tempo havia chegado ao fim e eu fui o encarregado de mostrar o caminho a você.
- Mas que guardião é esse? Guardião de quê?- perguntei atordoada.
“O Livro de Enoque é um livro sagrado que conta sobre o tempo em que os anjos povoavam a terra entre os humanos. Ele conta a história dos primeiros tempos, dos primeiros anjos caídos, do surgimento dos nephilins e contém profecias e revelações relacionadas com a história dos anjos. Diz-se que é tão poderoso, em nível de conhecimento, que teve que ser dividido em três partes e essas partes foram espalhadas pelo mundo, entre os mortais, para que ficassem protegidas de anjos mal intencionados que desejassem reuni-las para benefício próprio. Somente os anjos da primeira ordem têm conhecimento dos três guardiões e quando a vida de um deles foi ameaçada, a parte que ele protegia do Livro também foi. Os anjos precisaram intervir.”
- E mandaram você matar a pessoa que seria responsável pela morte dele, que era eu. – falei encarando-o fixamente, a compreensão invadindo meu ser.
“Sim. A minha missão era simples, mas eu não fui capaz de concluí-la, não depois que conheci você” – Daniel respirou fundo e continuou – “Eu encontrei você enquanto estava sentada a beira do rio que margeava o acampamento rebelde. Você polia os sai para a batalha que se aproximava e... eu me aproximei de você para enfrentá-la. É claro que eu não pretendia prolongar nada, eu apenas queria fazer da maneira mais rápida e indolor pra você. Eu estava determinado. Mas então, você percebeu a minha aproximação e me enfrentou.”
Daniel sorriu com o canto da boca e eu não sabia mais o que estava sentindo. Eu lembrei que da primeira vez que ele me contou como nos conhecemos, ele tinha dito que me ouviu treinando e parou para ver, mas a realidade era que ele foi me encontrar para me matar.
- O que aconteceu? – consegui perguntar com a voz trêmula.
- Bem, essa é uma pergunta que eu sempre farei a mim mesmo. – ele disse ainda sorrindo. – Eu simplesmente não pude te atacar. Você começou a perguntar quem eu era e o que eu queria, pronta para se defender, mas eu só me apresentei a você e disse que estava perdido. Você me encarou duvidosa, mas eu mostrei que estava desarmado e apenas pedi um pouco de água e comida... Você não esperou nem um segundo para perguntar se eu estava me sentindo bem, se tinha sido assaltado ou perseguido nas estradas. Você me ofereceu um copo de água fresca e disse que pegaria algo para eu comer enquanto eu descansava de minha viagem. Você foi tão gentil comigo e delicada... e era tão linda... – ele esticou sua mão para tocar meu rosto, mas a poucos centímetros dele alcançar seu objetivo, eu desviei o olhar e virei a cabeça. Eu estava confusa e muito magoada ainda. A mão dele parou no ar e desistiu, voltando para o local de origem.
- E... o que aconteceu depois? – perguntei ainda sem encará-lo.
- Eu tentei convencer a mim mesmo de que estava apenas com pena de você porque era tão jovem e boa, e acho que na minha cabeça, eu estava apenas te dando mais um tempo de vida. – ele falou continuando a história – Mas a verdade que eu não queria encarar era que eu não poderia matar você. Eu estava sentindo por você algo diferente, que eu nunca tinha sentido antes. Era forte demais e eu estava totalmente confuso.
- Mas você tinha uma missão a cumprir. Você simplesmente desistiu de cumpri-la? Por que você não convocou outro anjo para fazê-lo? – Minhas perguntas saíam em uma velocidade incrível, eu tinha que saber.
- Eu decidi ficar ao lado de vocês na batalha. Eu pensei que estando lá eu poderia proteger o guardião sem precisar matá-la. Eu não convoquei nenhum outro anjo porque simplesmente não queria que a matassem. – ele respondeu e continuou:
“Eu passei os próximos dias com os rebeldes, fingindo que tinha me juntado a causa. Todos logo perceberam que minhas habilidades de luta eram superiores e ficaram muito animados em me ter como mais um do grupo, especialmente você. Nós nos aproximamos muito naqueles dias e a cada minuto que eu passava com você, que nós treinávamos juntos, eu me envolvia mais com esse sentimento estranho e forte que eu sentia.
No dia da batalha eu achei que tudo estava sob controle, mas eu acabei me envolvendo de verdade na luta. Eu percebi o quanto a causa era importante e o quanto as pessoas estavam sofrendo e sendo oprimidas. Eu senti a necessidade de ajudar. Como eu não podia matar nenhum adversário, eu precisei me concentrar muito na luta para incapacitar meus opositores sem feri-los mortalmente. A todo o momento eu observava você a distância e sabia que os rebeldes estavam com a vantagem.”
“Alguns dias antes do ataque rebelde, vocês receberam a informação de que dois duques muito importantes estavam hospedados no mosteiro da região e planejaram um golpe. O guardião do fragmento do Livro de Enoque era um monge, ou vivia perto do mosteiro, eu concluí, mas eu não sabia quem era, assim ficava muito mais difícil protegê-lo. Eu teria que ficar alerta para tudo durante a luta.”
“Tudo aconteceu muito depressa. A guarda era poderosa e a proteção que rodeava os nobres mais importantes era pesada. Vocês finalmente invadiram o local e conseguiram se aproximar dos líderes. Nós estávamos na câmara principal do mosteiro e um grupo de cinco dos melhores guardas estava protegendo o senhor de terras mais poderoso da região, ele era seu alvo principal. Junto com você estávamos eu e mais dois rebeldes, a luta seria de igual para igual. Foi quando o avistei, o monge responsável pelo fragmento do livro. Eu senti que era ele, um senhor calvo e baixo que emanava uma energia diferente, poderosa. Ele estava encurralado atrás do grupo de soldados, próximo ao Duque, estava no lugar errado e na hora errada. Você derrotou seu adversário facilmente e correu em direção ao duque, que sacou uma espada. Vocês começaram um duelo que logo teria fim, porque você era muito superior no combate. Eu estava envolvido com dois soldados que me atacavam simultaneamente. Eu não podia revelar minha identidade, então não poderia fazer nada fora do normal. Nocauteei a ambos e comecei a me encaminhar para perto do monge para protegê-lo, mas foi tarde demais: durante sua batalha com o duque o monge foi atingido no pescoço em um ferimento mortal.”
Daniel tinha semblante diferente, que eu não soube definir. Sua voz era neutra, mas obviamente contida.
“Eu corri em direção a ele, seu corpo caído no chão. Você terminou sua batalha, incapacitando o duque e correu para ajudar, estava desesperada pelo o que tinha acontecido. Não havia nada que eu pudesse fazer e pouco tempo depois, o guardião se foi. Mas no mesmo instante que a alma dele nos deixou, uma energia intensa brotou de seu corpo desfalecido. Você não percebeu nada, mas eu podia sentir algo acontecendo. Tudo não durou mais que uma fração de segundos, mas eu percebi nitidamente aquela energia intensa e poderosa fluindo do corpo dele para o seu.”
- Como assim? O que isso significa? – perguntei ansiosa.
- Significa que a essência do fragmento do livro foi transferida a você naquele dia. – ele respondeu.
- O-O quê? – perguntei boquiaberta.
“Se um dos fragmentos for destruído, isto é, se o guardião for morto sem que a essência seja transferida a um mortal que a mereça, todos os anjos cairão. Todos estarão perdidos. É por isso que os banidos o querem tanto. Eles querem que todos os anjos se percam no caos eterno, como eles. Banidos, anjos e demônios vivem uma eterna guerra: os banidos procuram os guardiões dos fragmentos pra matá-los e assim alcançarem seu objetivo. Anjos e demônios lutam contra os banidos pelo simples fato de não quererem tal condição. Os demônios desejam possuir o conhecimento contido na escritura para poderem ter o domínio sobre tudo. E nós, anjos – caídos ou não – nos certificamos de que nem banidos nem demônios consigam seus objetivos.”
- Então – eu tentava entender – Os demônios querem achar os três fragmentos para dominar tudo; os banidos querem achar e destruir pelo menos um deles para que anjos e demônios se percam como eles e vocês impedem os dois... Mas onde EU entro nessa história?
“Como eu falei, no início nenhum de nós sabia o que havia acontecido com o fragmento. Nós apenas sabíamos que não havia sido perdido porque nós ainda éramos anjos, mas não fazíamos idéia de onde estava. Então, anjos e demônios uniram forças para tentar encontrar respostas. Eu sei que você deve pensar que anjos deveriam saber tudo, mas não é assim. O conhecimento é muito poderoso e é eterno, mas não pode cair nas mãos de um imortal, porque nós somos suscetíveis ao erro. O poder ludibria, corrompe. Por isso ele é passado entre os mortais, sempre fragmentado, sempre em códigos, para que não tenhamos acesso a ele. Somente depois de muito tempo conseguimos achar um dos profetas mortais que guardam os segredos antigos e foi ele quem revelou que o fragmento existia, mas que estava na posse de outro guardião. Na mesma hora eu sabia que era você porque eu estava presente quando a transferência aconteceu, mas logo os demônios também conseguiram ligar os pontos e, mais tarde, os banidos. Como resultado, existem dois fragmentos do livro que estão sob a posse de dois guardiões desconhecidos de nós, que apenas os anjos da primeira hierarquia sabem quem são, e um dos fragmentos está em você e tanto nós, quanto os demônios, quanto os banidos sabemos disso. É por isso que estamos juntos protegendo você, porque se os banidos conseguirem o objetivo de matar você e se não houver outro mortal destinado a ser o guardião, esse fragmento se perde para sempre e tanto anjos quanto demônios se perdem junto com ele.”
Eu estava em choque. Não havia o que dizer. Eu só estava li, de pé, mas meu corpo estava entorpecido.
- Mas como posso ser a guardiã se toda vez que nos encontrávamos nas outras vidas eu morria? Quer dizer, eu morrer não significa que o fragmento se perde?
- Sim – ele respondeu – mas apenas nessa vida. Ainda existe a outra parte da história. – ele continuou.
“Quando eu não cumpri minha missão eu não só não matei você como também decidi ficar ao seu lado. Eu me apaixonei por você. Minha decisão de me tornar um anjo caído tinha sido tomada em meu coração, antes de eu sequer conseguir processá-lo em minha cabeça. Esse não é o tipo de coisa que você tem um dia ou uma hora para decidir ou alguém para reportar, você simplesmente sente. E desde o momento em que eu vi você e que a gente se aproximou, eu tomei minha decisão, mesmo que inconscientemente. Depois que a batalha aconteceu e o guardião morreu tudo foi muito confuso. Anjos e demônios começaram uma caçada por respostas e eu estava no meio de tudo isso. E foi alguns dias depois da batalha que nós estávamos juntos, que eu percebi o meu destino. Você também estava apaixonada por mim e eu pensei que tudo ficaria bem, que nós encontraríamos o guardião, que até então eu não sabia que era você, e o protegeríamos dos demônios e dos banidos. Mas eu sempre pensei que pudesse fazer isso com você ao meu lado. Até quando nos beijamos da primeira vez e eu perdi você. Então a partir dali nós começamos uma caçada por respostas e eu comecei minha batalha interna contra o remorso e a dor, até que eu percebi que você voltava pra mim a cada dezessete anos. Até que nós encontramos o profeta que revelou a verdade sobre o fragmento não ter se perdido e eu logo liguei os fatos, que por você ser a guardiã o ciclo sempre se repetiria, você renasceria a cada dezessete anos, nos apaixonaríamos e você morreria levando o segredo do fragmento junto com você, até a próxima encarnação. Nós nunca poderíamos ficar juntos. Esse foi o meu castigo, partilhar do destino de uma guardiã. Por mais que eu tentasse, eu não podia me afastar de você, eu tinha que protegê-la, eu, os outros anjos e os demônios. Mas essa proximidade era sempre um tormento pra nós dois e eu nunca conseguia resistir ao seu amor. A cada reencarnação eu sempre sabia que veria você morrer em meus braços. E então, nessa vida, percebemos que tudo estava diferente, que dessa vez você poderia morrer pra sempre e o fragmento se perder de vez.”
- Por isso que todos tinham tanto medo do nosso envolvimento, não é? – perguntei a ele – Se eu morrer antes do momento certo nessa vida, antes de existir um outro guardião, sei lá, todos vocês estarão perdidos.
Ele acenou com a cabeça e completou me olhando profundamente:
- Eu não quero perder você porque eu te amo Lucinda. – Após uma breve pausa em que meu corpo tremeu, ele recomeçou – Eu sei que não tinha o direito de esconder isso de você e que você está magoada, mas eu nunca quis mentir, eu só queria que você tivesse uma vida normal, que não se preocupasse com nada, queria que soubesse que eu sempre vou estar aqui pra proteger você! Mas eu não tinha o direito de te esconder a verdade e não tinha percebido isso até agora, por isso eu peço, por favor, que você me perdoe um dia. – ele olhava pra mim com os olhos violetas implorando. Eu vi a tensão em seu corpo, a dúvida, o medo.
- Você não me escondeu isso só pra evitar que eu me preocupasse. – falei encarando-o de volta, eu sabia que havia outro motivo.
- Não. A verdade é que eu tive medo de contar o meu fracasso e que você não me perdoasse.
- Mas ... – comecei lentamente – você fracassou por me amar. Como eu poderia não perdoar você por isso?
Ele não respondeu e acima de nós, a chuva se intensificou.
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