Livre Arbítrio: Eu Escolho Você.
25 Capítulo 25
Notas iniciais
Suas palavras me paralisaram. “Não era isso o que você devia ter feito?”, ela perguntou. Eu senti em seus olhos que ela queria que eu respondesse, mas não o fiz. Ainda estava atordoado demais. Como ela havia descoberto? Como ela soube da verdade? Será que ela manipulou outro anunciador? Mas isso era impossível, nenhum anunciador referente a ela teria podido dar este tipo de informação, deveria ser um referente a mim... ou alguém que soubesse a verdade. E só um nome me veio à mente.
Quando eu deixei de ser um anjo, oficialmente, a repercussão foi imediata. Todo nosso mundo mudou, tudo ficou diferente. Nunca alguém de grau tão elevado havia caído, mas minha decisão tinha sido tomada e eu não voltaria atrás. Mas apesar de tudo, eram poucos os que realmente sabiam dos fatos detalhados, apenas pouquíssimas Dominações sabiam da missão que eu deveria ter cumprido e falhei. E um deles estava aqui. Cam.
- O que aconteceu aqui, Daniel? – Ravena estava ao meu lado. Nada mais importava pra mim.
- Ravena – eu disse encarando-a – me desculpe, mas você pode terminar os testes?
Ela acenou instantaneamente, sabia que algo estava errado. Eu estava grato por ela ser sempre tão compreensiva e por nunca me fazer perguntas e apenas acenei em sua direção antes de voar o mais rápido possível para fora dali. Eu fui diretamente para onde meus instintos me mandaram, eu sabia onde encontrá-lo, podia senti-lo.
Cam estava de pé no meio do pátio principal, conversando com Roland e Arriane.
- Gabbe ainda não mandou notícias, estou ficando preocupada. – Arriane dizia aos outros, totalmente alheia a minha presença. Eu me movia tão rápido, tão furtivo, que ela e Roland não perceberiam minha presença até que eu estivesse próximo o bastante. Em uma batalha, eles estariam mortos. Mas Cam percebeu minha aproximação, era o único que podia me sentir por perto.
Eu ainda carregava minha arma em punho, pressionando com força o cabo da minha fiel espada. Tão logo ele percebeu que eu estava perto, fez um movimento de esquiva e assumiu uma posição defensiva contra mim, empurrando Roland para cima de Arriane.
Tudo era rápido demais para os Arcanjos, mas não para Cam e eu. Meu sangue fervia.
- Daniel! – ele disse sarcástico, mas eu percebi a nota de preocupação em sua voz, afinal ele estava totalmente desarmado e eu tinha a vantagem. – Eu estava esperando por você. – ele completou com um sorriso irônico.
Eu parei a dois metros de distância, minha espada mirava seu coração.
- O que você disse a ela? – exigi.
- Daniel? O que está havendo? – Roland perguntou confuso perto de nós. Arriane também não estava entendendo nada, mas começou a andar devagar em minha direção e eu sabia o que ela estava tentando fazer.
- Nem tente, Arriane – falei sem olhar pra ela. – O que você disse, Cam? – perguntei novamente, minha voz estava fria, sem vida. Era sempre assim quando eu sentia raiva. Esse era um sentimento muito intenso e perigoso pra mim. Meu corpo humano conflitava com minha alma e a raiva me cegava. Eu tentava lutar contra isso sempre que sentia. Nas raras ocasiões durante minha vida como anjo caído em que senti raiva, eu me controlei ao máximo para não machucar ninguém. Mas era forte demais. O que eu estava sentindo por Cam ia além de qualquer controle que eu possuía.
- Somente o que ela me pediu. – Cam respondeu simplesmente. Seu corpo estava tenso e atento a cada movimento meu.
- Você não tinha o direito. – falei ainda com a voz fria que não me pertencia.
- Do que vocês estão falando? O que está acontecendo? – Arriane perguntou tentando desviar minha atenção. Ela e Roland sentiam que eu estava me contendo por pouco.
Eu não dei atenção a eles, era Cam quem eu queria ouvir.
- Daniel, não é comigo que você tem que falar agora. – Cam falou cuidadoso. – Luce me pediu respostas, respostas que você sempre a negou. Esconder coisas dela nunca a protegeram, você estava errado.
Não respondi, o último resquício de controle havia me deixado e eu o ataquei.
É claro que eu não usei minha espada, não seria justo. Ela caiu aos meus pés enquanto eu avançava sobre ele. Até nessa hora minha consciência mandava em meu corpo. Cam bloqueou meu ataque eficientemente. Eu sabia que estava cometendo o mesmo erro de Luce, eu lutava com raiva e isso me enfraquecia. Cam era o único capaz de me enfrentar como um igual dentre todos os outros anjos, mas hoje ele estava com a vantagem. Ele não estava cego de raiva.
Nossa luta se desenvolveu rápida e brutal. Cada golpe que eu desferia era como um alimento para esse sentimento que me dominava. Cada golpe que eu levava, era um alimento ainda mais potente. Roland e Arriane não interferiram – e não conseguiriam, mesmo que tentassem — eles estavam desnorteados.
Em determinado ponto, Cam conseguiu encaixar um bom golpe e eu perdi brevemente o equilíbrio.
- Isso é totalmente desnecessário! Você sabe que não acabará nunca! – ele falou entre sua respiração pesada.
Ele tinha razão, mas eu não queria escutar.
- Eu fiz isso por ela, Daniel, não por você. – Cam falou enquanto segurava meus pulsos para impedir um novo ataque. — Ela é mais forte do que você pensa.
As palavras de Cam me atingiram, assim como o brilho em seu olhar. Eu sempre pensei que esconder os fatos de Luce a protegeria de tudo, dela mesma, dos outros. Eu sempre quis que ela não se preocupasse com nada, sempre achei que estaria ao seu lado para defendê-la. Mas desde a noite do dia de ação de graças, eu comecei a perceber que nem sempre eu estaria por perto. Depois ela começou a descobrir suas habilidades de luta e eu fique com receio de que ela pudesse se sentir pronta para enfrentar tudo e eu continuei a não lhe contar a verdade. As palavras de Cam simplesmente me abriram os olhos para a MINHA verdade: eu não queria contar a ela. Não queria que ela soubesse que eu fui enviado para matá-la e que fracassei. Eu não queria que ela soubesse da minha fraqueza porque senão ela poderia achar que eu não era bom o bastante pra ela... agora eu estava quase certo de que não era.
Cam me soltou, ele percebeu que eu já não era uma ameaça. Minha cabeça girava e meu coração doía. Eu tinha feito as escolhas erradas. Mentir não era a solução para protegê-la, a verdade sempre era a arma mais poderosa, mas eu tinha tanto medo de decepcioná-la que simplesmente não enxerguei isso e o dano agora era muito pior.
- Daniel... – Arriane colocou a mão em meu ombro e seu toque pareceu me despertar.
- Você está certo. – falei olhando para Cam depois que o entendimento veio a mim, meus ombros caindo.
- Eu sempre estou. – ele respondeu com seu velho jeito convencido, saindo da posição de defesa.
Não respondi, apenas respirei fundo e me concentrei para diminuir a tensão em meu corpo. As palavras de Cam penetraram fundo em mim. Pensar sobre ele e tudo o que ele fez por Lucinda nesses últimos meses, sua atitude protetora e o ímpeto de dizer-lhe a verdade, me fizeram juntar todas as peças de uma só vez, peças que estiveram ali o tempo todo e que eu não tinha conseguido ver: os sentimentos dele por ela.
Eu percebi que desde Sword & Cross, ele tinha manifestado um interesse por Lucinda, mas nunca julguei que fosse um interesse real, sincero. Pra mim ele estava apenas querendo jogar, disputar comigo ou qualquer outra coisa típica dele. Mas, aos poucos, eu percebi as coisas mudarem. Era tão óbvio agora... As atitudes de Cam com Luce não eram as que ele normalmente tinha com as outras pessoas, no sentido de tirar vantagem ou qualquer outra coisa negativa e mundana, mas eram de alguém que foi tocado profundamente. Cam agiu com o coração e pela primeira vez desde que caiu, ele pensou em outra pessoa antes dele mesmo. A maneira com que ele se referia a Luce era diferente, ele a respeitava e queria o bem dela, de verdade. Ele se arriscou por ela, sem esperar nada em troca. Seja o que for que ele estivesse sentindo por ela, era puro e verdadeiro e a percepção disso me incomodou. O fato era que eu teria que lidar com isso.
Eu peguei minha espada do chão e fiz com que voltasse para o lugar de onde veio, fazendo-a se desmaterializar. Eu precisava agora deixar todos os meus medos de lado e encarar a única pessoa que não queria me ver.
- Tinha que ser ela a tocar seu coração... – eu disse encarando-o, antes de sair.
Cam não respondeu, mas não havia nenhum traço de negação em seus olhos.
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