Livre Arbítrio: Eu Escolho Você.
21 Capítulo 21
O maior problema em ser imortal é que você não consegue esquecer as coisas, por mais que você tente. Bom, sinceramente, acho que mesmo não sendo imortal, não daria para esquecer que você já foi um anjo e viveu no Paraíso, mas o problema é que ser anjo É ser imortal. Não se pode separar as duas condições. Muitos dos caídos dizem que nunca gostaram de ser anjos, que dariam tudo para ser mortais, viver como um humano normal. Nunca foi o que pensei pra mim. Eu gostava de ser um anjo, quer dizer, eu estava satisfeito com o s dons que eu possuía e como eu podia ajudar aos demais com isso e realizar aquilo que me foi determinado pela Providência. Eu não conseguia imaginar como era não gostar de ser aquilo que você é. Eu era um anjo, sempre seria e amava minha condição, nunca pensei o contrário. Até eu me apaixonar.
O dia eu que conheci Lucinda foi o dia mais marcante em toda minha existência. Ali eu comecei a sentir coisas que nunca senti, questionar o que nunca havia questionado. Quando a hora chegou, eu tomei minha decisão: eu escolhi amá-la a qualquer custo e, a partir daquele momento, me tornei um anjo caído. Apesar disso, eu ainda não conseguia pensar como os outros. Eu não deixei de gostar ou aceitar o que eu era, ser um anjo poderia me fazer ficar com ela pra sempre, amá-la e protegê-la por toda a eternidade, e eu seria feliz assim. Mas quando eu percebi que nunca a teria, meu mundo inteiro se despedaçou.
Eu continuei minha vida, como um anjo caído, mas nunca deixei de seguir os ensinamentos, nunca deixei de agir como antes. Exceto quando se tratava Luce. Quando se tratava dela, eu nunca negava esforços para protegê-la, era mais forte que eu, simplesmente meu coração me guiava. Nem sempre eu conseguia evitar o sofrimento de outros, apesar de tentar ao máximo, e isso doía em mim, mas o que eu poderia fazer se era a vida da mulher que eu amava? Ela, sempre ela em primeiro lugar.
Nessa sua nova vida tudo tinha mudado. Eu estava com medo, e isso era um sentimento que só os caídos sentem. Eu não sabia o que podia acontecer, poderia perdê-la pra sempre e seria o meu fim, minha alma, com certeza, morreria junto com a dela. Tanta coisa estava em jogo, ela corria tanto perigo, perigos que iam muito além de sua imaginação. Mas o maior perigo ela sempre corria comigo, quando eu não conseguia resistir a ela. Minha estratégia para mantê-la segura era revelar o mínimo possível a Lucinda, eu não queria que ela se preocupasse com tanto e, também, conhecendo-a como eu conheço, eu sei que ela tentaria fazer de tudo para acabar com a guerra, acabar com tudo isso. Eu tinha a certeza de que ela seria capaz até de desistir de sua própria vida. Por isso eu não queria que ela soubesse muito, pra que, assim, ela ficasse longe de problemas.
Mas ainda assim lá estava eu, revelando sobre meu passado. Eu não podia suportar ver a angústia dela em querer me conhecer e saber coisas sobre mim, mas eu tinha medo de que se ela soubesse a verdade, ela não me perdoasse.
- Príncipe? Como assim Príncipe? — Luce perguntou atordoada.
- Príncipe significa uma posição de destaque, como um líder, por assim dizer. — respondi-lhe. Isso estava indo pra um caminho sem volta.
Lucinda levou a mão à testa e coçou devagar, claramente tentando lembrar sobre o que eu tinha dito a pouco sobre as posições na hierarquia angelical.
- Dominações são o coro, ou grupo, de anjos mais altos da segunda hierarquia. É por isso que eu sou tão diferente dos arcanjos. — falei claramente. Ela tinha razão, se não soubesse por mim ela iria saber através de outra pessoa, então era melhor que eu dissesse tudo, ou quase.
- Você está querendo dizer que acima de você só os Querubins e Serafins, é isso? — ela perguntou incrédula.
- E os Tronos. Tronos, Querubins e Serafins são os coros mais próximos ao Criador. — respondi acenando fracamente.
Ficamos em silêncio. Eu estava ansioso por uma reação, mas Luce se limitou a ficar com a boca semi-aberta e com as mãos nas coxas. Ela estava surpresa. Os segundos silenciosos se estenderam e minha agonia foi crescendo cada vez mais. Eu não sabia se ela queria sair correndo, ou se queria brigar comigo por ter escondido isso dela. Mas eu sabia que agora, muito mais coisas faziam sentido pra ela e que, provavelmente, Luce estava juntando todas essas peças: o fato de meus olhos serem diferentes, minhas asas, minha espada e até sobre o fato de eu ter que assumir tantas tarefas, mesmo quando parecia que os outros eram mais velhos e experientes. Apenas pareciam assim. De fato, eu estava muito além do nível dos Arcanjos e, com tal, era minha função tomar as decisões mais importantes.
Eu estava tão perdido em meus pensamentos, imaginando o que ela estaria pensando, que quando Luce falou, eu levei um leve susto, mas isso não me assustou tanto quanto sua pergunta.
- Cam também era uma Dominação?
Cam? Por que ela estaria pensando sobre ele? É claro que ela logo perceberia as semelhanças entre nós, mas ela não poderia deixar pra um outro momento?
- Sim. — respondi simplesmente.
- Mas ele não possui os olhos da cor dos seus.
- Não.
- Por quê? — ela perguntou.
- Mesmo que nós dois sejamos anjos caídos e que tenhamos vindo do mesmo nível hieráquico, ele escolheu um caminho diferente do meu e isso implicou nas diferenças que você vê.
- Ele não possui mais uma espada de batalha como a sua? — ela insistiu.
- Sim, mas ela não responde mais a ele.
- Como assim? — ela disse confusa — Ela existe, mas ele não pode usar?
- Mais ou menos isso. Somente almas puras podem comandá-la. – falei. Eu tentei esconder a leve irritação que o assunto me fazia sentir.
- Mas... — ela começou e seu tom era um pouco desesperado — eu corrompi você. Como sua alma ainda pode ser tão pura? — Luce apertou as mãos sobre suas coxas e seus olhos marejaram. Era esse o efeito que não queria causar.
Eu me adiantei sobre ela e a abracei apertado contra mim. Seu corpo estava tenso. Eu sabia que ela estava se sentindo novamente culpada por eu ter caído, por isso eu não queria lhe dizer essas coisas.
- Meu anjo, você não me corrompeu. — falei em seu ouvido enquanto minha mão em sua nuca trazia-a para mais perto. Eu a mantive apertada contra meu corpo. — Você entendeu errado. O que eu sinto por você é lindo, Luce, é bom.
- Mas se é bom por que você foi expulso, por que você caiu? — ela começou a chorar e senti suas lágrimas desesperadas rolarem por meus ombros. Eu a afastei apenas o suficiente para olhá-la nos olhos.
- Eu não fui expulso meu amor, eu escolhi sair. Não podia ter os dois e escolhi ter você. — sequei com os dedos as lágrimas de suas bochechas. — Mas minha alma, apesar de eu estar vivendo entre os humanos agora, não se afastou do caminho de antes. Eu sei que é difícil de entender, mas lembre que vários caminhos diferentes podem levar a um mesmo destino.
- Eu estou tão confusa... — ela disse baixinho, se aninhando contra mim, enquanto suas lágrimas diminuíam — Como eu posso entender e não entender ao mesmo tempo?
- Seu coração compreende, mas sua cabeça não. — falei sorrindo pra ela. Eu me sentia bem, de certa forma, até aliviado. Eu não queria que Luce soubesse disso, mas contar foi tão bom, eu não gostava de esconder nada dela.
Nos deitamos e eu continuei a apertá-la contra mim. Devagar, puxei o lençol para que nos cobrisse e ficamos assim por um longo tempo. Ela precisava pensar e absorver toda aquela informação, e eu precisava dela, só isso.
- Eu sempre soube que você era especial — Luce falou baixinho, com os olhos fechados. — eu só não fazia idéia do quanto... — completou.
Um sorriso brotou em meus lábios.
- Você é que é especial, meu anjo. Muito.
Beijei o topo de sua cabeça suavemente. A respiração de Luce começou a ficar mais lenta e profunda e logo ela caiu no sono. Lá fora, eu sentia, o Sol havia acabado de nascer.
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