Livre Arbítrio: Eu Escolho Você.
18 Capítulo 18
Eu estava me encaminhando para o ginásio, devidamente trajada para o treino que começaria em breve. Miles estava comigo. Apesar de nós termos tomado café da manhã juntos e conversado normalmente sobre várias coisas, eu conseguia ver que ele carregava um olhar levemente triste. Eu não tinha confessado nada pra ele, ou pra Shelby, sobre o que tinha acontecido entre Daniel e eu, mas eu tinha certeza de que eles sabiam. Eu também tinha certeza de ser essa a razão de sua tristeza. Nós estávamos tentando agir normalmente, mas era esquisito e um pouco constrangedor, até. Me machucava magoá-lo dessa forma, pois eu sabia de seus sentimentos por mim.
- Então, como você está se saindo? – eu perguntei quando entrávamos no ginásio. Miles estava se saindo bem nos treinos, eu já sabia, e essa era uma pergunta desnecessária a se fazer,mas eu precisava tanto da amizade dele, de conversar, de tê-lo por perto.
- Eu acho que não sou dos piores. – ele respondeu dando um sorriso falso, ele não gostava de lutar.
- Tá brincando? – eu comecei – eu vi o que...
Não consegui terminar a frase. Minhas palavras se perderam quando avistei o centro do tatame principal. Dois anjos estavam batalhando nele e uma multidão assistia ao duelo incrível que decorria. Um dos lutadores era Daniel. Ele estava desarmado e lutava fervorosamente contra seu habilidoso adversário. Meu queixo caiu quando observei quem era: Cam.
Acho que meu corpo todo começou a tremer instantaneamente. A luta que travavam era impressionante, hipnotizante. Eu corri para mais perto e fui abrindo caminho entre a multidão aglomerada ao redor deles. Eles estavam lutando pra valer, bom, pelo menos era o que eu achava. Os movimentos eram incrivelmente rápidos e precisos. Quando um atacava, o outro prontamente bloqueava o ataque e revidava de forma espetacular. Os gestos graciosos e mortais vinham de ambas as partes. Tanto um quanto o outro parecia não ver nada, não sentir nada além do seu adversário. Cada golpe que Daniel levava, fazia meu coração vacilar, assim como cada golpe que ele aplicava em Cam. As asas deles funcionavam ora como escudo, ora como arma de ataque. As de Daniel sempre lindamente alvas e imponentes, com aquele tom de ouro líquido nas pontas que pareciam que emitiam luz própria. As de Cam, por outro lado, eram igualmente lindas e impressionantes: com um tom predominante de cinza bem claro e com rajadas prateadas que partiam da base de suas costas e iam até as pontas. Eram duas belezas distintas, duas visões impressionantes.
Uns bons dez minutos se passaram e o duelo parecia não ter fim. Nenhum deles estava cansado ou ferido e nenhum deles parecia querer parar. Foi Ravena quem interveio.
- Já chega! – ela falou entrando no meio da luta e se posicionando entre os dois, como um árbitro.
Eles pararam imediatamente, suas respirações levemente aceleradas.
- É hora dos alunos treinarem, não vocês. — ela falou rudemente enquanto apontava em nossa direção.
O que será que tinha acontecido? Eles estavam apenas treinando ou realmente duelando? – bom, eu não fazia idéia.
Cam andou até o centro do tatame, ficando ao lado de Ravena. Não pude deixar de notar seu corpo perfeito e bronzeado, levemente brilhante de suor. Ele era bem mais alto que Ravena e sua presença parecia que enchia o ginásio com energia e magnetismo. Meu olhar rapidamente se voltou para Daniel, do outro lado. Ele parecia tranqüilo e me enviou um olhar rápido e caloroso que derreteu meu corpo inteiro por dentro. Eu amava vê-lo lutando, ver suas habilidades em ação, ver toda sua beleza surreal.
Com o fim da luta as pessoas ao redor começaram, aos poucos, a se dispersar. Em seus rostos ainda estavam o espanto e a incredulidade pelo o que acabaram de testemunhar. Pessoalmente, eu nunca pensei que veria uma luta como essa, tão impressionante. Daniel caminhou em minha direção lentamente e um lindo sorriso surgiu em seus lábios quando seus olhos se prenderam aos meus. Sorri de volta. Ele vestia as roupas de treinamento e estava perigosamente atraente. Eu lembrei instantaneamente da nossa noite de amor em que eu pude sentir todo aquele corpo perfeito contra o meu. Um calor irresistível começou a brotar dentro de mim e minha vontade era agarrá-lo ali mesmo no ginásio, sem me importar com nada nem ninguém a nossa volta. Era um desejo tão forte e repentino, que eu tive que me repreender por isso.
Daniel me abraçou e beijou minha boca de forma suave e, infelizmente, rápida demais. Não foi o suficiente para matar minha vontade dele, mas tinha que me controlar. Respirei fundo e abri os olhos. Encarei aqueles olhos violetas que eu tanto amava.
- Oi – comecei lerdamente, apenas sussurrando – Você está bem?
- Estou bem, não se preocupe.
Ele me encarou de uma forma diferente. Estava realmente me olhando, de um jeito faminto e urgente. Era bom. Acho que era da mesma forma que eu o estava encarando. De fato, a gente tinha apenas se esbarrado no dia anterior, com toda a coisa de eu ter que estudar e ele, como sempre, que resolver assuntos importantes. Nós não tínhamos nos encarado ou conversado pra valer depois do sábado em que passamos juntos, como um casal de verdade. Olhá-lo agora, e depois de uma batalha como aquela, fez uma chama se acender em mim de forma tão intensa que eu não me espantaria de colocar fogo no ginásio inteiro! Meu corpo respondia a ele como nunca. Mas quando minha mente começou a processar os fatos, que ele estivera lutando com Cam, meu humor mudou consideravelmente.
Só a lembrança do nome de Cam já foi como um balde de água fria, eu não sabia o que estava sentindo. Eu não encontrava com ele desde que cheguei a Shoreline. Da última vez que o tinha visto, me lembrei bem, ele iniciou uma guerra junto com criaturas das trevas, contra Daniel e os outros anjos, bem no meio do cemitério da minha antiga escola, Sword & Cross – sim, havia um cemitério no campus daquela escola, se é que podia chamar aquele lugar assim.
O fato era que Cam tinha me enganado e iniciado uma terrível batalha da qual me doía muito lembrar, da qual uma pessoa inocente não tinha sobrevivido, uma pessoa que eu amava: minha amiga Penn.
- Quando ele chegou aqui? – perguntei pra Daniel. Não precisei citar sobre quem se tratava.
- Ele chegou ontem, com Arriane.
- Com Arriane, como assim? Você não a deixou sozinha com ele, não é? Ele podia matá-la! – eu não podia acreditar em meus ouvidos, Daniel só podia estar brincando!
Ele soltou uma leve risada.
- Acho que você subestima as habilidades de Arriane. Ela estava completamente segura, meu anjo. Mas faça um favor a você mesma – ele acrescentou, ainda sorrindo – não deixe ELA ouvir isso de você.
- Mas Daniel... – eu insisti, meu desespero crescendo – Você sabe o que ele pode fazer, Arriane poderia...
- Ora, ora, ora. – uma voz aveludada e sexy me interrompeu. Eu sabia quem era – Lucinda Price, é um enorme prazer revê-la. – Cam disse aproximando-se de nós.
Automaticamente eu dei um passo pro lado e me aproximei de Daniel, que se pôs protetoramente entre nós. Eu o encarei.
Ele era realmente tão lindo quanto eu me lembrava. Droga. Uma beleza farta e exótica e definitivamente perigosa, eu bem sabia. Seus olhos verdes e profundos faziam qualquer pessoa querer se afogar neles e seu cabelo sedoso e negro, jovialmente bagunçado, emoldurava um rosto quadrado e perfeito. Eu odiava o efeito que Cam tinha em mim. Não era nada comparado a Daniel e a como ele me fazia tremer, só de me olhar, mas me incomodava o fato de sua beleza física me impressionar tanto.
- Cam. – foi tudo o que eu consegui dizer enquanto acenei a cabeça.
- Eu realmente adoro ouvir você dizer meu nome. Seus lábios ficam deliciosamente atraentes. – ele completou, totalmente alheio a presença de Daniel entre nós.
Soltei um suspiro exasperado. Ele era inacreditável.
- É melhor você se apressar, meu anjo. — Daniel falou suavemente pra mim, ignorando o comentário de Cam — Eu já alcanço você.
Seus braços envolveram minha cintura e me puxaram para mais perto, até que nossos lábios se encontraram. Eu esperei por um beijo rápido e normal – como se algum beijo dele podia ser considerado normal — mas ele nunca ficava me agarrando em público... bom, não como nós fazíamos no fim dos treinos particulares...
Mas o beijo dele foi ardente, apaixonado. Sua mão pressionou minha nuca e embolou meus curtos cabelos, enquanto a outra pressionou avidamente meu quadril. Isso não era típico de Daniel, não em público, mas eu estava pouco me importando! Isso era tudo o que eu queria, sempre mais de Daniel. E correspondi o beijo a altura, tudo a minha volta desapareceu. Uma pequena parte de mim dizia que esta reação era devido a presença de Cam entre nós, mas pouco liguei, meu desejo era grande demais.
- Ah! Por favor, procurem um quarto! — Arriane quase gritou ao meu lado. De onde ela surgiu?
Dei um sobressalto com o susto de sua voz tão próxima e repentina. Ela também estava vestida para o treino e parecia irritada. Suas mãos nos quadris. Com minha visão periférica observei que Cam tinha desviado o olhar enquanto eu Daniel nos beijamos e seu sorriso irônico de antes havia sumido.
Daniel se afastou apenas o suficiente pra me deixar respirar fundo, e eu precisava.
- Eu quero ver você lutando depois de tudo o que ouvi sobre suas habilidades, — Arriane disse direcionada a mim — mas fica difícil se você — ela se virou para Daniel — não a deixa em paz!
Ele sorriu.
- Também estou muito curioso a respeito.. — Cam aproveitou a deixa — e, é claro, será um deleite vê-la em ação, Luce.
Não respondi. Meu estômago revirou. Eu não gostava de ser o centro das atenções de todos e, muito menos de saber que eles iriam ficar me avaliando no treino de hoje. Daniel pareceu perceber.
- Fica tranqüila, só vai lá e faz o que sabe meu amor.
Eu o encarei e seus olhos violetas me transmitiram coragem e confiança.
- OK. Te vejo daqui a pouco, então. — eu disse dando-lhe um selinho e me virando em direção ao tatame principal. Ótimo, já estavam todos me olhando. Esse seria um longo dia.
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