Livre Arbítrio: Eu Escolho Você.
17 Capítulo 17
Eu ainda estava atordoada pela mudança brusca na atitude de Arriane. Como eu tinha descontado nela minha raiva, eu esperava que ela fosse fazer o mesmo comigo. Bom, ela podia, pelo menos, ter me xingado, avançado em mim ou me mandado pra lugares tradicionais, mas aquela frase – definitivamente – eu não estava esperando.
Ela reassumiu sua posição anterior: totalmente a vontade deitada em minha cama e se apoiando em meu travesseiro, enquanto eu estava de pé e boquiaberta.
- Então, como foi?
- Como foi o quê? – eu dei uma de desentendida, enquanto caminhava até a cama. Sentei-me no outro extremo, de frente para ela.
- Com Daniel, é claro! – ela disse com um tom de “Não é óbvio?”.
- Eu não morri, se é isso o que quer saber.
- Bom, isso eu pude perceber sozinha, gênio. Eu estou me referindo a como foi, tipo, tudo. – ela perguntou sentando-se, em expectativa.
Eu soltei uma risada abafada e um leve sorriso brotou em meu rosto, ela era tão fantástica, inacreditável.
- Eu respondo se me disser qual era a missão secreta dessa vez. – Barganhei. Se Daniel não me contava, eu teria que arrancar as coisas dela.
Arriane fez uma carranca e meu sorriso se ampliou. Eu consegui o que queria.
- Você sabe que não posso contar, não é justo! – ela falou cruzando os braços contra o peito, como uma criança manhosa. Ela não podia ser um anjo, as asas dela devem ser de brinquedo! Como ela pode parecer tão humana?
- Conto se me contar. – finalizei.
- Fui atrás de outra pista fria, o monge não sabia de nada sobre o fragmento da escritura. – Ela falou rapidamente, como que querendo se livrar disso para obter a informação que ela queria. — Agora sua vez.
- O quê? – eu perguntei confusa, não tinha entendido nada do que ela tinha dito.
- Eu respondi sua pergunta, agora você me conta. Tudo. – ela falou vitoriosa.
- Mas eu não entendi. Monge? Escritura de quê?
- Você não disse que tinha que explicar, eu apenas teria que dizer o que estive fazendo, e falei. Agora é sua vez de responder.
Ela tinha um ponto. Da próxima vez eu teria que pensar melhor em minhas barganhas.
- Bom, – comecei timidamente – nós treinamos na sexta a noite e depois ele me levou pra conhecer a suíte que ele fica...aí aconteceu.
- Eu disse pra você me contar detalhes, Luce. Isso foi o resumo mais patético que já ouvi sobre a noite de amor mais importante de uma vida!
- E o que você quer que eu diga? Que foi maravilhoso? Que eu estava nervosa pra caramba? O que?
- Já está melhorando. Viu, não é tão difícil. – ela falou sorrindo pra mim.
- Isso é ridículo! – falei incrédula – eu não vou ficar falando o que eu e ele fizemos, é pessoal! Até porque, você não pode, tipo, ler a mente dele, sei lá?
Ela riu alto. Bom, eu a divertia.
- Anjos não lêem mente, Luce, não somos vampiros!
Meus olhos saltaram das órbitas e meu coração acelerou.
- Vampiros existem? De verdade? – eu falei chegando mais perto dela e pulando de excitação.
- Existem! E é melhor você andar com uma cabeça de alho dentro da bolsa, funciona mesmo. – ela falou seriamente.
Eu não sabia o que pensar, afinal, já tinha visto de tudo um pouco, de banidos a demônios bonzinhos, porque vampiros não poderiam existir também?
Dois segundos se passaram em silêncio, até que ela não agüentou.
- Você não acreditou nisso, né? – Arriane perguntou soltando uma gargalhada bem na minha cara. – Fala sério! Vampiros?
- Muito engraçado, Arriane. – eu falei secamente após ter percebido que ela estava zuando com a minha cara e que estava a ponto de chorar de tanto rir. Eu tinha realmente acreditado e estava me sentindo uma idiota.
- Ai, ai, você é uma figura, Luce!
- Bom, — desviei de assunto – se você não lê mentes, como soube o que tinha acontecido entre a gente sem que nenhum de nós tenha falado nada? Você acabou de chegar!
Ela se acalmou e me respondeu:
- Eu vi nos olhos dele. E nos seus também, é claro. Mas ele é muito mais fácil de ler do que você.
Eu me lembrei de como os olhos de Daniel tinham ficado após nós termos feito amor. Eram a coisa mais linda que eu já tinha visto. Mas depois, acho que estava tão maravilhada por tudo o que aconteceu, que nem reparei que os olhos dele ainda estavam mais violetas do que de costume. Não tanto quanto no sábado, mas ainda carregavam uma luz inigualável, intensa, apesar de o roxo perto das pupilas terem sumido. Agora, relembrando os breves momentos em que o vi nesse domingo e sua rápida aparição em meu quarto momentos antes, eu percebi que traços daquele brilho ainda existiam. E, provavelmente, foi isso que Arriane enxergou.
- Por que isso acontece com ele? Por que os olhos dele se alteram tanto como humor, ou com o que ele sente? – perguntei a ela francamente.
- Por que ele tem essência angelical, apesar de ter um corpo humano. – ela suspirou e continuou a me explicar – Não importa quanto tempo estamos aqui, nós nunca estaremos cem por cento adaptados ao corpo humano, às suas reações e sensações. Além disso, algumas características nunca nos deixam, como os olhos de Daniel, por exemplo, eles nunca deixarão de ser o espelho de sua alma, mesmo no corpo humano.
- Por isso ele é mais fácil de ler?
- Sim.
- Mas por que só acontece com ele? Você ou os outros não ficam com os olhos assim. – perguntei queimando de curiosidade. Eu sempre queria saber mais dele, conhecê-lo melhor.
Arriane não me respondeu, ao invés, ela respirou fundo e olhou pra longe, na direção da janela, e alguma coisa me dizia que ele não me daria esta informação.
- Vamos dizer que Daniel era um anjo muito especial. – ela finalizou ainda olhando pra longe, após um longo período de silêncio.
Eu respirei fundo, tentando entender tudo o que ela me falava, mas era tudo tão enigmático e indireto! Bom, pelo menos ela estava falando alguma coisa e, mesmo que eu não conseguisse entender tudo naquele momento, já era mais do que o que eu tinha.
- Ele me mostrou a espada de batalha e eu também percebi que a dele é diferente da de vocês... isso também é porque ele era especial? – perguntei com o tom mais suave que consegui.
- Sim.
As imagens voltaram a minha mente como num filme. Eu lembrei perfeitamente de cada sensação que senti quando eu a segurei, de cada detalhe entalhado em sua lâmina dourada e, principalmente, do sentimento de honra e adoração quando ele me disse que eu fui a única pessoa além dele a tocá-la. Um arrepio bom passou pelo meu corpo.
- Como é isso?... – eu tinha que saber mais – você disse que vocês sentem coisas diferentes de nós, é isso? Como funciona um anjo estar em um corpo humano? Como é?
Ela sorriu e demorou apenas alguns instantes antes de responder.
- Bom, é difícil explicar. Nós temos uma sensibilidade maior que vocês. É como se todos os sentidos fossem ampliados e a gente, ás vezes, não conseguisse controlar. É como se tudo transbordasse de uma só vez.
- Você quer dizer que possuem uma visão melhor, audição e essas coisas? É isso o que você quer dizer com sentidos?
- Não só isso, mas os sentimentos também são muito, digamos, exacerbados. – ela sorriu com o canto da boca, como se estivesse lembrando de algo – É tudo amplificado: reflexos, raiva, amor, tudo. Imagine como você se sente quando Daniel toca sua pele. Agora imagina isso cem vezes mais forte.
Enquanto Arriane falava, eu tentava me imaginar no lugar de Daniel. Eu já fervia com seus toques, seus beijos, era impossível ter isso amplificado. O som da voz de Arriane terminado sua explicação me trouxe de volta.
- Nossas sensações físicas podem ser muito desastrosas, como numa batalha, por exemplo, onde nossos reflexos aguçados se unem a nosso sentimento de raiva e necessidade de vencer. Mas também podem ser sublimes, como quando amamos. E imagina o que ele, em especial, não deve ter sentido quando vocês dois estiveram realmente juntos. Ele esperou isso por um tempo longo demais e tudo o que ele sentiu quando esteve com você, deixou uma marca em sua alma.
- E em seus olhos... –completei. Eu estava totalmente sem saber o que pensar, o que sentir. Agora que ela estava me dizendo essas coisas, eu parei pra pensar em como deve ter sido difícil pra ele ter me desejado tanto por tanto tempo. Agora eu conseguia entender o porquê dele tentar se afastar de mim a cada nova reencarnação minha, e também o porquê de ser tão difícil pra ele resistir e depois se sentir culpado pela minha morte... sempre me desejando e nunca me tendo. Tão perto e tão longe ao mesmo tempo.
Eu lembrei de sua expressão enquanto fazíamos amor. Ele estava tão imerso, tão entregue, e me olhava sempre daquele jeito, como se eu fosse um sonho. Agora tudo fazia sentido. Era óbvio que ele resistia a isso, se eu morresse – novamente – ele iria sofrer tudo de novo, uma dor sem fim.
- Nossa... – eu comecei baixinho, nem ao menos sabendo se era pra ela ouvir ou se eu estava falando comigo mesma – ele deve ter sofrido tanto por todo esse tempo, eu não fazia idéia...
- Eu não o julgo, Luce. – Ela disse de forma séria – Acho que ninguém, nenhum de nós, consegue sequer imaginar pelo quê Daniel vem passando por todo esse tempo e ter você, nessa vida, podendo estar com você de verdade, poder beijá-la sem ver você morrer em seus braços, também está sendo igualmente difícil e confuso pra ele, sem mencionar que ter você assim tão perto, tornou o controle muito mais complicado, quase impossível. Ele não sabia o que esperar, você poderia morrer se ele tentasse se envolver fisicamente. – ela ficou um pouco mais severa – Nós o alertamos pra se afastar, pra tentar evitar uma situação mais complicada. Nós não podemos perder você. Mas ao que parece, ele não conseguiu resistir a tentação.
- Não – eu me apressei em responder – não foi isso! Não foi tentação, não foi assim... eu e ele apenas fizemos uma escolha Arriane. – eu falava com meu coração, com tudo de mim – Ele não queria, ele resistiu, mas fui eu quem decidiu. Eu sabia dos riscos e decidi me arriscar por ele e não me arrependo. Eu escolhi o amor de Daniel e vocês não podem crucificá-lo por isso. Foi uma entrega, Arriane. Minha e dele.
Eu a olhei fundo nos olhos. Ela tinha que compreender. Eu não tinha medo de morrer, se fosse por ele. Ela me encarou de volta. No fundo, eu senti uma conexão forte entre nós, de amizade de verdade Ela estava tentando me compreender, não me acusar. Arriane estava de coração aberto pra me ouvir.
- Você já amou alguém, Arriane? Não estou dizendo se apaixonar, eu digo, amar de verdade, com toda sua alma? Eu não sei... eu sentia como se minha alma estivesse ligada a Daniel, e meu coração e tudo de mim, mas ainda assim, faltava uma coisa, uma parte que não deixava ser completo. E escolhi entregar a parte de mim que faltava: meu corpo. – eu falei francamente, sem barreiras, sem impedimentos. Eu não sabia o motivo, mas eu precisava fazê-la entender, mesmo que mais ninguém entendesse, Arriane teria que compreender – Você já sentiu isso alguma vez?
Ela não respondeu, apenas me encarou profundamente. De alguma forma, eu senti que havia tocado uma parte dela. Eu senti compreensão e aceitação em seus olhos, mesmo que sua boca não pronunciasse as palavras.
- Eu já respondi perguntas demais por hoje. – e essa era a velha Arriane falando novamente.
Ela me enviou um olhar bondoso enquanto se levantava da cama e caminhou em direção a porta.
- Ah, e me faça um favor? – ela perguntou com a mão na maçaneta – da próxima vez que Daniel vier te visitar, lembre a ele que as paredes daqui são finas demais.
Ela piscou pra mim e saiu do quarto.
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