Livre

1 Capítulo único


I

Annie olha para o corpo uma última vez.

Mergulhando cada vez mais fundo nas sombras da tarde que adormece, os cabelos sobre o rosto e uma das mãos torcidas de forma patética, ele agora é apenas mais um nada insignificante num mundo grande demais. No escuro que rasteja em silêncio por entre as árvores do parque e que logo o engolirá completamente, mal dá para ver o sangue na camisa. Annie teve o cuidado de enfiar a faca bem fundo e de uma só vez, de modo que ele nem mesmo pensou em gritar. E então estava morto. O cabo de metal que desponta das costas dele tem um brilho gelado.

Annie deixa os ombros caírem e respira o ar úmido do parque, aquele ar que rescende a terra e à madeira molhada. Os cabelos de sua nuca estão grudados no suor da pele e ela pensa, os pelos dos braços ficando de pé, que está sozinha ali. Annie é o único ser humano dentro do bosque que se fecha sobre ela e aquele mundo é apenas seu.

O corpo caído aos seus pés já não é mais um homem. Já não é nada.

Então ela se vira e vai embora, e enquanto caminha se sente livre.

II

Através do vidro sujo do ônibus que chacoalha num movimento sonolento, ela vê as vitrines iluminadas e os bares apinhados de gente — é uma daquelas noites quentes em que as pessoas não ficam em casa. Annie vê as coisas passando e ficando para trás e lembra-se de James dizendo que a ama. Lembra-se de seu cabelo cortado rente e do cheiro nojento de suor que ele tinha, daquele cheiro que grudava nas roupas e que nunca mais saía, não importava quantas vezes fossem lavadas. Lembra-se de deitar na cama com ele e de não conseguir dormir porque então sabia que o odiava.

Annie odiava aquele homem que prometera jamais deixa-la e que achava graça quando ela dizia que era uma pessoa má. Odiava aquele homem que se jogara aos seus pés como se ela fosse deus e que ignorara sua verdade ao envolve-la em sonhos estúpidos. Odiava aquele homem tolo que não era capaz de perceber que Annie não era como todas as outras, mas única e impossível.

Ele a havia subestimado e por isso ela o matara.

E ao levantar-se e descer do ônibus no ponto mais próximo de casa, Annie percebe que agora aquele ódio está morto também.

III

A claridade da tela da televisão torna-lhe o rosto ainda mais pálido na escuridão da sala enquanto Annie come a yakisoba que acabou de preparar. De pés descalços e calcanhares apoiados sobre a mesinha de centro, o corpo confortável no sofá de dois lugares, ela assiste ao mesmo filme de outra dezena de vezes e ri — como sempre faz — da parte em que os drugues* invadem a casa da mulher.

Annie sente que agora está tudo onde devia estar. Não há mais nenhum namorado a dizer coisas que, na verdade, não entende. E, afinal, ela já está começando a esquecê-lo.

Notas finais
*Referência ao filme Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!