Cada vez mais pessoas eram colocadas nas celas.
De uma vez só, um grupo com três novos doentes entrou.
Eu não sabia quanto tempo se passara desde que eu entrara ali.
Dias? Horas? Eu não tinha a menor ideia.
Queria sair dali.
Porque não me sentia mal havia um bom tempo.
Nenhuma dor de cabeça. O que também é dito como: nenhuma nova lembrança.
Estava muito escuro quando Lizzie também entrou no bloco.
— Lizzie? – chamei. – Você está bem, Lizzie?
— Estou doente. – ela respondeu, seguindo pelo corredor.
Então Hershel entrou no bloco.
Depois de algum tempo ele entrou na minha cela.
— Eu trouxe um chá, Ally.
— Eu não preciso disso, Hershel. Olhe pra mim. Não estou doente.
— Mesmo assim, tome.
— Onde está o Doutor S.?
— Caleb está doente.
— Ah, meu Deus! Hershel, não vê o que vai acontecer? Esse lugar... Essa gente doente... Vão começar a morrer. E vão começar a matar. E olha, tenho certeza que eu não vou ser uma ameaça. Eu não estou doente.
— Você tem uma arma. – ele apontou para a arma em meu cinto. – Para o caso de algo der errado. Mas não dará. Daryl, Michonne, Bob e Tyreese saíram para buscar medicamentos.
— E se não voltarem? Ou se não encontrarem?
— Vamos ter que encontrar outro jeito.
— De as pessoas morrerem menos rápido?
— Ally, está sendo muito dura.
— É assim que as coisas são, Hershel. Não podemos ser fracos.
— Não podemos ser tão duros. Há pessoas para cuidar aqui.
— Caleb está doente. Você não devia estar aqui.
— Eu posso ajudar a cuidar dessas pessoas.
— Eu sei que vai. Mas eu não estou doente. Olhe para mim, Hershel. Estou como eles?
— Você tem razão. Mas mesmo assim. Você precisa ficar.
— Ok, ficarei e morrerei quando tudo aqui estiver ido por água a baixo.

***

O tempo estava passando.
Eu sabia o que estava acontecendo ao meu redor. Pessoas estavam morrendo. E elas eram tiradas de caminho.
Eu não queria estar ali quando tudo caísse.
Não queria ser uma espectadora para toda a desgraça que iria acontecer.
Hershel entrou na minha cela.
— Você está bem?
— Estou morrendo tanto quanto eles por saber que eu vou ter que ficar aqui.
— Você está doente, Ally.
— Tudo bem, não vou protestar sobre isso.
Hershel assentiu.
— Quantos foram?
— O quê?
— Quantos já morreram? Quantos vocês já tiraram daqui sem vida?
Ele não respondeu.
Ouvimos um barulho no corredor.
— HERSHEL! – Lizzie gritou.
Ele saiu da cela correndo, bem a tempo que um walker caísse em cima dele.
— Voltem! Todos, para as suas celas.
Estava acontecendo.
Mais rápido do que imaginei.
Peguei minha arma e me levantei.
Eu precisava agir.
Precisava ajudar.
Abri o portão da cela, e me deparei com Lizzie caída.
Henry transformando em walker estava por cima dela.
Hershel atirou-o por cima do corrimão.
— Você está bem? – ele perguntou para Lizzie.
— Eu o distraí! Tirei-o de perto do Glenn!
— Ally, me ajude. Vou levar as crianças para a cela. Venham comigo.
Ele guiou Lizzie e o garotinho que Daryl salvara alguns dias antes até uma das celas.
— Vocês dois, fiquem quietos aí.
No andar de baixo, outros walkers saíam das celas.
— Caleb! Caleb, precisamos da arma! — Hershel correu até a sala de Caleb.
O que encontrou foi uma versão walker de Caleb, que o puxou pela gola da camisa.
Hershel quebrou seu braço e depois o acertou na cabeça.
Em um momento aquelas pessoas ajudavam umas as outras.
Em outro, eram ameaças.
Hershel entrou na cela de Caleb e eu o segui, dando cobertura.
Ele carregou a arma e então começamos a ouvir vários tiros do lado de fora.
— Hershel! – gritei. – Estão com problemas lá fora!
— Precisamos cuidar disso aqui primeiro! – ele gritou de volta.
Ele saiu da cela, ao mesmo tempo em que uma walker mancava pelos degraus da escada.
Desde quando aquelas coisas subiam escadas?
Hershel desviou-a da cela das crianças e pouco depois atirou em sua cabeça.
Tudo estaria quase sob controle se aquela fosse nosso único problema.
Atrás dela, vinha outra.
O mesmo sangue escorrendo pelos olhos.
Hershel acertou-a também, e as duas caíram, uma sobre a outra.
Do lado de fora, eram cada vez mais tiros.
Algo grave estava acontecendo.
Eu não sabia o que.
A prisão estava caindo?
Ouvi passos acelerados no corredor e pude ver Maggie correndo.
Um walker alto a cercou e ela atirou em sua cabeça.
— Pai! – ela gritou.
Hershel se atracava contra Henry na tela.
Maggie mirou para atirar, mas Hershel a conteve, gritando.
— Não! Pode acertar a bolsa! Nós precisamos dela para o Glenn!
Maggie permaneceu na mira, e acertou a cabeça de Henry.
— Onde ele está? – ela gritou.
— Aqui, aqui em cima! Na cela 100!
— Ele está ficando azul! – Maggie gritou, assim que chegou até Glenn.
— Limpe suas vias aéreas! Eu estou indo!
Enquanto isso, um walker se aproximava de mim.
Ele tinha um edredom enroscado entre as pernas, o que o fazia tropeçar mais do que o comum.
Tentei atirar, e percebi que não tinha mais balas.
Ele se aproximava cada vez mais rapidamente.
— Ajuda! Hershel! Maggie! Alguém!
Tarde de mais.
Ele tocou meu braço por cima da blusa e eu o acertei com o cabo da arma.
O walker caiu no chão sobre os meus pés.
Desvencilhei-me dele e corri até a cela de Glenn.
— Pai! – Maggie gritava.
— Segure-o, vire ele para cima.
Glenn tremia, jogado no chão.
A cada segundo sua boca expelia mais e mais sangue.
Era desesperador.
— Pai! – Maggie repetiu.
— Segure os braços dele. – Maggie o fez. – Vamos lá, filho. Vamos! Você sabe como funciona! Vai ficar tudo bem! Relaxe.
Imaginei que não seria muito fácil relaxar quando se está eliminando sangue pelas vias aéreas, e ainda mais quando um objeto estranho está sendo enfiado dentro da sua garganta.
Eu sabia que iria ajuda-lo a respirar, mas mesmo assim, não parecia nada legal.
— Fique com a gente. – Hershel disse. – Fique com a gente. Fique com a gente.
— Você vai ficar bem. – Maggie disse. – Nós vamos ficar bem. – ela se aproximou dele e beijou-o.
— Eu não queria você aqui, Maggie. – Hershel disse.
— Eu sei. Sei que não queria. Eu precisava. Assim como você precisou.
Hershel limpou o sangue de Glenn no rosto da filha.
Lizzie apareceu ao nosso lado.
— Eu te disse para ficar lá dentro. – Hershel falou.
— Acabou? – ela perguntou.
— Espero que sim, querida. – Maggie respondeu.
Do lado de fora os tiros haviam cessado.
— Os medicamentos.
Bob e Tyreese entraram levando alguns medicamentos.
Eles pareciam assustados e estavam como todos nós sempre estávamos. Sujos.
Hershel dissolveu a medicação, preparando uma injeção para Glenn.
— Pai. Eles já voltaram, você precisa descansar. Vá descansar. – Maggie disse.
Hershel saiu da cela e eu o segui.
— Está tudo bem. – disse, quando percebi que ele observava toda a tragédia.-Você foi ótimo, Hershel. Está tudo bem agora.
— Você estava certa. – ele disse.
— Eu não queria estar.
— Mas estava. Vai ser bom tê-la conosco, Ally.
— Nós precisamos descansar.
— Sim, querida. Precisamos.
Ele entrou em uma cela e sentou-se na cama.
A cela de Caleb, o médico.
Ele jazia morto no chão.
Hershel tocou-o no rosto e segurou a Bíblia entre os dedos.
E então eu pude vê-lo chorar.