Os tiros soavam altos por toda a prisão.
Judith chorava no berço ao lado da cama.
Na noite anterior, Beth e eu havíamos levado minha cama para a cela dela, para que não ficássemos sozinhas o tempo inteiro.
— Beth? – chamei.
Ela não estava lá.
Olhei Judith ao meu lado.
Algo estava acontecendo e eu precisava ajudar.
Fechei o portão da cela com Judith lá dentro e saí correndo.
— Onde é isso? O que está acontecendo? – gritei.
— No bloco D! Eu não sei! – Beth gritou.
— O que está acontecendo? – gritei de volta.
— Eu não sei, temos walkers dentro da prisão, Ally!
— Eu preciso de uma arma.
— O quê? Você não sabe...
— Eu preciso de uma arma. – repeti.
Beth apontou algo do outro lado e eu corri até lá.
Escolhi alguma arma que por alguma razão me pareceu adequada e corri em direção ao som dos tiros.
Glenn, Rick, Daryl, Tyreese. Sasha e Carol atiravam contra uma quantidade inacreditável de walkers .
— Dá o fora! Ally, dá o fora daqui, agora! – Daryl gritou.
— Eu não posso! – gritei de volta.
— Saia daqui! Saia daqui! – ele gritou, disparando uma flecha contra um walker que jantara conosco na noite anterior.
— Eu sei como agir!
— SAIA! – ele gritou.
— Confie em mim! – gritei novamente e entrei correndo.
Alguns walkers caminhavam em minha direção.
Disparei a arma uma, duas, três vezes.
Três deles caíram no chão.
— O QUE VOCÊ... – Daryl gritou. – ALLY! ATRÁS DE VOCÊ!
Eu me virei bem a tempo de acertar uma mulher walker na cabeça.
— VOCÊ FOI MORDIDO? CERTO, SAIA! SAIA DAQUI, SIGAM, VÁ COM ELES! – Rick gritava para as pessoas descendo em montes pela escada.
Atirei em mais alguns outros que se levantavam do chão, enquanto Daryl corria com um garotinho no colo.
— ALLY? O QUE ESTÁ FAZENDO AQUI? SAIA DAQUI AGORA!
— ATRÁS DE VOCÊ, RICK!
Ele se virou e um walker segurou-o pelo braço.
Eu consegui atirar nele, e o walker caiu a alguns centímetros de Rick.
— Está limpo aí embaixo? – Rick gritou.
— Sim! Sim!
— Aqui em cima! – Daryl gritou.
Eu subi atrás dele.
Glenn saiu de uma cela se atracando com um walker e Daryl acertou-o na cabeça.
Rick ajudou Glenn a se levantar e os três abriram a cortina de uma outra cela.
— É o Patrick.
— São todos eles.
No andar inferior, algumas pessoas choravam a perda de seus entes queridos, outras jaziam mortas.
Alguns corpos eram arrastados pelos corredores e empacotados.
— O que está fazendo aqui, Ally? Como fez isso? Me disse que não sabia atirar. – Rick disse, enquanto caminhávamos pelos corredores.
— Eu senti que precisava ajudar. Encontrei aquela arma. Eu pude ajudar. Mas sobre saber atirar... Eu não sei como...
— Vamos falar sobre isso mais tarde. – ele partiu, me deixando sozinha em meio a desolação das pessoas restantes.
Karen e Tyreese estavam em frente a uma cela e me juntei a eles.
— O que foi que aconteceu aqui? – perguntei.
— Não sabemos.
Procurei por Daryl e o encontrei em uma cela com Hershel, Rick e um homem que a meu ver, parecia indiano.
Abaixo deles havia um corpo.
— Sem mordidas, sem ferimentos. Acho que ele simplesmente morreu.
— De uma forma terrível, também. Derrame pleural.
— Ele sufocou até a morte com seu próprio sangue. – disse Hershel. – O que causou as marcas em seu rosto.
— Já vi isso antes. Em um walker do outro lado da cerca.
— Eu também vi. Com Patrick. – Daryl disse.
— A pressão interna do pulmão fez com que subisse. É como chacoalhar uma lata até que o anel solte. Imagine que seus olhos, orelhas, nariz e garganta são o anel.
— É uma doença transmitida pelos walkers ? – Bob sugeriu.
— Não. Isso já acontecia antes que surgissem.
— Embolia pulmonar? – perguntei. – Ele pode ter tido... Ou pode ter sido um exsudato... Por um vírus, ou uma bactéria, fungos, parasitas.
— Se for um exsudato... Todos nós fomos expostos. – o médico moreno disse.
— Precisamos dar um jeito nos porcos. – Hershel disse.
— Talvez tenhamos sorte. Podem ser só esses dois casos.
— Não vejo ninguém ter sorte a um bom tempo. – Bob disse.
— Todos nós aqui fomos expostos. – Rick afirmou. – Precisamos ficar longe do resto do pessoal por algum tempo. Há coisas que precisamos contar a eles. Ally, você vem comigo?
Eu assenti.
Carl correu até Rick assim que chegamos do lado de fora.
— Você precisa manter-se distante. – Rick disse. – Carl.
— Desculpe, pai. Não te vi saindo.
— Está tudo bem, eu estou aqui, mas fique longe.
— Precisei usar uma arma perto do portão. Eu juro que eu não queria.
— Eu estava voltando e caí. Eles me ajudaram. – Michonne explicou.
— O que aconteceu lá dentro? – Maggie perguntou.
Uma mulher loira, segurando uma criança embrulhada passou por nós.
Ela soluçava de tanto chorar.
— Precisa de alguma ajuda? – perguntei.
Ela negou com a cabeça e continuou andando.
— Patrick ficou doente, ontem. Um resfriado, sei lá o quê, se espalhou rápido.
Achamos que ele morreu e atacou as celas. – Rick respondeu. – Eu sei que ele era seu amigo, sinto muito. – ele disse para Carl.
Carl mudou de expressão, visivelmente abalado.
— Ele era um bom garoto. Perdemos muitas pessoas boas. – ele completou.
— Maggie, Glenn e seu pai estão lá dentro, estão bem. Não deviam ficar perto de quem foi exposto, pelo menos por enquanto. Carl, todos vocês.
Carl, Maggie e Michonne se afastaram de nós e caminharam para longe.
— Vamos morrer? – perguntei.
— Você sabia muito sobre a doença. – Rick disse, desviando o assunto. – E sabia atirar. O que mais você sabe?
— Rick, há algo que não sabem sobre mim.
— Há muito que não sabemos sobre você.
Eu concordei.
— Eu mesma não sei. Sofri um acidente, não sei quando. Eu não me lembro das coisas antes. Não me lembro da minha família, não sei de onde venho ou como sobrevivi até o dia do acidente. Eu fui resgatada e levada para um acampamento que sucumbiu há alguns dias. Eu consegui sobreviver. Correndo. Até chegar aqui. Eu não sei nada sobre mim mesma, apenas meu nome, e que eu estava em um lugar seguro que não é mais. Eu tenho lapsos de memória, lembranças antigas, e um pouco recentes, eu não me lembro de quase nada. Eu não sei como eu sei atirar, ou como sei sobre aquela doença. Eu não sei o que fiz até chegar onde estou. Mas quero muito descobrir.
— Vamos ajudar você, Ally. Vai ficar tudo bem. Agora... Precisa me prometer que não chegará perto de ninguém que não foi exposto. Como a Beth... A Judith.
— Eu não vou. Eu prometo.
— Obrigado.

***



Do outro lado, Daryl e Rick enterravam os corpos.
Era uma quantidade grande.
— RICK! DARYL! – Maggie apareceu, gritando.
A cerca estava a ponto de ceder.
Os dois correram até lá e eu segui atrás.
Não seria muito útil com somente duas balas, mas podia tentar.
Maggie pegou algum instrumento que juro não saber o que era, mas não era uma arma, pelo menos não de fogo.
— O barulho atraiu muitos deles! Agora esta parte está cedendo!
Sasha, Daryl, Rick e Glenn correram para ajuda-la, eles tinham facas, pás, enxadas. Procurei por algo que eu pudesse usar.
Por sorte encontrei uma adaga caída perto de mim, e corri até lá.
— Ally, não! – Rick gritou. – Isso não é certo!
— Eu posso ajudar!
— Mas não precisa!
— Eu quero ajudar, Rick!
— Merda! – ele gritou.
Me virei e peguei uma pá atrás de mim.
Guardei a faca entre o meu cinto e corri para ajudar.
O esforço necessário para fazer o cabo da pá atravessar a cabeça de um walker era imenso, mas nada que eu não pudesse aguentar.
Já tirara vários deles do caminho, e a cerca parecia ficar mais leve.
Todos nós trabalhávamos o mais pesado possível.
— Estão vendo isso? – Sasha gritou. – Alguém está alimentando essas coisas?
Ela apontou vários ratos mortos na cerca.
— EI! ATENÇÃO! ESTA PARTE DA CERCA, AGORA!
Corremos todos para o mesmo lado.
Alguns walkers estavam quase passando por cima da cerca, outros faziam muito peso nela, estava a ponto de cair.
— Esperem! Vai ceder!
Continuamos segurando a cerca, e acertando alguns na cabeça.
Algumas cabeças eram esmagadas na cerca.
Reprimi um grito quando um olho saltou bem ao lado do meu pé.
— Para trás! Se afastem, agora! – Daryl gritou.
— Se continuar entortando, eles vão entrar! Vão todos entrar! – Sasha gritou.
— Eu tenho uma ideia. Daryl, traga o Jeep. Eu sei o que faremos. – Rick disse.
Daryl assentiu.
— Ally, volte. Saia daqui. Fique segura.
— Eu posso ajudar? Posso ajudar nessa ideia?
— Não! Estou dizendo para voltar e ficar segura!
Daryl chegou pouco depois com o carro.
De longe não podia ver muito, mas Rick o estava carregando de coisas.
— O que eles estão fazendo? – perguntei para mim mesma.
Os portões foram abertos e Daryl e Rick saíram com o carro.
Voltei correndo até lá.
— Maggie, o que eles estão fazendo?
— Vamos ver. – ela disse, pegando sua pá e voltando a acertar os walkers na cerca.
Peguei a pá que deixara ali por perto e voltei a ajudar.
Os walkers começaram a se afastar da cerca, se dirigindo até Rick e Daryl.
— Ah, meu Deus, Maggie, o que eles estão fazendo? Eles vão...
— Eles sabem o que estão fazendo. – ela disse.
— E se não souberem?
— Vamos precisar ajuda-los. – ela respondeu.
Então Rick tirou um porco da caixa e eu fiquei assustada.
Ele tirou sua faca do cinto e fez um corte na barriga do animal.
Eu estava imensamente confusa.
Rick soltou-o no chão e gritou alguma coisa.
Daryl dirigiu e parou o carro um pouco a frente.
Rick fez o mesmo com outro porco.
Ao meu lado, Sasha e os outros montavam barreiras na cerca.
Me preparei para ajuda-los a posicionar os troncos, mas Maggie segurou meu braço.
— Já fez muito por hoje, Ally. Já chega, certo? Precisa descansar.
— Todos tem uma função aqui. Quero ter uma também.
— Ok, querida, sei que quer nos ajudar. E você fez muito hoje, de verdade. Nos ajudou tanto quanto Daryl, Rick e todos os outros. Agora é melhor descansar. Você precisa descansar um pouco.
Rick e Daryl voltaram e Rick desceu do carro com a expressão mais triste que eu já o vira usar.
Ele correu em direção aos viveiros dos animais e começou a desmonta-los.
A noite já estava caindo, o sol ia embora.
Carl se aproximou dele.
Os dois conversaram um pouco enquanto Rick continuava desmontando tudo.
Corri até eles.
— Há algo precisando de ajuda aqui? – perguntei.
— Deve estar cansada, Ally. Você precisa de um descanso.
— Vocês precisam parar de me dizer isso.
— E você precisa parar de querer cuidar de tudo. É muita pressão para você. Como foi para Carl. – ele disse. – Quero que me escutem, os dois. Precisam ficar longe dos outros... Da Judi por um tempo. Só por precaução, tudo bem? E segunda coisa: não tentem cuidar de tudo, é muito para vocês. Sei que são fortes e que estão sobrevivendo, são tão corajosos e tão fortes como todos nós, mas são apenas crianças.
Descansem um pouco agora.
— Pai. Há algo que eu gostaria de dizer. Carol está ensinando as crianças... Ela está ensinando como usar armas. Como matar. Ela não disse nada aos pais delas, nem queria que você soubesse, mas eu não podia... Mas acho que você devia permitir, sei que você vai dizer que não decide mais nada aqui, mas pode decidir. Pode ser.
Rick não disse nada.
— Pai?
— Obrigado por contar. Sei que posso confiar em você. E em você também, Ally. Mas preciso que agora vão descansar, certo? Façam alguma coisa como pessoas da sua idade fazem. Se não querem descansar, joguem basquete, leiam gibis, eu não sei, mas por favor, não fiquem o tempo todo ajudando em tudo.
E então ele nos deixou para trás.
— Ok, eu não quero jogar basquete. – Carl brincou.
— Muito menos eu. Prefiro os gibis.
— Venha, vou te mostrar os meus.
Atrás de nós, Rick ateou fogo no projeto de celeiro que tínhamos.
— Espera! Carl, Ally, venham aqui. – ele nos chamou.
Andamos de volta até ele.
Rick abriu uma maleta azul e tirou de lá dois embrulhos de pano.
Ele os desenrolou, tirando duas armas dali.
Rick nos entregou as armas e também se equipou.
Parecia algo difícil para ele.
Carl e eu o deixamos sozinho.
— Por que é tão difícil para o seu pai? Essa coisa de armas.
— Meu pai costumava ser o líder. Talvez veja algum traço disso algum dia desses. Mas ele começou a ter alguns problemas e acharam que não era mais seguro tê-lo no comando. Eu também tive problemas, não sei o que houve comigo, matei um homem. Ele era uma ameaça, por isso eu o matei. Não era um walker . Por isso meu pai tirou a minha arma. E a dele próprio também. É a primeira vez desde então que ele toca em uma. Deve ter sido difícil para ele ter nos entregado essas armas.
— Eu imagino.
— E sobre você? Você sabe como usa-la?
— Melhor que muita gente.
— Mas você disse...
— Eu não sei como, mas eu sei usar essas coisas. Eu ajudei no bloco hoje cedo. E eu me saí muito bem. Não sei como eu consegui, eu não me lembro de ter aprendido, não lembro de nada.
— Como assim?
— Sofri um acidente de carro. Perdi a memória. Eu não me lembro do meu sobrenome, da minha família, da minha casa, de nada.
— Você me disse que tinha uma estante cheia de livros.
— Eu acho que tinha, isso está em algum lugar aqui. – apontei minha própria cabeça.< – Mas eu não confio muito nisso. Não sei. Não sei de nada.
— Aqui estamos. Esse é meu lugar. – Carl apontou seu "quarto".
— Uow. Você tem alguns livros aqui.
— Sim. Eu peguei alguns na biblioteca, não acho que seja considerado roubo nas nossas situações.
— Não é.
Carl e eu ficamos lendo alguns gibis em silêncio.
— Eu acho que preciso voltar.
— Você não pode.
— Por quê?
— Não pode ficar perto deles. Da Judi, da Beth. Tem um colchão. Pode ficar do lado de lá.
Eu assenti.
Foi uma das piores noites de sono desde o tal apocalipse.
Eu senti um frio horrível, e todo o meu corpo parecia estar ardendo.
— Ally. Ally, pare. O que está acontecendo?
— Eu não sei, mas tudo está... Doendo.
— Eu vou chamar o Doutor S.
— Sim. Sim, por favor. Mas afaste-se, eu posso... Eu...
— Tudo bem, tudo bem. Você está queimando de febre, olhe só pra isso, está suando frio! Eu vou chamar ajuda.
Carl saiu correndo e em pouco tempo ouvi passos acelerados no corredor.
— O que diabos a Ally está fazendo no seu quarto, Carl? – Rick perguntou, quase gritando.
— Não, não, não! Ah, pai! Não! Não é nada disso! Ela estava lendo comigo e acabou dormindo aqui, caramba!
— Ok, ok, vamos lá.
O médico foi o primeiro a entrar, seguido por Rick e Carl.
Ele estava com um estetoscópio pendurado no pescoço, e segurava uma maleta branca na mão.
— Ah, caramba, você está queimando em febre. Tudo bem, tudo bem, vamos checar a sua temperatura.
Ele colocou um termômetro embaixo do meu braço.
Até aquilo parecia frio de mais.
— Olha só pra isso, caramba. 41 graus de febre, Ally! Vamos, precisamos leva-la para o bloco A.
— Ouvi chamarem esse bloco de corredor da morte. Eu prefiro morrer por aqui. – reclamei.
— O A agora é nossa enfermaria, temos um pessoal doente lá dentro.
Fui levada no colo até o bloco A.
A prisão parecia mais assustadora de madrugada com os walkers nas cercas.

***



Na manhã seguinte, o bloco estava cheio de pessoas passando mal.
Eram muitas. E estavam horríveis.
Tinham olheiras enormes e olhos vermelhos, era assustador.
Eu não me sentia bem ali.
Não que estivesse muito doente.
Eu não estava.
Todos eles estavam tossindo, e eu não.
Eu apenas sentia muita dor de cabeça.
De repente senti algo quente em minha cabeça.

"— O que você está fazendo, Ally? — alguém gritou atrás de mim.
— As malas.
— Você não tem para onde ir.
— Ah, não? Eu não vou ficar aqui enquanto meu pai estiver me procurando por aí.
— Ele não está te procurando!
— A minha mãe nunca me disse quem era, Charlie. Mas eu vou saber. E vou saber porque até você sabe!
— Não é seguro! Sua mãe ia odiar que...
— Estamos na merda, Charlie! Minha mãe pode estar morta! E se estiver viva, eu nunca mais vou vê-la. Temos milhões de mordedores de distância!
— Não fale assim! – o homem em minha frente segurou meu cotovelo.
— Eu falo como quiser! Vou encontrar meu pai! Com a Kat, e com o William! Eu vou encontrar o meu pai, porque se ele está aqui e está me procurando, vou acha-lo!
— Ele está morto! Ele está morto!
— Ele pode estar! Talvez não esteja!
"

Abri os olhos e a pressão na minha nuca era ainda mais forte.
Estava me lembrando de coisas?
Quem era aquele Charlie? E Kat e William?
Fechei os olhos e outra imagem me veio a mente.

"— Estamos muito doidos, mas você vem com a gente, Ally, não tem problema.
— Obrigada. Sei que vamos encontrar o meu pai.
— Ou um lugar seguro.
— Pode ser um lugar seguro e o meu pai. – completei.
— William carregou o carro com alguma comida e água. Vamos ter de controlar.
— Não pretendemos ficar muito na estrada, não é Kat? Só até encontrarmos um lugar melhor que essa bosta.
— Se despediu do Charlie? – a garota chamada Kat perguntou, com a mão na cintura.
— Sim.
— Sabe que não vai mais vê-lo, não é? Sabe que não verá o Charlie e nem as crianças. Sabe disso, não sabe?
— Sei. Sim, Kat, eu sei disso.
"

E então a dor na minha cabeça passou a ser forte de mais para que eu aguentasse.
Soltei um grito agudo e em alguns instantes o Doutor S. chegou até a cela onde eu estava.
— Ally, o que foi? O que está sentindo?
— Estou me lembrando das coisas... Está doendo tanto.
— Como assim? Como assim se lembrando de coisas?
— Eu sofri um acidente de carro e perdi a memória. – respondi com dificuldade.
— Você tem... Algum tipo de amnésia...
— Eu não sei o que eu tenho! Está doendo! Me tire daqui!
— Não pode sair, Ally, está doente!
— Não estou como eles! Não estou com essa doença, doutor.
— Eu não sei como cuidar disso sem equipamento. Eu não sei como cuidar disso no geral. Um traumatismo craniano? Caramba, eu não sei! Temos dois grandes problemas aqui, Ally.
— Eu vou morrer. – concluí. – Vou morrer agora.
— Está tudo bem, fique calma. O que está sentindo?
— A minha cabeça, está doendo, como se eu tivesse batendo-a com força na parede, ou algo pior, como se eu estivesse carregando uma montanha, eu não sei.
— Tente descansar, não se esforce para lembrar-se de nada, não está em condições.
— Ok.
— Se precisar de mim, me chame.
O médico me deixou sozinha novamente.
Aquela coisa iria terminar mal.
Muitas pessoas muito doentes, circulando juntas, andando livres por um mesmo lugar.
A qualquer momento, qualquer um podia morrer e virar uma ameaça a todos os outros.
Havia pessoas tossindo por todos os lados.
Portões de celas batendo a todo o momento.
O tempo ia passando e estar ali era cada vez mais tenso.
Pessoas choravam, tossiam, gritavam e gemiam de dor.
Era como uma câmara de tortura coletiva.
Doutor S. passou no corredor cambaleando.
Ele estava péssimo.
Eu precisava sair dali.
Me levantei e abri o portão da cela.
O médico não protestou.
Algumas pessoas ainda estavam caminhando ali.
Parei no corredor quando vi um homem tossindo sangue.
Como queriam que eu estivesse ali?
Aquilo ia começar a dar errado em horas.
Estariam morrendo ali em pouco tempo.
Sasha estava ali também.
Ela parecia muito mal.
Foi quando Caleb começou a tossir que eu percebi que as coisas iam dar muito errado.
Ele estava doente também.