Living To Die
1 Capítulo 1: Caídos Na Morte - Luke
–Luke, precisamos voltar a base! O clima não está estável! – disse Gabriel pelo radio do avião.
–Não podemos! Temos que explodir a base, é uma ordem e uma obrigação! – eu respondi.
–Faça isso sozinho então. Estou perdendo o controle do avião! É preciso voltar, Luke!– ele disse apressadamente.
Tarde demais. Quando fui responder um trovão o atingiu na asa, fazendo com que ele perdesse completamente o controle do avião e caisse. Olhei para ele aterrorizado. Vi que aqueles poderiam ser seus últimos segundos.
–Base, um de nossos aviões foi atingido. Repito, um de nossos aviões foi...
Outro trovão caiu, bem ao meu lado. O susto foi tamanho que perdi a estabilidade e comecei a perder altura. Tentei empinar o bico do avião, mas eu não estava a distância suficiente do chão. “Então é assim que vou terminar, falhando numa missão. Irônico.”, eu pensei.
Lentamente abri meus olhos. Minha cabeça estava ensanguentada, e doía, porém não havia algum ferimento grave. Tentei me mexer, mas pelo que percebia minha perna devia estar quebrada. Em cima de mim havia o vidro do jato completamente partido, o rádio ainda produzia um chiado porém o motor pegava fogo. Me apoiei na cadeira com as mãos e pulei para fora do avião com muito sacrifício. Será que eu havia morrido e aquilo era apenas um “sonho”? Era noite quase e caía o céu. Quanto tempo eu estava desacordado? Dois dias?
Escutei então um barulho esquisito, uma espécie de grunhido ou algo do tipo. Me virei e tive quase que um ataque cardíaco! Eu havia caído ao lado da base que me era destinada explodir! A mesma base que estava lotado de infectados. Não muito longe dali estava o avião de Gabriel, no chão. Havia criado uma cratera, mas isso não importava! Tinha que sair dali o mais rápido possível!
Provavelmente o infectado não havia me visto nem ouvido por que assim que comecei a correr ele ficou parado, vagando de um lado para o outro. Seria um terror se eu continuasse ali por muito tempo. Assim que me certifiquei que nenhum deles me seguia, andei em direção ao avião de Gabriel. Seria possível que ele também tivesse sobrevivido? Ou será que estava se transformando num deles? Fui lentamente até onde antes era a entrada do jato, sempre tentando manter a calma e preparado para o pior. Se ele tivesse se transformado e me visse, seria minha condenação para a morte. Não podia correr, nem me esconder. A base ficava no meio do mato, árvores altas que fechavam qualquer raio de luz.
Quando cheguei a uns três ou quatro metros de distância vi que Gabriel estava ali. Provavelmente não havia se transformado... ainda. Retirei um dos vidros de cima do jato e coloquei a minha mão sobre seu peito. O coração ainda batia. Tentei tirá-lo dali, porém levantando sozinho eu não aguentaria ele. Procurei por algo que pudesse me ajudar a levantá-lo dali, mas não havia nada além de escombros. Eu ainda me perguntava como não havia sido escutado ou visto pelos infectados. Um avião atingindo o solo deveria produzir um barulho a quilômetros de distância!
A cabeça de Gabriel começou a se mexer muito lentamente. Vi seus olhos abrirem, então ele disse:
–Ah não... Estou vivo ainda, preferia ter morrido e não ver mais sua cara feia. – disse ele irônico
–Não acredito! Pensei que iria se transformar num deles! – eu disse com um sorriso estampado no rosto.
–Minha cabeça está pegando fogo. Acho que bati muito forte quando caí! – ele disse
–Consegue se mexer? – perguntei
Ele tentou se levantar mas percebi que estava sentindo uma dor enorme ao tentar mexer o braço e as pernas. A queda dele deveria ter sido pior, no meu caso o fato de tentar empinar o jato deveria ter amortecido a queda um pouco.
–Tente sair do avião, precisamos nos distanciar ao máximo daqui! Caímos do lado da base! – eu disse apressadamente, me virando para ver se nenhum infectado vinha para cá.
Então a expressão dele mudou. Vi o pavor em seu rosto. Ele lentamente se levantou, tentando se segurar em mim, mas quando estava quase fora acabou caindo em cima de uma parte de um vidro quebrado.
Não foi um grito que ele deu, mas sim um urro! Simplesmente todos os infectados que estavam ao lado de fora, vagando sem rumo, viraram suas cabeças em nossa direção.
–Amigão, você não deveria ter feito isso! – eu disse aterrorizado
–O que? Ter caído em cima de um vidro ou ter seguido as suas ordens? – disse ele bravo
–Não importa, venha rápido! Precisamos nos esconder! – disse apressadamente
Ele se levantou com a parte do vidro enfiada no punho e se apoiou em mim. Então começamos a tentar correr... tentar, por que uma pessoa com a perna quebrada e outro quase desmaiando e sangrando com um pedaço de vidro partido no punho não tinha tanta velocidade. Olhei de relance para trás, e percebi que não conseguiríamos!
–Gabriel, se esconda aqui! Terei de enfrentar um deles! Estão chegando muito perto! – eu disse.
Sem hesitar ele entrou numa espécie de buraco que havia no tronco da árvore. Procurei no chão algo que pudesse usar como arma... nada. Tive então uma ideia.
–Tira o vidro de seu pulso e me dê! Vou tentar matar esses daqui! – eu disse para Gabriel
–Como é que é?! – ele respondeu
–Prefere morrer ou ter uma dor infernal? – perguntei
Por incrível que pareça, pensei que ele iria ficar com o vidro no pulso. Ele pegou, tirou rapidamente e mordeu os lábios com tanta força que quase o arrancou junto! Então jogou em minha direção. Eu abaixei, peguei o vidro e já o enfiei na cabeça do primeiro infectado. Vinham mais dois. Andei um pouco para trás e acabei tropeçando e caindo. Os infectados andaram mais rápidos e já se abaixavam para me pegar quando uma flecha atingiu a cabeça deles. Peguei o caco de vidro e enfiei na cabeça do outro. Me virei para o Gabriel e olhei surpreso.
–Da onde conseguiu a flecha? – perguntei
–Não fui eu.... – ele respondeu
–Você até que é um pouco corajoso... e bastante idiota. – disse uma garota que saiu de trás da árvore em que Gabriel estava.
Olhei para ela... Como que alguém pode sobreviver naquele lugar?
–Como...
–Dois aviões caindo do céu é bastante chamativo. É o seguinte, se quiserem sobreviver me sigam. Estacionei meu carro a alguns metros daqui.
–Poderia me ajudar? Meu amigo está machucado e estou com a perna quebrada. – eu disse
–Já estou ajudando, levando vocês para um lugar seguro. Agora para de moleza e se mexam, se não se apressarem parto sem vocês.
–Podemos saber pelo menos para onde nos está levando? – perguntei
–Para nossa base. Vamos tratar de você e seu amiguinho aí! – ela respondeu se referindo ao Gabriel.
Andamos alguns poucos metros que para mim eram tenebrosos, acho que eu havia moído a perna. Logo a frente de uma alta árvore havia uma estreita estradinha de terra com um carro que me parecia ser uma SantaFé.
–Finalmente chegou, eu já ia partir em sua busca. – disse um garoto baixo que estava encostado no carro.
–Você sabe que sei me virar melhor que você, Philip. – a garota disse.
Ela entrou no banco do motorista e o garoto que deveria se chamar Philip entrou no de carona.
–Podemos pelo menos saber o nome de você? – Gabriel perguntou.
–Me chamo Anny, e esse aqui é meu amigo, Philip. – ela respondeu –Agora entrem logo, daqui a pouco os infectados irão chegar.
Abri a porta do carro e entrei. O carro era até que confortável para uma era negra da humanidade . Olhei pela janela e vi que Anny tinha razão. Os infectados, como ela havia dito, estavam chegando.
–Segurem-se, chegaremos daqui a vinte minutos se não capotarmos. – ela disse
Então partiu o motor e deu um arranque estrondoso que jogou uma bela porção de lama nos infectados. Era tão estranho tudo que estava acontecendo. Em dias o mundo havia acabado, nós tínhamos sobrevivido a uma queda que com certeza deveria ter nos matado e encontramos uma garota atiradora de flechas e um garoto cujo nome é de uma marca de televisão. Olhando pelo lado positivo, não morremos e não era eu que havia caído e enfiado um caco de vidro de vinte centímetros no pulso.
–Está doendo? – perguntei para Gabriel
–Um pouco, estava mais quando o caco estava em meu pulso. – ele respondeu
–Foi bom você ter tirado, ele poderia causar uma infecção e tanta nesse braço. – disse Phillip — Cortes profundos devem sempre ter e ser desinfetados para que não ocorram casos de doenças.
Por incrível que pareça, agora Gabriel quase desmaiava pelo excesso de sangue que escorria pelo seu braço, e não dos ferimentos que haviam pelo corpo.
–Aliás, vocês estão bem? – perguntou Anny – Quero dizer, tirando a queda do avião, vocês não foram mordidos, não é?
–Não, estávamos dentro dos aviões e acho que os infectados não nos viram. – eu respondi
–E esse seu amigo....
–Meu nome é Gabriel. – ele disse
–Enfim, vocês provavelmente devem ter se machucado bastante. – ela disse – Posso ajudar vocês, Nicole cursava enfermaria. Ela era ajudante de enfermeiro, pode tratar vocês na base.
–Agradeço, mas acho que um descanso seria mais do que bom, ultimamente temos dormido pouco. – eu respondi
Apreensiva ela balançou a cabeça positivamente. Então repentinamente jogou o carro para a esquerda, entrou na mata, desviou de algumas árvores e logo estávamos de frente para uma fogueira e algumas cabanas. Ela desceu do carro e tirou algumas madeiras que haviam no porta-malas.
–Desçam! Aqui é a nossa base, podem ficar se quiserem. Vou providenciar o mais rápido possível alguns remédios que possam ajudá-los na dor. — disse Philip
Uma garota saiu das barracas e veio em nossa direção.
–Essa é a Nicole. Ela vai cuidar de seus ferimentos, Gabriel. – disse Anny –Estarei aqui assando uma carne. É a única que temos no estoque, amanhã teremos de buscar mais comida numa cidade não muito longe daqui de Londrina. Isso se vocês quiserem ficar, é claro.
Por um momento fiquei pensando. Será que eu deveria ficar aqui com o Gabriel? Quer dizer, mais pessoas num grupo não significava mais comida e mais necessidades? Ainda não sabia o fato de serem tão acolhedores, porém não creio que eles pudessem fazer algum mal para nós.
–Sim, vamos ficar, se não se importarem com isso. Conhecemos algumas cidades e uma base militar secreta para casos de fuga. Lá existem comidas. Porém fica a alguns quilômetros daqui. – eu respondi
–Bom saber, quanto mais pessoas no grupo, mais forte somos. – ela disse. Mesmo assim eu ainda suspeitava de algo. Então ela parou de virar aquele pedaço de carne que estava assando na fogueira e a retirou do galho. Logo chegou Philip trazendo alguns pratos, facas e garfos para comermos.
–Então, como foi que aconteceu tudo isso? – ela perguntou –Como vocês chegaram até aqui? Seus pais ainda estão...vivos?
–Se eu dissesse que não sei, te surpreenderia? Me alistei na aeronáutica para tentar proteger meu país, assim como o Gabriel. A última vez que os vi, eles estavam fugindo para...para cá, nessa base. Espero que não tenham chegado aqui e que tenham mudado de opinião. – eu disse
–Entendo. Mas por que mandaram apenas dois jatos para destruírem a base? Aliás, por que querem destruí-lo? A cura não está lá dentro? – Anny perguntou novamente.
–O fato de mandarem dois é que esta é uma área no meio “da mata”, não representa tanto risco quanto uma cidade do tamanho de São Paulo ou Rio de Janeiro, onde existem milhares de pessoas. A falha deles e desespero foi nos mandar numa tempestade dessas. Jatos são feitos para serem rápidos mas são facilmente atingidos por raios quando se passa por nuvens como a que passamos. – eu respondi
Philip me entregou o prato que devia ter metade de um palmo de carne. Obviamente estavam economizando a carne, até por que não é tão rápido que se encontra comida, mas eu estava com tanta fome que nem me importava com isso.
Acho que passamos meia hora olhando para a fogueira. Fiquei lá, mastigando a deliciosa carne e tentando me lembrar de como era o antigo mundo. Logo Gabriel também se juntou a nós. Nicole havia enfaixado seu punho e colocado curativos em seus cortes mais profundos. Tentei me levantar do tronco em que eu estava sentado, mas lembrei de que minha perna estava dolorida demais para aguentar meu peso.
–Quer ajuda para se levantar? – perguntou Philip
–Não, obrigado. Consigo fazer isso sozinho. – eu respondi. Novamente me apoiei no tronco e tentei me levantar, mas caí no chão. Rapidamente Philip e Nicole vieram me ajudar. Eles me levantaram e encostaram-me numa árvore ao lado da fogueira.
–Quebrou a perna? – Nicole perguntou.
–Ela está bem. Não aconteceu nada, só estou um pouco....
–Anny, pega uma faixa e o cabo da vassoura. – disse Nicole. Ela colocou o cabo atrás da perna e colocou a faixa cuidadosamente por cima.
–Temos poucos medicamentos e faixas. Tente não movimentar muito a perna, enfaixei-a da forma que pude. Provavelmente deve ter quebrado algo, seu tornozelo está bem inchado. – ela disse.
Apesar de não ter a mesma eficiência de um gesso, o cabo até que segurava bem meu pé e poderia ajudar a calcificar mais rapidamente.
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