Hoje, depois de três semanas horríveis e tediosas, finalmente vimos a imagem mais esperada de todas. A amassada, enferrujada, marcada de tiros, rasgada, retorcida como uma latinha, porém maravilhosamente reconfortante placa amarela, "Welcome to New Mexico — Land of Enchantment" (Bem Vindo ao Novo México, Terra dos Encantos)
Eu dei um cutucão em Jeff, que dormia ao meu lado.

— Ouch, o que foi?

— Nós. Chegamos. No Novo México.

— Ahn? — ele aparentemente estava grogue de sono demais pra entender direito, mas se senta e esfrega os olhos, bocejando — Chegamos... Aonde?

Eu reviro os olhos, rindo.

— No Novo México, bobo. Henry e John estão tentando achar de novo a frequência de rádio daqueles caras, pra ver se conseguimos falar com eles.

— O que?? Ah meu Deus! Isso é sério? Jessie! — diz ele, finalmente acordado, passando os braços pela minha cintura e me abraçando.

Eu o abraço forte de volta, um sorriso cada vez maior tomando meu rosto.

— Eu estou tão feliz de saber que logo vamos parar de viajar, que eu poderia te dar um beijo.

E então, antes que eu possa pensar bem no que disse, ele puxa meu rosto para mais perto de si e, hã, me beija. Mas não um beijo curto, como da última vez (aquele beijo da cozinha foi mais um toque que um beijo né). Um beijo longo, quente, eufórico e... De, ahn, língua. Não sei por que eu estou com tanta dificuldade pra falar sobre isso. Eu sempre imaginei que meu primeiro beijo (de verdade) teria uma narração emocionante, com todos os clichês a que eu tivesse direito. Mas, bom, eu posso tentar.

(Atenção — Narração clichezastica de beijo, de uma garota romântica demais para viver num apocalipse zumbi. Cuidado, você pode ficar enjoado)

Quando ele pôs a mão em meu rosto, os dedos passando suavemente pela minha bochecha e indo até meu pescoço, eu sabia muito bem o que viria em seguida. Mas foi rápido demais para o meu cérebro meio sonolento que estava a uma semana funcionando na base de barrinhas de cereal. Então ele se inclinou levemente para frente, e fez menção de guiar minha cabeça com a mão. Mas não foi exatamente o que aconteceu.
Tipo, não sei se você já percebeu mas eu sou um pouquinho carente. Meu subconsciente, aparentemente, não foi afetado pelas barrinhas velhas de aveia. Ele estava firme e forte na hora de me empurrar pra frente, em direção aos lábios dele. E quando eu os toquei de repente eu não estava mais com sono, ou ansiosa, ou qualquer outra coisa. Nada mais existia, só os meus lábios tocando os de Jeff, seu braço contornando minha cintura, seus dedos enrolados em meu cabelo, meus braços sobre seus ombros, nossas línguas se tocando.
Confesso, não é tão "maravilhoso" quanto parece (é um tanto quanto estranho sentir uma língua que não te pertence dentro da sua boca) mas depois de um tempo, quando eu me acostumei, quando ele se acostumou, quando nós acertamos o ritmo do movimento... Bem, continuava estranho. Mas era um estranho bom, ao menos. Escorregadio, molhado, quente, e bom.

E então, quando meus pulmões clamaram por ar e meu cérebro por explicações, eu suavemente me afastei.

Eu suspirei, tentando processar toda a informação de uma vez. Tá. Eu beijei o Jeff. Ou ele me beijou? Ai meus Deuses. O que foi isso?

— Ah, J-Jess... Eu, ahn, desculpa. Eu não devia ter feito isso.

Senti rosto meu corando, enquanto eu fiquei ali sentada, olhando pros cadarços sujos do meu tênis, com meu cérebro correndo a mil por hora.

Então eu ouvi Mabel e Ellie cochichando e rindo baixinho atrás de mim. Droga. Nunca mais iria ter paz. Eu tinha duas opções em mente pra deixar aquela situação um pouco menos esquisita, mas nenhuma delas me agradava 100%. Acabei por optar pela que aparentava menos riscos.

— Jeff — ele levanta os olhos pra mim, claramente com medo de eu reclamar. Então eu me inclinei em sua direção e o beijei de novo.

Ele pareceu surpreso inicialmente, mas então ele me envolveu em seus braços. Ele parecia mais seguro que da última vez, mas eu ainda estava meio com o pé atrás. Eu com certeza não sentia toda aquela paixão que ele expressava por mim, e não queria deixar ele mal.
Não. Eu não mereço fazer isso comigo mesma, pensei, eu passei muito tempo me lamentando por uma paixão que não deu em nada. Talvez eu deva dar uma chance a ele. Ou, quem sabe, uma chance pra mim mesma.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.