Jessie's pov

Então, acontece que aquele cara que encontramos aquele dia ajudou a gente bastante. Ele é forte e bom de mira, e não se importa em racionar água e comida (ainda temos bastante, mas não vai durar se não racionarmos).

O John teve toda aquela coisa protetora comigo durante uns três ou quatro dias, todo preocupado e tal, mas agora, duas semanas depois, ele nem liga mais. Pelo menos ele não me trata com desprezo como fazia antes, mas John nunca foi nenhum exemplo de simpatia comigo...

As coisas entre mim e o Jeff continuam estranhas. Eu tenho a impressão de que ele ficou ressentido comigo por ter beijado ele naquela noite e depois "mudado de ideia". Deuses, ele é meu melhor amigo! O que ele esperava que eu fizesse? Me largasse em seus braço para irmos passar a lua de mel numa linda ilha tropical do caribe? Acho que não vai rolar.

Eu tenho dormido muito mal ultimamente. Isto é, quando eu durmo. Desde que tudo aconteceu na casa eu fiquei mais ansiosa, mais neurótica e mais paranóica. Eu ouço passos se arrastando em ruas vazias quando passamos por alguma cidade, vejo pessoas chorando em quartos que não tem ninguém. Minha mente não é mais confiável e meus dias não são produtivos.

Nas ultimas duas semanas nós temos viajado para o leste, em direção a Winston, Novo México. Ainda não sabemos exatamente onde fica o tal acampamento, mas Jeff conseguiu captar algumas mensagens que eles estavam trocando pelo rádio. Aparentemente eles usam uma linha livre, o que é bom, por que talvez a gente consiga entrar em contato de algum jeito. Eles realmente estão ao sul de Winston, mas não fazemos ideia de onde exatamente, então por enquanto nós apenas vamos naquela direção.

Estamos passando as noites em prédios vazios, pois é mais seguro. As vezes eles não estão completamente vazios, mas sempre acabamos com eles.

Molly parece estranha ultimamente, mas insiste que não é nada além de tristeza por tudo que aconteceu. Eu cheguei a sugerir que ela poderia estar doente, mas ela negou firmemente e logo mudou de assunto, então eu não insisti.

Estou com medo. Os dias parecem mais longos e as noites mais negras, e eu luto para manter esperanças em qualquer coisa.
Ellie estima que chegaremos lá em pouco mais de uma semana, se tudo der certo.

Só me basta esperar e ver o que vai acontecer.

Nós passamos a noite em um posto de gasolina alguns quilômetros depois de Dudleyville. Tivemos que acabar com um Z que estava escondido na loja de conveniência, uma coisa que algum dia tinha sido uma garota loira, com vinte e poucos anos usando um adorável vestido azul, que agora está coberto de sangue e restos de cérebro explodido.

As estradas estão surpreendentemente vazias, e isso meio que me preocupa. Quer dizer, para onde diabos foi todo mundo?? Praticamente o país inteiro está morto, e não há carros nas estradas, não há corpos nas ruas e não há rastros em lugar nenhum. É perturbador.

A noite, eu me ofereci para ficar de vigia, para o caso de algum defunto aparecer, mas, obviamente, John teve que dar piti por causa disso.

— Ah, não. Você não vai ficar na guarda.

Eu reviro os olhos e termino de recarregar meu rifle.

— Quem foi que te deu esse negócio, por falar nisso? — diz ele, apontando para a arma. Eu continuo em silêncio. — Dá pra responder? Por acaso alguém me ouve nessa porra??

— Os zumbis provavelmente, idiota. — diz Ellie que chega de repente e dá um beliscão no braço dele — Tem como calar a boca? Por que você tá gritando afinal?

— Porque eu vou ficar montando guarda na entrada da loja durante a noite, e ele não quer arriscar por sua vida nas mãos da garota surtada.

Ele olha para Ellie como se dissesse "Exatamente!".

— Ah, pelo amor de Zeus, John! Eu achava que você já tinha superado essa mania de ficar arrumando problema com a Jessie.

Ele abre a boca para dizer algo, depois fecha, como se tivesse pensado melhor. Então, quando Ellie olha para mim com um sorriso terno e acena com a cabeça, eu me viro para ir em direção as escadas, pois pretendia vigiar da janela do segundo andar, no escritório. Quando estava me afastando ouvi John murmurar para Ellie "Desde quando nós damos rifles pra esquizofrênicas?". Eu hesitei aos pés da escada, mas então subi correndo, e não pude ouvir a resposta dela.

Eu chego no topo da escada e empurro a porta com o ombro. Como de costume, eu estou imersa em meus pensamentos.
Fico parada na porta por um tempo, pensando no melhor jeito de atingir os mortos ali de cima sem fazer estardalhaço, porque mesmo com silenciador e tudo mais o barulho de tiros se espalha por quilometros, pois as noites aqui são mais silenciosas do que deveriam. Então eu sou tirada de pensamentos por um barulho, alguém se movendo no escuro, sua silhueta negra contra a luz da lua em frente a janela. Imediatamente eu entro em modo de alerta, a adrenalina aumentando em meu sangue. "Eu achei que tivessemos acabado com todos eles" pensei, irritada.

— Oi — diz a pessoa, ainda olhando para fora.

— Ah — respondo, me acalmando — Jeff...

— Você vai ficar aqui durante a noite?

— Sim.

— Bom, tem um ponto cego entre aquelas duas bombas de gasolina, você vai ter que ir até a janela da sala ao lado de vez em quando pra conferir... — ele se vira e vai para a porta, passando por mim sem me olhar, mas eu seguro seu braço. Ele para, mas ainda não me olha.

— Jeff... Olha, eu realmente não estou entendendo essa coisa toda. Por que de repente você começou com tudo isso?

Ele vira um pouco o rosto para mim, mas logo desvia o olhar para o chão. Ele parece pensativo. Rancoroso.

— Jeff. — repito com minha voz começando a ficar embargada e meus olhos se enchendo de lágrimas — Thomas Jeffrey Rogers! Por favor, fala comigo. -nesse momento as lágrimas escorriam pelo meu rosto, mas ele continuava ali, impassível.

— Eu... Você deveria saber Jessie.

— Mas eu não sei!!! Jeff, pelo-amor-de-Deus!

— Ah, qual é Jessie. Não se faça de sonsa.

— Do que você tá falando??

Ele se vira bruscamente, puxando o braço que eu ainda segurava inconscientemente, um misto de dor e raiva queimando em seus olhos.

— Ele me disse Jessie. Me contou tudo que você disse a ele. O que você realmente pensa de mim. Eu ouvi você.

— Ele? O que eu penso? Jeff eu... — minha voz ia sumindo lentamente, me afofando em meu próprio desespero súbito.

— Ouviu... O que? — Eu pergunto a ele, minha voz saindo em um sussurro, nada mais que um som que poderia ser quase ininteligível normalmente, mas soava plenamente audível naquela noite sinistramente silenciosa.

— Ele. Você chamou ele. Não a mim, quem você dizia ser seu melhor amigo.

De repente eu entendo tudo. Ah meu deus Jeff, porque você tinha que ser tão estúpido? "Está tudo errado" eu pensei "Eu não queria ajuda dele. Eu queria perdão. É óbvio que quem eu mais queria ao meu lado era você, idiota."

Mas eu não disse isso a ele. Não consegui. Fiquei ali, em pé, chorando como uma idiota, soluçando, meus ombros balançando violentamente ("você não entende, não foi nada disso") e ele me olhando, como se eu fosse animal, ridículo e digno de pena e aquilo doeu mais do que tudo ("eu estava quase desacordada"). Eu sentia tudo ruindo dentro de mim ("não me abandone"), os sentimentos, as emoções, os pensamentos, tudo de ruim que havia dentro de mim, tudo que eu havia tentado controlar por tanto tempo ("eu preciso da sua ajuda"). Depois de tudo pelo que eu passei, finalmente, nesse momento trágico, a barragem estourou, e eu fui inundada por um sentimento que a anos eu não sentia. Algo horrível e indescritível. E desta vez, eu não terei ao meu lado a única pessoa que me ajudou no passado, e a única que poderia me ajudar agora.

Jeff vira-se e vai embora sem dizer mais nada.

Quando ele fecha a porta eu desabo sobre meus joelhos.

Meus olhos queimam, meu peito está apertado. Tudo dói, mas não parece real. Depois de tantos anos, a desgraça voltou para mim, como um fantasma cruel me assombrando com os piores dias de meu passado. E mais uma vez, esse fantasma me arrasta dolorosamente para o seu pavoroso, etéreo, invisível e delirante plano espectral.