Living
1 Prólogo
Notas iniciais
Boa Leitura!!
PRÓLOGO
Minha irritação com os degraus da escada velha de madeira que separava o hall de entrada dos quartos alugados da pensão era claramente visível se alguém estivesse por perto para prestar atenção. Eles eram algo incomodo e inconveniente quando se está tentando subi-los equilibrando quatro livros pesados e procurando a chave do quarto dentro da bolsa.
Essa era a tarefa na qual eu estava empenhada quando os livros escorregaram da minha mão e caíram espalhados nos degraus escuros e gastos.
- Droga! – resmunguei recolhendo os livros imediatamente.
Eu havia acabado de voltar de uma biblioteca no centro de Chicago e, como sempre, acabei me instalando na sessão de mecânica, onde encontrei três livros de especialização nessa área, os quais peguei emprestados, além de um exemplar do livro “Manual de um Novato em Chicago” – o título era meio tolo, mas pensei que poderia ser útil.
Terminei de recolher os livros e voltei a subir as escadas, agora chegando à porta do meu quarto e colocando a pilha de livros no chão antes de voltar à busca pelo meu molho de chaves dentro da minha bolsa. Quando enfim as encontrei, retirei-as da bolsa e coloquei a respectiva chave na fechadura, abrindo a porta antes de agachar para pegar os livros novamente e colocá-los sobre a mesinha de cabeceira. Tranquei a porta e me joguei na cama – que protestou com o impacto, e examinei meu quarto familiar. O frigobar de segunda mão que ficava a direita da minha pequena cama de solteiro com uma estrutura de metal quer rangia todas as vezes que eu deitava ou me mexia na cama. A porta de madeira entalhada do meu pequeno banheiro ficava visível como plano de fundo quando eu erguia a cabeça para olhar meus pés que, agora, estavam cobertos pela botas marrons estilo country que eu usava. Havia um guarda-roupa pequeno e antigo ao lado da mesinha de cabeceira, esse tinha a pintura descascada em alguns pontos, revelando a cor escura da madeira que contrastava com a tinta branca e lustrosa que cobria o restante.
A visão monótona e tediosa fez uma onda repentina de sono pairar sobre mim e, inconscientemente permiti que minhas pálpebras caíssem, deixando o torpor do sono me dominar... e então, uma som alto e estridente me sobressaltou, fazendo-me pular da cama desnorteada. Levei alguns segundos para perceber que era o toque do meu celular que preenchia o silêncio reconfortante do quarto e, ao reconhecê-lo, andei apressadamente até a porta de entrada onde minha bolsa estava – pendurada na maçaneta; e deslizei minha mão direita para dentro da bolsa, retirando o celular e apertando em aceitar chamada, antes mesmo de me dar conta que deveria ter verificado o número, afinal, esse era um momento em que havia várias pessoas que eu estava tentando evitar.
- Alô? – atendi, curiosa e temerosa, com o dedo próximo ao botão encerrar, pronta para desligar o telefone a qualquer momento.
- Sarah? – perguntou uma voz familiar.
- Sim...?
A pessoa do outro lado da linha soltou um suspiro de alívio.
- Finalmente consegui te encontrar! Devia ter ligado, sabia? Eu fiquei preocupado...
- Quem está falando? – perguntei ainda tentando reconhecer a voz familiar. Era claramente a voz de um garoto. Um garoto que falava como se me conhecesse muito bem...
- É sério que não está reconhecendo minha voz? – perguntou incrédulo o garoto.
- Pode responder à minha pergunta?
- Sou eu, o Josh. – respondeu por fim.
Que ótimo, pensei. Ele era uma das pessoas que eu estava evitando.
- Pensei que fossemos amigos. – disse Josh quando fiquei em silêncio à menção ao seu nome. – Mas você sumiu, sem nem ao menos dizer para onde iria! Você não faz idéia do caos que está aqui por sua causa!
- Não queria que ninguém viesse atrás de mim. – falei baixinho.
- Não. – discordou Josh. – Você queria deixar-nos preocupados, chamar a atenção.
- Queria deixá-los em paz...só isso. – respondi com a voz suave, me amaldiçoando por não ter olhado o número antes de atender.
Eu não queria falar com Josh, não porque eu não sentia sua falta, na verdade eu sentia, muito; mas eu sabia que ele não aceitaria o fato de eu ter decidido sair da Academia, e eu sabia que não conseguiria convencê-lo a ver as coisas do meu modo...ele era teimoso.
- Devia saber que não há como ficarmos em paz quando não sabíamos ao menos se você estava viva!
- Humpf! – bufei. – Se me ligou para me dar sermão, vou desligar na sua cara!
Josh riu.
- É claro que vai. – concordou.
- Então vai continuar?
- Não. E nem liguei aí para isso.
- Ligou para que, então? – minha voz saiu mais rude do que eu gostaria.
- Principalmente para saber se estava viva. – disse ele exasperado. – Que droga, Sarah, você devia ter me ligado! Eu realmente fiquei preocupado. – a irritação era explicita em sua voz. – Sei que está querendo evitar o Nate, mas eu não sou ele, certo? Sou seu amigo, ou pelo menos achei que era.
- Devia estar preocupado em conquistar a Chloe... Há quanto tempo está a fim dela mesmo? Desde que ela chegou à Academia?
- É, mas isso não vem ao caso, ta legal? E eu nem gosto mais dela. O assunto agora é você e o por que fugiu daquele jeito.
- Não fugi, apenas fui embora. Sou maior de idade e não há nada que me prenda aí.
- E quanto a Nate e a mim?
- Você vai sobreviver. – garanti a ele. – E Nathan tem a Lorena, ele que se dê por satisfeito.
Josh bufou, mas não discutiu.
- E quanto a Jerry? Ele é seu tio, e tinha sua guarda... Como acha que ele está se sentindo?
- Ele vai entender, Josh. – falei sem muita convicção.
- Tudo bem, então. – disse ele por fim. – Se é assim que prefere... – eu o conhecia bem o suficiente para saber que ele estava dando de ombros agora. Não pude deixar de rir disso.
- O que foi? – perguntou.
- Nada não.
Ele deixou passar.
- Bom... Como você está?
- Estou bem. – garanti. – Tenho um carro, um lugar para morar, um emprego e livros de mecânica para me distrair no meu tempo livre.
- Está estudando mecânica? – perguntou Josh, seu tom de voz era incrédulo e brincalhão ao mesmo tempo.
- Sim, por conta própria.
- É a sua cara!
- Isso me ajuda a lidar com o carro. – dei de ombros.
- E onde consegue os livros?
- Pego emprestado em uma biblioteca aqui no centro de Chicag... Droga! – exclamei quando percebi o que eu tinha dito.
- Chicago! Então é aí que você está?
Eu suspirei.
- É. – admiti de má vontade. – Mas não conte a ninguém, Josh, por favor!
- Nem para o Jerry?
- Muito menos para o Tio Jerry!
- Como quiser. Mas, — começou. – não pode me impedir de ir visitá-la assim que puder.
- Nesse caso, — falei tentando demovê-lo. – vai ter que ter muito tempo livre. Chicago é grande...vai demorar para você me encontrar aqui.
- Você podia facilitar as coisas para mim. – propôs.
- Me dê um tempo, ok? Para eu me acostumar, para as coisas se estabilizarem. – pedi, sabendo que ele viria de qualquer jeito. Embora, soubesse também, que sua presença aqui só dificultaria as coisas para mim, tornaria ainda mais difícil esquecer Nathan e minha antiga vida.
- De quanto tempo precisa? – perguntou Josh; a voz suave e paciente.
- Um mês. – pareceu mais uma pergunta.
- Sério? – perguntou.
-Por favor?
- Ok, ok! Eu lhe dou esse tempo.
- Obrigada, Josh! – agradeci.
- De nada, mas... – ele parou. – você só tem um mês. – reafirmou. — Daqui um mês, eu vou ligar de novo e dessa vez, vou querer seu endereço.
- Ok.
Ficamos em silêncio por um breve segundo.
- Bom, eu vou ter que treinar agora... tenho que desligar,mas, vou te ver em breve. Se cuida.
- Sempre. – garanti.
- Um mês. – repetiu Josh. Eu ri.
- Já entendi!
- Tchau Sarah!
- Tchau Josh! — Ele desligou.
Eu respirei fundo duas vezes antes de me jogar na cama novamente, e o metal rangeu quando o fiz.
Várias coisas passaram pela minha cabeça nesse momento, mas a que mais me preocupou foi o Tio Jerry. Depois do que Josh dissera, não pude deixar de pensar se ele tinha ficado magoado com a minha partida. Eu não queria desapontá-lo. Mas ele tinha que entender que eu tinha que seguir minha vida, mesmo detestando o rumo que ela tinha tomado, o rumo que minhas escolhas a levaram.
Eu estava tão cansada que meus pensamentos ficaram turvos e, pouco a pouco, fui mergulhando na inconsciência.
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