Living
32 Capítulo 25
Notas iniciais
Demorei, eu sei; mas é que o tempo e a inspiração são recursos escassos. Mas aqui está um capítulo fresquinho - com um tanto de suspense e sem muita ação. Mas tem algumas descobertas aí, ok? Por favor, leiam as notas finais e é isso.
Boa Leitura!
Capítulo 25
A esperança é algo fatal. Não como a vingança ou o ódio, mas pior. Pior, pois vem disfarçada de cordeiro. Ela é sutil e oportunista, lança sua semente nos corações e quando menos se espera, já é uma árvore grande e vistosa, com suas folhas verdes e seus frutos doces. Mas ela não é imortal e pode ser arrancada brutalmente pela raiz, e em seu lugar, somente uma cova funda de decepção, frustração e desespero. E isso fere os sentimentos antes ali depositados. E você fica sozinho para lidar com os cacos.E nesse momento, por pior que possa parecer, penso que teria feito melhor me aliando à desesperança. Se o tivesse feito, muito provavelmente estaria sentindo-me conformada e não aquela dor aguda no peito – um sobressalto amalgamado à decepção e frustração. Eu sabia que devia ter relutado mais, mas como usar a razão, quando as pessoas envolvidas são as que mais ama? Era um plano arriscado e imprudente e tinha oitenta e nove por cento de chances de dar errado, levando em conta que Nate estava ferido e sem muitas reservas de energia. Mas eu permiti que fosse feito e sabia que seria pior agora.Era quase que previsível que Nathan não aguentaria muito mais tempo mantendo o “disfarce” de Josh – a ferida em sua clavícula sangrava muito ainda quando saímos e ele precisava poupar energia para se curar. Então, pouco depois de passarmos pela porta, notei que Josh era Josh e não seu irmão. Porém tampouco tive tempo de alertá-lo, já o haviam reconhecido e ele estava sob a mira de uma arma agora. Em suma, estávamos à mercê de Dorothea. Nosso grupo havia parado alguns passos atrás de Josh e observávamos um homem alto com os olhos do mesmo tom negro dele, fazê-lo refém.Josh não disse nada com a voz, mas pude ler seus lábios. Ele pedia para que reagíssemos, que, independente de acatarmos ou não aos caprichos de Dorothea, ele morreria. Então não devíamos nos prender por sua vida. Todos estávamos pasmos e calados, e eu tentava encontrar a lógica para o que ele me pedia incansavelmente, enquanto tinha uma faca enorme posicionada em sua jugular. E, sim, ele estava certo. Pela lógica de batalha, não devíamos sacrificar cem homens por um. Mas meu coração recusava-se a aceitar. Ora, Josh era como um irmão mais velho, não poderia deixa-lo morrer nem que eu quisesse e fazê-lo talvez me matasse também. Então, se um dia me questionasse acerca da minha hesitação em agir, eu diria que era apenas questão de sobrevivência. Pois, permitir que ele morresse, me mataria sem sombra de dúvidas.Olhei para meus aliados a procura de uma solução. Meus olhos varreram o local em busca de um auxílio, uma ideia qualquer que nos fizesse ganhar vantagem. Não havia alternativas, senão tentar distraí-los da melhor forma possível, enquanto eu pensava no que poderia fazer em relação à Josh. Elliot pareceu perceber a mesma coisa, logo deu um passo cauteloso para frente, os olhos presos ao do homem armado.– Ah, qual é, Stuart. – falou, como se eles fossem velhos amigos e isso não passasse de uma brincadeira de mal gosto. – Solta ele, vai. Sabemos que o problema é comigo.– Desde quando acatamos suas ordens, Jones? – uma garota de pele negra e dreads zombou. – O fato de estar do lado do inimigo agora, não significa que esta mais forte. – ela sorriu, pensando tê-lo atingido, mas a expressão de Elliot continuava a mesma, firme com um ar zombeteiro. – Quem sabe se ainda tivesse a telescinésia poderíamos mudar de lado...– Então tudo se resume á isso? Poder? – ele riu. – Você sempre me pareceu mais inteligente do que isso, Melanie.– Trata-se de sobrevivência, Elliot. – parecendo inconsciente do ato, a tal Melanie baixou a metralhadora que portava e deu um passo em direção à ele. Os olhos da mulher cintilavam com uma raiva explícita. – Da última vez que tentamos te seguir, acabamos castigados. Por sorte, Dorothea foi piedosa conosco...– Ah, por favor. – ouvi Lorena murmurar atrás de mim. – Desde quando a palavra piedosa se encaixa em Dorothea?Melanie desviou seu olhar irritado de Elliot e fitou Lorena por alguns minutos e seus lábios cheios se abriram em um sorriso de triunfo. – Então você é a garota que despertou o interesse de Dorothea. – ela a analisou minuciosamente. – Se seu dom for tudo o que ela nos pregou, será um reforço e tanto para nosso exército de mercenários. – ela mordeu o lábio inferior por um breve momento e arqueou a sobrancelha esquerda. – Mas me parece frágil demais... Nada que o treinamento não dê jeito.– Eu já tenho treinamento. – disse Lorena entredentes.– Que seja. – Melanie deu de ombros e voltou-se para Elliot novamente. – As coisas mudaram, companheiro.– um sorriso de orgulho tomou-lhe os lábios. – Sou a segunda no comando agora.– Deveria parabenizar-lhe pela evolução no nível de psicopatia? – indagou ele.Melanie revirou os olhos.– Só está com inveja por que ela nunca promoveria um soldado Sui Generis* como superior. – ela sorriu. – Eles costumam praticar atos de rebeldia.– Como assim promover Sui Generis? – Taylor parecia ter retirado a pergunta da minha mente.– Um soldado como nós, com dons. – explicou Elliot.– Então quer dizer que ela...? – indaguei.– Sou perfeitamente normal. – disse a garota. – Dorothea não toma para si somente os com dons especiais. Não sei se notaram, mas há no reformatório uma grande quantidade de pessoas normais, sem anomalias. – ela fez um gesto com as mãos, mostrando desdém. – Enfim, são futuros soldados, alguns, futuros superiores seus. Os Sui Generis tendem a tentar a fuga, por isso não costumam ser promovidos.
– Agora espera, eu é quem fiquei curiosa. – falei, esquecendo-me por um momento do fato de que meu melhor amigo estava com uma faca pressionada na jugular. – Por que ela retirou os poderes de Elliot? Ela não seria útil para ela com a telecinésia?– Na verdade Elliot não seria útil de nenhuma forma. – zombou. – Ele não costumava responder aos treinamentos de controle dos dons e permanecia sempre no mesmo nível de aptidão. O episódio de fuga somente desencadeou uma fúria ainda maior em Dorothea que já cogitava testar-lhe. Ele era um dos que valia a pena perder.Mesmo com tal discurso Elliot não se abalou, os olhos perfuravam Melanie, porém sua expressão era completamente vazia.– Não importa agora, companheira. – ele tomou o cuidado de colocar a entonação certa de repulsa na última palavra. – O que passou, passou... certo? Sem mágoas. — Melanie trancou o maxilar ao receber essas palavras e o olhar de ambos sugeria que havia mais significado nessas palavras do que eu me dera conta.Decidi me desviar da conversa, ignora-la. Mais tarde, se sobrevivêssemos, questionaria Elliot acerca disso. Agora precisava me concentrar em uma forma de tirar Josh daquela armadilha. Eu temia, pois qualquer movimento brusco que fizesse, resultaria em sua morte iminente e isso era a última coisa que eu desejava.Ora, Sarah Bennet! Você precisa pensar em algo...Nada que fosse cem por cento seguro vinha em minha mente, até porque, era impossível prever qual seria a reação do recruta nas situações que me ocorreram. Elliot continuava discutindo com Melanie, embora eu não fizesse ideia do que diziam. Precisava aproveitar cada mísero segundo de distração, aproveitar que, aparentemente, eles eram ligeiramente próximos antes. Isso me daria uma quantidade razoável de tempo para agir... Mas o que eu faria? Olhei para Josh em busca de auxílio, mas sua expressão era a mesma de antes. Deixe-o matar-me, era o que o seu olhar dizia. Eu queria gritar de frustração e atirar em todo o mundo. Nunca me encontrara em uma situação como essa antes e isso me travava.Foi então que uma recordação fez-se presente. "Era um dia claro, o sol estava alto no céu, e o calor no jardim estava insuportável. Mas não me incomodava, pois estava exposta ao ar fresco do ar-condicionado do CT de combate. Eu tinha quatorze anos e uma cena semelhante à esta se apresentava para mim. Josh estava à mercê de Leonard, meu treinador na época. Uma adaga brilhante tocava o pescoço do meu amigo de dezoito anos, enquanto ele me lançava um olhar desafiador. Como vai me tirar dessa agora? , era o que sua expressão dizia.Era uma situação difícil, ter alguém que você ama sob a mira de uma adaga, mas eu não estava me importando muito, na verdade. Afinal, se havia alguma certeza nessa situação, era que Leonard jamais feriria Josh. Sendo assim, lembro-me de ter avançado sem qualquer cautela, empunhando minha Katana, e simulando um golpe em meu treinador, o qual soltou Josh.–Sarah,- repreendeu-me. – não deve atacar de imediato quando há algum refém. Em uma situação real, Josh estaria morto antes que me atingisse. – eu bufei, cansada daquela aula. Estava lá a manhã toda e necessitava de uma pausa urgentemente, ou meus neurônios explodiriam. Como é que uma aula de luta poderia exigir tanto esforço mental?– Eu sei, eu sei. – murmurei. – Devo sondar, encontrar uma brecha e então atacar. – suspirei desanimada. – É que eu estou cansada... Podemos ter essa aula em outro dia?Leonard então sorriu, assentiu e permitiu que eu saísse." Mas não houve reprise da aula. Ele se sentiu mal no dia seguinte e faleceu quatro dias depois sem nenhum motivo aparente. Contudo seus conselhos estavam claros em minha mente agora: sondar, encontrar uma brecha, atacar.Comecei a analisar o recruta. A forma como segurava Josh e apoiava a faca. Tinha de haver um jeito... Um braço frouxo demais, ou um segundo de distração...– Revelando segredos de Estado, Sargento Walt?A conversa foi interrompida e fez-me virar, afim de encontrar a dona da voz. E é claro, era ela. Dorothea. Um som de sobressalto tornou-se audível e Melanie abaixou a cabeça, parando de discutir com Elliot de imediato.Agora era o fim. Definitivamente.
Notas finais
*Sui Generis: palavra em latim que signifca "único em seu gênero".
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