Living
27 Capítulo 21
Notas iniciais
CAPÍTULO 21
Eu não poderia dizer que fiquei surpresa com a aparição repentina de Dorothea, era algo que eu esperava – até ansiava, levando em conta que gostaria de aniquilá-la. Uma hora, ou outra ela daria o ar da graça. E essa hora havia chegado. Tentei reprimir um sorriso sádico ao pensar o quão perto estava de enfiar uma faca em sua jugular.
– Com prazer. – respondi e tinha que reconhecer que eu estava parecendo tão psicopata quanto ela; mas eu não me importei. Minha raiva pelo monte de entulho que ela havia transformado a Academia de Não-Humanos era imensa.
– Vai ser tão fácil assim? – ela arqueou uma sobrancelha, parecendo surpresa.
– E por que não seria? – perguntei de volta.
– Não sei. – respondeu com sinceridade. – Tenho a impressão de que não gostam de mim... Não é Lorena? – ela pronunciou o nome de Lorena com um tom de deboche e vi a mesma cerrar os punhos. Nathan se moveu para ficar mais próximo à ela e deslizou uma das mãos em seu braço parando para segurar seu pulso com delicadeza e lançando-me um olhar de esguelha como quem dizia “Resolva isso”.
Antes que eu pudesse pronunciar qualquer sentença, uma voz, a qual realmente me surpreendeu, ecoou detrás dos homens que acompanhavam Dorothea.
– Acho melhor conversarmos em minha casa. – disse.
– Tio Jerry? Como conseguiu sair? – mal pude controlar meu tom de voz, o qual saiu um tanto alto demais devido a surpresa de vê-lo lá.
– Tivemos uma mãozinha, mas eu explico depois. Não quero preocupa-la. – falou receoso.
– Como assim? O que houve? – perguntei rápida e impetuosamente.
– Melhor conversarmos com calma. – ele falou.
– Foi Josh? O que aconteceu? – e contra a minha vontade, acabei entrando em desespero. Tive de me repreender mentalmente por isso, não era digno uma guerreira, um soldado, deixar-se levar por sentimentos assim tão facilmente. – Foi Taylor...?
– Elliot. – falou, fazendo-me perder o rumo por alguns segundos.
– O-o quê? Elliot, o quê? Tio...
– Ele foi atingido. Levou um tiro, mas está vivo...
Todos podiam sentir minha raiva naquele momento, acho que era palpável. Eu queria saber quem fora o monstro que o havia ferido. Queria matar a pessoa, devagar, vê-la sofrer e sentir a dor que sabia que ele estava sentindo agora, mesmo sem poder vê-lo.
– Quem é Elliot? – ouvi Nathan murmurar, mas não me importei.
Dei um passo decidido para frente e foquei meu olhar em Dorothea.
– Onde. Ele. Está. – falei pausadamente, a encarando com uma postura arrogante e desafiadora, tal como a dela, deixando-nos em pé de igualdade.
– Muita calma aí, precisamos conversar primeiro. Todos nós. – falou, desafiando-me.
– Eu não vou a lugar algum antes de vê-lo.
– Não foi você quem disse que seria um prazer termos uma conversa...
– Mudei de ideia. – interrompi-a. – E acho melhor alguém me dizer onde ele está.
– O que vai fazer se ninguém disser?
– Quer pagar para ver? – subestimei-a com um leve sorriso sarcástico.
– Dorothea, chega! – disse meu tio se aproximando. Ela revirou os olhos e bufou dando um passo para trás e eu me surpreendi com esta reação. – Deixe-a. – e então meu tio se voltou para mim. – Ele está no seu quarto. O da minha casa. Vá rápido para que possamos resolver isso.
Eu assenti sem questionar e corri em direção a casa, a única que ainda estava de pé.
***
Subi as escadas correndo e me direcionei até a conhecida porta branca do meu quarto. Suspirei e estendi a mão para girar a maçaneta. Abri uma fresta da porta e me estiquei para espiar lá dentro. Elliot estava sentado em minha cama, ladeado por Katherine e Josh que tentavam, inutilmente fazê-lo se deitar. Ele tinha o abdômen envolto por gazes manchadas de sangue e estava sem camisa. Uma careta atravessou seu rosto quando ele tentou pôr-se de pé.
– Ei amigo, é melhor ficar onde está. – disse Kathie.
– Eu preciso achar a Sarah...
– Não vai conseguir achar ninguém desse jeito. – ela o interrompeu. – Só o que vai conseguir é levar outro tiro.
– Eu sei me cuidar, Katrina! – ele rebateu.
– É Katherine. – enfatizou. – K-A-T-H-E-R-I-N-E. Qual o problema de todos com meu nome? – ela sacudiu a cabeça parecendo indignada. – E se você soubesse se cuidar não estaria ferido.
– Concordo. – Josh se pronunciou. – Tentar ser mais rápido do que a bala da arma do meu irmão não é uma atitude muito prudente.
– Eu só...
– Eu sei, eu sei. Não precisa repetir aquele discurso de “Eu sou indiferente à você, mas eu amo a Sarah e sei que você é importante para ela, por isso pulei na frente para levar o tiro em seu lugar.” – Josh bufou, mas eu mal percebi. Fiquei paralisada diante da revelação de Josh.
– Eu ouvi isso, Elliot? – gritei sem nem ao menos me importar por tê-los assustado. – Você pulou na frente de uma bala por minha causa?
– Acho que vem uma DR por aí, é melhor irmos, Kathie. – Josh murmurou.
– DR? Eles estão...?
– Sim, por que acha que ela o trouxe? – ele pegou-a pelo braço e a puxou porta a fora. – Agora vamos.
Esperei o som dos passos deles tornarem-se inaudíveis antes de andar na direção de Ellitot e ataca-lo com tapas – nos braços, no peito, na cabeça – evitando a parte enfaixada.
– Ei, isso dói. – com alguma dificuldade ele conseguiu segurar meu braço. – Calma.
– Como posso ter calma, seu idiota! Você se joga na direção de uma bala e...
– Estava salvando seu amigo. – ele me lembrou com um sorriso torto.
– Sim, mas também estava arriscando a própria vida. – eu bufei e me soltei dele, sentando-me na beirada da cama ao seu lado. Virei-me para o fitar e o peguei me encarando, os olhos brilhavam minimamente e um sorriso bobo repartia os lábios. – O que foi?
– Eu devo estar muito apaixonado mesmo... – ele sacudiu a cabeça.
– Por que? – perguntei, desconcertada pela mudança de assunto repentina.
– Porque até quando está me batendo, eu te acho fascinante.
Revirei os olhos.
– Está tentando desviar do assunto. – murmurei.
– Estou mesmo. – concordou. – Mas não deixa de ser verdade.
– Elliot, falando sério agora, porque fez isso? – eu segurei seu olhar no meu, deixando transparecer toda a dúvida e intensidade que eu sentia em relação ao seu ato heroico nada prudente.
– Você já escutou o porquê. –falou simplesmente.
– Elliot...
– Já disse, Sarah – sua voz era mais alta agora e ele parecia irritado, o que estava me irritando. Fala sério, ele havia arriscado a própria vida e ainda pensava que tinha o direito de perder a paciência comigo? – por que eu te amo, quantas vezes quer ouvir isso?
– Só não me parece motivo o suficiente.
– Ah, não? – ele riu sem humor algum, deixando a irritação fluir com suas palavras, como as águas de rio. – Aposto que faria isso por seu tio. Ou pelo Nathan. – ele pronunciou o último nome com uma dose extra de repulsa. E ele tinha razão. Eu faria. Mas eu não daria o braço a torcer.
– Mas não foi na minha frente que você pulou. – lembrei-o.
– Mas eu tenho certeza de que você faria o mesmo por Lorena. Só para ver o seu Nathan feliz. — Não respondi. Não tinha como contra argumentar. – Além do mais, sou mais alto do que o Josh e bala o teria acertado no peito. – explicou. – E estou vivo, não estou? Mas podia ser que Josh não tivesse tido tanta sorte se eu não o tivesse feito.
– Tudo bem, me desculpe por gritar com você. – suspirei. – É que... eu não sei, não gosto de vê-lo fazer isso consigo mesmo.
– Estou lutando Sarah. – declarou. – Senão isso, o que estaria fazendo aqui? Foi para isso que me chamou, não foi?
– Também. – concordei e mordi o lábio inferior, desviando meu olhar do dele.
– Há mais? – ele perguntou.
– Sim e já te contei, lembra? – questionei retoricamente. – Gosto de você. De verdade, quantas vezes quer ouvir isso?
– O máximo de vezes que eu conseguir arrancar de você. – ele sorriu debochado.
– Engraçadinho. – murmurei sem consegui deixar de sorrir por um momento antes de voltar a ficar séria. – Eu gosto muito de você Elliot, mas, como também já disse, não posso dizer que estou apaixonada. Não ainda. E sinto muito por ainda não conseguir retribuir seus sentimentos na intensidade que você merece. Mas não sou altruísta e não vou te dispensar por isso. Sou extremamente egoísta para querer ter novas experiências com você, dar tempo ao meu coração de sentir o que o seu sente. Só preciso que você espere um pouquinho para ouvir o “eu te amo” que você tanto almeja.
– E eu posso esperar. – disse ele fitando-me com uma intensidade desconcertante. – Só não posso esperar para isso... – dito isso, nem um segundo se passou e seus lábios estavam nos meus. Pareciam famintos, porém ternos. Era uma mistura maravilhosa. Nossos lábios se moviam lentamente, mas explorávamos a boca um do outro de uma forma tão voraz que esqueci-me das circunstância e envolvi-o em um abraço forte, puxando-o para mim. Ele gemeu de dor no meio do beijo e me lembrei que ele estava ferido.
– Vamos com calma, querida. – brincou. – acabei de levar um tiro.
– Desculpe-me. – pedi, soltando-o e afastando-me um pouco. Fiquei por alguns minutos sentada ao seu lado, sua mão, a qual ele havia estendido para mim, acariciava a minha. Aproveitei o momento para regularizar minha respiração. Porém antes que eu pudesse finalizar o exercício para que enfim tomasse coragem para deixa-lo e iniciar a conversa com meu tio e a psicopata, alguém irrompeu na porta e, sem cerimônias adentrou no cômodo.
– Já terminaram? – perguntou a loura mentalmente perturbada que se sentou na cadeira da escrivaninha, enquanto o restante seguia-a, entrando no quarto.
– O que é isso? Uma invasão? – perguntei e olhei para Elliot, o qual encarava a todos parecendo confuso.
– Elliot também tem direito de participar da conversa. – explicou Dorothea, enquanto o espaço vazio do quarto era preenchido por Kathie e Josh que deviam tê-los encontrado antes que pudessem se livrar da reunião imposta, Lorena, Nathan, meu tio e dois recrutas.
Antes que qualquer um pudesse se pronunciar, meu tio, um líder nato, pôs-se à frente.
– Bom, creio que vocês estejam se perguntando o motivo disso tudo. – iniciou. – A justificativa desta reunião é que precisamos colocar tudo em pratos limpos. Gostaria de começar com você, Josh. – ele se voltou para o moreno, o qual agora parecia cauteloso. – Conte-nos sobre sua família... Seu irmão. Nunca soube que tinha um. Aliás ninguém nunca soube que você tinha uma família, pois essa história diverge da que você me contou ao chegar aqui.
Josh engoliu em seco e eu lhe lancei um olhar condescendente.
– Tio, eu não acho que deva obriga-lo à isso. Ninguém é um livro aberto o tempo todo. – defendi-o. – Todos temos direito de guardar segredos. Aposto que o senhor também tem os seus.
– Sim, eu os tenho. – concordou. – E esse é outro motivo pelo qual estamos todos aqui. Como eu disse, Sarah, vamos colocar tudo em pratos limpos. – ao me ver sem resposta ele voltou seus olhos cinzas para Josh. – E então, explique.
– Tudo bem, você descobriu, Jerry! – ele forçou um sorriso falso e ergueu as mãos em comemoração como se isso fosse uma surpresa agradável. – Tenho família e ela está em algum lugar Austrália, fugindo de Joshua e de mim.
Meu tio assentiu parecendo satisfeito e olhou para um dos recrutas o qual deu uma passo à frente com um sorriso presunçoso .
– Joshua, você pode nos dizer o que fizeram à família de vocês?
Meus olhos se arregalaram. Então aquele recruta era irmão de Josh? Olhei para Elliot buscando algum entendimento e ele deu de ombros, como se estivesse tão confuso quanto eu.
– Brigas de família. – disse o recruta de cabelos negros iguais aos de Josh e olhar ameaçador. – Não devia lhe importar.
Notei que Josh lhe lançou um olhar agradecido por sua explicação vaga.
– Mas me importa. – Dorothea se pronunciou. – Agora estou curiosa, Joshua. Diga-nos.
Joshua trincou a mandíbula lançou um olhar homicida a Jerry antes de começar.
– Nossos pais brigavam muito. Na verdade nosso pai brigava muito com a nossa mãe, chagava a machuca-la. Eles nunca souberam do nosso dom, na verdade, mas nos dois descobrimos conforme crescíamos e decidimos não expor à ninguém. Até que um dia, meu pai chegou bêbado em casa e bateu em minha mãe, deixando-a desacordada, e então partiu para nossa irmã mais nova. Ela só tinha alguns anos...
– Quatro anos. – Josh o interrompeu.
– Que seja! Resolvemos interferir. Tiramos nossa irmã e mãe do cômodo e... naquele dia parte do teto veio abaixo, bem sobre ele.
– Vocês o mataram? – perguntou Dorothea, curvando o corpo para frente, parecendo interessada.
– Ele não morreu. – foi Josh quem respondeu. – Mas perdeu os movimentos da pernas. Mesmo em outro cômodo, pela porta aberta minha mãe presenciou tudo e nos expulsou de casa. Assim que meu pai teve alta no hospital eles viajaram e nunca mais o vimos. Eles têm medo de nós.
– Uau. – disse Dorothea. – Devia ter me contado antes Joshua, poderia subir de cargo por isso. – brincou. Joshua revirou os olhos e ficou calado.
– Você não sabia? – perguntei num ímpeto, uma vez que ela parecia saber a história de todos os que trabalhavam para ela.
– Sei do passado daqueles que eu busco, Joshua veio à mim por livre e espontânea vontade. – esclareceu.
– E foi por isso que nunca contei a nenhum de vocês sobre ele. – explicou Josh, para todos, embora seus olhos estivessem em mim. Talvez ele pensasse que eu estava chateada por ele ter escondido isso de mim. Eu que fui sua amiga desde que ela chegou aqui. – Quando soubemos o que ela estava fazendo, — ele gesticulou para Dorothea com desdém. – disse à ele que não seria mais meu irmão se aliasse-se à ela. E foi o que ocorreu.
– Certo. – meu tio assentiu. – Não há mais nada o que contar?
– Não. – disse Joshua. – A não ser que queira saber a cor da minha roupa íntima. – ninguém pode conter o riso diante da piada e meu tio fechou a cara.
– Agora é sua vez? – perguntei à ele assim que consegui parar de rir e o clima sério e pesado voltou tão rápido quanto havia ido.
Tio Jerry assentiu.
– Prefere falar, Dorothea? – ele perguntou.
– Vá em frente. – respondeu, indiferente.
– O que ela tem a ver com isso, tio? – perguntei completamente confusa e confesso, um pouco temerosa.
– Não consigo pensar em uma maneira melhor de lhe contar isso, Sarah, então vou falar sem rodeios. – ele se aproximou da mim e colocou a mão em meu ombro. Elliot me olhou de esguelha, tentando entender a situação tanto quanto eu.
– Então diga. — encorajei-o.
– Dorothea é sua mãe.
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