Living
35 Capítulo 27
Notas iniciais
Capítulo 27
Meu coração batia furiosamente em meu peito e o medo se apossava de mim de uma forma assustadora. Eu estava paralisada no lugar, os olhos arregalados e a respiração irregular. Dorothea sorria olhando Elliot no chão empoçado, os olhos fechados e imóvel.
Não demorou muito para a determinação sobrepor o temor. Apesar de saber que isso poderia me matar de desgosto mais tarde, eu senti esperanças. Ele não podia morrer. Não depois de tudo. Não depois de eu admitir internamente meu amor por ele.
A luta havia cessado com o grito e foi mais fácil correr na direção dele; ainda que alguns tentassem me ferir, meu escudo projetava-se a minha volta quase que instintivamente, enquanto meus olhos estavam fixos em Elliot. Alcancei-o, ignorando completamente Dorothea que sorria em minha direção e fiz menção de tocar seu rosto.
— Não devia tocá-lo. – interveio Dorothea. – Sabe, não é seguro devido à voltagem do choque que ele recebeu, filha.
— Desde quando você se preocupa, Psicopata? – sibilei, voltando-me para ele.
Toquei seu rosto com delicadeza e deslizei meus dedos até seu pescoço, para sentir a pulsação.
— Meu amor... – suspirei, posicionando meu dedo indicador e o dedo médio sobre o local onde deveria ter uma pulsação; porém sequer pude identificar qualquer coisa. Antes uma sensação estranha me tomou, como se estivéssemos sendo observados – o que era ridículo, contando que todos estavam me observando. Contudo meu instinto fez-me olhar.
Meus lábios se separaram ao identificar Joshua pouco atrás de seu irmão. Ele estava extremamente debilitado e sangue jorrava da ferida em seu abdômen, a qual minha faca provocara. Mas o que mais me chocou, não foi o fato de vê-lo vivo e andando, mas sim, por portar uma faca de desossar. Grande e afiada. A qual estava a centímetros de apunhalar as costas de Josh. Não havia tempo de gritar, não havia tempo de fazer nada. Estava pronta para mais um rombo me meu coração, para mais uma perda.
Mas algo que eu não esperava aconteceu. Algo completamente inusitado, que fez-me encarar por longos segundos, pasma, a cena que se seguiu. A faca que estava nas mãos de Joshua simplesmente saiu de sua mão, como se alguém a tivesse tomado e seguiu flutuando em minha direção. Eu já estava paralisada a essa altura, sem conseguir esboçar reação. E então a faca voou e atingiu Dorothea em cheio no peito.
Pude sentir a tensão no ar, enquanto ela arregalava os olhos para algo atrás de mim e caia de joelhos, antes de desabar no chão, fazendo a faca enterrar ainda mais dentro de si.
Permiti-me um momento de choque. A cena perpassava em minha mente enquanto eu tentava desesperadamente achar algum sentido. Pela visão periférica vi Josh derrubar seu irmão e outros partirem para ficar em volta deles.
E então, após alguns segundos parada fitando o horizonte, algo pareceu clarear em minha mente e virei-me para trás. O que eu vi acelerou meu coração, mas dessa vez de uma forma boa. Extremamente boa. Os olhos verdes que aprendera a amar estavam abertos, fitando-me.
— E-Elliot? – eu arfei e ele sorriu.
— É bom saber que tenho a capacidade de fazê-la gaguejar.
Eu sorri de volta e, antes que fizesse menção de me aproximar e abraça-lo, uma força irresistível me puxou em sua direção, chocando nossos corpos.
— Elliot, o-o quê...?
— Meu dom. – ele riu. – Eu consigo senti-lo, Sarah!
— Eu não acredito! – exclamei.
— Acredite! – ele sorriu. – Estou vivo e tenho meu dom de volta! O que está esperando para me beijar? – ele arqueou uma sobrancelha. — Ouvi você me chamando de meu amor, antes que resolva fingir que não o fez, ok?
— Mas, como? – eu não faria nada até entender o que realmente estava acontecendo. Parecia irreal, completamente irreal.
— Eu não sei se posso te dizer ao certo, mas tenho uma teoria bem plausível. – disse.
— E qual seria? – indaguei.
— Primeiro, o beijo. – ele sorriu, travesso.
— Não. Primeiro, esclarecimentos. – rebati, mordendo o lábio inferior para não sorrir.
Era difícil conter minha felicidade, pois por um segundo eu pensei tê-lo perdido; por alguns minutos eu pensei ter que conviver com o monstro que se dizia minha mãe e agora, milagrosamente, tudo parecia ter entrado nos eixos novamente, ainda que com perdas irreversíveis.
— Nem pensando que morri você amolece, não é? – ele riu e fez menção de se sentar. Movi-me para o lado, permitindo que ele se levantasse. – Lembra de quando te contei como havia perdido meu dom? – questionou e eu assenti.
— Sim, você disse que a Psicopata fez experiências com você e atingiu o objetivo com um choque... –
— Exatamente! – ele me interrompeu com um sorriso presunçoso.
— Espera! É isso, você obteve seus poderes de volta porque ela te atacou! A voltagem do choque que você recebeu foi tão grande quanto a outra?
— Sim. E isso despertou meu dom novamente. — concluiu.
— Faz sentido. – eu disse por fim.
— Com certeza. – concordou. — E o beijo? – pediu.
Eu sorri e me aproximei tocando seus lábios com os meus de forma breve e me afastando em seguida. Elliot murmurou, protestando.
— Vamos com calma. – sussurrei. – Ainda temos que lidar com os que ficaram. – lembrei-o.
— Eu posso fazer isso. – propôs. – Conheço a maioria deles.
— Fique a vontade, meu amor.
— Não me provoque, querida. – seus olhos me analisaram de forma intensa, antes de se pôr-se de pé e estender a mão para mim. Sem hesitar eu a peguei e caminhei com ele até a concentração de recrutas.
— Melanie? – chamou.
A garota se virou com uma expressão contrariada e se aproximou de nós. Parecia estar esperando uma ataque ou algo do tipo.
— O que quer? – ela manteve uma distancia minimamente segura e cruzou os braços, na defensiva. – Vai tentar nos matar?
— Não. – respondeu, fazendo a transparecer em seu rosto que havia sido surpreendida pela resposta.
— Não?
— Não. – confirmei.
— Então, o que querem?
— Queremos saber se vão continuar lutando. – disse Elliot.
— Nossa líder morreu. – explicou. – Essa luta é dela, não nossa. Estávamos nessa pela nossa liberdade, agora a temos, creio eu.
— Sim, vocês a tem. – falei.
— Isso é um cessar fogo?
— Mais que isso. – Elliot falou. – Estamos levantando a bandeira branca. Queremos um tratado de paz.
— Por mim, terão.
— Não pode responder por todos? – questionei.
— Somos livres agora. – explicou Melanie. – Acho que não sou mais a superior deles.
— Mas pode tentar convencê-los. – rebateu Elliot e eles ficaram se encarando por um longo tempo.
— Pois bem. – ela deu de ombros e os chamou. – Soldados! –eles se aglomeraram a sua frente respondendo ao chamado da antiga Sargento. – Nossa líder morreu. Ainda estamos em vantagem por aqui, contudo, acho que concordam que essa luta não é nossa. Temos uma proposta. Um tratado de paz. Vocês estão dispostos a deixa-los? Irem embora e deixa-los vivos? – ela falou essa última parte encarando Elliot, o qual permaneceu irredutível ao meu lado.
— Eu me recuso a continuar. – gritou um dos soldados, sendo acompanhados por outros.
— Eu fico com o que a maioria decidir. – disse uma garota loira usando uma blusa florida e segurando uma arma.
O burburinho de vozes foi ficando mais alto enquanto todos falavam ao mesmo tempo, discutindo. Ainda que eu sentisse que a probabilidade de que aceitassem nossa proposta fosse favorável, não conseguia me impedir de ficar ansiosa. Por fim um soldado alto e negro se pronunciou.
— Aceitamos o tratado. – gritou para Melanie, a qual nos olhou em confirmação.
Estávamos livres, enfim.
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