Living
20 Capítulo 16
Notas iniciais
CAPÍTULO 16
O restante do caminho foi deliberadamente demorado; talvez fosse por causa do cansaço ou talvez fosse por causa da minha ansiedade em contar tudo ao meu Tio e à Nathan. As vezes Josh me lançava olhares debochados por conta do meu pé direito que insistia em bater ritmado contra o chão de metal do jatinho.
Quando enfim Josh pousou o avião, o deixamos na pista do exército e seguimos a pé pela floresta, a pequena e densa mata que ficava entre a civilização e a Academia de Não-Humanos; a cada passo, eu me sentia mais eufórica. Em parte, porque eu estava ansiosa em mostrar tudo à Elliot; embora soubesse que quando chegasse deveria me dedicar única e exclusivamente à um plano para derrotar a psicopata e a outra razão da minha ansiedade era exatamente essa: chegar o quanto antes para arquitetar um plano contra a psicopata. E por esses motivos, o caminho cercado de natureza que eu achara tão agradável quando o percorri da primeira vez, me parecia agora tortuosamente longo. O silêncio era palpável entre nós, haviam apenas os sons suaves da floresta e de nossos passos esmagando as folhas espalhadas por todo o solo.
O sol estava quase se pondo quando encontramos uma pequena cachoeira de águas cristalinas e decidimos acampar debaixo de algumas árvores que ficavam envolta dela. Por sorte, Josh e Taylor haviam trazido as barracas que usaram na ida e eu tinha a minha na mala, a qual era grande o suficiente para duas pessoas.
Por fim, Taylor e eu dividiríamos uma barraca, enquanto Elliot e Josh dormiriam cada um em uma. E assim que as barracas foram montadas, Josh se direcionou para a sua deixando Taylor ligeiramente preocupada.
– Eu não entendo... – ela murmurou, mantendo o olhar fixo em Elliot, o qual fitava a cachoeira com uma ligeira fascinação. — por que Josh recusa-se a confiar nele? Será por minha causa? Eu não devia ter agido daquela forma quando o vi...
– Shh. – silenciei-a. – Não fique se lamentando, ok?
– Mas eu não queria ter causado confusão alguma.
– Mas causou. – falei. – E, quer saber? Dane-se! Josh tem que parar de ser infantil e orgulhoso.
– Sarah...
– É a verdade, Taylor. – interrompi-a. – Não conseguiremos dar a volta por cima nessa situação se Josh insistir em agir como um garoto mimado. Ele se recusa a admitir que teve a impressão errada em relação a Elliot.
– Mas, será que teve mesmo? – ela perguntou, a voz saiu tão baixa, que à princípio duvidei que tivesse mesmo verbalizado aquilo.
– Ah, por favor! – pedi. – Por favor, por favor, você também não. – suspirei. – Achei que essa situação havia se acertado, pelo menos com você!
– Não me entenda errado, Sarah, é que Josh parece tão convicto... Parece tão certo em suas suspeitas, tão seguro de si...
– Ele também parecia assim quando o conheci. –rebati. – Olha Taylor, se vai começar a apoiá-lo, vou ser obrigada a me retirar, por que estou cansada demais para discutir hoje, ok?
Nem me dei ao trabalho de esperá-la responder, levantei-me do monte
de folhas onde me encontrava, em frente à nossa barraca, e segui até a beirada da cachoeira, onde Elliot estava sentado, admirando a paisagem à luz do luar. Fiquei um momento fitando-o apenas, suas costas cobertas pela camiseta preta amarrotada, seus fios castanhos e lisos, ligeiramente desgrenhados, ora mais escuros, ora mais claros, de acordo com o modo como a lua refletia nele. Sorri. Lembrei-me da primeira vez em que o vi: em um beco escuro, sendo agredido por três caras enormes e armados...
Ele se virou, provavelmente sentiu minha presença atrás de si. Eu sorri e me aproximei, sentando-me ao seu lado.
– Como vão os hematomas? – perguntei, olhando-o nos olhos. Elliot fez uma careta e deu de ombros. Há essa altura, ele já havia tirado o curativo que cobria o ferimento na lateral do rosto e embora já não estivesse mais aberto, a pele tinha uma aparência rosada, meio inflamada. – Você não queria ter vindo, não é?
– De onde tirou essa idéia, Sarah? – ele perguntou se virando-se para mim com uma sobrancelha arqueada.
– Do seu modo de agir desde que saímos da Chicago. – esclareci.
Ele soltou o ar devagar e se aproximou um pouco de mim, os olhos sondando os meus.
– A verdade? – perguntou, receoso.
– Sempre.
Ele ergueu a mão e tocou meu rosto de leve, acariciando levemente da bochecha até o queixo. Fechei os olhos por um segundo, aproveitando a sensação.
– Eu vim por você e vou lutar por você. E não porque eu queira vingança ou algo do tipo. – explicou. – E depois do que você disse lá na pensão... – ele sacudiu a cabeça. – acho que finalmente tenho esperanças.
– Gosto da sua sinceridade. – eu sorri.
– E eu da sua. – disse ele retribuindo o sorriso e então voltou a olhar a cachoeira. Ficamos assim por um tempo, olhando a inegável beleza da natureza. O som borbulhante das águas da cacheira era algo extremamente reconfortante. Eu me sentia em casa, embora claramente não estivesse; e ter Elliot ao meu lado nesse momento, só tornava o cenário ainda mais agradável.
A princípio, não notei quando peguei no sono, somente quando Elliot me acordou com um cutucão na costela e um sussurro em meu ouvido, que me levantei, surpresa por ter adormecido com a cabeça recostada em seu ombro. Seu cheiro amadeirado parecia estar em toda parte quando me despedi com um abraço e caminhei em direção a minha barraca. Ele parecia ter grudado em mim, e eu realmente gostava disso. Talvez seja esse o motivo de ele ter aparecido em mus sonhos esta noite, mas, ainda que fosse um dos melhores sonhos que eu já tivera na vida; sabia que quando abrisse os olhos isso não mais importaria. Nós estávamos à beira da ruína total e, curiosamente, assim que eu abri os olhos, senti que aquele seria um dia crucial; que poderia ser o último dia para planejamentos e estratégias. Eu não sabia exatamente o porque, mas sentia que Dorothea estava perigosamente perto.
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