Living
17 Capítulo 13
Notas iniciais
CAPÍTULO 13
Elliot estava parecendo com uma múmia, com várias ataduras enroladas na testa e nos pulsos.
É claro que a Sra. Croollyn não o deixaria sair incólume: ela praticamente carregou Elliot até o meu carro, quando chegamos, e me obrigou a levar a ambos ao pronto socorro. Lá eles fizeram o típico ritual de desinfetar e cobrir os ferimentos com gaze – o qual eu mesma poderia ter feito, e logo após, trouxe os dois para a pensão novamente. Agora, depois de todo o reboliço e correria que a Senhorinha dona da pensão nos havia imposto, estávamos no quarto dele: ele deitado, os olhos verdes sendo encobertos pelas pálpebras a cada vez que ele piscava, sonolento e eu, apenas sentada em uma cadeira, a qual eu arrastara de perto de sua escrivaninha e posicionara de modo a conseguir ficar de olho nele.
Apesar dos cuidados, Elliot ainda me parecia um pouco pálido, e temi que tivesse perdido uma quantidade considerável de sangue. Instintivamente, inclinei-me para frente na cadeira e toquei seu rosto com as costas da mão esquerda, mas, para meu alívio, sua pele estava fresca.
– Não consegue manter suas mãos longe de mim por muito tempo, não é? – sobressaltada, pulei na cadeira. Seus olhos estavam abertos, tal como seus lábios em um sorriso triunfante, quando o fitei.
– E você não consegue ficar calado. — revidei com um sorriso.
Ele revirou os olhos, os quais voltaram a se fechar após um momento.
Olhando para ele agora, era difícil me submeter à minha antiga decisão de me afastar, pois várias foram as circunstâncias que colaboraram com nossa aproximação. E principalmente agora que ele sabia a verdade sobre mim, a qual não era tão distante da sua própria verdade; eu não conseguia encontrar nenhum argumento coerente para me convencer a me afastar. E, sinceramente, eu não queria.
– Sarah. – chamou Elliot, interrompendo meus devaneios.
– Sim?
– Lembra que, no carro, eu falei que te contaria algo depois? – perguntou, fitando-me.
– Na verdade eu tinha esquecido. Mas diga. – incentivei-o.
– Bom, acho que você não chegou a ouvir essa parte, pois ainda não está desesperada...
– O que? – interrompi-o, ansiosa de repente.
– Quando Dorothea nos achou, Taylor estava distraída demais tentando se soltar dos caras que a seguravam para prestar a atenção no que Dorothea discutia com um de seus homens. Ela estava um pouco afastada, acho que você viu, então acredito que não desconfie que eu tenha ouvido o que disse.
– E o que ela dizia?
– Ela estava discutindo sobre... – ele hesitou. – sobre uma possível invasão à Academia de Não-Humanos.
Como se suas palavras ativado algum botão de “pause” em mim, eu congelei. Meu coração pareceu falhar uma batida. Minha respiração ficou presa na garganta e eu nenhum músculo do meu corpo se movia – eles simplesmente não obedeciam ao comando vão do meu cérebro.
– Não consegui ouvir os detalhes, mas estou certo de ter escutado que seu intuito é invadir daqui alguns dias... – ele se interrompeu — Sarah, você está bem? – Elliot se sentou na cama e me fitou com um olhar alarmado. – Fale comigo.
Ainda assim eu não conseguia me mover, mas supus que meu olhar deveria estar bastante vago, a julgar pela expressão apavorada no rosto dele. Mal notei quando Elliot jogou os cobertores de lado e se moveu na cama até estar de frente comigo, as mãos apertando de leve meus ombros.
Um longo momento se passou até que eu conseguisse puxar um pouco de ar para dentro dos pulmões e focalizar meus olhar nos olhos ansiosos de Elliot. Ele soltou um suspiro aliviado e deixou os braços caírem no colo.
– Aquela mulher... – falei entredentes. – Aquele monstro... – minha mandíbula estava trancada e eu tinha certeza de que se um pensamento pudesse matar, Dorothea já não estaria respirando. – Eles estão correndo perigo, Elliot. Eu preciso acabar com aquela desalmada.
– Sarah, procure se acalmar um pouco...
– É impossível! – explodi, minha voz se elevando mais que o necessário. – Ela quer mata-los, tenho certeza disso; depois de tudo o que fez... Ela quase matou o Nate, ela com certeza vai querê-lo morto apenas pela audácia de ter sobrevivido a um ataque dela, ela vai querer mata-lo e eu preciso impedir...
– Sarah...
– E também tem meu tio. Ela também o odeia. Não posso deixar isso acontecer, não posso. – enquanto eu falava desenfreadamente algumas lágrimas geladas ousaram escorrer por meu rosto, molhando minhas bochechas. – Eu não posso deixar isso acontecer, eu preciso... preciso...
– Ei! – Elliot em fim chamou minha atenção. Olhei para ele com os olhos arregalados, desconsolada. – Sarah, vai ficar tudo bem, procure se acalmar.
– Não, eu preciso impedir.
Elliot nada disse por um momento, apenas estendeu a mão e limpou os rastros que as lágrimas deixaram em minha face. Então ele inclinou lentamente o rosto em direção ao meu, os olhos se fechando enquanto sua testa encostava-se na minha. Pude sentir a textura áspera da gaze contra minha pele, mas acima de tudo, pude sentir seu apoio. Nunca havia sentido isso antes, todos tinham em mim uma mulher forte, que não precisava de ajuda, de consolo. Mas agora, com seu simples gesto pude me sentir amada, enfim. E esse sentimento resplandeceu em mim, apesar da dor do desespero mediante a situação. Poderiam ter se passado minutos ou horas, mas enfim, após uma idéia repentina, levantei-me, de repente e segurei seu rosto entre minhas mãos; sentindo a textura ligeiramente áspera da barba por fazer, provocando arranhões na minha pele; os olhos verdes me examinavam como se eu fosse o mais interessante dos livros.
– Eu vou para Óregon. Preciso avisá-los, para que fiquem preparados. – declarei. Ainda havia tempo de impedir, tinha de haver tempo. Eu poderia chegar lá antes dela se quisesse e apostava que Dorothea ainda tinha que terminar os preparativos para o ataque.
–Vou sentir sua falta.
– Vem comigo. – propus.
– O que? – perguntou, descrente.
– Quero que vá. Comigo. Até Óregon. Até a Academia de Não-Humanos.
– Por que? –perguntou arqueando uma sobrancelha e retirando minhas mãos de seu rosto para que pudesse levantar. Elliot andou pelo quarto, parecendo nervoso. – Sarah, eu não posso ficar lá. Aquele lugar não é para pessoas como eu.
– É sim! – o contradisse, me levantando também até estar de frente para ele, obrigando-o a interromper sua caminhada. – Seus poderes...
– Não existem mais. – interrompeu-me. – Sou tão comum quanto Matt, a Sra. Croollyn e a maioria da população mundial. Eles não vão me querer lá.
– Meu tio é o fundador, ele não se importaria, tenho certeza.
– Mas sempre haverá alguém me olhando diferente, Sarah. Esqueceu para quem eu “trabalhei”? – seu tom de voz era carregado de sarcasmo.
– Eles não se importam com isso...
– Seu amigo querido será o primeiro. – ele continuou como se eu não tivesse dito nada.
– O Nate?
– O Josh. – ele suspirou passando a mão pelos fios castanhos e desgrenhados do seu cabelo. – Esqueceu como ele me tratou quando descobriu.
– Josh é meio superprotetor.
– E o Nate? – perguntou com a voz ácida.
Eu bufei.
– Você só está desviando o assunto.
– Essa luta não é minha.
– É sim. – eu parei. – Esqueceu o que ela fez com você?
– Não. Mas não quero passar o restante da minha vida planejando uma vingança que eu não terei chances de concluir. Eu quero mais que isso para o meu futuro.
– E por isso vai deixar que ela repita o feito com outros? – indaguei e ele nada disse em sua defesa. – Desculpe-me mais isso é muito egoísmo.
– Sim, é. E é isso que me manteve vivo até agora.
Eu bufei.
– Essa é mesmo a sua resposta final? – perguntei arqueando uma sobrancelha.
Ele fechou os olhos por um breve momento e respirou fundo uma vez antes de abri-los novamente. Seus olhos verdes brilhavam e me mantinham hipnotizada enquanto ele falava.
– Sarah, eu só lhe contei isso, por que sei o quão importante eles são para você. Não os conheço, não posso dizer que gosto deles.
– Então por que se incomodou? Em me contar, já que você é indiferente...
– Por que eu amo você. E sei o quanto a machucaria perdê-los. – ele falou isso de forma rápida e instantânea. Definitiva, como se não houvesse mais dúvida alguma.
– Você, o que...?
– O que você ouviu. Eu a amo. Simples assim.
Como se já não bastasse suas palavras para me deixar desconcertada, ainda tinha seus olhos. Seus olhos me fitavam de uma forma que ninguém jamais o tinha feito.
– Não sei o que dizer...
– Diga que vai fazer o impossível para voltar inteira de Óregon.
– Então você realmente não vai. – não foi uma pergunta, ele deixara isso claro com suas palavras; foi somente uma confirmação, uma última tentativa de convencê-lo.
– Não posso...
– Tudo bem. – interrompi-o. – Não vou insistir, a consciência é sua afinal. – ele suspirou e abriu a boca na tentativa de falar, mas eu o impedi. – Eu já vou indo, tenho que arrumar minhas malas.
Dito isso, rumei para a porta e coloquei a mão na maçaneta, hesitante.
– E só para deixar claro – comecei, ainda de costas para ele. – não pedi para que fosse por que preciso da sua ajuda. – dei uma pausa antes de continuar. – Pedi para que me acompanhasse por que gosto da sua companhia. Por que sentirei sua falta. – e antes que ele tivesse tempo para dizer algo, abri a porta e saí de seu quarto, tão confusa com meus sentimentos quanto deveria tê-lo deixado.
Fale com o autor