Livin' On A Prayer
8 Phoenix
Notas iniciais
17/06/2012
Um som estarrecedor de guitarra era emitido pelo amplificador apontado para porta do quarto de Sasuke. As notas eram tocadas em ritmo rápido, porém a cada quatro vezes tocada a sequência harmônica das notas mais graves, havia uma breve pausa e depois era seguida de uma curta melodia, um microssolo, nas cordas mais agudas. A sensação transmitida por aquele arranjo era de que um cigano pusera de lado sua viola e tomara em mãos uma guitarra, transmitindo dessa forma a energia necessária para criar uma levada flamenca com timbre metalizado.
– Hey, Naruto está muito alto! Para! – gritou Choji tapando os ouvidos com a ponta dos dedos enquanto tentava manter o roupão de cetim que lhe fora emprestado fechado.
– O que foi? – perguntou o Uzumaki depois de parar de tocar.
– Deixe ele dormir. Provavelmente não virá conosco por enquanto. – disse Shikamaru.
– Nem ferrando! Essa bicha vai com a gente e vai sair agora! – falou batendo raivosamente na porta. – Acorda porra! Vamos logo, Sasuke!
Silêncio. Após os furiosos golpes contra a porta não houve resposta, ruídos ou coisa do gênero. Por isso, a cólera de Naruto aumentou vertiginosamente, pois isso significava que ou Sasuke estava acordado, mas esperava que eles fossem embora caso não fizesse barulho, ou então ele estava realmente dormindo ainda; de qualquer forma, o Uchiha ainda estava ignorando os chamados que lhe foram feitos.
Choji e Shikamaru tentavam persuadir Naruto a voltarem, contudo o loiro estava determinado a retirar o amigo daquele quarto. Foi então que o Uzumaki retirou a guitarra e a entregou a Shikamaru por um momento, tomou uma certa distância e então correu com os ombros em direção aquela porta. A cada golpe, a estrutura de madeira parecia que iria ruir. Naruto respirou fundo, aumentou ainda mais a distância e então correu em direção ao mesmo ponto que ele golpeara outras vezes. Na eminência da colisão a porta se abriu e Naruto entrou cambaleante no quarto, estava determinado a brigar com Sasuke, mas antes mesmo que ele pudesse erguer por completo a cabeça, o Uchiha interrompeu seu fluxo de pensamento:
– Tem como você repetir aquilo que você estava tocando agora de pouco? – indagou se dirigindo a escrivaninha com um papel todo rabiscado em mãos.
– Mas o quê? – questionou Naruto um pouco surpreso.
– Tá tudo bem com vocês? – Choji perguntou enquanto entrava no quarto.
– Toma aqui, Naruto. – disse Shikamaru lhe devolvendo sua guitarra. – Se precisarem de mim estarei lá fora fumando.
– Por que você quer que eu toque novamente, Sasuke? – perguntou o Uzumaki se preparando para tocar.
Sasuke se manteve em silêncio com a cabeça abaixada enquanto continuava a escrever. Naruto fez menção de perguntar algo, mas se ateve a simplesmente a repetir aquilo que estava tocando anteriormente. Após terminar de tocar, Naruto se aproximou de Sasuke para observar o que ele estava escrevendo. Antes que o loiro pudesse ler aquele papel, Sasuke virou e pediu que ele repetisse. Naruto suspirou fundo e então começou a tocar da mesma forma como havia feito anteriormente, porém dessa vez o Uchiha se levantou e, enquanto via a execução das notas, começou a cantarolar algumas melodias tendo encaixá-las naquele arranjo.
Enquanto isso ocorria, Shikamaru havia regressado do quintal e parara na frente da porta observando com um ar de curiosidade o que aqueles dois estavam fazendo; Choji, por sua vez, estava boquiaberto assistindo àquela sintonia, era incrível como rapidamente um completava a ideia do outro.
– Acho que finalmente consegui! – exclamou Sasuke. – Naruto, pode repetir novamente, mas dessa vez mais devagar naquele segundo riff?
– Tá, posso sim. – respondeu receoso. – Mas você pode me explicar o que foi isso? Por que você não está mais puto?
– Ainda estou puto com você, mas tive uma inspiração que não poderia deixar escapar. – respondeu com o pensamento longe enquanto se concentrava para começar a cantar.
– Inspiração... – disse Naruto esperando que a lacuna de informação fosse preenchida.
– Antes de você voltar aqui pela segunda vez, eu tive um sonho estranho. Lembra daquela garota que eu conheci enquanto você estava viajando pela Europa alguns anos atrás?
– Aquela que te deu bolo e não foi mais te encontrar?
– Filho da puta. – Sasuke bradou. – Sim, essa mesmo. Então, eu... – o Uchiha fora interrompido durante a explicação.
– Quem é essa garota? – questionou Choji que logo em seguida se retraiu ao receber um olhar de reprovação de Sasuke. – Desculpa, é que eu tô perdido. Será que você poderia explicar para mim e pro Shikamaru? Estamos curiosos. – falou timidamente enquanto apontava para o jovem de rabo-de-cavalo.
– Na verdade eu não estou curioso. Estou bem em não saber. – disse Shikamaru calmamente.
– Tá, tá, tá. Vou encurtar a histórias o máximo possível. – disse Naruto impaciente. – Foi a primeira mina que o Sasuke pegou. Ela era uma garota que vivia sofrendo bullying e um dia desses cortaram e pintaram o cabelo dela de rosa, aí o fodão ali – apontou para Sasuke – foi o príncipe encantado dela, lhe deu ombro amigo e eles se pegaram uns dias depois. Tava tudo um mar de rosas, até que eles marcaram para sair juntos no Natal e ela não apareceu; desde de então os dois nunca mais se encontraram. Fim. – finalizou a curta história com um tom sardônico enquanto fazia uma curva de agradecimento igual àquela feita por atores de teatro no final da peça.
– Obrigado. – bufou Sasuke enquanto lançava sobre Naruto um olhar mortal. – De qualquer forma, eu sonhei que estava em um grande salão escuro em que um violonista executava Malagueña. À frente do músico havia uma garota com longos cabelos loiros, vestida com um vestido branco e longo, dançando. Conforme a dança prosseguia, as luzes eram acesas e revelavam uma imensa plateia que começou a vaiar a apresentação arremessando objetos que feriam aquela garota. Os machucados eram tão severos que o branco lentamente se transformou em vermelho. Quando ela já estava inteiramente rubra de sangue, as pontas de seus cabelos se incendiaram e as labaredas acertaram a todos. Apesar de ter consumido seus algozes, o fogo também a consumiu por completo...
– Muito boa a descrição, mas e daí? – interrompeu Naruto já meio impaciente. – Chega de lero-lero e vamos para o que interessa.
– Calma, porra! – retrucou Sasuke. – Depois que o fogo a consumiu por completo, seu esqueleto se reergueu e disse: "Vamos renascer juntos". Aí eu acordei com um puta barulho feito por você – apontou para Naruto – Depois de perceber tudo o que estava acontecendo eu me lembrei de um antigo poema que eu tinha escrito, eu o peguei e fiz algumas alterações enquanto escutava o que você estava tocando. O resto você já sabe. – o Uchiha então suspirou fundo. – Podemos tocar agora?
Naruto novamente voltou a tocar sua guitarra naquele ritmo que já fora executado muitas vezes nesse dia. Dessa vez, contudo, Choji e Shikamaru fitaram com mais atenção aos outros dois músicos que finalmente iriam juntar a parte instrumental com a poesia. Ao final da introdução marcada por palhetadas rápidas e agressivas golpeando os acordes de E5, F5 e G5 houve uma pausa que deixou o acorde de Mi com quinta ecoar até que chegasse o momento do segundo riff e do início do primeiro verso. A atmosfera naquele quarto mudara. Todos estavam tensos esperando o resultado que seria.
For a long time I just cried
(Por um longo tempo eu apenas chorei)
But now there's no place to hide
(Mas agora não há nenhum lugar para se esconder)
I need to be brave
(Eu preciso ser corajoso)
And change the way I behave
(E mudar a maneira como me comporto)
Ao final do primeiro verso a surpresa era presente no rosto de cada um daqueles jovens, mas o motivo que provocara aquela sensação em cada um era diferente. Em Naruto a surpresa era em detrimento da letra, que parecia um pedido de desculpas de Sasuke para eles, aquelas palavras reafirmavam que dessa vez o Uchiha realmente queria algo maior; Choji se espantou na maneira como aqueles dois conseguiam criar música com uma facilidade tremenda; Shikmaru, por sua vez, pensava que estava presente em um momento histórico, como se fosse o renascimento espiritual da entidade Lennon-McCartney diante de seus olhos; por fim, Sasuke estava surpreso com a reação dos outros, pois não esperava que eles ficassem daquela forma o encarando.
In the darkest hour
(Na hora mais sombria)
I cannot be a coward
(Eu não posso ser um covarde)
I must stand up and fight
(Devo ficar de pé e lutar)
Even if victory is out of sight
(Mesmo que a vitória esteja fora de vista)
Ao final do segundo verso, Naruto tocou uma variação mais aguda do segundo riff e então iniciou uma seção de acordes mais lentos já que haviam chego no refrão.
This is the only chance
(Esta é a única chance)
I have to advance
(Tenho que avançar)
No matter how hard you beat
(Não importa o quão forte você bata)
I will never be defeat
(Nunca serei derrotado)
My body will vanish in thousand flashes
(Meu corpo irá desaparecer em milhares de flashes)
And I will rise from the ashes
(E eu irei retornar das cinzas)
Enquanto Sasuke esticava a última palavra por mais uns instantes, Naruto sentiu-se livre para realizar um microssolo antes de voltar para o segundo riff.
To lose is not a choice
(Perder não é uma escolha)
Nothing will silence my voice
(Nada irá silenciar minha voz)
My mortal body is already dead
(Meu corpo mortal já está morto)
Although my spirit is moving ahead
(Porém meu espírito continua seguindo em frente)
***
This is the only chance
(Esta é a única chance)
I have to advance
(Tenho que avançar)
No matter how hard you beat
(Não importa o quão forte você bata)
I will never be defeat
(Nunca serei derrotado)
My body will vanish in thousand flashes
(Meu corpo irá desaparecer em milhares de flashes)
And I will rise from the ashes
(E eu irei retornar das cinzas)
***
Nevermore I will drop tears
(Nunca mais derramarei lágrimas)
Because tonight I killed my fears
(Porque esta noite matei todos meus medos)
The control over my mind
(O controle sobre minha mente)
It's now a fairy tale left behind
(É agora um conto de fadas deixado para trás)
My confort zone was torn
(Minha zona de conforto foi dilacerada)
So a new frontier was born
(Para que um nova fronteira nascesse)
Ao terminar de tocarem, eles se entreolharam em silêncio. Ninguém se sentia livre para opinar. A única coisa que preenchia o quarto era o som da microfonia da guitarra.
– Foda-se o almoço! – gritou Choji animadamente rompendo aquela tensão. – Vamos terminar essa música!
– Mas temos muita coisa que resolver antes do dia acabar. – ressalvou Sasuke.
– Porra Sasuke, não seja chato. Eu sei que é difícil pra você, mas por favor não seja estraga prazeres, vamos continuar? – argumentou Naruto. – E você também, cara do rabo-de-cavalo, o que me diz, vamos terminar a música agora?
– Desculpa te desanimar, mas devemos cumprir nossas obrigações primeiro. – respondeu Shikamaru com um tom de pesar.
***
– Bom, podemos minimizar os custos da reforma não alterando muito o ambiente. Contudo, – Shikamaru disse enquanto vagava os olhos pelo decrépito Till Dusk Till Dawn. – acredito que poderíamos aumentar o seu faturamento com uma pequena alteração no conceito do estabelecimento.
– O que você quer dizer com isso? – indagou Ibiki ajeitando em caixas as bebidas que estavam nas prateleiras.
– Entendo que o senhor goste dessa estética. No entanto, apesar de fidelizar um segmento do mercado, o senhor restringiu seu público alvo a uma pequena parte da população. Acredito que poderia aumentar os lucros se o bar não fosse um estabelecimento de nicho, mas sim um clube noturno com atrações variadas. O espaço já é propício para isso, só...
– Garoto! – ralhou interrompendo o discurso com um tom ríspido – Eu não venderei minha ideologia aos modismos de sua geração. Há uma coisa que talvez vocês jovens não tenham, mas... – receosamente parou de encaixotar as bebidas e encarou Shikamaru. – Sabe por que eu ainda mantenho esse bar?
Shikamaru abanou a cabeça negativamente enquanto rodopiava seu isqueiro entre os dedos.
– Foi nesse mesmo bar, há vinte anos atrás, que eu vi algumas das maiores bandas se apresentando pela primeira vez. Eu fui capturado pela música, pela verdadeira música e não o enlatado midiático que tentam nos mandar goela abaixo. – o brutamontes estava com um olhar vago, parecia que aqueles olhos conseguiam enxergar através do tecido do espaço-tempo e estavam fitando as bandas que ali estiveram duas décadas atrás. – Desde então, eu não quis me separar desse lugar. Para mim, ele é o último templo da contracultura de Los Angeles, o último lugar onde a música ainda é uma arte livre das garras gananciosas do homem que só se importa com o dinheiro. Por isso, não! Obrigado, mas não! Eu gosto do meu bar da maneira como ele está.
– Arte? – indagou o jovem enquanto parava de girar o isqueiro – Bonitas palavras, mas onde estão as bandas as quais o senhor se referiu? – por algum motivo desconhecido Shikamaru gostava de argumentar, mesmo sabendo que talvez pudesse se machucar, quando alguém lhe apresentava um ponto de vista que ia na contra mão de suas ideias. – Se elas estão na ativa até hoje é porque conseguiram vender a sua arte ao público, talvez não da mesma maneira como os artistas do mainstream, mas certamente venderam. Do contrário, já estão mortas. – Shikmaru pausou para acender um cigarro ao mesmo tempo em que analisava a reação de Ibiki. – Sei que é duro ouvir isso, mas o esse seu ideal parnasiano de "a arte pela arte" é algo impossível que somente existe no mundo idealizado.
– Ora, seu moleque! – disse Ibiki de maneira exaltada depois de puxar o rapaz de rabo-de-cavalo pelo colarinho.
– A Arte. – suspirou liberando a fumaça pelas narinas. – Você já se questionou qual era a motivação dos seus heróis? Eles queriam ser ricos, se não ricos, eles almejavam ao menos ganhar dinheiro o suficiente para subsistirem. Ou você acredita que eles se alimentavam de luz-solar e escalas pentatônicas? – O coração do baixista pulsava intensamente, pois ele sabia que seu ímpeto incisivo era necessário na negociação, mas ao mesmo tempo estava ciente que esse mesmo ímpeto poderia lhe trazer hematomas. Ibiki fez menção de que iria golpear Shikamaru com força, mas ao invés disso o soltou e o empurrou para trás. Com a cara amarrada ele voltou a encaixotar as bebidas.
– Entendo que o senhor prefira que a Arte se sobressaia e que os músicos sejam fiéis a essa ideologia romântica. Porém, não podemos viver sem encarar a realidade: a Arte é sim um produto, uma mercadoria. Mas isso não diminui a sua beleza, tomemos como exemplo as obras do Renascimento; quero dizer... Você sabia que a as obras de arte eram uma demonstração de poder, certo? As famílias abastadas, como os Médici, eram mecenas, em outras palavras, eles patrocinavam os artistas. Eles compravam suas artes. – Shikamaru ficou receoso em continuar pois Ibiki havia parado para escutar a contra argumentação, mas estava bufando enquanto escutava o discurso. – O meu ponto é: a estátua de Davi seria mais bonita se Michelangelo não tivesse recebido uma boa quantia de dinheiro para esculpi-la?
– AH... Não. – respondeu a contragosto.
– De maneira análoga, o trabalho dos Beatles é menos significativo para o mundo da música porque eles começaram como uma boy-band que só fazia música de amor?
– Não. Mas esse não é o meu ponto. O fato é que eu sinto nojo da indústria cultural! Eles nos impõem as coisas que devemos consumir, nos fazem acreditar que somos livres para escolher, enquanto na verdade eles que definiram quais são as nossas opções. "Vermelho ou azul, qual dessas VOCÊ quer escolher?". Eu quero o preto, mas isso não é uma opção, é? – indagou de maneira acalorada. – Não sei se você consegue me compreender, mas é por isso que eu me recuso a essa sua ideia, não quero nenhuma porcaria imposta pela mídia aqui no meu bar! Eu quero dar voz aos loucos idealistas que estão dispostos a fazer Arte de verdade.
– Se vamos pra Frankfurt, por favor me dê uma Erdinger. – ironizou o fato de Ibiki ter comentado sobre a indústria cultural. – Você não está disposto a dar a chance a um artista talentoso cujo estilo se aproxime daquilo vendido atualmente pelo mercado fonográfico? – Shikamaru perguntou enquanto arqueava a sobrancelha.
– Não! Não quero nenhuma porcaria pop aqui no meu bar! – esganiçou por ter sido questionado, além de ter recebido uma resposta cômica a respeito de sua referência ao trabalho dos pensadores alemães Theodor Adorno e Max Horkheimer.
– Entendi, seu problema não é com a indústria em si... É só preconceito musical. – o jovem cabeludo respirou fundo e questionou se o seu posicionamento valia uma eminente surra. – Olha, também não gosto da ideia do Mercado ter se tornado o cafetão da Música, mas... Dê uma chance aos que ainda querem fazer algo bom, mesmo não sendo do seu gosto pessoal. – Ibiki balançava a cabeça negativamente enquanto Shikamaru falava. – Por favor, senhor, repense isso. Michael Jackson, o Rei do Pop, era um músico fantástico... O senhor pode não gostar do gênero com o qual ele expressava a sua arte ou ainda que ele tenha atingido o grande público, mas sejamos justos: aquilo era Arte de verdade. Pegue Beat it, por exemplo, e pense que Eddie Van Halen quis trabalhar com ele... O cara devia ter algo especial.
– Tudo bem. – Ibiki respirou fundo enquanto olhava para o teto em que ele havia atirado na noite passada. –Te darei o benefício da dúvida e te escutarei... Só que tem uma coisa antes. – disse enquanto arregaçava a manga de sua camisa para mostrar uma tatuagem em seu antebraço direito. – Eu não tenho preconceitos musicais, acho que me expressei mal; eu só não quero me tornar um vendido e ajudar o governo a cultivar seu gado alienado.
Shikamaru mirou fixamente a pintura marcada na pele daquele homem. Era a partitura de um pedaço de uma música. Olhando mais atentamente, foi possível reconhecer que aquela era a introdução de Jesus Alegria dos Homens, de Johan Sebastian Bach. A tatuagem percorria todo o antebraço, formando um círculo; as notas, que são tradicionalmente representadas por pontos, tinham no lugar o desenho de logotipos de bandas; ao redor da pauta musical havia adornos que faziam homenagens ao mundo da música: a guitarra double-neck de Jimmy Page, o contrabaixo em forma de machado de Gene Simmons, o óculos de John Lennon, entre outras dezenas de referências. Mas houve uma em particular que chamou a atenção de Shikamaru; no topo do desenho havia a sombra de um homem realizando o moon-walk sob a última linha da pauta musical. Aquilo era a confirmação de que o que o brutamontes havia dito fora realmente só um deslize de momento.
Depois de alguns minutos de conversa, Shikamaru convenceu Ibiki a mudar um pouco a proposta do bar. Ao invés de ser algo somente do nicho hard-rock/metal, o bar passaria a ser uma casa noturna nos finais de semana que permitiria a presença de artistas de gêneros musicais ecléticos. Ademais, a presença de menores de vinte um anos seria permitida, porém apenas aqueles que fossem mais velhos receberiam uma pulseira identificadora que permitiria o consumo de álcool no estabelecimento. O proprietário do bar nunca se importou muito com essa questão legal, afinal de contas, contratou colegiais para tocarem em seu estabelecimento, além de lhes pagar com um engradado de cerveja, todavia Shikamaru o persuadiu a acatar as leis, uma vez que o crescimento dos negócios seriam dificultado caso possuísse problemas legais.
– Só mais uma coisa. – disse Shikamaru antes de sair. – Acho que devemos mudar o nome do estabelecimento, porque depois de ontem... Acho que ninguém terá vontade de vir aqui.
– Alguma sugestão?
– O senhor havia dito que gostava da contracultura certo? Que tal isso? – disse arremessando, pela porta, seu isqueiro. – É só uma ideia, pense nisso: o Clube do Mickey lhe deu a Britney Spears, a Christina Aguilera e outros artistas que o senhor odeia, talvez o anti-Mickey lhe traga o oposto.
– Rat Fink? – indagou enquanto observava o desenho de um rato verde todo deformado.
Ibiki voltou o olhar para a porta para responder, mas já era tarde. O rapaz dos longos cabelos já havia partido. O barman então soltou um singelo sorriso enquanto voltava ao seu trabalho. "Rat-Fink, Renascimento e Frankfurt... o senhor é uma pessoa interessante, senhor Nara."
***
– Desculpa. – Naruto ria intensamente enquanto olhava para Choji. – Juro que não é por maldade.
– Por que você não comprou outra? – indagou Sasuke impaciente enquanto carregava com dificuldade seu amplificador quebrado.
– Eram as únicas do meu tamanho que davam comprar com aquele dinheiro. – respondeu Choji encabulado.
– Tá parecendo uma criança gigante. – Naruto continuava a zombar. – Essa polo de listrinha laranja e azul tá linda! Ela salienta bem a sua baby-pança... E esse Crocs azul... Ai meu deus do céu, só faltou um pirulito gigante e um boné com hélice para você.
– Era melhor eu ter vindo com o roupão. – resmungou o baterista emburrado, enquanto chutava uma lata que estava no chão.
– Por que você não veio então? – Naruto questionou enquanto continuava a rir.
– Seriedade! Será que eu posso ter um pouco de seriedade? – ralhou o Uchiha enquanto deixava o amplificador no chão por um momento para recobrar o fôlego. – Naruto, cala a boca! Estamos indo
para a delegacia buscar o seu carro; você acha mesmo que se ele fosse só de roupão de cetim a polícia ia levar numa boa? Eles o prenderiam por atentado ao pudor. – Sasuke iria continuar com o sermão, mas fora interrompido por Naruto e sua voz esganiçada.
– Sex ofender! – Naruto gritou enquanto apontava para Choji e se engasgava com suas risadas.
– Se eu fizer o Naruto calar a boca você carrega para mim?
O envergonhado músico só acenou com a cabeça positivamente. Em seguida Sasuke derrubou Naruto agarrando pela cintura, e lhe deu dois socos no rosto. Apesar de visualmente forte, aquilo já era uma tradição "inofensiva" entre eles. Os dois desde pequenos costumavam trocar socos, mas nunca se machucavam seriamente. Um olho roxo aqui e umas escoriações ali, mas nada além disso.
Antes que eles pudessem continuar a briga, uma voz feminina estridente fez com que eles parassem e olhassem para cima.
– Poxa, Sasuke, achei que eu era a única da família Uzumaki que você gostasse de ficar em cima. – disse uma garota ruiva em um tom sarcástico.
– Oi, Karin. – disse Sasuke se levantando rapidamente. – Foi bom te ver, mas preciso ir... Estou com pressa, desculpa. Tchau, tchau. – disse atropelando as palavras enquanto estava pegando o aparelho que deixara no chão e em seguida caminhou com passadas largas.
– Espere por mim, Sasuke. – disse a garota enquanto corria de salto alto atrás do Uchiha.
– É... Que porra foi essa? – questionou Choji.
– O bundão tem medo da minha prima maluca, porque uma vez ela tentou cortar o saco dele fora. – disse Naruto se levantando.
– Mas o quê?!
– Longa história... Eu te conto quando o Sasuke estiver por perto; é muito mais legal quando ele está por perto se contorcendo com a lembrança. – falou enquanto tirava o pó de suas roupas. – Parei de te zoar agora, desculpa por antes. Acho que já estamos perto.
– Tudo bem, eu também me zoaria. – respondeu soltando uma risada. – Será que não é melhor avisar o Shikamaru que o Sasuke teve um contratempo?
– Não. – respondeu de maneira displicente enquanto arqueava os ombros. – Acho que ele vai levar o amplificador pra o conserto e depois vai nos encontrar lá no restaurante como combinamos antes de sair de casa. Você acha que o Shikamaru vai conseguir melhorar o acordo com aquele maluco?
– Eu tenho certeza que sim. Eu falei ontem como ele é foda. – falou até um pouco lisonjeado por ser um amigo de longa data do baixista fumante.
– Só não entendi porque ele não quis que a gente fosse junto. – Naruto resmungou enquanto caminhava chutando a latinha que Choji havia dado um ponta pé.
– Eu acho que é porque nós sempre acabamos perdendo o foco e isso atrapalharia a negociação. – disse o gorducho com um sorriso amarelo.
A realidade é que Shikamaru escolhera ir sozinho para resolver o problema do bar porque não queria atitudes infantis enquanto negociava. O rapaz de rabo-de-cavalo disse a Choji que seria melhor assim, pois Naruto e Sasuke certamente brigariam novamente enquanto eles estivessem no bar. Além disso, ele também recomendou que o amigo arranjasse roupas antes de voltar para casa. Por essa razão o grupo se dividiu.
Agora Naruto e Choji estavam indo em direção a delegacia, Shikamaru estava resolvendo o problema do bar e Sasuke fugindo de Karin, enquanto tentava encontrar a loja de música para consertar o seu amplificador.
Não demorou muito e os dois músicos chegaram ao quartel da polícia. Lá eles tiveram que esperar mais alguns minutos até que fossem atendidos. A oficial lhes informou que o carro havia sido recuperado não muitos quilômetros de distância do bar, já que o sistema de segurança travava o carro quando o veículo estava sem a chave. A jornada parecia ter chegado ao fim, porém algo inesperado ocorreu.
– Como assim? Já levaram minha caminhonete?! – questionou Naruto um pouco exaltado.
– Sim, algumas horas atrás um homem de cabelos meio agrisalhados veio aqui e a levou. – respondeu a policial de forma seca.
– Calma Naruto. – disse Choji enquanto puxava Naruto pelos braços. – Obrigado oficial, tenha um bom dia. – despediu-se de maneira cordial tentando manter a paz.
Após, Naruto tentou contatar seu tio, porém a bateria do seu celular se esgotara e Choji não havia levado o seu, afinal, até a pouco tempo atrás estava só de cueca e roupão. Por isso, eles deixaram isso de lado por um instante e seguiram em direção ao restaurante.
***
Sasuke conseguira despistar Karin. Mesmo com aquela enorme caixa de som, o Uchiha conseguiu se misturar no meio da multidão do calçadão da praia. Depois de se livrar de sua perseguidora, ele seguiu em direção a loja de artigos musicais que ficava naquela região.
– Quanto você cobra para trocar o revestimento de couro e o fio de energia? – perguntou sem muita formalidade.
– Você vai querer couro de verdade? – perguntou o técnico.
– Sim, esse amplificador merece. – o Uchiha respondeu com um certo orgulho.
– Não é por nada não, mas se eu fosse você jogaria essa porcaria fora o mais rápido possível. – disse em tom zombeteiro enquanto analisava o aparelho. – Isso não vale nem o preço do couro que você irá gastar.
– Com licença, qual é o seu trabalho aqui mesmo? Ah lembrei! Consertar coisas e não distribuir conselhos. Agora, cale a boca e faça o seu trabalho.
O técnico fechou a cara, mas conteve-se. Sasuke então pagou o total de serviços e em seguida foi atrás do rapaz que lhe atendera para observar todos os procedimentos. Apesar de demorar um tempo para concluir o trabalho, o Uchiha preferiu ficar ali por dois motivos: não queria ter o desprazer de reencontrar Karin por ali e ele não acreditava na idoneidade daquele homem.
Após terminar a parte elétrica, o técnico começou a retirar o couro para poder então renová-lo. Ao iniciar o processo de remoção da parte traseira ele viu algo que lhe fez perguntar de maneira afobada:
– Onde você conseguiu esse amplificador?
– Lá perto de onde eu estudo. Por quê? – Sasuke questionou ressabiado.
– É porque ele me lembra muito de um velho conhecido que já não está mais vivo... Será que você não gostaria de vendê-lo para mim? Te dou U$1000 por ele. – ofertou com um semblante preocupado.
– Não, obrigado...– a essa altura, a desconfiança já se apoderara do Uchiha. – Você não havia falado que isso era um pedaço de lixo? – perguntou cinicamente.
– É, mas... Veja, eu sinto muito a perda desse meu conhecido; será que você não gostaria de me vender por razões sentimentais? Eu inclusive lhe pago mais... Digamos então U$2500?
– O que está pegando? – riu maldosamente ao perguntar. – Por algum acaso está escrito "Otário" na minha testa?
O homem não se pronunciou, ficou em silêncio tentando bolar uma resposta convincente.
– Que porra você está escondendo, seu merda?! Você está querendo me enganar é? Quer me roubar assim na cara dura? – Sasuke o provocou na tentativa de obter mais informações.
O técnico começou a revidar os questionamentos de Sasuke e depois disso eles tiveram um bate-boca que durou cerca de dez minutos. Ao final da discussão:
– Eu me demito! Não preciso dessa bosta de emprego! – esbravejou o homem antes de sair pisando forte.
O gerente da loja foi até Sasuke se desculpar pela atitude daquele funcionário que além de ter feito um escândalo, ainda deixou o trabalho incompleto. Por esse motivo, o conserto do amplificador teve um desconto considerável, porém Sasuke deveria retornar outra hora para que o novo revestimento fosse posto, porque não havia outro técnico disponível naquele dia.
O Uchiha então agarrou seu equipamento com a estrutura de madeira a mostra e saiu em direção ao local onde eles combinaram de se encontrar. Enquanto saia, o moreno reparou que havia uma placa de "procura-se funcionários" e o único pré-requisito era entender razoavelmente de instrumentos musicais; ele pensou em aplicar a esse cargo, porém desistiu da ideia, porque o gerente provavelmente não o aceitaria depois de seu barraco, o qual causou a demissão de outro funcionário.
***
– Eu consegui convencer o cara do bar a ser mais flexível com os gêneros musicais a serem apresentados lá de agora em diante. Acredito que isso será bom para descobrirmos a nossa identidade sonora. – comentou Shikamaru enquanto degustava o seu café.
– Que pena. – reclamou Choji com birra em sua voz. – Eu vou sentir falta do velho Till Dusk Till Dawn.
– Vocês conseguiram resolver tudo o que estava faltando? – perguntou Shikamaru massageado suas têmporas por causa da resposta do amigo.
– Roupas de bebê gigante, confere. – Naruto disse apontando para Choji. – Minha amada caminhonete, confere. – disse fazendo o número dois com os dedos após fazer uma breve dança comemorativa com as mãos. – Consertar o amplificador do bundão... – encarou com reprovação a carcaça de madeira que acompanhava Sasuke. – É... Como eu estou bonzinho hoje, confere também. – gargalhou após terminar. – Acho que era só isso.
– Ô gênio, só faltou uma coisa... – Sasuke disse com um tom sarcástico. – A porra dos nossos serviços! Vocês dois, foram atrás de algo hoje? – apontou para Choji e Naruto.
Os dois se entreolharam por alguns instantes e então responderam negativamente com suas cabeças.
– Vocês podem ir lá na loja onde eu fui consertar meu amplificador lá perto da praia.
– Você acabou indo lá ver o cargo que eu comentei ontem? Acho que era só uma vaga. – disse Shikamaru.
– Sim. Na verdade só tinha uma vaga, mas acho que depois de hoje, acho que serão duas...
– Sasuke, seu recalcado, o que você fez dessa vez para o atendente se demitir? – o Uzumaki questionou em um tom jocoso.
– O filha da puta tava tentando me passar para trás. – o Uchiha respondeu seriamente.
– Ah lá, ele é mais chato do que eu imaginava. Fez o cara se demitir de verdade. – Naruto riu intensamente.
– O que o cara tentou fazer, Sasuke? – perguntou Choji.
– Não sei o que ele viu enquanto estava retirando o revestimento antigo, mas do nada ele começou a me oferecer muito dinheiro pelo amplificador ainda quebrado e sem identificações. Ele disse que tinha algum motivo sentimental, que eu sinceramente caguei para a explicação.
– Posso olhá-lo? – perguntou Chouji enquanto se aproximava para observar os detalhes do amplificador.
Sasuke balançou a cabeça positivamente. Nesse exato momento Shikamaru se levantou e foi tragar mais um cigarro na frente do estabelecimento.
– Naruto, agora que me lembrei, o que era aquele negócio superimportante que você queria me mostrar mais cedo? – perguntou Sasuke observando se o seu amigo rechonchudo havia encontrado alguma marca na estrutura de madeira.
– Era aquela música que eu a gente tava compondo mais cedo. – falou despretensiosamente, pois estava mais entretido com outra coisa no momento. – Aê, cabeludo, a gente aqui de bobeira e você já mandando papo nas menininhas. – aplaudiu enquanto apontava para a vitrine do restaurante.
Shikamaru estava em frente ao restaurante conversando com a mulher do caixa que os atendera na noite passada. Aparentemente ela acabara de chegar, mas ao invés de entrar e começar o expediente, preferira gastar uns minutos de prosa com aquele músico fumante.
– Puta que pariu! – exclamou Choji.
– Calma Choji, eu tenho certeza que o boca-de-cinzeiro não vai te abandonar só porque conheceu uma garota. – Naruto continuava a brincar.
– Metal Up Your Ass — 82 — J.H.! – gritou o baterista.
– Calma ai, foi só uma brincadeirinha. Não precisa me mandar enfiar uma piroca de metal no meu fiofó. – disse Naruto um pouco assustado.
– Não é isso. Sasuke, você conhece esse nome não conhece?
– Não. Se conheço não me lembro no momento. – o moreno respondeu um pouco apreensivo.
– O Metallica teve seu equipamento roubado em Boston nos idos de 1984. Um dos itens era um amplificador Marshall muito raro que depois eles tiveram que procurar em dois continentes para substituir. Os rumores dizem que depois que isso aconteceu os aparelhos estão espalhados, provavelmente em estúdios por aí, ou então na casa de algum produtor que teve a sorte de encontrá-los... – Chouji estava muito afoito contando os fatos históricos, enquanto Naruto e Sasuke estavam com os olhos arregalados. – Bem... A outra parte disso tudo é que em 1982 o Metallica lançou uma demo chamada "Metal Up Your Ass"... – o gorducho fez uma pausa e então olhou para Sasuke. – Você sabe o que isso significa? Você tem a porra do amplificador perdido do James-badass-motherfucker-Hetfield!
Sasuke ficou sem reação alguma. O choque fora gigantesco; nenhuma palavra saia de sua boca. Já Naruto por outro lado:
– Puta que me pariu! O meu cu desatarraxou da bunda e caiu no chão! Isso parece um sonho! Se eu parar de te zoar agora, posso testar um pouquinho? Quer saber? Foda-se o mundo, vamos agora mesmo pra casa terminar aquela maldita canção! — o Uzumaki concluiu esbaforido dando uma pancada em sua mesa.
– Choji, vamos dividir o táxi e voltar agora? — Shikamaru regressara um pouco antes de Naruto golpear a mesa, seu semblante era ainda mais sério do que o de costume.
– Mas agora? A gente devia ir terminar a música! O Sasuke... — o baterista fora interrompido antes que pudesse concluir sua frase.
– Desculpe-me, mas não irei. Acabo de receber o chamado para um compromisso inadiável. Se você quiser, fique à vontade e vá com eles, mas eu já estou indo embora. — respondeu taciturno. — Naruto, tem algum problema eu deixar meus equipamentos lá na sua casa?
– Não, pode deixar lá se você quiser. — o loiro respondera um pouco relutante pois era nítido que algo não estava bem com Shikamaru.
–Tá tudo bem? — indagou Choji.
– Sim, não precisa se preocupar. — Shikamaru respondeu se dirigindo ao caixa.
Choji decidiu acompanhar o amigo, pois ficara incomodado com o semblante preocupado que Shikamaru exibia. Eles então se despediram, se dirigiram ao caixa e em seguida saíram às pressas. Os outros dois rapazes ficaram curiosos sobre aquilo, contudo, a agitação promovida pela primeira música que eles compuseram se sobressaiu na conversa.
Mais algum tempo se passou até que os dois regressassem até a casa de Sasuke. Durante o caminho de volta eles animadamente conversavam, de tal forma que se alguém os vissem naquele não imaginariam o caos pelo qual eles passaram na noite anterior.
Antes de entrarem de cabeça no término da música, os rapazes ainda precisariam buscar o restante dos equipamentos e montá-los na garagem do Uchiha. Por isso, assim que chegaram ao condomínio eles se dirigiram para a casa de Naruto.
Para a surpresa deles, em frente à casa estava a caminhonete roubada na noite passada. o Vidro frontal estava todo rachado e na parte lateral do motorista havia algumas manchas fétidas de cor amarelada que exalavam um forte cheiro de ovos podres; felizmente, no mais, o veículo estava bem.
Ao entrarem na casa de Naruto, os rapazes avistaram Jiraya terminando de dar um nó em sua gravata, o escritor parecia estar sem muito tempo a perder.
– Olá, meninos, tudo bem? — o escritor os saudou enquanto tentava arrumar os cabelos olhando seu reflexo no vidro da janela. — Naruto, a caminhonete está sã e salva, só vamos ter que mandá-la para o mecânico amanhã.
Naruto fez menção de que faria uma pergunta para o seu tio, mas o homem de cabelos grisalhos fora mais rápido.
– Relaxe. Eu pagarei pelos estragos, porque a culpa disso foi minha mesmo. Na realidade, ela ficou assim depois de eu sair da delegacia pela segunda vez. — Jiraya falou se aproximando da porta.
– Segunda vez? — questionou Naruto.
– É porque eu fui preso hoje depois de me recusar a ir ao casamento da delegada que me atendeu ontem. — comentou despretensiosamente enquanto abria a porta de casa. — Eu gostaria de ir, mas hoje eu tenho um compromisso muito importante: hoje é o aniversário de vinte anos do lançamento do "Descompasso da Humanidade", meu querido livro. Por isso, ela se exaltou um pouco quando lhe disse que seria impossível acompanhá-la hoje... Nem acredito que ela me deu voz de prisão enquanto ainda estávamos deitados na cama dela. — suspirou entre risos. — Acho que isso seria algo interessante de se colocar em meu próximo conto.
– Ele pegou a delegada, né? — Sasuke lançou a pergunta retórica para Naruto, o qual apenas respondeu abanando positivamente a cabeça.
– Mas tio, por que o senhor tem que estar na festa hoje? Você já não usa o pseudônimo de Suzana Bandeira? — Naruto questionou enquanto voltava para o quintal e se aproximava do carro de Jiraya.
– Hoje haverá uma seção com muitas perguntas sobre o livro, por isso, ficarei auxiliando a atriz que se passa pela Suzie através de um ponto eletrônico. — Jiraya respondeu apressadamente ligando o carro. — Só mais uma coisa, antes que eu me esqueça: sua prima vai morar conosco a partir de agora.
– O quê?! — Sasuke vociferou.
– Foi isso que ela me pediu quando foi me tirar de lá. Eu tentei ligar para você mas, você não atendia. Como eu estava com pressa, acabei aceitando o acordo... Aquela garota tem um gênio forte, deve ter puxado isso do lado da família de sua mãe. — concluiu entre risos.
Logo após essa conversa, Jiraya saiu acelerado em direção ao evento de seu livro.
– Fodeu, fodeu, fodeu, fodeu, fodeu, fodeu.... — Sasuke repetia como se fosse um mantra enquanto passava as mãos em seus cabelos.
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