Notas iniciais
Espero que gostem =3

Pelo que devia ser a centésima vez naquele dia, Claire sorriu, deu um breve aceno de cabeça e disse seu nome. Já fizera tanto aquilo durante sua vida que ela mesma quase poderia acreditar que estava feliz em se mudar para a cidade. Quase. Aquele era um lugar agradável, uma cidadezinha acomodada na encosta de uma montanha, com aquelas casinhas acolhedoras, senhorinhas simpáticas e clima gelado. Se ela se permitisse, talvez gostasse da cidade e das pessoas dali. Mas não podia. Não queria se apegar a nenhum lugar, nem a ninguém.

Já fazia nove anos que não tinha um lar. Nove anos de aeroportos, malas, passaportes, check-ins e hotéis. Viajar pelo mundo pode ser uma ideia agradável, mas não quando se faz isso a trabalho, seguindo sua mãe para todo o lado em uma jornada cansativa que parecia não ter fim. Charlotte Stewart Evans era uma escritora pouco conhecida, mas, vez ou outra, conseguia que um editora publicasse um de seus livros. Por isso, ela e a filha iam de cidade em cidade para divulgar as obras. Claire nunca se atrevera a reclamar, já que a mãe parecia cada dia mais animada com sua profissão. Embora a menina tivesse o mesmo gosto por livros que a mãe, nunca lera sequer um capítulo inteiro dos de Charlotte. Claire sentia-se extremamente desconfortável em saber que todas aquelas cenas eróticas tinham sido escritas por sua própria mãe.

Estava dando um breve passeio pela cidade, sem um destino certo, sua mente perdida em pensamentos. O asfalto, os telhados das casas e as plantas brilhavam, molhados pela chuva recente. O cheiro de terra molhada preenchia suas narinas, e ela tentava não derrapar na lama acumulada no chão. Entrando em uma das ruas laterais, viu um pequeno café com mesinhas de madeira e sofás de estofado verde-musgo. Decidiu-se por entrar no lugar e comer alguma coisa.

Assim que pôs os pés lá dentro, alguns olhares a seguiram. Um casal de namorados sentados no canto a olhou com curiosidade, e um homem velho e barbudo mandou-lhe um olhar de antipatia. Foi ao balcão, deu uma breve checada no cardápio e voltou-se ao balconista, um garoto de uns 16 anos, ruivo e cheio de espinhas.

— Um chocolate quente e um croissant de quatro queijos, por favo — pediu, olhando de relance para a porta quando esta se abriu.

Os olhos de Claire arregalaram-se ao ver o cliente que acabara de adentrar o café.

Ele devia ter por volta dos vinte e cinco anos, ela não saberia dizer. A luz das lâmpadas fazia sua pele de porcelana reluzir em um tom fantasmagórico. Seu rosto era gracioso e belo como ela jamais vira, seus lábios eram cheios e avermelhados e seus olhos eram de um branco leitoso. Ele é cego?, ela perguntou-se. Ele olhou em sua direção e sorriu-lhe, e a menina soube que aquilo não era verdade. Seu cabelo era de um loiro brilhante, e estava amarrado em um rabo de cavalo relaxado. Ele vestia um pesado sobretudo, luvas e óculos de sol.

Claire não era de se encantar por homens, mas admitia que aquele ali recebia o prêmio de Irresistível do Ano. Mais do que isso, sentia seu coração acelerado ao lembrar de todos os livros e filmes de terror que já lera e vira e reconhecia no homem a figura de uma daquelas lendas.

— Boa tarde — ele disse ao garoto ruivo. — Quero o mesmo que essa adorável dama pediu. — Me indicou com a mão em um gesto elegante.

O balconista ficou com a cara tão vermelha quanto seu cabelo e gaguejou um Imediatamente. Uau. Mas Claire não podia culpá-lo, já que ela mesma sentia seu rosto arder. O homem pálido sentou-se ao seu lado, sendo acompanhado pelos olhares do outros clientes, e ela encolheu-se. Repentinamente, os cadarços de suas botas haviam tornado-se extremamente interessantes. Claire logo sentiu-se estremecer quando um aroma doce e inebriante invadiu-lhe as narinas.

— A jovenzinha tem um nome? — perguntou-lhe o loiro, sorrindo cortesmente.

— Claire. Claire Stewart Evans — murmurou, ainda sem encará-lo. Felizmente, lembrou-se da boa educação e acrescentou: — Muito prazer. E o senhor?

O homem riu agradavelmente, e abanou com uma mão. Timidamente, a menina voltou-lhe o olhar.

— Não estou vendo nenhum “senhor” aqui, pequena Claire. Eu sou Henrick von Noailles , e o prazer é todo meu — ele respondeu, com um sorriso sedutor.

Não era todo dia que Claire Evans recebia um sorriso sedutor. A menina se considerava relativamente comum e sem graça, com seus 1,65 de altura, cabelo e olhos acastanhados e o corpo de uma adolescente. Estava em seus quatorze anos e seu primeiro beijo e único tinha sido com uma amiga que precisava de ajuda com o namorado, um beijo nervoso e superficial, que ela definitivamente classificaria como algo não muito promissor.

Em pouco tempo, o balconista aproximou-se com a comida e as bebidas, e Claire encontrou nisso uma boa desculpa para manter-se calada. Quando terminara sua refeição e estava prestes a levantar-se, sentiu o pulso ser agarrado por uma mão fria. Claire voltou-se para Henrick com olhos assustados.

— Quer ir em um pequeno passeio comigo? — Ofereceu ele, encarando-as diretamente nos olhos.

Aquela era um pergunta absurda. Mas é claro que ela diria não! Ele era um completo estranho em uma cidade nova, como ela poderia pensar em aceitar? Mesmo assim, antes que percebesse ou pudesse se conter, ela ouviu-se dizer:

— Eu adoraria, Henrick.

Ele sorriu, triunfante, e Claire soube que aquele homem era perigoso. Cada célula de seu corpo alertava-a, gritando-lhe para que se virasse e saísse correndo. Ao invés, ela sorriu de volta e desejou ardentemente agradá-lo. Algo nele obrigava-a a obedecê-lo, como uma espécie de magnetismo. Aqueles olhos leitoso e frios eram provocantes e convincentes.

Henrick levantou-se e saiu pela porta, e Claire seguiu em seus calcanhares, sentindo olhares curiosos em suas costas. Assim que tinham tomado uma boa distância do estabelecimento, inclusive entrando em um beco escuro e vazio, ele parou e voltou-se para ela. Claire estacou, sentindo seus dedos tremerem e a palmas de suas mãos suarem. Ele aproximou-se em passos lentos

— É uma pena, uma garotinha tão jovem quanto você... Apenas um bebê que ainda cheira a leite materno — ele lastimou-se, brincando com uma mexa castanha da menina e afagando-lhe o rosto com ternura.

— Você vai me matar? – perguntou Claire em um sussurro. Surpreendentemente, sua voz saiu bem estável, totalmente o oposto de como ela se sentia.

— Uhum. — Ele então deu um beijo caloroso na testa da menina, e ela estremeceu com o contato dos lábios gélidos. — Mas eu também vou te dar um presentinho — disse calmamente, enquanto entreabria os lábios da menina com o polegar.

E então, em um movimento rápido que Claire jamais poderia prever, ele tomou seus lábios em um beijo ardente. Era totalmente diferente daquele beijo nervoso, que fora seu único até aquele momento. Era profundo, selvagem e carregado de luxúria. A menina retribuía como podia — mesmo sem saber o porquê —, sentindo-se tonta e com o estômago embrulhado pelo nervosismo.

Ela somente pôde respirar quando Henrick interrompeu o beijo e direcionou seus lábios para o pescoço da menina. Claire estremeceu, fechou os olhos e esperou. Henrick lambeu sensualmente a pele naquele local para, logo em seguida, cravar ali suas presas. A menina soltou um murmúrio de dor, enquanto sentia as pernas bambas e o líquido rubro e quente escorrer por seu ombro e pela boca do vampiro. Braços fortes a sustentaram, e ela cada vez sentia-se mais fraca e frágil. Uma repentina onde de prazer atingiu-a, e ela sentiu todo o seu corpo arder como fogo, principalmente naquela região de seu corpo.

Quando ele terminou de se alimentar, lançou um breve olhar à menininha em seus braços, que fitava-o com olhos opacos e quase sem vida. Claire sentia frio e cansaço, e quase percebia os braços da Morte à sua volta. Henrick, então, mordeu o próprio pulso e aproximou o líquido vermelho da boca da menina.

— Beba. — Ele ordenou.

Ele não precisou repetir seu comando. Imediatamente, Claire começou a sugar aquele líquido com um incômodo gosto de ferro, sentindo um rastro rubro escorrer de seus lábios.

—Boa menina. – disse Henrick, afastando a mão do rosto de Claire.

O vampiro depositou cuidadosamente o corpo adolescente em um canto escuro e úmido do beco. Afagou seu cabelo e rosto uma última vez e levantou-se. Lançou-lhe um último olhar e falou, enquanto seu olhos brilhavam em vermelho – o vermelho do sangue de Claire:

— Morra agora, pequena Claire. Abandone sua vida humana fugaz e abrace a imortalidade, o sangue e a luxúria.

Com essa última frase, ele foi embora. Claire encarou debilmente suas costas até estas desaparecerem de seu campo de visão.

Demorou mais do que a menina gostaria. Sentia a Morte vindo, mas a Velha não parecia estar com pressa. Era como se, de pouco em pouco, seu corpo se tornasse cada vez mais dormente e inútil. A sensação de não poder de mexer e a espera eram torturantes. Por fim, Claire deu um último suspiro sufocado.

Acordou no mesmo lugar, mas estava longe de ser a mesma. Sentiu a garganta arder, uma dor excruciante acompanhada de um desejo: sangue. Claire ouviu o som de passos e viu, na entrada do beco, uma mulher passar apressada. Dirigiu-lhe um rápido olhar com seus olhos brancos e leitosos antes aproximar-se dela em um movimento rápido e cravar-lhe as presas no pescoço. O grito ecoou por quarteirões e, enquanto sugava o líquido delicioso que lhe trazia vitalidade, Claire imaginou que teria que deixar a cidade mais rápido do que o esperado.

Permitiu-se um olhar de relance ao corpo feminino no chão, seus olhos vermelhos como o sangue de sua primeira vítima.

Notas finais
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