Little Arrow
2 TLA - Time Little Arrow
Notas iniciais
~~ 14 anos e 4 meses ~~
— Sophia, você não pretende sair de casa com essa roupa, certo? – Ouço a voz do meu pai vindo da porta do quarto.
— E se eu sair? – Respondo de forma simples.
— Pode trocar de roupa, mocinha – Ele diz com a voz firme e começa a fechar a porta – Nem por cima do meu cadáver você vai pra escola com uma roupa tão curta.
Fico irritada com a forma autoritária que meu pai sempre fala quando escolho uma roupa que acho mais confortável.
Paro na frente do espelho de corpo inteiro, e começo a pensar por alguns minutos.
Já faz quatro anos que meus pais me contaram o maior segredo da vida deles. Meu pai é o Arqueiro Verde, e isso não é nada fácil. Ele está sempre fazendo de tudo para proteger nossa família e cuidar da cidade ao mesmo tempo.
Ninguém sabe que eu sou a filha do herói mascarado da cidade, mas literalmente todo mundo sabe que eu sou a filha do prefeito de Star City.
Reflito sobre meus atos mais recentes. Eu andei discutindo muito com a minha mãe, por motivos bobos, e isso a deixa muito chateada. Meu pai anda muito preocupado comigo, sempre querendo me dar conselhos, mas eu os ignoro.
Troco de roupa, escolhendo dessa vez, algo realmente confortável, uma calça jeans, a camiseta branca do Darth Vader que minha mãe me deu, e meu All Star vermelho preferido.
Decidi sair do quarto, e pedir desculpas ao meu pai pela forma como o respondi agora a pouco. Paro no corredor, antes de chegar na sala, quando ouço meus pais conversarem.
— Oliver, relaxa – Ouvi minha mãe dizer tranquilamente – Ela é só uma criança, isso é apenas uma fase.
— Não, Felicity – Pela voz do meu pai, ele está nervoso – Sophia já tem quatorze anos, e pelas suas atitudes, logo vamos perder o controle da situação. Lembre-se que os Queen têm o histórico de ter uma adolescência problemática.
— Pelo menos nisso ela não puxou a mim – não entendi o que minha mãe quis dizer, até ela continuar a falar – Ela ainda não usa maquiagem e roupas pretas, nem tem um namorado psicopata, e não quer começar uma revolução hacktivista contra o governo.
— Felicity, é sério, eu estou muito preocupado com a Sophia. Ela está distraída na escola, as notas estão caindo, e ela perdeu várias aulas com a Sara, só nessa semana.
— Sobre a escola, eu converso com ela. Mas ela parece interessada nas aulas da Sara, lembra como ficou o rosto daquela menina?
— É sobre isso que eu estou falando – pelo tom do meu pai, ele parece cansado – Sophia socou uma garota na escola, e se recusou a dar um motivo, isso quase nos custou um processo, mas o pai da garota preferiu não enfrentar os advogados do prefeito.
— Você está certo – Pelo som, minha mãe levantou do sofá – Sophia está começando a nos dar mais dor de cabeça que o normal. Mas lembre-se que ela está longe de ser uma garota comum, não só pelos vários talentos dela, mas principalmente pelo que nós fazemos, que claramente está afetando a vida dela mais do que imaginamos.
— Nós precisamos apoia-la mais – Ele faz uma pausa, imagino meu pai passando as mãos no rosto, ele faz isso quando um assunto o deixa estressado – Precisamos passar mais tempo com ela, e menos tempo no trabalho, o de dia e o de noite.
— Principalmente o da noite, você lembra quando foi a última vez que a colocamos pra dormir?
Meu pai não respondeu, mas eu me lembro muito bem. Foi a quatro meses, eu tinha treze anos. Meus pais fizeram o jantar juntos, depois de comer, assistimos um filme muito engraçado, e ainda deu tempo de uma bela partida de UNO, onde eu ganhei facilmente. Os dois me acompanharam até o quarto, e como quando eu era pequena, cada um de um lado da cama, eles beijaram minha testa e desejaram boa noite, apagando a luz e fechando a porta logo em seguida.
No dia seguinte eu descobri que eles fizeram tudo isso para se despedir, pois eles ficaram semanas fora para tentar despistar o vilão da época, me deixando a cuidados do tio John e da tia Lyla. Quando voltaram, eles estavam muito mais focados em proteger a cidade a todo custo, passando mais tempo na “Caverna do Arqueiro”, não me contando todos os detalhes das missões, e basicamente só nos encontramos pela manhã.
— Já faz muito tempo – Ouvi meu pai dizer, depois de um tempo de silêncio – E está na hora de mudar isso.
Quando percebi que os passos vinham em minha direção ao corredor, corri e entrei no banheiro, por ser a porta mais próxima.
— Sophia – Minha mãe diz suavemente, batendo na porta do banheiro, e eu apenas emito um som como resposta – Quando sair, precisamos conversar com você.
Fico mais um tempo dentro do banheiro. Tenho uma ideia do que eles querem conversar comigo. Terem tocado no assunto de que eu soquei aquela menina me assusta, não estou pronta pra falar sobre isso, não ainda.
Quando saio do banheiro respiro fundo, e caminho em direção à sala, onde meus pais estão sentados.
— Pai, desculpa pela forma como eu te respondi mais cedo – Sou a primeira a falar, assim que me sento de frente pra eles – Eu não deveria estar agindo como estou. Mãe, eu sinto muito pelas coisas que eu te digo, eu sei que você fica chateada, e eu fico triste em te ver assim.
— Foi mais fácil do que eu pensei – Ouço minha mãe cochichar para o meu pai.
— Filha, nós estamos preocupados com você... – Meu pai começa a dizer, mas eu continuo a falar por ele.
— Estão preocupados comigo pelas minhas ações, e eu sinto muito, eu sei que faço muitas coisas erradas, sei que preciso melhorar minhas notas na escola, poxa, eu estou avançada dois anos no colégio e de repente começo a fracassar – Fico pensativa, falando muitas coisas mais para mim mesma – Eu vou mudar, prometo. Também vou me desculpar com a tia Sara por estar faltando nas aulas.
— Na verdade – Meu pai encara minha mãe, antes de continuar a falar – Nós também estamos falhando com você.
— Por não me colocarem mais pra dormir? Está tudo bem.
— Estava ouvindo a nossa conversa, de novo? – Minha mãe fica indignada.
— Desculpa, mas isso me ajudou a clarear minha mente, e enxergar meus erros.
— Nós três precisamos mudar – Meu pai continua sua linha de raciocínio – Em aspectos e ações diferentes, mas é pelo bem de cada um de nós, pelo bem da nossa família.
— Eu concordo – Minha mãe continua – A começar por mim, vou passar mais tempo em casa, já que existem muitas coisas na empresa que não são necessárias a minha presença.
— E eu o mesmo na prefeitura – Meu pai diz – Afinal, sou o prefeito, mas não sou o único que trabalha naquele lugar por essa cidade. E também...
— Não venha dizer que vai passar mais noites em casa – Eu o corto antes que termine a frase – Pai, você é o meu herói aqui dentro e lá fora, mas existem outros que te dão esse mesmo título, não pode deixar de lutar por eles pra viver apenas por mim.
— Me surpreende o quanto você se parece com a sua mãe – Ele sorri.
— Estando todos de acordo – Minha mãe se levanta dizendo – Vamos ser mais unidos.
— Sim – Também fico de pé – E eu preciso ir, o ônibus vai passar daqui a pouco.
— Querida – Meu pai me chama antes que saia da sala – Você pode usar as roupas que quiser, é que pra mim, você ainda é a minha princesinha.
— Pai, eu sempre serei sua princesa. E tá tudo bem, prefiro mesmo me vestir assim.
Ele sorri, enquanto me vê seguir para o meu quarto. Verifico se todas as minhas coisas estão na mochila, mando uma mensagem para o Luck, lembrando ele de não perder o ônibus.
Meus pais me acompanham até a calçada, onde o ônibus escolar encostou logo em seguida, eles se despediram deixando a promessa de que chegariam mais cedo em casa.
O ônibus atravessa todo o bairro, antes de parar em frente à casa da tia Thea e do tio Roy. Pela janela, vejo Luck sair correndo de casa para alcançar o ônibus.
— Eu te mandei mensagem e mesmo assim você quase perdeu – Digo assim que ele se senta ao meu lado.
— Desculpa, prima – Ele está ofegante – Mas já se tornou um habito eu correr atrás desse ônibus.
— Hoje conversei com meus pais, mas o importante mesmo foi o que eles disseram quando eu estava ouvindo a conversa deles – Ele me encara, esperando que eu continue – Pelo menos hoje eles não comentaram nada, mas acredito que eles querem trazer à tona o assunto Hanna.
— E você vai contar? – Ele diz tão baixo que eu quase não ouço.
— Ainda não sei, mas se eles insistirem, vou acabar contando.
Vejo ele respirar fundo, e se encostar no assento, parece não ter o que dizer.
Na escola, caminhamos juntos até nossos armários, que ficam um ao lado do outro. Fazemos praticamente tudo juntos, somos perfeitos melhores amigos, com o bônus de que somos primos de sangue.
— Olha quem eu encontrei – Jack aparece na nossa frente, com seu casaco do time de futebol e seu cabelo perfeito, dizendo antes mesmo de nos cumprimentar – Meu priminho preferido, e a garota mais gata dessa escola.
Ele dá aquele sorriso maravilhoso quando se refere a mim, nem preciso de um espelho pra ter certeza de que fiquei toda vermelha.
— Cuidado como fala da minha prima – Luck dá um soco no ombro de Jack.
— Que isso, primo? Ela é sua prima, não minha – Jack retribui os socos, antes de piscar pra mim, imagino que fiquei vermelha de novo.
— Pessoal, por favor, segurem o Merlyn – Jane aparece ao meu lado me abraçando, antes de dar dois tapas na cabeça de Jack, que continuava a sorrir pra mim.
— Isso doeu – Ele reclama, encarando Jane.
— Não aguenta uns tapinhas de uma garota, priminho? – Luck provoca.
— Meninos, não briguem – Eu digo quando os dois começam a se encarar, como se fossem disputar uma verdadeira luta.
— Se a dama mandou, nós obedecemos – Jack volta a sorrir pra mim.
O primeiro sinal toca, avisando que precisamos nos dirigir às nossas salas. Quando começamos a caminhar em direção as escadas, Sara aparece correndo, mas até então só eu a tinha visto se aproximar.
— Oi Sara – Digo quando ela se aproxima de nós quatro.
— Oi pessoal – Ela acena para todos, e começa a caminhar conosco subindo as escadas.
— Está rindo do que, palhaço? – Luck pergunta, quando vê o primo rir sozinho.
— Sophia disse que a Sara estava chegando, e eu pensei que era a mãe da Jane – Jack responde.
— Só porque meu nome é uma homenagem à mãe da Jane, não significa que eu sou a mãe da Jane – Ela responde a altura dele – Seu bobão.
— Não liga pra ele – Eu empurro seu ombro com o meu, pra chamar sua atenção – Ele é um bobão mesmo.
Quando chegamos nos corredores do segundo andar do prédio, é que nos separamos.
Eu e Luck temos a mesma idade, apenas com dois meses de diferença, mas sou avançada dois anos na escola. Os primos, Jane e Jack são dois anos mais velhos que nós, e apenas quatro meses de diferença um do outro, então eu sou da mesma turma que eles. Sara é quase um ano mais nova que eu e Luck, mas ela é da mesma turma que ele.
Luck e Sara vão em direção a sala deles, prometendo serem os responsáveis por guardar uma mesa pra nós cinco no intervalo.
Já dentro da sala, ouvimos o segundo sinal, o alerta de que não pode mais haver alunos nos corredores, sem permissão ou motivo justo.
— Riquinha, você está no meu lugar – Hanna Wilson, diz, batendo a mão na minha mesa.
— Esse nunca foi o seu lugar – Respondo, sem ao menos olhar pra ela.
— Pois hoje eu quero que seja – Ela se inclina, me obrigando a ver seu rosto maquiado, na tentativa de cobrir a cicatriz dos pontos que levou – Vai fazer o que? Chamar o papai?
— Para de implicar com ela, Hanna – Jack, que senta no fundo da sala, aparece em pé ao meu lado.
— Como eu poderia me esquecer? – Ela diz gesticulando, exalando ironia – Agora você chama pelo seu namoradinho.
— Ele não é meu namorado – Digo calma, ficar nervosa é exatamente o que ela quer.
— Porque não vai procurar o que fazer, Hanna? – Jane, se manifesta, que até então estava distraída no celular, sentada em sua carteira ao lado da minha.
— Dificuldades para encontrar seus lugares, senhorita Wilson e senhor Merlyn? – O professor Don, de biologia, diz quando entra na sala, e somente os dois estavam de pé.
— Eu tô de boa, professor – Jack diz, mas sem sair do meu lado.
— Meu lugar é logo ali, Don – Hanna vai em direção a carteira vazia do outro lado da sala, passando pelo professor com um sorriso malicioso nada discreto.
— É senhor Parker, ou Professor Don – Ele responde ignorando a garota – Algum problema, Merlyn.
Só então me dei conta de que Jack ainda estava ao meu lado. Sem dizer nada, ele volta para o seu lugar, depois de deixar dois tapinhas no meu ombro, e um rápido sorriso.
A aula corre normalmente, eu me esforço ao máximo para compreender a matéria sobre genética, enquanto ignoro as implicações de Hanna. Ela e suas amigas passam o dia rindo, me encarando sem a menor descrição, claramente falando de mim, mas eu não ligo. Elas são apenas o grupinho de meninas populares na escola, que encontram um alvo fácil para tentar atingir, no caso eu, a filha do prefeito que é dois anos mais nova que todos da turma.
Quando bate o sinal do almoço, demoro, de propósito, para arrumar minhas coisas, assim todos saem da sala sem a oportunidade de alguém querer me fazer algum comentário indesejado.
Eu meio que me acostumei com as brincadeiras, apelidos, risadinhas, e outras coisas que sempre fizeram comigo. Passei a ignorar, deixar que riam sozinhos, e eu finjo que nem é comigo. Não gosto de comentar isso com meus pais, e sempre peço que meus amigos também não façam nada e tentem ignorar.
Se meus pais soubessem de tudo que fazem e falam pra mim, minha mãe faria o maior escândalo, e meu pai provavelmente me mudaria de escola. Por esse motivo não contei a eles sobre Hanna Wilson.
Ela é a filha de um antigo amigo do meu pai que trabalhava com ele na prefeitura, para os dois, eu e Hanna somos grandes amigas, pois é isso que eles sempre quiseram. Acontece que ela nunca aceitou que eu tenha me adiantado na escola, e desde pequenas, quando estamos longe dos nossos pais, ela cria um jeito de tentar me irritar, mas eu sempre ignorei.
A algumas semanas eu não consegui ignorar o que aconteceu. Quando cheguei na escola, encontrei Sara em um canto do pátio, com Hanna e suas amigas a encurralando. Quando me aproximei, ouvi Hanna dizer coisas horríveis a minha amiga, depositando sobre ela seu preconceito em relação a cor da pele de Sara.
Sem pensar duas vezes, eu puxei Hanna pelo braço com força, fazendo ela cair no chão, permaneci firme encarando a garota que pareceu não se abalar. Notei as amigas dela saírem correndo, e Sara tentou me impedir, mas quando Hanna se levantou me ameaçando, usei nela alguns golpes que a tia Sara me ensinou, e em alguns segundos eu a imobilizei deixando um corte em sua testa.
Quando a roda de alunos se formou ao nosso redor, Jack apareceu e me segurou antes que continuasse a bater nela.
Na sala do diretor, onde eu, Hanna, Sara e Jack aguardávamos, Hanna sugeriu que contássemos que ela apenas tropeçou, e nós três nos envolvemos para ajudá-la, com os outros alunos interpretando errado a cena.
Não entendi porque ela queria isso, essa era a oportunidade perfeita dela me culpar. Mas aparentemente ela queria manter a imagem aos nossos pais.
Quando todos chegaram, ela começou contando sua mentira de ter apenas tropeçado. Eu concordei com a sua história, fazendo o diretor e nossos pais acreditarem.
Alguns dias depois, não sei como, mas meus pais souberam que na verdade, eu havia causado aquela confusão, o pai da Hanna também soube, e foi até a nossa casa ameaçando me processar por agressão, mas meu pai interferiu, e ele desistiu. É claro que eu fiquei de castigo, mas meus pais não me obrigaram a contar exatamente o que aconteceu.
Vou até o refeitório, pego meu almoço e procuro pela mesa dos meus amigos.
Quando os avisto, noto como somos um grupo muito incomum. Eu sou a nerd, filha do prefeito, que tem vários privilégios apenas pelo meu nome. Meu melhor amigo é meu primo, um garoto mais simples, que estuda aqui apenas por possuir o sobrenome de duas famílias muito influentes na cidade. O primo dele, é o capitão do time de futebol da escola, o popular bonitão, aquele que em filmes clichês geralmente é o namorado da mais popular da escola, mas aqui ele é o primo do meu primo que sempre dá em cima de mim. Nossas duas amigas são completamente diferentes, uma é um pouco gótica, uma garota de poucas palavras, e ela basicamente só fala com a gente dentre todos os alunos da escola. Nossa outra amiga já é bem extrovertida, ela é filha do motorista e segurança da minha família, e estuda aqui graças a bolsa de estudo que ganhou pela sua inteligência, e a cor da sua pele sendo motivo de piadas pelos outros alunos, mesmo eu não entendendo o que isso importa.
— Finalmente você chegou – Luck diz quando eu me sento de frente pra ele, e ao lado de Sara e Jane.
— Eu estava tentando evitar a Hanna – Respondo abrindo a garrafa de suco.
— Aquela garota me estressa – Jack diz bufando ao lado de Luck – Quando ela vai se cansar de ser tão insuportável?
— O que ela fez pra deixar o Jack assim? – Sara perguntou notando o quanto ele estava nervoso.
— Ela estava implicando comigo na primeira aula – Começo a comer.
— De novo – Jane diz, distraída com seu almoço.
— Sophia, você precisa contar pros seus pais que essa menina é o demônio em pessoa – Meu primo diz começando a ficar nervoso também.
— Luck tem razão, Soph – Sara continua – Tenho certeza que tio Olie vai entender que não podemos ficar perto dela, e meu pai também, eu não gosto dela e nem do pai dela, sinto que tem alguma coisa errada com Slade Wilson.
— Eu acho que a Hanna deveria desaparecer por completo da existência da face da Terra – Jack parece tentar depositar sua raiva no garfo que ele bate no prato.
— Vai com calma, Jack – Jane se assusta com a forma que ele diz.
— Jack não gosta de ninguém falando mal da Sophia – Sara se inclina pra dizer à Jane.
— Jack não gosta que falem dele como se não estivesse aqui – Ele diz na terceira pessoa.
— Jack precisa se acalmar – Digo esticando minha mão para tocar a dele, e quando ele me olha, parece começar a se acalmar.
Luck finge estar tossindo, fazendo todos nós o encararmos.
— Você tá bem? – Sara pergunta.
— É só que eles estavam se encarando muito intensamente – Ele volta a se concentrar em sua comida.
— Vocês falam demais – Jane começa a mexer em seu celular, depois de já ter terminado de comer, enquanto nós ainda estamos com os pratos quase cheios.
Depois de almoçar, ainda tínhamos meia hora antes de voltar às aulas, usamos esse tempo pra jogar conversa fora na arquibancada, enquanto Jack treinava no campo.
Nas aulas da tarde tudo correu muito bem, a professora de física passou um trabalho em grupo: montar um circuito elétrico e calcular a quantidade de energia usada para manter cinco lâmpadas acesas nesse circuito por um determinado tempo. Meu grupo é apenas com Jane e Jack, não tinha como deixar esse grupo melhor do que apenas conosco.
Quando saio da escola e estou indo em direção ao ônibus, vejo meu pai parado ao lado do carro dele. Ele está de bermuda, camiseta polo e óculos escuros, nem parece o prefeito, exceto pelos quatro seguranças perto dele, um deles sendo o tio John.
— O que está fazendo aqui, pai? – Pergunto depois de abraça-lo.
— Estou colocando em pratica o que conversamos hoje cedo – Ele diz antes de cumprimentar Sara, Luck e Jane que estavam comigo (Jack ficou na escola, hoje tinha treino do time) – Então, o que vocês têm de interessante pra fazer hoje mesmo?
— Hoje eu tenho aula de francês – Sara diz, montando em sua bicicleta, depois de cumprimentar seu pai, que logo voltou ao seu trabalho. Ela mora perto da escola, então preferi ir pedalando de casa até a escola e da escola até o curso.
— Eu tenho lição de matemática pra fazer – Luck responde, parece preocupado com o dever.
— Eu e a Jane temos aula com a tia Sara sobre você sabe o que, pai – O que mais tenho em comum com a Jane, é que a mãe dela nos treina quase todos os dias. Dentre nossos amigos que também são filhos de heróis, nós somos as melhores em luta, e o Jack, claro, mas ele quase nunca treina conosco por causa do futebol.
— Eu levo vocês – Meu pai abre a porta detrás do carro pra gente entrar – Vamos também, Luck, podemos treinar um pouco se quiser, e depois as meninas te ajudam com a lição.
Meu pai dirige o carro com nós três no banco detrás, tio John no banco do passageiro, e outros três seguranças no carro preto que nos segue. Sempre com segurança ao nosso redor, só porque meu pai é o prefeito.
Depois de duas horas de treino, tia Sara comigo e com a Jane, e meu pai com Luck, e depois nós três treinando golpes, descansamos um pouco. Ajudamos Luck a fazer o dever, que nem era tão difícil.
— Oi pessoal – Jack saiu do elevador jogando sua mochila em um canto qualquer – Esse dia não tem como ficar pior.
— O que aconteceu? – Meu pai pergunta.
— Nada fora da minha rotina – Ele responde rapidamente, depois me encarando com os olhos arregalados, parece que ele quase falou o que não devia.
— Que bom que você chegou, Jack, queria te fazer uma pergunta – Me levanto do chão e vou até nossa cozinha do esconderijo secreto, percebo que ele me seguiu.
— O que foi? – Ele pergunta quando estamos sozinhos.
— Eu que pergunto – Coloco as mãos na cintura o encarando – Pareceu que você quase falou besteira ali.
— Eu ia dizer que encontrei a Hanna depois do meu treino, mas tio Olie ia achar estranho.
— O que ela estava fazendo na escola uma hora dessa?
— Eu não sei, mas ela está tramando alguma coisa. Aquela maluca me disse pra ficar longe de você, pra que eu não sofra quando o pior te acontecer.
— O que ela pensa que vai fazer comigo?
— Não sei, e isso me preocupa muito – Ele toca no meu braço, e olha pra porta, verificando se ainda estamos sozinhos – Eu tenho medo que algo de ruim aconteça com você. Sophia, já passou da hora de você aceitar que pelo menos um segurança do seu pai a acompanhe.
— Acha que eu não posso me cuidar sozinha? – Cruzo os braços, ainda mantendo meus olhos fixos nos seus.
— Muito pelo contrário, você é a garota mais forte que eu conheço, mas pessoas más jogam sujo e isso pode machucar até mesmo os mais fortes.
— Eu acho fofo você se preocupar comigo – Quando vejo ele abrir aquele sorriso lindo percebo que acabei falando em voz alta – Isso não quer dizer nada, tá legal?
— Uma pena que você ainda pense assim, mas eu sou paciente – Ele me manda uma piscadela antes de ir até a geladeira, pegar uma garrafa de água e voltar para junto dos outros.
Quando chegamos em casa, encontro minha mãe na cozinha, onde geralmente está a Rayssa, nossa cozinheira e minha antiga babá. Ela afirmou também estar cumprindo a promessa de hoje cedo, eu estranhei, mas gostei.
Depois do jantar, Sara me ligou.
— Oi, Sara – Atendi o celular me jongando na cama.
— Jack me contou sobre a Hanna – Ela foi dizendo logo de cara.
— Aquele boca aberta – Digo com vontade de xinga-lo pessoalmente – Eu até imagino o que vai dizer. “Você precisa contar para os seus pais”. Isso não vai acontecer.
— Eu não entendo essa sua insistência em esconder isso deles – Posso ouvir ela bufar – Já consigo imaginar, que quando você decidir contar o quanto a Hanna te inferniza, o tio Olie vai surtar, mais por você ter escondido isso do que pelo assunto principal.
— Eu já te falei sobre isso, eu ignoro tudo que ela me fala, isso não me atinge, não tem motivo pra eles se preocuparem mais ainda – Começo a falar mais baixo, com medo que meus pais ouçam – Quando eles me contaram “O segredo da família”, meu pai disse que queria que eu soubesse como me defender, na época, no mínimo, contra crianças que tiravam sarro de mim. Eu podia ver o quanto eles se preocupavam apenas com isso, prefiro que eles acham que está tudo bem agora.
— Esse seu discurso não fez o menor sentido – Ela diz depois de alguns segundos de silêncio – As coisas que a Hanna faz com você são erradas, na verdade ela faz e diz coisas erradas pra todo mundo – Imagino que ela esteja se lembrando do ocorrido de algumas semanas atrás – Eu, a Jane e os meninos já teríamos contado aos nossos pais sobre ela, só não contamos por nossa lealdade a você. Soph, depende de você dar o primeiro passo pra acabar com isso, antes que vire algo pior.
— Eu posso prometer que vou pensar no assunto?
— Eu acho que isso é o máximo que vou conseguir de você hoje, então tudo bem.
— Chegou uma mensagem do Luck, vou ver o que ele quer.
— Tudo bem, boa noite. Beijo.
Quando encerro a ligação, vejo que tem outras sete ligações perdidas, todas do Luck, e no mínimo, umas dez mensagens dizendo “Me atente”. Ligo de volta pra ele, que atende no primeiro toque.
— Porque não estava me atendendo?
— Estava numa chamada com a Sara. Mas o que aconteceu?
— Que papo é esse da Hanna te ameaçar?
— Eu vou cortar a língua do Jack – Digo bufando de raiva, esse menino sabe espalhar uma notícia como ninguém.
— Sophia... – Ele começa a dizer, mas eu o corto.
— Eu já sei que vai dizer que preciso contar aos meus pais, então poupe o discurso, pois a Sara acabou de me dar um.
— Você sabe que isso pode acabar se tornando algo sério, né?
— Não precisa se preocupar, eu vou cuidar disso.
— Cuidar, cuidar mesmo? Ou cuidar do tipo dizer que vai cuidar e deixar pra lá?
— Vou cuidar, cuidar mesmo – Digo rindo de sua frase.
Quando desligo o celular, recebo uma mensagem da Jane, direta e simples.
“Para de frescura, e pare a Hanna antes que ela vire uma psicopata.”
Penso nas palavras dos meus amigos. Nas coisas ruins que a Hanna já fez tanto pra mim, como pra eles também. Reflito sobre como isso os está afetando.
Decido sair do quarto a procura dos meus pais, eles não me avisaram que sairiam, então provavelmente ainda não foram para o “trabalho noturno”.
Antes de abrir a porta meu celular toca, uma mensagem do Jack.
“Desculpa, mas eu contei pro pessoal sobre o que a Hanna me falou >
Era o certo a se fazer
E lembre-se: que tudo que eu faço, é pensando em você ♥”
Eu estava brava com ele, mas um sorriso se formou no meu rosto ao ler suas palavras.
Na sala, encontrei meus pais conversando sobre algo que viam no notebook de minha mãe.
— Está tudo bem? – Pergunto quando noto que eles parecem preocupados.
— Sim, querida – Minha mãe sorri – São coisas da empresa, eu prometo – Ela confirma quando nota meu olhar desconfiado.
— Mas tem alguma coisa te incomodando – Meu pai quem diz.
Quando ele coloca o computador na mesa de centro, rapidamente eu me aconchego no espaço entre eles. Minha mãe passa os braços ao meu redor, e meu pai abraça nós duas, enquanto beija minha cabeça. E então, eu me sinto segura, o mundo poderia desabar agora, e eu me sentiria no melhor lugar possível.
— Preciso contar uma coisa pra vocês, é bem sério – Digo depois de ficarmos naquela posição em silêncio – E vocês precisam prestar atenção, e deixar para ficarem bravos apenas quando eu terminar.
Eles apenas concordam com a cabeça, e eu começo a contar tudo sobre Hanna Wilson, desde o jardim de infância, onde ela implicava com o meu cabelo, depois quando as brincadeiras e piadas foram ficando mais sérias. Contei sobre o que realmente aconteceu no ocorrido de algumas semanas atrás, contei como ela faz piadas com meus amigos pra tentar me atingir, eu contei tudo.
Meus pais ficaram surpresos, e depois de ouvir toda a história ficaram até sem palavras. Meu pai parecia estar formulando em sua mente um discurso, quando seu celular tocou. Era o assistente dele dizendo que havia um problema que só ele poderia resolver, ele chamou tio Dig para irem à prefeitura.
Minha mãe ficou em casa, e disse que depois conversaríamos os três juntos.
Cansada desse dia estressante, fui dormir antes mesmo do meu pai voltar pra casa.
[...]
— E depois que você contou tudo? – Luck perguntou.
Estávamos parados numa roda em frente ao meu armário.
— Meu pai teve que ir até a prefeitura – Respondi à pergunta, depois de ter explicado a eles minha decisão de contar aos meus pais.
— Meu pai me disse que tinha que levar o tio Olie – Sara confirmou, e os outros esperaram que eu continuasse.
— Hoje de manhã, meu pai disse que depois de ir à prefeitura ele foi até a casa dos Wilson – Meus amigos parecem assustados com o que está por vir – Aparentemente, Slade aceitou bem o fato da filha dele ser uma encrenqueira, e meu pai garantiu que ela não vai mais nos perturbar.
— Não sei se aquela ali vai se aquietar apenas porque o pai dela vai pedir – Jack disse cruzando os braços.
— Talvez o pai dela faça mais do que isso – Jane disse, fazendo todos nós ficarmos pensativos.
Logo na primeira aula, toda a turma notou algo diferente, Hanna não estava lá. Durante a chamada, o nome dela nem foi mencionado, e nem as amigas dela pareciam saber o porquê.
— Estão dizendo que ela foi expulsa – Me assustei ao ouvir a voz de Jack quando ele apareceu se agachando ao lado da minha mesa.
— Ela pode estar doente – Disse baixo, pra que a professora, que estava de costas escrevendo no quadro, não nos ouvisse.
— Ou tio Oliver botou tanto medo nela, que ela fugiu pra se esconder dele – Ele disse no mesmo tom, verificando se a professora não o ouviu.
— Eu acho que o tio Oliver pode ter obrigado a escola a expulsa-la – Jane se esticou, para poder falar baixo perto de nós.
— Gente, ela pode apenas ter perdido a hora – Digo, mas os dois me olham convictos de que não é isso.
— Já terminou a reunião do clubinho? – A professora disse enquanto nos encarava séria.
Eu e Jane voltamos a copiar a matéria, enquanto Jack foi se rastejando até sua carteira nos fundos da sala, tirando risadas dos alunos por quem ele passou.
Ainda naquela aula, a orientadora pedagógica da escola bateu na porta da sala.
— Com licença, professora Marta, mas eu preciso conversar com Sophia Queen.
A professora sinalizou que eu podia sair da sala, e seguir a mulher. Enquanto me levantava, a turma toda me observava, todos estavam curiosos para saber porque eu estava sendo chamada.
Jane me encarou e sorriu. Quando eu estava na porta, olhei pra trás, meu olhar encontrando o de Jack, ele sorriu e em silêncio, moveu os lábios dizendo “boa sorte”.
[...]
— Desculpem o atraso – Luck disse chegando correndo e ofegante – Eu tive que ir ao banheiro – Ele fez uma pausa para recuperar o ar – Mas então, porque a reunião bizarra aqui?
No intervalo, chamei meus amigos e pedi que nos reuníssemos em baixo das arquibancadas da quadra.
— Sophia foi chamada pela orientadora – Jane respondeu à pergunta.
— Mas ela só chama alguém quando o problema é sério – Ele parecia confuso.
— Sabemos disso, e só faltava você chagar pra ela contar o que aconteceu – Jack disse, cruzando os braços e se sentando em cima de um barriu velho ao meu lado.
— Ela queria falar comigo sobre a Hanna – Eu comecei a contar, fazendo todos me encararem atentamente – Pelo que eu entendi, Slade Wilson veio e efetuou a transferência dela hoje antes do horário de aula, por isso o nome dela nem estava mais na chamada – Disse olhando para Jane e Jack, depois voltando a contar – Parece que o pai dela culpou a escola pelo que ela fazia, disse que os professores incentivaram ela a agir daquele jeito.
— Isso é ridículo – Sara disse colocando as mãos na cintura, indignada – Ela fazia aquelas coisas porque ela achava prazer em machucar o emocional das pessoas.
— Você está certa – Continuei – Slade queria que a escola tomasse alguma providencia, mas eles não aceitaram transferir todos os alunos que ela incomodava, que era o que ele queria, então sugeriram ele retirar a filha por conta própria, pois se ela fizesse mais alguma coisa do tipo seria expulsa.
— Por mim ela já teria sido expulsa a muito tempo – Jack diz ao meu lado.
— Continuando – Digo – A orientadora quis me avisar para que eu conte ao meu pai o que a escola fez pensando em mim, mas eu sei que eles só pensam em ganhar pontos com o prefeito.
— Aproveitadores – Jane diz, depois sinaliza que eu continue.
— Eu quero pedir desculpas a vocês – Eles me encaram, agora confusos – Eu não deveria ter forçado vocês a esconder dos seus pais o que a Hanna fazia com a gente.
— Mas você não nos forçou a isso – Luck disse, os outros concordando com ele – Nós escolhemos manter esse segredo, porque você não estava pronta pra contar pro tio Oliver e pra tia Felicity.
Ao ouvir o que ele dizia, me peguei tocando o pingente de flecha no colar que tio Dig me deu no meu aniversário de dez anos.
— Nossa amizade vem em primeiro lugar, sempre – Digo pensativa – Vamos prometer aqui, e agora, que não importa o que aconteça, vamos estar sempre juntos protegendo um ao outro.
— Como um pacto? – Jack diz pulando do barriu, e ficando em pé.
— Tipo isso – Respondo.
Estico meu braços, passando pelos ombros de Jack e Sara, que estavam um de cada lado, eles fazendo o mesmo com Luck e Jane, até estarmos abraçados numa roda.
— Somos amigos, e não importa quem... – Começo a dizer
— Ou o que... – Jack continua.
— Nada vai nos separar... – Jane, ao seu lado, quem disse.
— E por mais difícil ou perigoso que seja... – Luck quem disse.
— Sempre estaremos juntos. – Sara terminou.
— Eternos parceiros – Eu disse, olhando nos olhos de cada um.
— Eternos parceiros – Dissemos todos juntos.
Ali, naquele momento, juramos proteger uns aos outros. Com simples palavras, prometemos manter nossa amizade, não importa quanto tempo passe, estaremos juntos.
Somos amigos desde sempre, e seguindo o exemplo de amizade entre os nossos pais, nos tornamos mais que isso, nos tornamos parceiros.

Amizade verdadeira não expira.
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