Em plena primavera britânica, as flores que eram responsáveis por dar vida ao jardim da casa, desabrochavam-se pacificamente, sem qualquer pressa, em uma tênue sintonia. O brando sol iluminava a todos, transferindo-lhes toda energia limpa de qual necessitavam. Do lado de dentro da Mansão, era o horário do almoço.

Eu, um simples servo, ficara recluso a um canto à esquerda de meu Mestre, que sentava na cadeira de regime. Sua consorte, Rachel Phantomhive, uma mulher admirável, dona de madeixas loiras e olhos azuis, sentava-se em frente ao filho, o qual herdaria toda sua fortuna pós-morte, e também razão do meu suplício, Ciel Phantomhive, o calvário em forma humana.

A comida era servida por mim, sem quaisquer erros e com os mais finos talheres, e era consumida em um silêncio infinito, pois o regente era bem específico em seguir às rigorosas regras de etiqueta da casa. Vincent Phantomhive, certamente um homem do mais alto valor e estima, sendo alguém de personalidade séria e ríspida, de olhar seguro, sem nenhum traço hesitante.

A Senhora da casa, a qual apelido em segredo de fêmea, era oposta ao marido. Sua aura calma, pia, pacífica, contrastava perfeitamente o homem a qual havia entregue sua aliança. Teus olhos azuis eram verdadeiros, capazes de transmitir seu mais verdadeiro eu, e teu semblante, sempre alegre e com certeza de teus atos. Arrisco-me a dizer que, dentro daquela casa, Rachel era a única capaz de fingir.

Por último, o calvário culminante, o garoto que poderia chamar-se de cravo se minha vida fosse um mar de rosas. Ciel Phantomhive realmente possuía traços especiais, uma fina pele branca e olhar impactante, apaixonante, capaz de fazer as mais perversas criaturas se ajoelharem diante a si, de forma humilde.

Se era teu corpo púbere em volto de roupas da mais alta costura, dando-lhe um ar maduro; se era simplesmente sua voz, tão ríspida e repleta de confiança, esbanjando um ar de superioridade, ou ainda, se até mesmo era sua personalidade de liderança, sua arrogância infantil, nada disso importava.

Tudo o que eu sei é que, teus traços encantavam-me por si só e eu deveria segui-lo, pelo resto de minha pacata vida. Ou melhor dizendo, se eu tivesse tal privilégio, poderia finalmente ser feliz.

Com a refeição tendo sido finalizada, o regente da casa levantou-se, utilizando um pequeno guardanapo para limpar o canto de teus lábios, e dirigiu-se para teu escritório, onde passaria o resto do dia assinando papéis. A fêmea, após ver o marido feito sua ação, soltou um leve riso para o filho, retirando-se também. Andou para fora do cômodo, mas não sem antes soltar-me um olhar de lado, em sigilo, o qual respondi em silêncio, cruzando meus olhos com os dela.

O último que restara na casa era meu âmago, o garoto que não ousava sorrir, o esnobe orgulhoso, que mesmo com pouca idade já possuía uma postura de líder. Eu era teu servo pessoal, tinha que segui-lo para qualquer canto, obedecer quaisquer ordens, servi-lo até o ápice de minha vida, não importando que ordens fossem. E ele gostava disso, a superioridade lhe era cômoda, e eu, em silêncio, apenas adorava tudo.

Seguiu teus curtos passos em direção a teu aposento, e eu fui atrás, como um excelente servo, sem ousar dar um pio sequer. Andamos até o quarto do Jovem Mestre, onde havia móveis da mais alta qualidade, dourados, feitos de madeira, e uma enorme cama, que eu costumava questionar a mim mesmo para que servia, se o corpo que a deitava era tão pequeno e delicado. Mesmo assim, ele sentou-se nela, e eu o segui.

Ajoelhei-me diante do garoto, sentindo meu coração palpitar assim que segurei sua botina, mas não querendo transparecer, por óbvios motivos. Ciel gostava que o despisse, o ato alimentava teu ego, e eu, por incrível que pareça, odiava aquilo. Odiava porque simplesmente não aguentava sentir teu aroma tão perto, tocá-lo sem poder tocar de fato.

Tirei sua pequena bota, olhando para baixo, mas sentindo que ele estava direcionando sua visão para mim. Conseguia perceber, não sei como, que brotava um pequeno riso em teu rosto. Mas não era um sorriso alegre, ou nada do gênero, e sim, um pequeno semblante malicioso. Um sorriso que dizia "Você é meu escravo, eu sou teu amo. Olhe para baixo, não dirija sua palavra até mim. Eu sou superior a você."

Suas meias iam do início do joelho até o afinal de teus dedos, então toquei levemente a fina canela que ele possuía, sentindo sua textura macia através de minhas luvas. Abaixei o tecido que cobria suas pernas, bem levemente, despindo-lhe e ousando olhar a pele branca que já surgia, bem próxima a meu rosto. Minha vontade era de beijá-la, sentir teu gosto levemente salgado e apimentado, mas não podia.

Terminado com as meias, subi meu corpo e fui em direção ao teu peito, puxando o pequeno laço que era amarrado em teu pescoço, tirando-o cuidadosamente. Olhei de relance para cima, e tive certeza de que minha mente estava certa. O garoto olhava-me, com um leve sorriso e olhos semi-fechados, provavelmente tirando sarro de minha situação lastimável. Meu corpo tremia por dentro sempre que o tocava e ele percebia isso de alguma forma, e o pior, ele gostava de ver-me em um interno desespero.

Teu laço já havia sido arrancado, tendo agora mais um obstáculo a ser concluído. Tentava manter as mãos firmes, desabotoando lentamente o colete preto que o cobria, ousando tocar em teu peito para tirar-lhe a vestimenta, vendo teus finos braços terminando de fazer o trabalho. Ainda restava um último, que era a camisa branca.

Para que servia este monte de roupas em um simples garoto, eu perguntava-me, mas não reclamava de fato. Sua beleza jovem tonava-se ainda mais branda, repleta de mistérios a serem revelados por minhas mãos, que tirava-lhe os botões devagar, vendo sua pele aparecer quando eu concluía a ação. Minha vontade, nem preciso falar, era de arrancar rapidamente, para ter sua nudez à pronta-mão.

Tirei teus botões um a um, revelando-lhe o peito em consecutivo, sentindo meu coração palpitar fortemente. Assim que terminado meu trabalho, coloquei minhas mãos por debaixo de suas vestes, tocando teu peito macio e deixando minha visão completamente embasada, tal forte era minha vontade em tê-lo. Minhas mãos iam subindo até teus ombros, tirando o tecido branco, passando meus dedos por suas costas até, finalmente, despi-lo.

– Hoje à noite o Conde Johann e a Condessa virão nos visitar.

Sua voz saía de maneira firme e brusca, indo até meus ouvidos da forma mais hipnotizante possível. Como se já não bastasse suar frio vendo teu corpo tão próximo, ouvi-lo era um sufoco, uma luta interna por sobrevivência, já que eu sentira todo meu ser quebrando-se em minuciosos pedaços. Teus finos lábios abriam-se, deixando escapar o som responsável por minha imaginação primitiva arder em relutância. Acabei cometendo um crime, o de distrair-me.

– Perdão?

– Eu disse que o Conde Johann e a Condessa virão hoje! Francamente, Sebastian, não me faça repetir.

– Minhas sinceras desculpas, Bocchan, não irá repetir-se. Farei os preparativos para o jantar assim que terminar meus serviços para com o senhor.

– Então já pode ir, me cansei de você por hoje.

– Entendido. Com sua licença.

(...)

A noite caiu e, com ela, todos nós, os servos da Mansão, terminamos os preparativos do jantar. Os anfitriões da casa aguardavam ansiosamente pelo Conde Johann e a Condessa Noire, que viriam a tratar de negócios com meu Mestre Vincent Phantomhive, os quais não eram necessários um empregado tomar conhecimento.

Quando os caros convidados chegaram, levei-os até a mesa principal e os servi. O homem era alto e possuía uma grande barba ruiva, apesar do pouco cabelo na parte de cima, e também parecia ser bem propenso a assinar acordos somente com um bom blefe. A mulher, pelo contrário, parecia ser muito mais atenta a negócios do que o marido, vestindo roupas elegantes e com um decote discreto.

Assim que acabei de servi-los, voltaram-se a concentrar-se nos pratos, em silêncio profundo, apreciando a refeição. O Conde olhava para baixo e comia sem maiores detalhes, ao contrário da mulher, que soltara um leve riso direcionado a Vincent, que retribuía o olhar, com o mesmo semblante, em silêncio. Eu, um simples servo, poderia apenas notar o clima daquela mesa e, ocultamente, sentir nojo da hipocrisia britânica.

A fêmea regente, Rachel Phantomhive, a qual vos disse ser a única que sabia realmente disfarçar, conhecia o marido do mesmo jeito que um rato conhecia teu próprio rabo. Um homem com um ar sedutor imerso em ternos de alta costura, escondidos por um estima social comportada, realmente chamaria a atenção de qualquer mulher.

Naquela época, a conservadora Inglaterra antiga, que vivia de aparências para sobreviver, partia do princípio de que o homem poderia fazer o que bem quisesse, desde que colocasse comida na mesa e sorrisse para fotógrafos, escondesse toda a sua repugnância em ternos caros e fosse dançar com sua esposa em bailes, fazer presença social. A fêmea, pelo contrário, teu único papel era apoiar o marido sem questioná-lo, falar somente quando lhe fosse requisitada.

Eu sentia nojo.

Vincent era o tipo de homem inteligente, que faria de tudo para ter teus objetivos concluídos, nem que para isso tenha de fazer serviços sujos. Para ele, uma noite de prazer com outra mulher, se não sua consorte, lhe era válida, desde que sua imagem não fosse afetada.

A Condessa Noire parecia entender bem essa questão, conhecendo o jeito distraído e simplista do marido, então olhares eram trocados minuciosamente. Rachel sabia de tudo, ela conseguia ver os olhares mesmo de olhos fechados, mas disfarçava. Se Ciel sabia ou não, eu descobriria aquela noite.

(...)

Depois dos negócios serem feitos, a Condessa convenceu o marido a passar a noite na mansão, com o pretexto de que estava tarde demais para retornar à residência. Já estava extremamente tarde, todos dormiam, porém eu não conseguia. Meus pensamentos estavam turbulentos, mas permaneci em meu quarto, quieto.

Eis que o telefone que estava preso à minha parede toca e meu coração, em resposta, bate em disparada. Meu amado garoto fez-me comprar este aparelho, que somente ele possuía o número, para caso de querer me chamar durante a madrugada por qualquer motivo. Sempre que tocava, eu atendida imediatamente, querendo disfarçar minha euforia.

– Bocchan, algum problema?

"Venha até o meu quarto, agora."

– Entendido.

Coloquei minhas roupas o mais depressa possível, querendo atendê-lo imediatamente, mas assim que me olhei no espelho, notei que estava completamente em trapos, tão era minha pressa. Me refiz, vestindo-me direito, e fui até teu encontro, batendo na porta antes de entrar e esperando sua confirmação, adentrando-a finalmente.

– Você demorou.

– Peço perdão pela demora, Bocchan. Em que lhe posso ser útil?

– Não consigo dormir, converse comigo.

Ele estava deitado, encostando suas costas na cabeceira da cama, com cabelos levemente bagunçado e bochechas rosadas. Uma verdadeira carinha infantil, emburrada, mas que o deixava com uma fofura aprazível. Senti um leve sorriso abrindo-se em meu rosto só em pensar que aquele garoto mandão poderia ter seus momentos de inocência, e agachei-me ao seu lado.

– Sobre o que queres conversar, Bocchan?

Ele hesitou ao responder.

– ... meu pai. Ele está com aquela mulher.

E eu também hesitei, por não saber lidar com tal assunto diante meu Mestre de dez anos.

– Teu pai é um homem com plena certeza em suas decisões.

– Ele está traindo a minha mãe, não é? – Diz, olhando para baixo. – Não precisa me poupar só por eu ser mais novo.

– Como seu Mordomo, eu aconselharia o senhor a deixar essa história de lado.

– Você não acha que eu deveria contar à minha mãe?

– Ela sabe.

– Então por que ela não faz nada? Por que ninguém toma atitudes? – Sem perceber, acaba levantando a voz. – Por que os adultos preferem deixar os problemas de lado ao invés de resolvê-los?!

– Bocchan. – E eu o chamo, com calma, para que ele percebesse sua voz agitada. Ciel entende meu chamado, bufando e acalmando-se.

– Eu sei, você como servo não pode fazer nada. Ninguém pode.

– Não há nada o que possamos fazer para evitar o destino. – Levanto-me, cobrindo teu corpo.

– Nem mesmo se for um destino ruim? – Ele se deita.

– É como as coisas funcionam.

Ponho teu corpo pequeno sob a cama grande, cobrindo-o por completo, sem deixar quaisquer espaços em branco. Teu rosto fica quente, tuas bochechas mostram-me a visão de teu semblante infantil, amargamente, pronto para relaxar diante uma madrugada suja. Abaixo-me, direcionando meu rosto até o teu, depositando em tua testa, um ínfimo beijo de boa noite.

– Sebastian, fique comigo até eu dormir.

Em resposta, tenho teu corpo virado, tuas mãos apoiando-se no travesseiro plumado, fechando teus olhos azuis e rendendo-se ao mundo dos sonhos, bem longe da realidade ímpia a qual fazemos parte. E eu, como um humilde servo, tudo o que poderia dar-lhe em troca sua generosa ordem de ter-me durante a noite, era ajoelhar-me diante a si e proferir, com as mãos em meu peito e rosto abaixado, palavras da mais alta consolidação.

– Yes, my Lord.

Notas finais
Primeiro capítulo! O que acharam? Muito sórdido? Gentchy, é o seguintchy, é a primeira fanfic de Kuroshitsuji e, francamente, eu só li o mangá até o capítulo da Faculdady, então eu absolutamente não conheço a personalidade do Vicent e nem da Rachel. Se ficarem muito OOCs, pls, me avisem. Beijokas! ♥