Domingo de manhã em um sítio longe do resto da civilização. Um horário e um local perfeitos para executar um plano que, por mim, pode ter sido planejado há poucos dias, mas o resultado era por muito esperado. Um plano arriscado? Sem dúvidas nenhuma, pois acima de tudo é uma aposta. O resultado é polarizado: ou o pior erro de minha vida, ou o melhor acerto.

Os dados foram jogados, hora de mover os peões. Tudo já encontrava-se arquitetado, em seus devidos postos e o primeiro movimento fora feito. Dirigi-me até o quarto de Vincent afim de acordá-lo e levar-me comigo para o mundo o qual nasci, minha verdadeira terra natal. Não a terra natal de meu corpo, e sim, a de minha mente.

– Sebastian, o que significa isso?! – Perguntou-me, nós dois já havíamos saído do quarto e estávamos sozinhos. – Por que você me acordou de madrugada?

– Queira perdoar-me, mas é urgente.

– Então diga-me o que é!

– Venha comigo, por favor.

Andei consigo até fora da casa, com cuidado para não acordar ninguém, indo até o sítio que encontrava-se em um breu noturno, frio e gélido graças aos ventos álgidos que percorriam o gramado, batia nas folhas e deixava apenas um singelo rastro de som. Vincent estava confuso com minha atitude, mas seguiu-me.

Já havia conquistado sua confiança graças ao meu trabalho impecável, então guiá-lo nada mais era que uma fácil tarefa. Dirigi-me, andando pelo campo em passos rápidos, quase correndo silenciosamente, até chegar próximo ao estábulo. Seu rosto estava furioso e confuso ao mesmo tempo, exigindo-me explicações.

– Por que você me arrastou pra cá? O que significa tudo isso?!

– Vim até aqui para não haver riscos de ouvirem nossa conversa.

– Sebastian, essa sua atitude está sendo terrivelmente insolente!

– A Duquesa Pilar de Borbón solicitou uma reunião para com o senhor hoje às seis da manhã.

– Como?

Desde que arquitetei o plano, passei a estudar o trabalho do Conde com o mais minuciosos detalhes, sem deixar nada escapar. Já conhecia sua rotina, suas tarefas e seu cargo na empresa Phantomhive, até mesmo alguns arquivos secretos que consegui durante a faxina. "Conheces teu inimigo e conhece-te a si mesmo." – Sun Tzu.

– Ligaram-me da Mansão avisando-me da solicitação e, por ser urgente, decidi contar-te o mais breve possível. Perdão por ter-lhe acordado de forma tão brusca.

– Não, imagina! – Foi só contar sobre a Duquesa que Vincent modificou seu modo de agir totalmente, abrindo um enorme sorriso de negócios. – Eu é que lhe peço perdão, essa reunião é séria mesmo? Fez muito bem de ter me acordado!

– E para marcar uma reunião de forma tão apressada, realmente é um pedido urgente, como imaginei.

– E como! A Duquesa é líder do comércio inglês, conseguir uma reunião com ela é como ganhar na loteria três vezes seguidas, com certeza ela é ocupada e não é de se estranhar um convite tão repentino.

– Contudo, faltam duas horas e meia para o relógio mostrar seis da manhã e nós estamos em um sítio.

– Não dá tempo de acordar a Rachel, de manhã eu dou um jeito de avisá-la, mas precisamos voltar para a Mansão o quanto antes!

– Entendido, irei preparar vossa carruagem.

Levei a montaria até o carro o mais depressa que conseguira, acompanhando Vincent e abrindo as portas da carruagem para levá-lo de volta para a Mansão, sozinho, do jeito que eu planejara. O plano seguia dando certo, contudo a hora crítica aproximara-se. O ápice de uma longa jornada, a tão famigerada Queda do Rei.

Puxei as rédeas, fazendo os cavalos correrem em ritmo acelerado, seguindo suas ordens de levá-lo até a Mansão no mais curto tempo possível. Estava de madrugada, escuro em um sítio com caminhos de pedras estreitos, cavalos que haviam acordado recentemente e nenhum outro humano próximo a não ser nós dois.

A viagem seguia até nos aproximarmos da grande cachoeira que havia, com águas revoltas e mais pedras no fundo. De lá, observei minuciosamente meu caminho e tomei impulso para prosseguir, utilizando do chicote para açoitar os cavalos, deixá-los agitados. Eles relincharam alto, correndo mais ainda.

Mudei o rumo da direção para, ao invés de seguir viagem reta e constante, virar à esquerda em um terceiro caminho, subindo por uma ladeira que era protegida por diversas árvores altas. Vincent perguntou-me o motivo de eu ter virado naquela direção, mas apenas lhe disse ser um atalho que percebi pela manhã.

Neste caminho ficávamos acima da cachoeira e dava para o rio debaixo, permitindo que o som da queda d'água ficasse mais alto conforme nos aproximávamos. Era um caminho estreito e arriscado para quem não sabe manejar uma montaria, o que certamente não era meu caso, mas havia também algo exótico. Algumas cobras ficavam por ali.

Subi toda a ladeira e, ao longe, dava para ver onde iniciava a cachoeira e aonde ficara a queda d'água. Fiquei em pé na carruagem, segurando a charrete e dando mais chicotadas no ar para assustá-los e fazê-los avançarem mais rápido, até, por fim, pular do carro em alta velocidade, caindo no chão e me escondendo, sem nem ter tempo para observar meus machucados e arranhões, atrás das árvores.

Observei os cavalos continuando a correr e parando gradativamente quando perceberam a ausência do instrutor, mas antes que parassem de vez, os elementos surgiram. As cobras saíram do mato, assustando os pobres animais com seus chiados aterrorizantes, fazendo-os perder controle de suas ações. Se Vincent exclamava algum som, eu não ouvira, só fiquei para ter certeza de que a carruagem despencara cachoeira abaixo conforme planejado.

Meu braço estava machucado devido a ter-me apoiado nele durante a queda, minhas roupas encontravam-se cheias de lama e meu joelho também não estava o dos melhores, mas arranjei forças para me levantar e me livrei do terno. Voltei para o sítio, com dificuldade, e fui para o banheiro.

Limpei, o mais silenciosamente possível, todos os vestígios de lama do meu corpo com a ajuda de uma pia e uma esponja. Por ter diversas roupas no armário e todas serem longas, meus machucados não iriam aparecer e ninguém faria questão de verificar que o uniforme de um empregado desapareceu, contanto que ele tenha outras.

Deitei na cama, perdido em pensamentos. Meu orgulho em ser um escravo fiel, minha idolatria por meu amo, meu discernimento do certo e do errado, minha lucidez para o que chamam de boas ações. Nem mesmo um escrúpulo de empatia existia em mim, minha mente fora tomada por pensamentos sórdidos e loucos, doentes. Minha mão estava suja, mas o lixo que corria em minha cabeça era maior. Fazer de tudo para conquistar meus objetivos. Eu sou mesmo um demônio, afinal.

(...)

"Eu não conseguia para de olhar para ele, já não arranjo forças para fazer desvaler meus pensamentos. A morte vêm à minha cabeça, ela é amarga e fria, uma sensação de estilhaço, fragmentos perdidos por toda uma vida. Mesmo assim, o doce aroma não é menos intenso que o de seus olhos, o azul do céu da alvorada. Ciel. Shi-e-ru, a morte purificada."

O domingo de manhã não era como os outros. O clima estava pesado, nem mesmo os raios de sol conseguiam aquecer a alma de uma adorável mulher, tão bela e doce, presa aos braços da irmã que temia jamais voltar a ver seu sorriso alegre. Rachel estava, como dizem, desolada.

Milhares de câmeras fotografavam o caminho, o corpo estirado por entre as pedras, a carruagem em pedaços e os cavalos dormindo. Nem mesmo permitiam a consorte um silêncio de luto, enchiam-na de perguntas que sequer poderiam ser respondidas. O local estava tomado por uma confusão latente.

Ficara apenas observando de relance, respondendo às perguntas que faziam-me, se por acaso ouvi alguém sair de casa à madrugada, mas como poderia saber? Um mordomo impecável jamais sairia de seu retiro sem as ordens de seu Mestre. Não havia culpado algum na história, Vincent perdeu o controle da carruagem em um caminho estreito, escuro e despencou.

– Não tem mesmo nenhuma ideia do motivo que o levasse sair de casa tão tarde? – Perguntava o investigador. Rachel estava tão apavorada que suas lágrimas não a deixavam falar, sua boca balbuciava e seu coração acelerado somente prendia suas vias respiratórias. Sua irmã a acalmava, dando-lhe forças para responder quaisquer perguntas.

– Eu não sei, eu não percebi ele saindo à noite! – Suas mãos tampavam seu rosto triste. – É tudo culpa minha, se eu não tivesse um sono tão pesado eu poderia tê-lo impedido ou pelo menos morrido junto com ele, é tudo culpa minha! Eu não fui uma boa esposa... eu deveria estar com meu marido em todos os momentos...

– Irmã, não diga um absurdo desses! – A mais nova segurou suas mãos, olhando em seus olhos ensandecidos. – Ninguém tem culpa de nada, se culpar só irá aumentar seu sofrimento, então não fale nada disso e deixe esses pensamentos errados longe de você!

– É culpa minha sim, Ann, ele... – Rachel disparava lágrimas e mais lágrimas, apertando os frágeis ombros de sua irmã e debruçando-se, segurando-a firme em um abraço. – Ele... deve ter feito isso por mim...

– Você se refere às orquídeas que ele costumava lhe dar?

– Até mesmo antes de nos casarmos... ele gostava de correr comigo a cavalo pelo sítio e nós sempre víamos as flores... ele era um homem tão romântico, tão bom pra mim... Ann...

A investigação continuava, eram tempos que não existiam muitas formas de analises profundas, somente viam o óbvio. Um homem saiu com cavalos em um ninho de cobras, provavelmente afim de fazer uma surpresa para sua consorte, mas acabou desviando-se. Fui até Rachel, após terminar de ceder entrevista aos engravatados, afim de fazê-la perceber que posso ser de alto valor.

– Perdão pela intromissão, sinto muito pelo Conde e peço perdão por não o tê-lo acompanhado ontem durante sua jornada com a carruagem.

– Eu não entendo o motivo de Vincent ter feito isso sozinho, saído essa hora da noite! Logo ele, que é tão bom com montarias, é no mínimo estranho...

– Eu acho que sei o que aconteceu. – Madame Red disse, olhando com pesar e angústia para os olhos da irmã.

– O quê? – Ela enxugava as lágrimas com o lenço que lhe havia cedido.

– Eu... comentei com o Vincent sobre o presente que nosso pai preparou para a mãe em um dos aniversários de noivado deles.

– A carruagem de flores? É um costume inglês... quando você entrega 999 Rosas vermelhas para uma pessoa, significa amor eterno. Você acha que ele faria isso, Ann?

– É o que me leva a crer. Eu disse por alto, não achei mesmo que ele faria, mas conhecendo o jeito carinhoso que você sempre comenta...

– Eu tenho certeza de que o Conde tinha bons motivos e não iria querer vê-la triste, Condessa. – Disse, olhando em seus olhos em consolidação. – Como mordomo, eu estarei a disposição para ajudá-la no que for possível.

– Obrigada, Sebastian, você sempre foi o melhor mordomo que alguém poderia ter. Eu ainda não sei o que vou fazer, eu não sei se vou conseguir herdar a fábrica... – Ela começa a chorar novamente. – Eu não quero que ele vá embora... eu não aceito isso...

– Quanto à fábrica, ajudei-o a administrá-la por tempos, conheço toda sua agenda diária e seus contatos. Farei o que for possível para mantê-la intacta.

– Eu não quero pensar nisso agora... já são quase dez da manhã, logo o Ciel irá acordar e toda essa bagunça... é aniversário dele, Sebastian...

– Desejas que eu mesmo o avise da situação?

– Não, eu sou a mãe dele, eu preciso estar ao lado do meu filho. Só... fica ao meu lado?

– Como desejar.

Acompanhei Rachel e Red até o banheiro, onde a irmã tentou acalmá-la com todas as forças e limpar seu rosto devastado pelas lágrimas. A fêmea era forte, isso hei de admitir, conseguiu colocar um ínfimo riso de confiança no rosto, dirigindo-se comigo até o quarto do filho. Ciel ainda adormecia, sem ciência de nada. Sua mãe sentou-se na cama, acordando-o com gesto de carinho em seu rosto.

– Ciel... – E o chamou, fazendo-o acordar lentamente. Coçou os olhos, bocejando e encostando as costas na cabeceira, um tanto receoso com o fato de nós três estarmos lá.

– Mãe, tia, Sebastian? O que houve, nós já precisamos ir?

– Eu preciso lhe contar uma coisa, meu filho. – Ela segurou em suas mãos com o rosto mais pacífico que conseguia transmitir, mas dava para escutar as batidas aceleradas de seu coração ao longe. Rachel estava apreensiva, ainda em completo luto pelo recente acontecimento.

– O que aconteceu? – E ele facilmente percebeu, era o primeiro sorriso falso que vira em sua mãe.

– Houve um acidente... – Tremeu os lábios, não conseguindo olhar para o filho. Desviou o olhar, olhando para baixo. – Seu pai...

– O que tem o meu pai? O que aconteceu com ele? Ele tá bem, teve que ir pro hospital ou algo assim?! – Ciel ficou apreensivo, ansiando por uma notícia ruim. – Ei, mãe... o que houve com o papai?

– Ele...

Rachel não conseguiu, suas emoções eram mais fortes que qualquer outra coisa. Desfez-se em mais lágrimas de desespero no peito do filho, dando-lhe a notícia enquanto tinha seus cabelos afagados pela mão do mais novo. Red, que estava ao meu lado, sussurrou dizendo que o melhor seria se eu me retirasse e o fiz, saindo do quarto.

Fiquei encostado na parede, tentando imaginar qual seria a real reação de Ciel. Se, diante daquela notícia, sua infantilidade e apego pela família viria à tona, se iria preocupar-se apenas com o estado da mãe ou se não ousaria derramar uma lágrima sequer para não ver Rachel mais triste do que já estava. Às vezes eu esqueço a real idade deste garoto.

Por um longo período de tempo tudo o que eu ouvira de relance era a voz gritante e desesperada de Rachel, então supus que minha terceira opção era a correta, eis que vejo a porta abrir bruscamente. De dentro dela, meu garoto, Ciel, correndo de forma avassaladora para fora do quarto. Me assustei com aquela reação, não esperava vê-lo fugir de olhos fechados daquele jeito, tudo tão rápido que mal consegui acompanhar com minha visão. Madame Red e Rachel continuaram dentro do quarto.

Tudo o que fiz foi esquecer minha função dentro da casa e segui-lo para onde quer que fosse. Ciel estava batendo pelos corredores, sem ver por onde estava indo ou se de fato estava indo para algum lugar. Apenas corria, e eu ia junto, sendo guiado por aquele curto corpo para sabe-se lá onde.

O pequeno Conde saiu da casa apressado, não aceitando aquela situação. Viu os fotógrafos, os investigadores e o pessoal do IML, todos com faces sérias e preocupadas. Correu mais ainda, parecendo querer fugir, parecendo querer não ser nunca mais encontrado. Foi para detrás da casa e eu somente o seguia, até que virando o vi. Ciel estava sentado no chão, com o rosto escondido pelas pernas e braços e as costas na parede. Aproximei-me, sem proclamar nenhuma palavras.

– Vá embora. – Disse, em uma voz quebradiça. Ele não olhou para mim, nem sabia que havia notado minha presença. – Eu sei que você está aí, Sebastian.

– É meu dever estar junto ao senhor em todos os momentos.

– Está desobedecendo minhas ordens? Já mandei você ir embora.

– Perdão, mas no dia em que me tornei seu servo fiz uma promessa a mim mesmo de nunca deixá-lo sozinho, sob qualquer circunstância.

– Calado... – Em momento nenhum ele parou de olhar para o chão, escondendo-se pelos braços e pernas. – Não me refute.

– O senhor tem a opção de ignorar minha presença, mas ficarei junto a ti até mesmo após a morte. Não hesitarei em protegê-lo mesmo que custe minha vida, Bocchan.

Ele ficou parado, ouvindo minha voz e eu o observando, seu rostinho infantil coberto por um semblante inocentemente triste. Vê-lo assim quebra o que ainda sobrou do meu coração, faz estilhaçá-lo por todo canto. Quero protegê-lo de tudo e de todos, mas não o poderei proteger de mim mesmo. Não o machucaria novamente se não fosse motivo para vê-lo feliz ao meu ado.

– Sebastian...

Me chamou com uma voz sonolenta, baixa e aflita, quase uma súplica para tirar-lhe da completa angústia que sentia. Esse som somente faz-me querer protegê-lo ainda mais. É tão errado ser o motivo da tormenta de alguém e, ao mesmo tempo, a cura?

– Sim?

Se bem que eu já não sei discernir o certo e o errado há tempos...

– Eu... nunca mais vou ver meu pai?

Ele virou seu rosto em minha direção, olhando-me debaixo. Sinto uma flechada momentânea em meu peito. Seus profundos e grandes olhos azuis perdidos em lágrimas, suas bochechas e nariz avermelhados pelo sentimento de luto, sua boca balbuciando palavras incertas, seu semblante melancólico. Ciel, naquele momento, não era o garoto frio por quem me apaixonei. Era um novo Ciel. Um Ciel, digamos...

– Bocchan.

Sentei-me ao seu lado, seu rosto voltou a ficar escondido. Fiquei há uma curta distância dele, mas dava para olhá-lo tão de perto, mesmo que fosse de relance. De fato, aquele garoto mimado e egocêntrico havia transformado-se, mesmo que em um curto período de tempo, em uma pessoa completamente diferente.

Estendi uma de minhas mãos, levando-a devagar e hesitante até seus cabelos. Ousei tocar seus fios, já sabia que não era o momento de ser um mordomo ideal. Eu não era um mordomo ideal. Ele não rejeitou, não fez nada, só ficou recluso. Entrelacei meus dedos pelos fios, fazendo um pequeno afago em sua cabeça e, por fim, deitei-a levemente na altura do meu tronco, aproximando-me mais de seu corpo.

Ele olhava para frente, encostado em mim, sem nenhuma reação diferencial. Continuava a fazer carinho em seus cabelos, era como se sua mente estivesse vazia de qualquer pensamento envolvendo riqueza ou status social. Aquele, podemos assim dizer, era o momento em que um garoto percebe o poder de uma família.

– Eu sou fraco...

– Às vezes, demonstrar sentimentos te torna mais forte que qualquer pessoa.

– Dói tanto... mesmo não sendo uma dor física...

– Se sentir incapaz de proteger alguém faz com que você se sinta desse jeito, aflito. Mas não se preocupe, não há nada de errado em sentir saudades de alguém.

– Eu não pude nem ao menos me despedir... é horrível...

Seu corpo cada vez mais estremecido, seu rosto desolado, sua juventude coberta pela infantilidade e por aparentar sentir, pela primeira vez, um sentimento que não seja amargura. Hesitei, mas movi-me sozinho. Coloquei-o entre minhas pernas, suas mãos puxaram meu terno e ele desfez-se, escondendo-se em meu peito e chorando. Aquela foi a primeira vez que o abracei.

Seu cheiro nunca ficou tão próximo ao meu nariz, impregnado completamente em minhas vestes. Seu calor em meus braços, seu rosto deitado sob mim, suas lágrimas escorrendo rápidas, correndo pela fina pele de sua face. Seus olhos fechados, sua boca balbuciando palavras desconhecidas, sua aproximação, seu pequeno corpo tão próximo ao meu por pura e espontânea vontade. Tudo isso era... único.

– Eu sinto muito por fazê-lo ficar assim, Bocchan...

Notas finais
♥ COMEÇOU A AÇÃO ♥