“Na ética o mal é uma conseqüência do bem, assim na realidade da alegria nasce a tristeza. Ou a lembrança da felicidade passada é a angustia de hoje, ou as agonias que são tem sua origem nos êxtases que poderiam ter siso.” – Edgar Allan Poe.

(…)

Como poderei dar-lhes-ei alguma espécie de réplica, uma vez que meu anseio grita por aflição? Se algum dia consegui alcançar a felicidade plena, saibam que por questão de segundos, esta fora-me tomada de modo brusco. O que antes achava ser a solução, mostrou-se não passar de uma simples ilusão, uma mísera fuga da realidade.

Passaram-se três longos dias desde que havia posto meu plano em ação. Consegui, enfim, uma noite junto a meu calvário, atitude que aguardei em amargura e apreensão por quanto não obtia coragem em fazê-la. E quando fiz, tornei-me o próprio pesar, somente trouxe à tona o que antes escondia-se em subterfúgio.

Exteriorizando de modo simples, posso ter amado aquela noite como um corvo liberto após uma tempestade aterrorizante; contudo, com a euforia, vem também a sequela, as consequências de algo tão deveras arriscado. Ciel pode ter achado que tudo não passara de um simples pesadelo, afinal, a droga que eu usara dava a ti esse efeito, entretanto, algo que um simples líquido entorpecente não é capaz de esconder é o toque.

Por mais que sua mente tenha amedrontado-se em confusão, as ações físicas marcariam o corpo virgem durante a eternidade. Ciel volta e meia reafirmava para si mesmo que tudo não passara de um sonho, o pobre garoto queria obrigar a si a deixar essa questão de lado, mas em vão. Mesmo proferindo em silêncio, eu conseguia perceber através de suas ações.

Seu jeito orgulhoso em não demonstrar quaisquer fraquezas quebrava-se quando diante a mim, ficava. Sempre que me aproximava, buscando realizar minhas tarefas rotineiras, Ciel evitava-me. Ouvia sua voz por raros momentos, uma vez que o pequeno preferia agora ansear o auxílio dos demais servos da casa. Sempre que ficávamos em um mesmo cômodo, algo estranho acontecia consigo.

Hora sua voz falhava, outra, seus pensamentos voltavam a ficar em confusão e faziam-lhe esquecer do que estaria prestes a fazer. Não conseguia, inclusive, olhar-me nos olhos. Fingia que não era nada demais, eu fingia acreditar. A verdade é, antes estávamos tão próximos, agora, uma distância incrédula atacou-me de modo frio e perverso. Até mesmo Rachel queria entender o que se passava ali.

– Sebastian. – A fêmea havia me chamado em seu quarto, encontrava-se com um semblante consternado e preocupado. – Eu notei que Ciel tem agido de modo estranho ultimamente, principalmente quando está próximo a você.

– Eu andei por notar também, achas que pode ter sido algo que fiz?

– Eu tentei conversar com ele, antes havia me dito que tivera um pesadelo, mas agora ele finge que não foi nada. Sebastian, me diga, aconteceu algo entre vocês que eu não saiba?

– De maneira alguma. Pessoalmente, eu também estou preocupado com o Bocchan, nunca o vi agir de tal forma.

– Você acha que... tem algo a ver com a morte do pai?

– Possivelmente. Pode ser que Bocchan esteja tentando me evitar por eu ser o único homem presente na Mansão e lembrá-lo do pai, será?

– Não sei, mas me preocupa. Sebastian, eu estou pensando em deixá-lo apenas como meu mordomo e contratar outro para Ciel.

– Contratar... outro?

Naquele exato instante, congelei. Com tão poucas palavras usadas de modo tão brusco e direto, Rachel conseguiu deixar a mim em um estado de perturbação. Imaginar outra pessoa, outro adulto, outro homem servindo ao meu Anjo... meu pesadelo maior vinha à tona. Quase não consegui conter-me.

– Eu sei que não é a decisão mais sábia, mas–

– Condessa. – Acabei a interrompendo. – Não querendo intervir em suas decisões, acho que a solução não é fugir dos problemas. Se for de sua vontade, eu não me importaria de conversar sobre com o Bocchan.

– Você, conversar? – Ela me olha indecisa. – Não sei se Ciel aceitaria isso, ele é bem recluso.

– Por favor, só lhe peço uma chance. Caso o problema seja minha presença, o correto é que eu me readmita para consigo.

– Por mim não tem problema, eu só... não quero que o Ciel se machuque ainda mais.

– Não preocupa-te, farei de tudo para que ele volte a agir normalmente.

Realizei o gesto de continência e me retirei do quarto, deixando a fêmea um pouco mais tranquilizada. O que me inquieta de fato é Ciel, importo-me verdadeiramente com ele, apesar de tudo. Seria hipocrisia de minha parte querer seu bem e, ao mesmo tempo, desejar que fique comigo, sendo que posso acabar fazendo-lhe mal mesmo sem intenções?

Dirigi-me ao salão onde encontrava-se o grande piano de cauda negra, a fim de encontrar-me com meu calvário para suas lições diárias. O garoto tardou, porém, logo adentrou a sala e andou até o banco, sentando-se. Sequer olhou para mim, até mesmo pôs-se a fazer o oposto, virou seu rosto ao lado contrário de onde eu estava. Soltei um leve suspiro e fui ao seu encontro, sentando-me junto a si.

– Hoje vamos iniciar com Plaisir D'Amour, de Jean Paul. – Disse, preparando o teclado. Ciel sentava-se recluso, com as pernas juntas e mãos segurando firme na cadeira. Ficava encarando diretamente o chão e demorava para dar-me uma resposta. Estava distraído.

– A-Ahn. – Ademais, falhava a voz. – Então vamos... começar.

Tentei permanecer o mais sério possível, contudo, era impossível. Não sei o quanto a noite de outrora deixou-o desse jeito; pensei que somente seria por poucas horas, mas não foi como esperado. Não acredito que ele tenha lembrado-se, a droga que usei fez-o garantir que tudo não passara de um pesadelo. Mesmo assim... o choque foi tão grande para tanto?

– Bocchan.

Ciel estava distraído. Sempre que o chamava, voltava a si, mas não olhava-me. Tal ato no início era terno, mas com o tempo passou a incomodar-me. Não o quero agindo de modo tão subjetivo comigo. Sinto falta do orgulho e do autoritarismo escondidos por sua faceta infantil.

Eu tocava-lhe as teclas inicialmente, criava a música a partir das partituras.
Ele ouvia-me encoberto, longe da realidade.
Dizia a ti para que me imitasse. Ciel acordava e tentava a mim, imitar.
Como? Se tão pouco conseguia olhar-me.
Falhou e falhou miseravelmente. Perdeu todo ardor que um dia já tivera.
Foi para isso que lutei?

– Bocchan. – Voltei a chamá-lo, contudo, fui ignorado. Seus dentes rangiram em desgosto, o próprio não aguentava toda tortura em falhar de modo tão brusco no piano. Dava para ver seu nervosismo interior latejando.

– Por hoje é só. – Não aguentou; empurrou o piano e levantou-se de modo brusco, indo embora em passos rápidos.

– Espera. – Em uma atitude nada delicada, acabei puxando seu braço e o fazendo parar.

– O que você pensa que tá fazendo? – E como era de se esperar, Bocchan obrigou-me a largá-lo. Pelo menos conseguiu olhar-me. Com ódio, mas olhou. – Não encoste em mim!

– Perdão, mas acredito que precisamos ter uma conversa.

– C-Conversa?! – Ciel escondia os braços para que eu não o voltasse a tocá-lo e olhava-me com dúvida. – Oi, o que você acha que está dizendo? Eu não vou conversar com um empregado!

– A Condessa também achou que seria a melhor opção.

– M-Minha mãe..?

– Ela está preocupada com o senhor. Pessoalmente também estou, venho notado sua falta de atenção e isso está prejudicando seu desempenho nas demais tarefas.

– Isso não é verdade. – Ele esconde um pouco o rosto e desvia o olhar. – Eu não tenho nenhum problema de atenção.

– Essa falta de atenção é decorrente do pesadelo que tiveras há três dias?

– D-Do que você tá falando? – Deu para notar que assustou-se com meu modo direto de falar-lhe, mas precisava dizer. – E-Eu não tive pesadelo nenhum! E mesmo se eu tivesse tido, isso não seria da sua conta!

– Perdão, mas não terei como ajudá-lo enquanto não dizer-me o que há de errado.

– Não tem nada de errado! Eu não admito que você fale comigo tão diretamente, ponha-se no seu lugar, Sebastian!

– Meu dever como mordomo é assegurar que o senhor fique bem, entã–

– SEBASTIAN! – Fiquei até perplexo, foi a primeira vez que ouvi Ciel levantar a voz. Ele estava de fato bravo, como se estivesse prestes a explodir a qualquer momento. Contudo, não tardiamente, Bocchan tentou se acalmar. Deu-me às costas e caminhou para fora da sala. – Não me siga, não quero ver você por hoje. Já chega.

– Perdão, mas essa ordem eu não poderei vir a cumprir.

Antes que Ciel pudesse ir para fora do salão, fui diretamente até a porta e fiquei parado, de costas para ela, impedindo sua passagem. Como era de se esperar, minha ação audaciosa provocou ainda mais o garoto revolto. Bocchan ficou encarando-me com os dentes rangidos, andando para trás com medo de algo.

– Por que você está fazendo isso? – Olhava-me como se visse um fantasma. – Por que você está desobedecendo minhas ordens desse jeito? Por que você não vai me deixar sair daqui? Ei, Sebas–

– Bocchan. – O interrompi e, em passos lentos, fui até ele. Ciel andava para trás, assustado.

– O-O que você quer? E-Eu nã–

– O pesadelo de outrora... – Fiz novamente, não queria que ficasse com medo. – Foi relacionado a mim?

– D-Do que você–

– Perdão.

– Huh?

– Bocchan. – Ajoelhei-me diante a si, fazendo um gesto de continência com minhas mãos e ficando abaixo dele, para que possa se sobressair. – Eu sinto muito por minha presença te causar estranheza, como mordomo, minha principal função é deixá-lo seguro. Saibas que eu nunca deixarei de cumprir quaisquer ordens do senhor, nem o machucarei.

– Você diz isso, mas acabou de desobedecer. – Ele ficou parado, olhando-me. Pelo menos se acalmou. – Idiota.

– Errado. – Respondi, olhando diretamente em seus olhos. – Eu prometi ficar ao seu lado não importasse o que acontecesse, e é o que farei pelo resto de minha existência. Caso eu seja o problema, diga-me, pois mudarei até ficar ao seu agrado.

– Não, eu... não quero que você mude. – Ciel abraçou o próprio braço e, mais uma vez, desviou o olhar. Contudo, acabou voltando a me olhar por sua própria vontade, de um jeito mais sério. – Foi só um sonho ruim, esquece isso.

– Não, caso esse acontecimento tenha lhe aborrecido, não poderei ignorar. Sinto muito pelo senhor precisar lembrar-se disso sempre que me vir, porém, se eu puder fazer algo para me readmitir, não hesite em dizer.

– Idiota, você não precisa se readmitir de um pesadelo que eu tive. Esquece isso! – Ele voltou com sua voz infantil e grossa. – Não há nada que possamos fazer quanto aos sonhos.

– Tens certeza? – Segurei seu braço levemente e ele permitiu, deslizei minha mão até segurar a sua, levando-a perto de meu rosto e dando-lhe um singelo beijo. – Não quero que minha presença o atrapalhe.

– Então faça exatamente o que eu mando e não me faça repetir. – Ele afastou-se de mim e andou até fora da sala, dessa vez, mais confiante de suas ações. Sebastian!

– Sim?

– Eu tenho fome, me traga algo doce. Agora.

Não saí de minha posição. Fiquei ajoelhado, ouvindo seus doces passos saindo do salão. Sua voz, como senti falta do tom arrogante e autoritário, do jeito dogmático envolta pela ternura de seu corpo infantil. Ciel, poderia escolher diversos adjetivos para mostrar o quão eu amo, o quão eu admiro o inexorável e arrogante modo como ele age. Contudo, a mim somente cabe aceitar essa paixão infernal.

Nesses três dias me evitando, mostrou um lado fraco o qual não conhecia. Sua parte acriançada. Gosto mais do impositivo, autocrático e dominador. Sentia falta de suas ordens. Quem diria que seu jeito orgulhoso o faria esquecer, talvez não completamente, o pesadelo o qual pensou ter tido? Tudo para poder ter-me como escravo, submetido a si pelo resto da eternidade. Confesso que deixei um singelo e curto riso em meus lábios, antes de voltar a realizar minhas tarefas como mordomo.

– Yes, my Lord.

Notas finais
Inhaaaaaaaay zemtchy Gostaram da nova capa? :33
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.