Liszt
1 La Campanella
Notas iniciais
Às vezes eu sinto que sou uma pessoa ruim.
Nunca tive muita sensibilidade, é verdade, mas tenho alguma capacidade de empatia. Então eu nunca entendo porque você se importa tanto com algumas coisas tão pequenas (na minha visão), mas tudo bem, somos diferentes. Porém quando vejo você triste por essas coisas, eu fico muito triste também. Que frase mais infantil, nem pareço aquela mulher de sempre, hábil com as palavras. Eu fico muito triste também, mais do que você imaginaria ou mesmo acreditaria, pois sei que você acha que não me importo com você, já que “não demonstro muito”. Eu não sei o que fazer. Eu não sei falar com você. Me magoa demais quando diz que não se sente amada. Eu penso que não sei sentir amor. Talvez eu seja quebrada, nada do que sinto eu sinto muito bem. Nada do que sinto arde intensamente. Outras pessoas sentem explosões contínuas como as das estrelas, enquanto eu acho que vivo uma vida em 50%, nem muito a ponto de transbordar, nem pouco a sentir falta. Diga-me, a forma como sinto vale menos? É uma pergunta séria, não estou retrucando. Eu estou sentindo errado? Estou amando menos do que deveria? E quanto ou como eu “deveria”? Me magoa quando diz que não se sente amada por mim, porque eu não sei o que você espera e não sei se amo do jeito certo ou não. E me aterroriza pensar que talvez você possa ter razão. E o que isso me tornaria?
Porque, se você estiver certa quando diz que não lhe amo, então eu também não amo ninguém. Nenhum dos outros, nem a mim mesma.
Mas continuo sem saber como demonstrar, sem saber o que fazer, sem saber conversar. Só me escondo, pois sinto que você não acredita mais no que eu falo, e não acredita justamente porque falo pouco e me escondo. Mas então algo acontece, pois eu disse antes, não sou muito sensível. O tempo passa, eu esqueço, você não. São aquelas pequenas coisas que só uma de nós enxerga. Meu quarto é ao lado do seu, sabia? E eu ouço e me importo e apareço, pois é só o que sei fazer para demonstrar que você não chora para as paredes. Mas você só me olha, em silêncio (e mágoa também? Não tenho certeza. Não sou boa em ler as pessoas.), e algumas vezes, nem isso. O que eu posso fazer? Agora eu me pergunto, sou uma pessoa ruim? Eu escuto você brigando, escuto você chorando e dói, dói de verdade em meu coração (sim, tenho um, pode acreditar) saber que sua vida é tão sufocante para você, e eu sirvo para porcaria nenhuma em impedir isso, nem sequer sei como tentar. Eu devo ser uma pessoa ruim por tentar focar em outras coisas, mesmo agora. Uma música de Liszt soando alto nos fones a ponto de incomodar (e nem é uma música que gosto, apesar de achar impressionante), tentando terminar uma pesquisa enquanto você chora e alguém tenta lhe acalmar. Eu realmente tenho que terminar isso, mas minha visão está turva de lágrimas e minhas mãos tremem ao digitar, porque La Campanella não está tocando alto o bastante.
Quando foi que eu comecei a sentir que não sei mais falar com você? Quando comecei a calcular cada palavra que digo, pois você pode entender tudo ao contrário? Quando foi que você decidiu que sua vida virou um inferno, e quando decidiu que parte disso é culpa minha?
É culpa minha? Pergunto com sinceridade, em parte com a expectativa de uma absolvição, em parte já sentindo o peso da culpa de uma condenação. Eu realmente não sei o que esperar dessa resposta, então me ajude: É culpa minha?
Enfim. A resposta jamais virá. Ouço menos da sua raiva agora, e eu também já me sinto respirando melhor. Minhas mãos não tremem mais. Nunca lerá esse texto, sabia? Como eu disse, não tenho coragem de falar com você. Esconderei até que nem eu mesma o encontre, e tudo vai começar de novo. Você vai lembrar, porque é o que você faz, e eu vou esquecer, porque sou assim. Uma pessoa insensível, uma pessoa ruim. Mas por cada crime que nunca cometi (e eu sei que nunca cometi), peço desculpas. Se sou distante depois de você me afastar, peço desculpas. Se não consigo fazer você se sentir parte de algo que eu sequer sinto que pertenço também, peço desculpas.
Desculpe. Desculpe, desculpe, desculpe, um milhão de vezes, não me importo de pedir. Desculpe-me, até que a palavra perca o valor. Apenas pare de me fazer sentir errada sem eu ter feito nada.
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