Lisa e os números
1 Lisa e os números
Notas iniciais
Lisa e os números
Capítulo I
(E único)
Lisa tinha cinco anos quando seu pai partiu. As exatas palavras da enfermeira cansada para ela, na época, foram:
─ Querida, sinto muito, mas o seu papai teve que ir. Eu e o médico não conseguimos faze-lo ficar.
Lisa não entendia por que Roberto havia prometido ensiná-la tudo sobre os números que fazia com giz no quadro e depois, foi embora. Será que ela havia se comportado mal? Será que o papai a havia abandonado por causa da vez em que falou uma palavra feia no jantar? Ou na outra em que chorou por um brinquedo novo? Porque agora a garota se arrependia. E faria tudo diferente, desde que pudesse ter seu pai de volta. Ela disse isso para a enfermeira, mas a moça só fez uma careta triste e falou ─ conferindo o nome na pasta ─ que o Roberto não tinha ido por querer. Que a hora dele apenas tinha chegado.
Lisa entendeu menos ainda e ficou com muita raiva do relógio. Por que ele decidia o futuro das pessoas assim? Por que aquele objeto tão pequeno possuía o poder de levar o papai e deixa-la com a tia Muriel?
Lisa tinha sete anos quando a matemática se tornou um problema. As exatas palavras da professora cansada para a tia dela foram:
─ Senhora, ela tem muita dificuldade. Eu e os outros professores não sabemos um jeito de fazer os números chegarem até a Lisa.
E a garotinha não entendia por que Muriel queria tanto que ela fizesse as pazes com os mesmos dígitos que haviam levado o papai para longe. E perguntou isso para a tia.
─ Amor, os números não tiveram culpa. Eles só estavam marcando algo que iria acontecer de um jeito ou de outro. São meros observadores. Mesmo que queiram mudar alguma coisa, não podem. E eu tenho certeza que eles queriam ser capazes de mudar a partida do seu pai, como eu quero.
Lisa tinha nove anos quando a matemática se tornou uma solução. As exatas palavras da professora surpresa para ela foram:
─ Dez na prova, Lisa! Parabéns! Quanta mudança, em?
E ela não entendia como demorou para perceber que as contas despertavam tantas lembranças boas de Roberto. Os olhares felizes dele enquanto lia um livro de Física ou qualquer outra matéria em que pudesse usar os tão amados números. As mãos do papai que constantemente estavam sujas de giz e também manchavam a pele dela quando ele a girava rápido no meio do pequeno jardim que a casa deles dispunha. As horas que Roberto passava ensinando-a contar quantos dígitos Lisa quisesse saber daquela vez, sempre paciente, sempre cheio do amor que nem mesmo um conjunto numeral muito grande e muito sábio poderia entender. Ela não disse para ninguém. Apenas guardou todos aqueles fragmentos de memória em um lugar bem protegido no coração.
Lisa tinha dezesseis anos quando as colegas de escola quiseram lhe dar conselhos. As exatas palavras de uma delas foi:
─ Assim você nunca vai conseguir um namorado, Li. A puberdade te deixou muito alta e garotos não gostam de meninas altas ─ e, com o olhar debochado para a garota que segurava um livro de Geometria, continuou: ─ nem das sabe-tudo.
Mas Lisa nem estava se importando com o que os meninos queriam. A altura dela, fazia com que, na ponta dos pés, ela alcançasse o quadro inteiro, como o pai alcançava antes. Um universo inteiro para encher de números se abria diante dela e uma sensação boa a percorria de corpo inteiro enquanto calculava. Lisa disse isso a elas. E acrescentou que não havia ninguém sabe-tudo porque sempre existiria uma coisa nova para se saber.
Foi incomodada poucas vezes depois daquilo.
Lisa tinha vinte anos quando conheceu Bernardo. As exatas palavras dela no dia foram:
─ Ei, cuidado aí! ─ Vendo que ele se entretinha tanto no celular que não percebeu que estava quase pisando no cocô de um cachorro.
Mais tarde, descobriu que ele escrevia um texto e sonhava em ser escritor. Bernardo, na verdade, sonhava muito com muitas coisas e por isso, permanecia sempre meio aéreo, como se mesmo que os pés tocassem o chão, a mente flutuasse em lugares altos. Algumas pessoas diziam que ele era muito baixinho e, meses depois, Lisa falou, um pouco envergonhada, que talvez as alturas deles se completassem. Bernardo sorriu e disse que tinha certeza.
Lisa tinha vinte e dois anos quando finalmente entendeu. As exatas palavras da adulta, olhando para o marido e para a tia Muriel no meio daquela extensa multidão foram:
─ Sabem, uma vez alguém me contou que os números apenas marcam coisas que acabariam acontecendo de um jeito ou de outro. Que eles são meros observadores. Na época, eu não dei atenção. Queria culpa-los pela minha dor, culpa-los pela partida do meu amado pai. Até que eu percebi que eles não observam apenas coisas ruins. Que todas as memórias boas que eu tive com Roberto também foram guardadas por eles, para que eu nunca me sentisse só. E, ainda que com o tempo, elas se perderam um pouco, o sentimento de conforto e felicidade estampado em cada uma é o que continua me ajudando nos dias de insegurança. E é tudo graças aos números que marcaram a minha vida, desde a primeira prova em que tirei nota máxima na matéria que a partir de hoje vou poder ensinar, até a primeira conversa que tive com o homem que agora partilha algumas horas, minutos e segundos dessa existência comigo. Oi, Bernardo! ─ Disse acenando alegremente para ele e fazendo a plateia dar risada. Esperou o riso diminuir um pouco e continuou:
─ Esses mesmos números também fizeram parte da vida do meu pai e marcaram momentos importantes na vida dele, mas não conseguiram pagar por um tratamento melhor da doença que Roberto teve. E eu até hoje me entristeço por causa disso e mesmo entendendo que ele não se foi totalmente, que meu pai ainda vive aqui, ─ Falou apontando para o peito dela mesma ─ peço, por favor, que não deixem que outras pessoas que amam a matemática ou lecionar como um todo, tenham problemas financeiros que possam lhes custar as vidas. Os professores estão cada vez mais desvalorizados nessa sociedade porque ela ainda precisa entender o valor do conhecimento. Então espero que, se pelo menos um coração for tocado pelo que eu digo agora, que ele possa dar esse valor perdido. Que ele possa adorar a vida, que consiste em vários anos para aprender o maior número de lições possível. Que ele possa amar computadores ou palavras ou telas e nunca se perca na rotina monótona que é não amar coisa alguma. É isso!
E tentando imitar os rappers, fez uns movimentos estranhos e terminou com um último “Lisa” afetado, derrubando o microfone de propósito e trazendo ainda mais risos de quem a observava, principalmente quando o pegou outra vez e colocou de volta em cima do palanque, pedindo perdão para a diretora da faculdade em que ela e mais vinte alunos se formavam em Matemática naquela noite, pedindo que Sílvia não a expulsasse justo agora. Agora que estava tão perto de sujar as mãos de giz, como o pai sujava.
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