Lion's Curse
1 O primeiro passo.
Notas iniciais
Perdão pelos erros de ortografia, não tenho beta e claro, espero que gostem muito.
Beijinhos, nos vemos nas notas finais! ;)

"Até a jornada de mil milhas começa com um pequeno passo. "
Provérbio Chinês.
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Shaka
Não fazia ideia do por que de meu retorno a Índia ser algo de tanta importância.
Asmita, meu mentor e tutor, não havia explicado muito de seus planos para mim; Na realidade não havia me explicado nada. Como quando disse que deveria fazer faculdade no exterior. Não explicou o por que, apenas disse um belo dia: Shaka, faça suas malas! Irá cursar a faculdade de seus sonhos.
Esse dia foi a 2 anos.
Era apenas um jovem, órfão, que tinha sua guarda dada a um grande guru e trabalhava minha fé e meditação em paz no nosso ashram. O obedeci apesar de ter um inglês terrível. Foram bons anos. Cursava história na faculdade comunitária na Inglaterra. Morava nos dormitórios e trabalhava em um pub bem conceituado.
Apesar de indiano sou alvo e tenho cabelos loiros — como Asmita. Somos produto da miscigenação da 'nova Índia'. Nascemos no que poderia se chamar Riviera Indiana. Ele teve sua história e eu, a minha. Minha mãe, Charlotte era uma bela francesa loira de olhos castanhos. Meu pai, que vivia do outro lado do rio, era um indiano moreno de olhos azuis. Após a família Le'Fay cortar relações com sua filha e a família Mulaajam cortar relações com seu filho ambos se casaram e foram viver no interior.
Nasci em um dia chuvoso, no leito de uma nascente. Meu pai sorria e considerava tal fato um sinal de Durga de que seríamos prósperos; Assim como a deusa eu tinha nascido no leito do rio.
Cresci de forma pacata. Conheci ambos os credos. Conheci o hinduísmo por meu pai e o catolicismo por minha mãe. Herdei a disciplina de um e fé do outro.
"Essa é a mistura que o faz forte!" dizia nosso vizinho que costumava passar as tardes conversando com meu pai na varanda.
Fora em uma noite de verão, com tempestades de fim de dia, que vieram homens a minha casa. Eu lia quadrinhos e foi no auge de minha infância que recebi a triste notícia da morte de Charlotte e Rajar.
Posto para adoção, ganhei graça aos olhos de um guru velho de barba branca e sorriso bondoso. Ao lado deste guru seu jovem aprendiz, e meu futuro tutor, Asmita.
Convivi muito pouco no ashram com seu fundador. Naquele inverno o prazo do homem nesta terra venceu e meu mestre fora passado a novo orientador.
Om namah shivaya.
Essas três palavras encontradas nos sagrados sânscritos se tornaram tão comuns quanto papa e mama para mim. A posição de lótus, olhos fechados e mente conectada a tudo que há ao meu redor. Na mente placida como rio, apenas uma gota escorria e caia na água formando ondas de agitação. Tais gotas sussurravam enquanto caiam:
Om.
Na.
Mah.
Shi.
Va.
Ya.
Eu honro a divindade que existe em mim.
Após horas gotejando isto, a fonte seca e meu ser é tomado pelo nada que acalma minha mente.
— Por favor, coloquem os cintos. O avião já irá pousar.
Abri os olhos e um sorriso tomou meus lábios ao ver Bombai, ou Mumbai.
Estava em casa — não exatamente, afinal, 14 horas de carro me aguardavam até o ashram.
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Enquanto o motorista dirigia pelas ruas apinhadas de pessoas meus olhos vasculhavam o local. Do jeitinho que eu havia deixado. Mercado fervendo, outdoors, feiras. Tudo como deveria ser. Trânsito intenso, carros tomando cada centímetro da rua. Conversas e orações. A mistura de meu país permanecia intacta. Só quando toquei o solo dei conta do quanto meu coração sentia falta daquele lugar.
Olhei as nuvens escuras e calculei que, talvez, estivesse chovendo quando chegasse ao ashram.
Puxei a carta de Asmita da mochila e voltei a relê-la. Nada de muito útil se encontrava ali. Ele era bom em ocultar seu verdadeiro objetivo quando assim desejava. Dava voltas, brincava com as palavras e sempre terminava com figuras de expressões ou uma reza.
Apenas: Seu destino o espera.
Isso era algo que não tinha compreendido.
Paramos em uma pequena cidade nos limites de Mumbai. Era o fim da linha. Ali por diante já entravamos em outra zona da Índia. Bem, chamar o pequeno vilarejo de cidade talvez soe como elogio. Era tão pequeno que não deveria ter bem 300 pessoas morando ali.
Dormiríamos ali por aquela noite e no outro dia prosseguiríamos viagem. Sim, no plural. Estou em um transporte coletivo.
Quando desci do que os europeus chamariam de van, estiquei bem meu corpo e espreguicei. Todos caminhavam para o pequeno hotel e, como sabia o tamanho da fila, procurei antes a pensão. Ficaria ali na pequena pensão para a pernoite e comeria também; Mais alguns turistas seguiram meu conselho silencioso e me seguiram.
Enquanto pediam quartos, afoitos como se fosse se esgotar, eu me sentava na mesa e pedia minha refeição. Olhei para pequena televisão que ficava no pátio e estranhei. Mostravam imagens de um leão muito descontente que andava de um lado para o outro em uma cela minúscula para sua majestosidade. Abaixo dizia "leão capturado".
Ainda tínhamos leões pelas selvas? Bem, mal tínhamos nossos tigres que já estavam na beira de sua extinção. Leões só são ditos em nossos mitos como simbolo de força e dignidade. Essas criaturas não vivem em florestas e, quanto ao mapa, ele teria que ter viajado muito de sua savana para cá.
Tirei minha atenção da tevê de tubo quando minhas comida chegou. Desembrulhei o arroz da folha de bananeira e na primeira mordida o achei condimentado de mais.
Teria que me acostumar a muita coisa novamente. Éramos todos fãs de especiarias e nossa culinária é bem condimentada. Com tempo na Europa meu paladar enfraqueceu consideravelmente.
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Partimos junto a aurora. Muitos dormiam amontoados, com suas cabeças apoiadas no ombro dos outros enquanto a van seguia seu curso. Foram longas paradas em diferentes cidades para que todos pudessem descer em seu destino. O meu, como esperado de alguém que deseja chegar logo a casa, foi o último.
Uma pequena coloniazinha no começo de uma floresta. Estrada de chão e barro vermelho. Casas aqui e ali, um único armazém e nada mais. As lâmpadas pendiam de fios que iam de um poste a outro. Postes de madeira, claro, e de uma altura pouca de 1,99 ou 2,00 metros. Cachorros latiam e crianças corriam animadas com suas roupas enlameadas. A chuva prometida caía como garoa no fim de dia. O sol era uma massa alaranjada que ia descendo pelo horizonte e ia por trás das mangueiras.
Comecei a caminhar com a mochila pendurada em um ombro e a pequena mala na mão. Sorria e acenava para aqueles que lembravam de mim e eram educados de gritar um 'salaam' . Entrei em uma trilha que levaria a uma pequena subida e, seguido pelos novos visitantes que iam ao mesmo destino que o meu, fui caminhando de volta a casa.
A emoção me tomava a cada passo. Ia tirando os sapatos e largando a mochila junto a mala conforme via o portão se aproximar. Muitos me fitaram com estranheza.
Quando minha visão alcançou Asmita tirei meu casaco e corri até meu tutor. A chuva caía forte a essa altura e molhava o resto de roupa que ainda tinha em meu corpo. Soltei meus cabelos e me ajoelhei ante ao único homem que formava minha família e agarrei-o pela cintura afundando meu nariz em suas vestes sentindo o cheiro de sândalo e jasmins.
— Estou em casa! Maiṁ ghara aya — repeti e desta vez meu cérebro não se importou em fazer a conversão para o inglês ou hindi. Eu estava em casa.
— Velakama, meu querido aprendiz. — ouvi sua voz murmurar e suas mãos quentes tocaram meus cabelos. — Grande destino aguarda você. Grande... Bare bhagya.
Ainda não compreendia. Ainda não podia dizer se Asmita tinha tido alguma visão ou se pressentia sua morte — e que Buda proteja que não seja isto, antes eu que ele — mas uma coisa era certa, algo estava para acontecer.
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Me condicionar a rotina do ashram fora algo tão comum quanto respirar.
Acordar antes do sol, formar as turmas que desejavam meditar comigo. Forrar o pano de seda colorida na grama, de frente para a pequena turma. Ensinar-lhes a posição e então repetir em voz alta uma única vez até que todos começavam a entoar o mesmo coro.
Primeiro uma canto. Depois cada um fazia sua reza ou oração e então mergulhávamos em nossas próprias bolhas. Pode ser que eu tenho vindo a confundir você com a frase 'Cada um com sua reza', contudo permita-me explicar a você, caro amigo, o que é um ashram. No começo de tudo, era onde sábios ou pessoas que dedicavam suas vidas a entrar em um consenso com o mundo ao redor iam. Lá, num local isolado de todo mundo, se praticava o hinduísmo. Com tempo e a 'nova Índia' sendo construída, junto ao sistema de castas a essência de um ashram também se foi. Agora é um lugar de descanso, longe de tudo, onde se procura fortalecer fé e mente. Não importa. Buda ou Cristo. Qualquer que seja sua religião será bem vinda, respeitada e ouvida. Se deseja ler a bíblia poda buscar refujo nas árvores e durante as meditações tentar achar Deus em comunião com você. Pode fazer da meditação oração. Se for Buda, pode tentar encontrar Buda em você. Se for qualquer outra, pode usar a meditação como momento de intermédio ou culto. Se for ateu, pode ser apenas um momento longe do stress; Em sumo: É um lugar que faz ode a paz.
Faziam poucos dias que meu retorno era um fato e, na hora do jantar, fui surpreendido com uma das novas idéias de meu tutor. Normalmente quem vai aquele local não se interessa num turismo pela nossa nação, contudo ele sugeriu animadamente durante um jantar um passeio ao zoológico e mencionou que poderiam ver o leão capturado em nossas selvas. Franzi o cenho ao notar o tetê-à-tetê que se formou a nossa volta. Um burburim de vozes satisfeitas que já faziam planos para uma estada de dois dias na cidade vizinha visitando e vendo o tal raríssimo leão e mais alguma coisa sobre tigres.
— Mestre. — movimentei minha mão frente a meu rosto, prestando reverência e me ajoelhei ao seu lado. Asmita me dirigiu um olhar cálido. — Com sua licença, por que ir ao zoológico? Qual lição espiritual nos traria?
Asmita sorriu largamente.
— Paciência, meu aprendiz. Ver animais não anima sua alma? — indagou.
— De certo, apesar da agonia de vê-los presos. — respondi de pronto.
— Tens boa alma. — comentou — Vá descansar e arruma suas coisas. Dois dias bastam. Muita coisa será aprendida. Descanse... Destino está a espreita.
Ele não costumava falar com esse jeito profético comigo. Não costumava me ocultar coisas. Minha vontade era indagar a cerca disso. Indagar o que haveria, mas ele já tinha me dado sua bênção e encerrado aquele assunto. Beijou minha testa e dispensou com um sinal de mão.
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Como nosso ashram era o centro da economia daquela pequena cidade, um comerciante não de importou de ceder uma de suas vans de transporte para nós. Na temporada de chuva poucos vem, ou seja, era como se tudo fosse pensado para acontecer daquela maneira. Couberam todos e a mala foi com lugar vago para mais bagens.
Asmita dirigia e eu estava sentado a seu lado vendo-o cantarolar alguma cantiga religiosa e sorrir radiante. Não conseguia extirpar de mim o sentimento de que algo estava ocorrendo. E os acontecimentos de noite passada não mudavam muitas coisas.
Apesar de minha insistência por levar túnicas, ele só permitiu calças jeans, sapatos de caminhada e blusas que tinha comprado no meu tempo de estadia fora do país.
No zoológico podia-se ouvir o rugido do rei das savanas do portão. Nenhum animal a mais ousava fazer qualquer barulho. Ou ouvíamos o silêncio ou o rugido de descontentamento. Nem mesmo os tigres davam o ar de sua graça. Não que eles pudessem impor seus pulmões para fazer mais barulho que aquele poderoso animal.
Chegamos pela hora do café da tarde e almoçamos em um pequeno estabelecimento de mesas de madeira dentro das dependências do zoológico. Quando terminada a refeição Asmita liberou o resto sobre a responsabilidade de outro de seus aprendizes, contudo exigiu que ficasse ali com ele tomando chá de rosas e admirando o movimento ao redor.
Cedia aos poucos ao tédio enquanto meu mestre olhava ao redor, sorrindo e em seus olhos eu via uma centelha de ansiedade. Era algo raro de se ver em gurus, mas eu via. Eu conhecia bem aquele sacerdote de Durga.
Olhou o chá e sorriu para mim.
— Paciência, Shaka. O que conturba sua paz e nubla sua mente? — indagou tomando mais um gole de chá olhando as pessoas que passavam ao nosso derredor;
— Não me contará o que está acontecendo, não é? Me chama de volta, diz que poderei fazer a faculdade a distância; Só me oferece está opção depois de insistir que deveria ir a outro país. Aqui, fala por códigos... O que é? — pedi.
— Adotou a impaciência européia. — constatou ele suspirando — Algo deveria ter aprendido lá. Sei que aprendeu o mais importante, mas também veio com a impaciência toda de lá. — lamentou novamente e isso apenas fomentou minha raiva — Vamos. É chegada a hora. — ele completa assim que houve o derradeiro rugido do leão.
O animal parecia ter acabado sua discussão com quem quer que seja.
Começamos nossa caminhada e, apesar de falar sobre paciência comigo, ele acelerava seus passos até a jaula do animal de juba. Costurava o trânsito de pessoas e barraquinhas. Depois da lagoa de patos e lótus flutuantes e depois de uma reverência prestada a estátua de Durga entre jasmins continuamos nosso caminho apressado ao destino que eu não sabia direito qual ser.
Chegamos a jaula do leão. Eu via a juba negra — tudo naquele animal era tão pouco comum assim? — se movimentar de um lado para o outro e por fim vi o corpanzil forte e peludo do leão. Enquanto eu dispensava olhares ao belo ser impaciente, meu mestre logo começou a tagarelar em uma língua desconhecida.
Deveria ter me virado sobre os calcanhares de imediato e visto com quem Asmita falava e que tipo língua era aquela. Até onde eu o conhecia, híndi era sua única. Contudo meu contato visual com o leão não pode ser quebrado. Seus olhos de castanho profundo encontraram os meus e o andar cessou. Ele sentou sobre a pedra e, depois de lamber a boca, continuou a me fitar com calma. O rabo balançava de um lado para o outro no ar e ele não piscava.
Era bonito, forte e majestoso como todo leão deve ser. Sua juba negra apenas ajudava seu composê. Era um raro de sua espécie. Mas... de longe... seus olhos eram o grande diferencial. Havia algo de poderoso nos olhos castanhos que, mesmo por trás das grades, continuavam a me analisar.
Senti algo me enlaçar. Uma força muito poderosa criar uma ponte entre mim e a criatura enjaulada.
— Não é, Shaka? — ouvi a voz de Asmita me puxar para a realidade e em um golfo de sons novos invadiu minha mente o contado fora quebrado. Contudo a ponte permanecia intacta.
— Oi? — virei sobre os calcanhares e notei enfim com quem meu mestre falava.
Era um rapaz de mais ou menos 24 anos. Tinha cabelos castanhos e olhos claros e intensos. Sua beleza denuncia pouco ou nenhum parentesco indiano. Ele não tinha o nariz típico de nosso povo, pelo contrário, era nariz aquilino do povo ocidental. O porte altivo. Chutaria italiano, ou grego. Duas etnias que se confundiam um pouco ao meu olhar.
— Este é Sísifo Oberon. Ele é grego e dono deste animal. — falou meu mestre — Sísifo, este é meu aprendiz, Shaka.
O homem sorriu e a pele bronzeada de suas bochechas o conferiam um ar quente e persuasivo. Quase como se induzisse a confiar nele.
Ele disse alguma coisa e Asmita logo retrucou e o alívio apareceu em sua face.
— Fala inglês? Que bom.. meu hindi é péssimo. Tenho muito sotaque. — ele voltou a conversa para mim.
— Prazer. — foi tudo que soube falar naquela hora.
Desde quando meu tutor conhecia alguém de fora? Ainda mais da Grécia? Contudo as roupas que o homem ostentava diziam muito ao seu respeito e, uma das coisas que o terno caro feito sob medida dizia era: Sou muito rico e posso me dar ao luxo de ter um leão de estimação. Eis que, tirada a pergunta "Como o leão é dele?" da jogada, sobrava apenas a "De onde Asmita o conhece?"
— Vou lhe contar tudo em detalhes, mais tarde. — garantiu Asmita em hindi e voltou a olhar para o outro falando no que presumi ser grego.
A conversa logo desviou de minha pessoa para a antiga conversa a dois. Voltei meu corpo para cela e quase gritei.
Um grande felino jubado estava de pé, me olhando fixamente, a centímetros das barras. Apesar de causar medo e meu instinto gritar por socorro não tive a intenção de me afastar. Apenas sustentei o olhar vendo a cauda balançar de um lado para o outro enquanto era analisado a fundo pelo animal.
— Oi. — arrisquei e ele grunhiu mostrando os dentes.
Engoli em seco e tentei desviar o olhar. Observei uma criança no colo de seu pai sorrir e apontar o leão e, em sua blusa verde musgo estava escrito:
Destino.
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