Linked Together
3 Capítulo 3
— Não sou uma pessoa comum, pelo menos não como eu achava, e sei que corro o risco de soar egocêntrica; Porém, fui capaz de fazer coisas nos últimos dias...
— Que coisas? – A acadêmica ficou curiosa. Clairmont fez questão de relatar aquele episódio fatídico em frente ao meu estúdio. – Você é uma bruxa também... – Foi mais uma constatação que uma pergunta, e pude ver um brilho em seu olhar que a deixava mais linda. Enquanto Diana processava a dedução que ela mesma fizera, fui dar uma olhada nas centenas de livros antigos, porém intactos que estantes elegantemente adornadas guardavam. Entre as obras mais lidas por Matthew encontravam-se os de eletricidade, microscopia e fisiologia. No entanto, o mais usado estava na estante do século XIX: a primeira edição de Origem das espécies, de Darwin. Depois de uma olhadela nos dois, puxei o livro da estante com todo cuidado. A capa de tecido verde com título e nome do autor gravado a ouro estava desbotada pelo uso. Matthew assinara o próprio nome na guarda. Dentro do livro havia uma carta dobrada.
Caro Sir, dizia. Finalmente chegou às minhas mãos vossa carta de 15 de outubro. Estou mortificado por ter demorado tanto para responder. Ao longo dos anos tenho coletado fatos relacionados à variação e à origem das espécies e vossa aprovação aos meus argumentos chega como uma notícia alvissareira, dado que o meu livro logo estará nas mãos do editor. No final da carta, assinatura, C. Darwin, e data, 1859.
Matthew trocara cartas com Darwin poucas semanas antes da publicação da obra em novembro.
O vampiro tinha feito anotações a lápis e a tinta que praticamente preenchiam todo espaço branco disponível nas páginas. Anotações particularmente abundantes em três capítulos. Referentes ao instinto, ao hibridismo e às afinidades entre as espécies.
Flocos de neve caíam em meus ombros, o que seignificava que o locatário do apartamento olhava diretamente pra mim, como se aguardasse que eu comentasse algo ou que fosse educada o bastante para repor o exemplar em seu lugar; Doutora Bishop, já recomposta, delicadamente retirou o exemplar de minhas mãos, e pôs-se a ler alguns dos apontamentos a lápis, tais como: “Portanto, podemos concluir que os instintos domésticos foram adquiridos e os instintos naturais foram perdidos parcialmente pelo hábito, e parcialmente pela seleção e acumulação do homem ao longo de sucessivas gerações, peculiares hábitos mentais e ações, os quais surgiram pela primeira vez de algo que em nossa ignorância chamamos de acidente.” e “Como são feitos os demônios?”
Clairmont pediu licença a ela e tomou o livro das mãos da acadêmica, o semblante duro, que suavizou alguns segundos depois; a maneira como seu humor se alterava de um momento pra outro era alarmante. – Interessante essa curiosidade de vocês. – Avaliou, jocoso. – Gostaria de levá-las ao meu laboratório, nosso trabalho mais recente é ligado a origem das criaturas. Já que o livro chamou a atenção das duas, vocês vão gostar disso.
— Olá, Matthew. Ele tem me ajudado enquanto você está fora. – Manifestou-se uma voz um tanto ácida, e a dona da voz não tinha uma expressão melhor, e estava acompanhada por um jovem de cabelos pretos, um tanto mais simpático e bastante pálido.
— Diana, você deve conhecer Miriam, ela é nossa gerente.
— Eu sou Marcus Whitmore, um tipo diferente de doutor. – Pretendíamos sacudir a mão da tal Miriam, porém, foi o moço que nos cumprimentou.
— O que vieram fazer aqui?
— Queria mostrar a elas que nosso trabalho prova, sem dúvida alguma, que as criaturas estão se extinguindo. – O olhar penetrante do centenário alternava entre mim, Diana e os dois colegas.
Então, para ilustrar o que dissera, nos mostrou um gráfico no computador, que mostrava o DNA mitocondrial de uma bruxa chamada Benvenguda. Ela vivia na Bretanha do século VII e era muito poderosa; uma maravilha em um período que produziu muitas maravilhas. Em seguida, apresentou um outro gráfico, pertencente a Beatrice Good, última descendente de Benvenguda. O DNA de Good mostra bem menos indicadores comuns entre a espécie, sinalizando que seus ancestrais, ao passar dos séculos, confiaram bem menos na feitiçaria para sobreviver. Era esse o comportamento que Diana Bishop vinha exibindo e ainda se orgulhava disso; e por causa de atitudes como essa, as bruxas perdem seus poderes, ou os ocultam de tal maneira que são destruídas por eles.
Já do lado de fora do laboratório, e assim, da Universidade, discutíamos sobre o manuscrito perdido, a iminência dessa extinção dos seres e como a noção do tempo entre demônios, vampiros e bruxos era diferente. Um dia, apenas uma espécie axistirá, e no começo, os humanos não notarão a diferença; aos poucos verão como a magia fora expurgada desse mundo, e tudo será apenas igual, monótono. Continuarão com suas vidinhas e nada mais fará sentido.
— Magia é o desejo tornado real... – Essa frase simplesmente escapuliu de meus lábios, antes que eu buscasse refreá-la – Diana, você deveria, pelo menos tentar usar seus poderes sem ter tanto medo...
A bruxa parou seu caminhar e senti seu olhar sobre mim – O que disse?
— Você deveria tentar usar seus poderes...
— Isso não. Sobre a magia ser o desejo tornado real.. Minha tia sempre diz isso.
— Hum, sabe quando vem algo à cabeça, e você precisa falar? Pois então... Di, vamos ajudá-la, tá bem?
Ela assentiu lentamente, e seus braços me envolveram. Meus lábios se abriram num caloroso sorriso, enquanto os olhos se cerraram. Depois que nos apartamos, Clairmont fixou seus olhos nos dela, e sem pressa, ou cerimônia, tomou sua mão afetuosamente e ali plantou um pequeno beijo. Diversas emoções e sentimentos emanavam daquele singelo gesto; algo muito forte e venerável nascia ali, eu estava certa disso.
Na manhã subsequente, a historiadora acabara de despertar de sonhos execráveis que a vem perturbando desde que abrira o palimpsesto – pergaminho ou papiro cujo texto primitivo foi raspado para dar lugar a outro. A caminho da Bodleiana, eis que Gillian Chamberlain surge em seu campo de visão, querendo falar-lhe, e por uma ironia do destino, senhorita Kingsolver, igualmente fez sua presença ser notada, tomando seu lugar à frente de Dra. Bishop, como se fosse um escudo contra as criaturas da laia de Knox. Antes que Chamberlain, ou Kingsolver pudesse dizer qualquer coisa, a pesquisadora se manifestou:
— Você contou do livro para Knox – Ela podia ver nos olhos alheios, podia ler os pensamentos da colega bruxa.
— Contei para Sylvia, ela me perguntou. Sabe que não devemos mentir para outras bruxas, coisas ruins acontecem quando se faz isso. Lembre-se do que houve com seus pais...
— Pare com isso, Gillian. Pare de usar a espécie como justificativa para sua falta de caráter.
A historiadora deixou a colega a ver navios, e eu não podia estar mais feliz e orgulhosa com a atitude de minha amiga. Enquanto saíamos da vista dela e nos aproximávamos da Bod, a cara conhecida que vemos é a do senhor Clairmont, e ele contava com um brilho determinado, porém gentil no olhar. – Ah, aí estão vocês. Gostaria de convidá-las a um passeio.
Nos entreolhamos, um sorriso brotando nos lábios dos três amigos – amigos? Talvez. Ainda não tinha certeza do que éramos – enquanto o vampiro dava meia volta, nos direcionando novamente à Universidade.
— Para onde vamos, afinal? – Perguntei, tentando reprimir qualquer pontinha de arrogância.
— Vocês verão. – Qualquer nota bem humorada fora apagada de seu tom de voz, como a luz do sol se dissipa, dando lugar a nuvens negras e pesadas de chuva – Fiquem tranquilas, não vou sequestrá-las.
Um ruído escapuliu de meus lábios, e Diana soltou um risinho. Viramos a esquina e seguimos na direção da Câmara de Radcliffe. Passamos pela entrada da Hertford College sem nos determos e a historiadora o tomou pelo braço. Lá adiante estava uma faculdade de Oxford notória pela seleção minuciosa dos seus membros e pela rígida atenção ao protocolo.
Entramos por uma porta de madeira baixa que mantinha o público longe da quietude do apartamento dele. Não havia ninguém na portaria a não ser o porteiro, e não havia estudantes sentados nos bancos da quadra à frente. O lugar era tranquilo e silencioso, como se habitado apenas pelas “almas de todas as pessoas honradas e falecidas da Universidade de Oxford”.
— Bem-vindas a All Souls.
A All Souls College era uma obra-prima da antiga arquitetura gótica, misto de um bolo confeitado e de uma catedral com todas as torres e delicadas esculturas a que tinha direito.
O vampiro tomou a bruxa pela mão e nossos olhares cruzaram como se fôssemos crianças travessas em busca de um tesouro. Depois de passarmos por uma adega fora do comum, subimos para o apartamento dele, localizado no topo extremo de um dos mais antigos blocos da faculdade.
Naqueles aposentos, o que faltava em tamanho sobrava em mobília. Um tapete Aubusson encardido se estendia ao longo do piso, sustentando uma coleção de móveis de William Morris autênticos. De alguma forma, a arquitetura do século XV junto ao tapete do século XVIII e a madeira rústica de carvalho do século XIX se encaixavam perfeitamente, criando a atmosfera de um seleto espaço eduardiano exclusivo para cavalheiros.
Na parede do lado direito do aposento principal, apenas um quadro servia como substituto de uma pessoa evidentemente estimada por Clairmont.
— Quem é ela? – Perguntei, sem cerimônia, embora aquela imagem tivesse um efeito negativo sobre mim.
— É minha irmã, Louisa.
Matthew respondeu, igualmente sem cerimônia, e seguiu com a senhorita Bishop para outros cantos da casa, confabulando sobre o país onde nasceu, sua idade, o nome que ele passou a usar logo após sua transformação, nome esse pertencente a seus pais adotivos, e foi a última coisa que ouvi antes da escuridão tomar conta de mim.
Mostrei à Dra. Bishop o último ambiente de meu aposento, o que eu mais usava: O escritório relativamente amplo, no qual destacava-se uma mesa com jornais, livros e material acadêmico, como artigos, memorandos, requisições de cartas e pareceres e um abajur em cada extremidade. Servi um vinho de 1811 para a bruxa, e derramei um pouco em uma taça para mim. Observava a acadêmica estudando um dos livros de alquimia que herdei de meu irmão mais velho, e ocorreu-me uma ideia quanto à ligação entre a bruxa e o maldito manuscrito Ashmole. Logo, esse súbito lampejo dera lugar a algo bem mais inquietante: Sentia o cheiro de Joanne – Alecrim, rosas vermelhas, frangipani – misturado ao aroma inóspito e familiar de tabaco, cedro e flor de oliveira – essências que em si não trariam mal algum, se não fossem pertencentes a um ser odioso.
Fale com o autor