Linhas Tortas
16 XVI
Notas iniciais
De cabeça baixa, Daniel mantinha os olhos nas figuras indistintas do mármore plúmbeo da bancada. Em sua cabeça, qualquer barulhinho soava como a bateria da Mangueira.
Uma xícara de café, um copo d’água e um Dorflex foram colocados à sua frente.
— Pode começar a se explicar — Felipe ordenou, indicando-lhe o comprimido.
Engoliu o remédio, depois provou o café. Não pôde evitar a careta.
— Sei que você tá puto, mas não precisa agir como se eu tivesse feito uma coisa horrível.
— Chegar em casa bêbado é bastante horrível pra mim.
— Fala como se nunca...
— Não estamos falando de mim, então nem comece, ok? Você tá errado, tá todo errado. Primeiro matou aula, depois mentiu pra mim, faltou a terapia, e agora isso. Nem te reconheço, Daniel.
— Não sei por que tá tão irritado, só tô fazendo o que você queria: vivendo.
O tom debochado do filho enfureceu Felipe. Ele teve que respirar fundo e procurar manter-se calmo.
— Bebida não vai resolver seus problemas.
— Terapia também não.
— Estou tão cansado, Daniel, de tentar ser um bom pai, de tentar te ajudar. Sei que não posso ocupar o vazio que ela deixou, mas não posso te perder. Você é tudo me resta.
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