Linhas Tortas
1 Capítulo Único
Linhas Tortas
Nem céu, nem inferno.
Só mais do mesmo.
Paz ou Liberdade?
...
O mundo mudara nesses 10 anos. A descoberta da existência do sobrenatural foi um choque global, seja você um religioso conservador ou até mesmo um ateu dos mais céticos.
Castiel ainda estava se acostumando com aquilo.
Não com o mundo. Na verdade, guerra, caos e monstros não lhe causavam espanto nenhum. O clima, sim, talvez. Como dizem, o Diabo estava nos detalhes.
Na verdade, sua residência atual era em New Orleans, mas vamos deixar isso de lado, por enquanto.
O clima por outro lado, era algo importante agora, a ser considerado. Lembrava que, quando possuía graça, esse tipo de coisa lhe passava desapercebido. Mas agora ele era humano. Fome, sede, frio, recargas constantes de celular. Tudo tinha que ser considerado.
Havia também seu lado bom. Johnny estava melhor da gripe, e Jessica tinha melhorado as notas.
Meus filhos.
Isso o enchia de orgulho. Eles eram carinhosos, meigos e fortes. Não sabia se merecia tanto. Foi a única coisa que a sua esposa pôde lhe deixar antes de morrer.
Isso e a Desert Eagle .50, é claro, que ele sempre carregava na cintura.
Guardar o Impala na garagem. Me livrar dessas roupas. Tomar um banho. Ver as crianças. Bom plano— Pensara.
Assim que abriu a porta, viu Mary sentada no sofá. Ele sempre insistia que ela descansasse no quarto, mas ela recusara – se terminantemente, até que ele chegasse.
Foram 11 dias de caçada. Com um total de 3 casos resolvidos, um fantasma, dois Wendigos e 5 lobisomens abatidos. Mas estava finalmente em casa. E ela era um colírio para os olhos cansados da viagem de 12 horas de carro.
— Bem vindo de volta, herói.
Mary já estava com os seus primeiros cabelos brancos. Mas Cas a achava tão linda como no primeiro momento em que a viu. Ele a abraçou, e o beijo, que começou singelo, foi se tornando maior. Quando deu por si, já estavam no quarto.
Eles não tinham muito momentos sozinhos. As caçadas lhe roubavam tempo, e ele passava o resto com as crianças. Sabia que sempre podia contar com ela para tudo. Seja para levar Johnny e Jessica à escola, seja para ajudá-lo a degolar um vampiro em Seattle.
Cas se recompôs, e se preparou para deixar o quarto. Já era por volta de seis da manhã.
Queria acordar antes de Mary e das crianças, e preparar o café, pra variar.
— Melhor trazer o seu traseiro de volta pra cá, eles só vão acordar lá pelas oito.
— Têm certeza?
Ele ainda procurava uma camisa para vestir, quando foi fulminantemente acertado com um travesseiro.
— É, eu tenho certeza, sua besta.
Ele se levantou, arremessando o travesseiro de volta, e depois, a si mesmo, nos braços dela.
— O que eu fiz para merecer você? – Disse, por fim.
— Deu azar. Agora vai ter que me aturar.
E a beijou mais uma vez. Nunca se cansava dessa parte.
O momento então, foi subitamente interrompido. Os vidros da janela tremeram. A tv e o computador da escrivaninha ligaram sozinhos.
Havia algo lá fora.
Castiel pulou da cama e sacou a Eagle da mesinha de cabeceira.
Mary fez o mesmo, sacando uma espingarda de cano serrado, que ficava debaixo da cama.
— Olhe as crianças, Mary. Eu vou lá.
Ela olhou para ele com uma das sobrancelhas levantadas. O agarrou pela cintura, roubou um beijo e o empurrou de volta para a cama.
— Minha casa, minhas regras, herói. Eu protejo você.
Cas sorriu e assentiu.
— Qualquer coisa, é só gritar.
— “Poughkeepsie”, eu sei.
Mary correu para a porta da frente. Cas foi para o quarto, olhar as crianças. Elas ainda estavam dormindo.
A casa tinha proteção para quase tudo, mas cautela era fundamental. Ele confiava plenamente em Mary, sabendo que ela não faria nada de forma abrupta.
Minutos haviam se passado, e nada.
Mais minutos se passaram. Nada.
Ela já havia perdido a esposa, Sam e Dean. Não poderia perde – la também. E morreria antes que isso ocorresse. Ambos não sabiam para onde seriam enviados quando morressem, então eles tinham que aproveitar ao máximo. Caçando tudo o que pudessem, para garantir que as crianças não tivessem que passar por isso.
Morrer naquele momento estava fora de cogitação.
Decidiu ir ver. Sabia que esse não era o plano. Ela estava armada, e havia provisões na parte da frente da casa. Armas, explosivos, água benta e uma faca de anjo. A casa em si era protegida por tanto sigilos que ele mesmo havia perdido a conta.
Contudo, uma vez que ele sabia que as crianças estavam bem, não conseguia tirar Mary da cabeça.
Com Eagle em uma mão e uma faca de anjo na outra (só para garantir), ele caminhou discretamente até a parte da frente da casa.
Mas quando viu com quem Mary estava acompanhada, o tempo parou.
Ele deixou a arma e a faca caírem no chão. Estava paralisado.
Mary estava sorria e chorava na mesma proporção.
Então, ela e a figura na frente da residência notaram a presença de Cas, que saíra devagar, quase que receoso sobre tudo aquilo.
— Sério cara, com a minha mãe?
Dean estava de terno, sobretudo, uma gravata azul impecável. Parecia não ter envelhecido nada desde a sua morte.
— Vadia.
Cas sorriu.
— Babaca.
Cas correu e o abraçou. Mary se deu ao luxo de chorar ainda mais. Mas com Dean ali, de pé, valia a pena.
— Que isso rapaz, sem camisa não! Tá me estranhando ou o que?
— Eu não entendo. Cara, eu estive lá! Eu vi o filho de Lúcifer te estraçalhando! Como isso é possível?
Dean sorriu. Afastou – se um pouco e se revelou.
O brilho, mais forte que a luz do dia, fazia contraponto à sombra das asas no chão.
— Fui promovido.
Dean, Mary e Castiel riram. Nunca conseguiam se conter perto de Dean.
Nem antes, nem agora.
— Nossa, devia ter imaginado – disse Castiel – Belo sobretudo.
— Tá com inveja, pode falar.
— E a que devemos a honra de um anjo do senhor?
Um segundo brilho revelou um Sam atrasado, mas com as mesmas características e vestuário semelhante ao de Dean.
— Ora, porque temos um trabalho para vocês – afirmou Sam.
— Estamos ouvindo – disse Mary, por fim, abraçando o filho caçula.
...
Audinos, Bitch
Evangelho segundo Winchester, Capítulo 4, Versículo 2.
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