Linhas Retas

3 Pó de Giz...


A vida em um país estrangeiro às vezes incomoda um pouco. Existem incovenientes evidentes: a língua, que às vezes transforma a pessoa mais articulada em um Neanderthal, os costumes, que às vezes transformam a pessoa mais discreta no equivalente de discrição de um elefante cartaginês, os problemas financeiros, a falta da família, e principalmente, o olhar das pessoas quando você pede um croissant com amêndoas em uma Brasserie. "Aqui é uma Brasserie, estrangeiro idiota! Temos croissant, croissant com chocolate, croissant com passas, mas não com amêndoas, e TODO MUNDO SABE DISSO!" True Story.

No Brasil, ficar incógnita era muito mais fácil: eu era a melhor aluna da escola, certamente, o que não significa absolutamente nada, exceto na época das provas, quando eu não me importava de ser vista. Afinal, o que as pessoas queriam eram respostas, e o olhar delas quando eu imediatamente resolvia a questão que lhes tinha consumido horas... e os comentários a meia-voz sobre minha habilidade de construir gabaritos... aaaahhhh!

O psicólogo disse que minha atitude era reflexo de problemas com a figura paterna. Nesse caso, diria que ele acertou: não é como se crescer até os 15 anos com um pai que trabalha mais que o dobro das 40 horas semanais seja algo saudável. A situação era tão grave que até minha mãe, que o amava muito, se separou... e eu nem o amava tanto quanto ela, ao menos não antes do (nada inesperado) infarto. Hoje eu vejo o que ele sentia... ou pelo menos acho que vejo: todos os colegas de trabalho dele sempre me disseram que ele era o melhor funcionário da empresa, de longe, e que "se não fosse pelo Doutor Katsu..."

Ou seja, minhas expectativas na vida envolvem me transformar em uma workaholic funcionária do ano e morrer de infarto. Obrigado, papai!

De qualquer modo, nenhum fator de descomforto se compara a estar na frente de uma platéia de 50 alunos locais armados de canetas, folhas quadriculadas profissionalmente encadernadas e, principalmente, de um professor e um chato.

Vou explicar. A situação no dia seguinte, aliás na semana inteira, foi rotineira: o assistente chegando atrasado de forma evidentemente deliberada, sentando num canto (o meu em várias ocasiões), escrevendo em papéis disparatados e fazendo todas as perguntas e observações que ele achasse legais, sem qualquer amor pela classe, terminando com vários minutos de conversa com o professor, durante os quais ele sugava quaisquer assuntos inteligentes que eu poderia usar para iniciar uma conversa discreta, respondia algumas dúvidas e checava assuntos administrativos, enquanto eu corria para casa.

Essa rotina não sobreviveu por muito tempo. O problema é que eu, como qualquer um que me conheça pode confirmar (minha mãe, talvez?), gosto de conversar sobre alguns assuntos... poucos, é verdade.

"Hei! Você prefere a parte de Matemática mais Álgebra, ou a parte mais aplicada?"

"Mat Ap."

Ele deu risada de leve. Acho que foi por causa do meu estilo de fala. Mat Ap. Álgebra. Sim. Não. Luís. Dois pi ao quadrado vezes h barra.

"Concordo com você. De fato, essa parte da matéria tem muito mais poder, não? Muito mais interessante, uma abstração muito mais sutil e geométrica..."

Alguém que concorda comigo?

"O professor aqui é muito bom, pena que ele seja um pouco cruel, não?"

"Sim..."

"Eu me lembro de um que uma vez me chamou na frente: Pois é, agora escreve aí o que você vai colocar entre essas duas funções... mais, menos, vezes, dividido... cinco minutos depois, o cara coloca um menor que, ele apaga, tente de novo... dez minutos depois, menor igual, apaga, tente de novo..."

Eu quase rio. Digo quase por dois motivos: primeiro, eu ainda assisto a aula, e segundo, o professor escreveu um exercício muito legal, em que legal quer dizer: eu sei fazer de um jeito... surpreendente. Matemáticos chamariam de elegante, na verdade.

"Nossa, essa hipótese ali... o que ela implica?"

"Eu já fiz isso uma vez, mostrei que era equivalente a uma repres..."

"Excelente idéia!"

"A conversa está boa?"

André não era de ser interrompido por meros professores. Se esse fosse uma folha 3D, essas duas falas estariam uma em cima da outra.

"Sim, professor... aliás, eu estava conversando com a aluna aqui do lado, Ana..."

Ãh?

"Esse exercício, Ana sabe resolvê-lo de forma bastante elegante, usando uma representação da função bem interessante..."

Ãh?

"Ah, entendo... bem... Ana, venha aqui e mostre para seus colegas, então."

Ãh?

Eu tenho alergia ao giz. Eu tenho agorafobia. Eu tenho aracnofobia. Eu tenho gagueira. Eu sou estrangeira e não sei falar francês!

Eu vou poupá-lo desse momento de humilhação e dor. Suficiente de afirmar que embora eu tenha conseguido provar o que queria, após minutos de esforço, duas reclamações sobre a qualidade da minha letra, três sobre a clareza da minha explicação e portentosas dificuldades em apagar a parte de cima do quadro, quando sentei na cadeira resolvi ignorar completamente qualquer avanço por parte do ocupante do lado. E digo ignorar mesmo, nada de Sim ou Não: nada mesmo.

Pelo menos até o fim da aula, quando, enquanto eu saía, o professor perguntou para mim sobre minha biografia, me aconselhou a participar mais da aula, e ainda me perguntou sobre minhas perspectivas profissionais.

Ah, pelo visto, eu falo francês muito bem.

E pelo visto, meu professor aprecia minha presença, como aluna.

OK. Próxima vez que André perguntar meu preparatório (sério, por que perguntar se você vai esquecer?), eu digo mais de uma palavra.

"São Luís."

Os colegas dele se aproximam, o sotaque e a gíria revelando que não são estrangeiros. Eu vou saindo...

"Olha, você tá afim de tomar um café? A cozinha tá cheia, invasão de indianos com comida 'ultra-cheirosa...'"

Ou não.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.