Linhas Cruzadas.
10 Consequência.
Notas iniciais
"He is a villain by the devil's law, he is a killer just for fun..."
Felicity Smoak.
Se me dissessem pela manhã que eu acabaria transando com Oliver numa sala do teatro municipal, eu provavelmente daria risada, poderia até cogitar um sonho erótico se não fosse seu peito subindo e descendo em baixo de mim. Eu ainda estava sobre ele, nossos corpos se acalmando e nossas respirações se regulando.
̶ "UAU. Foi como participar de uma suruba virtual". – ouvi uma voz saltar nos meus ouvidos e só então a ficha caiu. O ponto.
̶ Ai meu Deus. – me afastei de Oliver bruscamente quando percebi o que tinha acontecido. Eu não só havia transado com Oliver, eu havia transado com Oliver com todos da equipe escutando.
̶ "Isso foi como um pornô para deficiente audiovisual." – senti meu rosto esquentar com mais um comentário de Ray.
̶ Felicity. – Oliver parecia me analisar cuidadoso. – Não pira.
̶ Eu não vou, o que te faz pensar isso? – perguntei com minha melhor cara de "to nem ai".
̶ Talvez essa sua expressão de louca. – apontou meu rosto para comprovar.
̶ Louca é a sua avó. – ralhei irritada.
̶ “Incrível como esses dois conseguem brigar nas horas mais Inapropriadas”. – Sarah debochou, eu podia ouvir os risinhos discretos dos outros.
̶ "Já chega. Se os dois já terminaram ai, podem voltar para o disfarce, não sei se percebem, mas as coisas já voltaram ao normal". – senti meu rosto esquentar ainda mais com a voz de John.
Sem encarar Oliver, comecei a me vestir sob a claridade do lugar que parecia ter mesmo voltado ao normal.
̶ John, como está tudo lá fora? – toquei a corrente em meu pescoço, sentindo o desespero querer me invadir ao me dar conta que tinha uma microcâmera no pingente. Mas ninguém tinha comentado sobre nada, isso devia ser um bom sinal, certo?
̶ "A apresentação da opera foi cancelada e o leilão começará em vinte minutos".
̶ "Pessoal, acho que descobri uma coisa". – Roy sussurrou. – "O quadro que está indo a leilão, o fundo é falso e ouvi algo sobre documentos lá".
̶ E por que eles leiloariam documentos? – nada daquilo parecia fazer sentido.
̶ "O leilão será armado". – continuou contando sua descoberta. – "Ouvi Slade falando sobre esses documentos e o quanto eles eram importantes para a facção".
̶ Roy, onde está o quadro? – Oliver perguntou terminando de se vestir.
̶ "Numa sala atrás do palco, dois homens estão de segurança na porta".
̶ Você sabe o que tem que fazer. – assenti para Oliver, captando sua mensagem.
̶ "Roy dê cobertura aos dois e tentem não levantar suspeita, estaremos apostos". – Diggle ordenou.
Caminhamos pelo corredor extenso do teatro com um silêncio constrangedor nos cercando, o barulho dos meus saltos batendo no chão era o único som presente.
̶ Tem jeito disso aqui ficar mais constrangedor? – Oliver quebrou o silêncio enquanto olhava para os lados.
̶ Não, não tem. – soltei o riso pelo nariz. – Até uma hora atrás nos detestávamos.
̶ Eu... – observei ele selecionar seu próprio jogo de palavras, enquanto coçava a nuca, constrangido.
̶ Olha, somos adultos e não precisamos ficar nesse climão. Quero dizer, foi um momento de físico e só, morre aqui.
̶ Isso. Não é como se fosse uma grande coisa, só sexo. – concordei com a cabeça.
̶ Oliver. – chamei sua atenção apontando com a cabeça em direção aos dois homens parados na porta.
̶ Vem. – me puxou até a curva de uma porta qualquer. – Tem certeza que consegue lidar com os dois? – revirei os olhos, irritada por sua falta de confiança.
̶ Só me dê cobertura. – pedi já saindo de perto dele e entrando no campo visual dos dois.
̶ Senhora, não pode entrar aqui. – um deles falou se pondo a minha frente.
̶ Olá rapazes. – forcei meu sorriso mais jocoso e o olhar mais sensual que conseguia. – Me desculpe, eu estava procurando o toalete e acabei me perdendo.
̶ Uma dama como a senhora perdida por esses corredores pode ser perigoso. – o outro que até agora se mantinha calado resolveu entrar na conversa.
̶ Senhorita. – sussurrei provocativa. – Eu estou totalmente perdida, sou nova na cidade e o prédio do teatro parece maior do que eu imaginei.
̶ Se quiser podemos te ajudar. – fixei meus olhos em sua mão que acariciava meu antebraço. – Uma mulher tão linda merece mais que um tratamento especial.
̶ Eu esperava mais de vocês. – segurei sua mão, a puxando para trás e o imobilizando. – Mais fácil que tirar doce de criança. – zombei antes de apagar o idiota.
̶ Felicity. – Oliver me chamou apontando o outro que tentava fugir para buscar ajuda. – Não podemos chamar atenção.
̶ Gatinho, isso vai doer. – lancei a espécie de adaga de cerâmica que tinha escondido em meu vestido, acertando a perna dele que caiu soltando um urro.
̶ Maluca. – rosnou quando arranquei o objeto de sua perna.
̶ Sabe como é, uma garota de Vegas precisa estar sempre protegida. – Oliver o socou, provocando um desmaio.
̶ De onde tirou isso e como passou pelo detector?
̶ Isso? – apontei a adaga ainda cravada na perna do segurança. — É só uma coisinha que Sarah me deu pra caso de urgência, é de cerâmica. – justifiquei.
̶ Vamos logo com isso. – ele me puxou porta adentro. – Felicity, tem vários quadros aqui.
̶ Vamos procurar um por um sem tentar danificá-los.
Parecia um trabalho sem fim, eram várias obras de arte e nenhuma com fundo falso, até que um quadro renascentista escorado numa parede ao fundo me chamou atenção, era grande e de moldura larga.
̶ Bingo. – tateei as costas do quadro, sentindo a inclinação da tela. – Oliver, eu preciso que você retire o punhal da perna do homem lá fora.
̶ Você sabe o que eu vou ter que fazer, não sabe? – seus olhos pareciam um nevoeiro obscuro.
̶ Não, não precisamos chegar aos extremos. – neguei.
̶ Felicity, eles vão me reconhecer, será necessário o extremo.
̶ Não Oliver. – vociferei irritada. – Não sei como você trabalha, mas comigo não funciona assim.
̶ Mr. Queen. – a voz de um dos caras invadiu o ambiente. – se eu contar ninguém vai acreditar. – me virei encarando a arma apontada para nós dois. O loiro alto que eu havia desmaiado com um golpe na mandíbula parecia irritado, enquanto falava. – Pelo visto a duplinha vai ter muito que explicar, imagina só o escândalo se o meu chefe denuncia vocês por tentativa de furto? Eu posso contar sobre suas habilidades ocultas, princesa. E quanto a você. – mirou Oliver. – Eu nunca gostei de playboys milionários, sempre tão mimados.
̶ Sinto muito cara, isso aqui é maior que você ou seu ódio por playboys milionários. – Oliver falou, golpeando o punho do homem fazendo a arma deslizar para perto da janela. – Eu tenho uma imagem a manter. – encaixou um mata leão, fazendo o homem se contorcer em busca de ar. Senti meu estomago embrulhar com os últimos protestos desesperados do homem, eu sabia do que Oliver Queen era capaz, eu mesma já havia ouvido histórias sobre ele.
̶ Aqui. – saltei do meu devaneio com o punhal erguido em minha direção. – Você vai me deixar ir, ou a loirinha morre. – o moreno tentava não esboçar sinais de dor. Guiei meus olhos até sua perna que sangrava muito, ele estava enfraquecendo.
̶ Eu gostaria de deixar você ir, gostaria mesmo. – Oliver ergueu os braços em sinal de rendição. – Mas saindo daqui você contará tudo o que viu, e eu não posso permitir isso.
̶ Não, eu não vou contar. – prometeu com as mãos tremulas em minha direção
̶ Acredite, você irá. – se aproximou com cautela. – Sinto muito. – deu uma rasteira no homem que caiu machucando ainda mais o ferimento, soltando um urro. Oliver pisou na caixa torácica dele, fazendo com que o ar faltasse e suas mãos abrissem, libertando a pequena adaga. – Aqui. Não temos muito tempo, preciso que seja rápida. – jogou a adaga para que eu pegasse.
Um corte raso no fundo da tela e era o suficiente para eu conseguir passar minha mão. Senti a maciez do envelope tocar meus dedos, o alivio de finalmente termos algo concreto, agora poderíamos parar de andar as cegas.
Oliver chutou o rosto do homem antes de pressionar seu pescoço, este não demorou a apagar de vez, estava fraco demais para resistir.
̶ Vamos, o leilão termina em cinco minutos e não podemos levantar suspeitas.
̶ Tommy? – o lembrei de seu amigo.
̶ Na certa ele deve estar achando que eu te levei para algum motel ou que fomos para o seu apartamento.
Ignorei o desejo de soltar alguma provocação ou resposta mal criada e me concentrei em sair dali. Oliver segurou minha mão me guiando até a saída, senti algo se remexer dentro de mim quando passamos pelos corpos caídos sem vida próximos a porta. Ele tinha feito aquilo. Por reflexo, puxei minha mão fazendo o olhar dele cair sob mim.
̶ O que foi? – suas sobrancelhas pegadas denunciando sua confusão.
̶ Nada, vamos sair logo daqui. – adiantei as passadas passando na sua frente. A verdade é que eu não tinha coragem de olhá-lo agora, não podia encarar um assassino a sangue frio. A medida que íamos nos aproximando da saída, o ar parecia querer fugir de meus pulmões, eu sentia essa necessidade de estar longe dele, eu precisava respirar algo que não fosse sua névoa tóxica.
̶ Pronto. – entrei na van sem conseguir encarar nenhuma das pessoas que estavam ali.
̶ Conseguiram? – Roy que já estava sem os trajes de garçom, perguntou.
̶ Aqui. – Oliver estendeu o documento que escondia em seu terno. – Vamos deixar para abrir na cave, precisamos sair logo daqui.
̶ Ray invadiu o sistema de segurança e apagou todas as imagens de vocês. – ouvi a voz de Sarah, mas permaneci calada.
O caminho de volta até o hotel pareceu mais longo que o normal, Diggle estava no volante, enquanto Oliver relatava o ocorrido a Waller pelo telefone, enquanto Roy, Sarah e Ray mexiam em algo no notebook, eu apenas permaneci quieta, precisava digerir toda essa adrenalina em doses pequenas. Eu precisava de tempo para deixar a fixa de que Oliver havia matado dois homens com meu consentimento cair.
Não sei quanto tempo estive fora de órbita, mas quando dei por mim já estávamos no estacionamento do hotel. O percurso até a sala de reuniões foi de total silêncio, a essa altura todos já tinham percebido minha mudez.
̶ Vamos logo abrir isso. – Oliver rasgou o envelope revelando uma embalagem plástica com um microchip dentro.
̶ Um chip. – observei Ray encaixar a peça num adaptador e plugar no computador. – Está criptografado, levarei algumas horas com ele.
̶ Felicity pode ajudar, será mais rápido. – Roy sugeriu.
̶ Preciso de ar. – foi tudo que consegui falar antes de sair voada daquela sala.
Eu nunca fui covarde ou fraca, mas em todos esses anos de Argus nunca precisei matar alguém, nunca precisei chegar aos meus extremos. E hoje, ver a forma tranquila com que Oliver tira uma, ou melhor, duas vidas, isso me assustou.
̶ Como chegou até aqui? – não precisei me virar para saber que Sarah estava ali.
̶ Não é tão difícil chegar até o terraço desse hotel, me admira você ter conseguido burlar o sistema de segurança, afinal só Ollie e eu temos acesso a este lugar.
̶ Me dê um crédito, sou uma hacker. – ri pelo nariz. – Como você me descobriu aqui, Sarah?
̶ Os brincos, são escutas com GPS, lembra? – só então me lembrei das joias.
̶ Espero que a equipe não tenha visto minha bunda. – apontei o colar, sentindo meu rosto esquentar pela lembrança de mais cedo.
̶ Não se preocupe, com a queda de energia a transmissão acabou sendo cortada. – explicou. – Mas acredito que perdemos de ver sua bela bunda.
̶ Deixe o Ray te ouvir falando assim. – ela fez careta me arrancando uma breve risada.
̶ O que aconteceu lá? – Sarah voltou a usar o tom sério, me fazendo trocar o peso da perna, inquieta.
̶ Não quero falar sobre isso. – desviei os olhos para a vista da cidade.
̶ Felicity. – ela insistiu.
̶ Não Sarah.
̶ Tudo bem, eu só quero que você saiba que apesar da vida que nós levamos, você pode contar comigo. – ela encarou a vista a sua frente, compartilhando um breve momento de silêncio.
̶ Ele sempre foi frio assim? – ela escorou ao meu lado parecendo escolher as palavras.
̶ Oliver é um sobrevivente e como tal, ele acabou danificado.
̶ Ele matou dois homens sem nem titubear, Sarah.
̶ Eu sabia que no momento em que você visse esse lado do Oliver, o questionaria. – suspirou. – Você sabe que nessa profissão estamos sujeitos a matar ou morrer. Oliver foi treinado para defender uma investigação custe o que custar... E foi o que ele fez.
̶ Eu sei. – suspirei frustrada. – É só que em todos esses anos eu nunca precisei ir aos extremos, Sarah. Eu sempre usei força corporal, sempre consegui resolver meus casos sem precisar derramar sangue de ninguém, então me assusta ver a facilidade de outra pessoa em fazer isso.
̶ Matar nunca é fácil pra ele, acredite. Oliver apenas aprendeu a lidar com essa lei de sobrevivência.
̶ Você fala isso como se ele tivesse tido que enfrentar muita coisa.
̶ Dos demônios do Oliver apenas ele poderá te contar, mas quando eu digo que ele teve que aprender a lidar com o instinto de sobrevivência, é porque eu estive lá e o vi mergulhar no mais escuro e sombrio possível. – senti o leve arrepio correr minha espinha com as palavras de Sarah. – Felicity, ele não é todo esse monstro que pintam dentro e fora da Argus. Você mesma pode comprovar o quão bom agente ele é, e vocês trabalham muito bem juntos, você só precisa aprender que Oliver é como um bicho acuado que sempre vai estar pronto para atacar se sentir que está tendo seu espaço invadido. Pense nisso. – ela piscou saindo e me deixando com aquele monte de parêntese aberto.
̶ Temos algo. – Roy falou assim que entrei na sala do Ray.
̶ E o que é? – me aproximei curiosa até o monitor.
̶ São planilhas de custo de um resorte no norte de coast city. Parece que quem quer que esteja por trás disso está arcando com grandes despesas nessa localidade. – Ray explicou apontando o ponto vermelho no mapa.
̶ E o que estamos esperando para ir até lá investigar? – perguntei impaciente.
̶ Calma Felicity, estamos considerando todas as possibilidades de armadilha, afinal não esqueça que eles sabem que estão sendo investigados.
̶ Verdade, é melhor termos certeza de que não é uma isca para nos levar até a boca do lobo. – Diggle falou concentrado em limpar sua arma.
̶ E Oliver, onde está? – passei meus olhos pelo lugar constatando que ele não estava ali.
̶ No escritório resolvendo assuntos do hotel. – Sarah foi quem respondeu.
Eu podia não conhecer Oliver há bastante tempo como os outros ali, mas conhecia o suficiente para saber que ele estava me evitando desde a van.
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