Linhagens e Amizades

26 Capítulo 26 - Não Tenha Medo de Sentir (Parte 2)


Notas iniciais
Gente, desculpem a demora.

Autora em crise.

Espero que gostem!

- Madara-sama, quanto tempo ainda precisaremos esperar?



Nayuri estava impaciente demais. Já contava quase duas semanas desde o dia em que teve a conversa com a Hokage. Os dias pareciam não passar e a excitação era visível nos olhos dela.



- Acho que a velha conseguiu me enganar... será que esconderam o moleque?



Os olhos de Itachi que agora, assim como todo seu corpo, eram comandados pelo fundador do clã Uchiha fitaram-na, divertidamente:



- Ansiosa para uma reunião em família, minha querida? Tenha paciência, seu momento está próximo. Aliás, já pensou em como vai ensinar seu querido sobrinho a aprender os jutsus da família?



A cabeça que antes estava abaixada em sinal de respeito, agora estava erguida, os olhos fitando as duas pedras ônix que tinha diante de si. Um brilho intenso invadiu aquelas íris arroxeadas, era um momento muito aguardado. Uma pequena manifestação satisfeita brotava dos lábios dela, prontamente observada pelo shinobi à sua frente.



- Mas é claro. E da maneira mais simples: na prática.



Madara sorriu, satisfeito. Afinal, aquela mulher nunca fora uma qualquer. E seria a partir dela que o clã Uchiha seria reerguido.



- Minha querida, venha até aqui, quero compartilhar algo com você.


Ela aconchegou-se aos pés dele, numa atitude servil, apoiando a cabeça sobre o colo dele. Antes ela não gostava de demonstrar o respeito que ele merecia, mas com o passar dos anos, aquela atitude arredia foi tomando lugar por uma profunda admiração.



- Sabe que não gosto de toda essa ansiedade...


- Me perdoe, Madara-sama... não tenho que ficar importunando-o com meus assuntos particulares...


- Particulares? Nayuri... você me pertence, nada em você é particular para mim. Além do mais — começou a acariciar os longos cabelos descobertos — será bastante interessante ver o filho do Quarto morrer pelas suas mãos. É o mínimo que poderia desejar, depois de tantos anos impossibilitado de voltar... a Kyuubi enfim retornará para as mãos do seu mestre...


- Sim, conforme sempre deveria ter sido... Madara-sama?


- Fale.


- E quanto ao Sasuke? Quais seus planos?


- Sasuke? Bem... devo dizer que até então eu pretendia apenas matá-lo... mas o rapaz tem demonstrado frieza necessária para fazer ser mais...


- Como o que?


- Novamente ansiosa Nayuri? Deve ser de família... bem... se Sasuke provar ser mais que um bebê chorão, estou certo de que terá utilidade em nossa Vila. Afinal, aquele selo amaldiçoado tornou-o muito poderoso. Seria uma boa linhagem...


- Mas devemos descontar o primogênito, não?


- Ah sim... claro... e a mãe também.


- Decidiu-se sobre qual das duas?


- Sim... há tempos. Foi tudo relativamente simples, espionar a Hyuuga dentro do próprio clã foi uma tarefa simples. E a menina Haruno... bem... seu sobrinho trouxe- a até nós. A escolha era bem óbvia, afinal das contas.


- E por que diz isto, Madara-sama?


- Porque uma delas não pode ser mãe.



(Tecoooooooooooooooooooo)



Sasuke não queria sair em missão alguma, muito menos com aqueles dois. Para piorar a situação, Sai e Ino finalizavam a enorme equipe. Era uma missão simples, mas que demandaria muito mão-de-obra. Nada que fosse sobrecarregar qualquer um deles. A Hokage disse que teria evitado, mas um pedido da Vila da Pedra deveria sempre ser ouvido com atenção. Era raro solicitarem alguma coisa para Konoha e quando o faziam, era um bom ato de diplomacia aceitar.


A missão consistia em auxiliar a realização de um ritual, um selamento. De tempos em tempos, um shinobi da Terra nascia com extrema quantidade de chakra e não possuía controle algum sobre ele. A pessoa era, então, um perigo para si e para os que a rodeavam. Antigamente essa pessoa era morta, antes de começarem as manifestações maiores, mas com o avanço das técnicas ninjas, já era possível fazer um selamento, mas era necessário que uma equipe de ninjas com habilidades específicas estivesse presente. Sakura era a mais indicada para cuidar da parte médica, Ino auxiliaria com seu controle da mente, caso alguma perturbação acontecesse e fosse necessário manter a consciência da pessoa. Sai fora indicado para fazer a proteção do local, com suas criaturas servindo de fiéis guardadores. Neji estava ali por razões tão óbvias quanto Sakura: com seu byakugan poderia informar a todos do progresso do procedimento. E Sasuke... bem... Sasuke estava ali para liderar a equipe. Seus genjutsus não teriam utilidade, já que a pessoa precisaria ficar lúcida o tempo todo, o estado de torpor quando preso num genjutsu não era possível.


Como chegaram adiantados em quase um dia, resolveram acampar numa distância segura do local marcado, pois poderia vigiar o lugar contra possíveis emboscadas. Sakura estava o tempo todo ao lado de Neji, mas ambos raramente se falavam. Sai e Ino o tempo todo de mãos dadas, o relacionamento daqueles dois era famoso em Konoha pelas constantes "declarações públicas" que o rapaz costumava fazer à sua namorada, sem entender qual ação sua deixava-a tão envergonhada algumas vezes. Mas ela sempre estava feliz, tinha uma boa pessoa e que acima de tudo queria fazê-la tão feliz quanto desejava.


Neji se ofereceu para buscar algumas frutas, todos estavam famintos. Sai fez uma boa fogueira com o auxílio de pequenos esquilos negros e ágeis, que deslizavam pela floresta arrecadando lenha fresca para que durasse por toda a noite. Quando Neji retornou, Sakura e Ino que estava conversando, despediram-se por um momento, entre risadas. Sai estava bem próximo ao Uchiha, que observava a cena com visível irritação.



- Parece que só você está sobrando, não Sasuke-san?



Sasuke teve vontade de socar o rapaz e aquele sorriso pronto até que o avermelhado do sangue abandonasse sua face. Mas não o fez. Refletiu sobre as palavras do jovem shinobi, saindo em seguida, sem dizer a qualquer um dos presentes para onde ia.



- O que você fez prá ele, Sai? — Perguntou Ino, já conhecendo a pré disposição de seu namorado para ser um pouco inconveniente.


- Nada... apenas disse a verdade. Que ele estava sobrando. Afinal, somos dois casais: Sakura-chan e Neji-san, Você e eu! — Abraçou a loira pelos quadris, depositando um beijo em seu pescoço.


- De onde você tirou que a Sakura e o Neji são um casal, pelo amor de Kami-sama? — Ino deixava o corpo amolecer com o contato dele, lembrando o tempo inteiro de onde estavam.


- Vai dizer que você não vê?


- O que?


- Ora... ele olha para ela como eu olho para você. E como o Sasuke também olha para ela, só não se dá conta.



Ino observou-o surpresa. De onde veio tanta percepção? Sai costumava surpreendê-la sempre, mas sua dificuldade em entender a reação das pessoas era visível. Talvez porque os dois fossem homens como ele... fosse mais fácil.



- Sai, Neji e Sakura não são um casal.


- Ainda não. Certo?


- Você não me ouviu falar nada disto. Tire essas idéias absurdas da cabeça. A Sakura é do...


- Do Sasuke? Duvido muito. Você melhor que ninguém sabe que aqueles olhos não o enxergam mais da mesma maneira. Não sei o que dizer Ino... mas ela olha diferente para nós três: Neji-san, Sasuke-san e eu. Se tivesse que dizer de quem ela gosta, seria do Neji-san.


- Pois você errou.


- Então ela tem um quarto olhar? Nossa, Sakura-san é surpreendente...


Ino voltou seus olhos na direção dos amigos que estavam alheios à conversa dos dois. Neji explicava alguma coisa fazendo manifestações de chakra do tipo água nas mãos e Sakura escutava com atenção típica de uma boa aprendiz.



- Sim, ela é mesmo uma caixinha de surpresas.



Alguns minutos passaram e o vento começou a zunir alto, a copa das árvores chocavam-se umas contra as outras e o cheiro de terra molhada invadiu os sentidos dos quatro jovens. Rapidamente desmontaram acampamento, abrigando-se numa caverna que ficava bem próxima e era acolhedora o bastante para mantê-los protegidos. Ainda assim, Sakura ergueu uma parede na entrada da gruta, deixando uma entrada de ar por cima. A pouca lenha que sobrou foi suficiente para montar uma fogueira que fornecia calor e luz para os quatro.



- Um grande contratempo — observou Neji — Com isto a missão pode atrasar... a única coisa que não poderia acontecer seria isso.


- Calma Neji — Sakura direcionou seus olhos o mais pacífica que conseguiu, como fazia com seus pacientes infantis que não queriam tomar determinado remédio — é apenas uma chuva passageira, depois da torrente rápida tudo deve voltar ao normal.


- É o que espero.



Os dois foram interrompidos por algumas risadas vindas da barraca que Sai montou afastada alguns metros de onde eles estavam. Um constrangimento muito grande atingiu Sakura.



- Eles poderiam ser mais discretos, né? — Conseguiu dizer em meio ao rubor que invadia sua face.



Neji não tomou ciência do comentário dela e começou a preparar-se para dormir. Ela imitou-o, postando seu saco de dormir na direção contrária ao dele, mas ainda bem próxima à fogueira. O sono veio embalado no som da chuva, que não parava de cair, impiedosa.


"Sasuke-kun, não!"


Ela despertou de seu pesadelo. O mesmo de todas as noites. Aquele que perseguia sua mente e não deixava-a descansar, sem ter uma noite completa de descanso. Olhou ao redor e reparou na fogueira quase sem brasas e lamentou fazendo alguns selos, reacendeu o fogo quase morto. Sai e Ino estavam com os pés para fora da barraca e Neji permanecia impassivo, até mesmo em seu sono. "Nada o afeta", pensou Sakura.


A chuva continuava severa do lado de fora e... onde ele estava?


Sasuke não tinha retornado até aquele momento. Será que não teria conseguido localizá-los? Impossível, estavam bem próximos e a parede que tinha erguido não era nenhum obstáculo para o sharingan dele. Mas então... o que estaria fazendo, se não ali com eles?


"Sasuke sabe se cuidar... ao amanhecer ele volta. Temos uma missão a cumprir." — disse para si mesma.


Mas não foi isto que seu corpo entendeu. A vontade de sair dali era mais intensa que a de permanecer na segurança da caverna. Todas as vezes que estavam juntos, ainda que não sentisse mais a mesma coisa, a idéia de que ele a abandonaria era sempre presente. Contudo... eles não estavam juntos... então como ele a deixaria? A verdade é que se sumisse da Vila novamente seria um completo idiota... mas a situação que viviam naquele momento dizia que algo maior e mais tenebroso poderia estar envolvido naquele sumiço de Uchiha Sasuke. Um tremor em seu corpo deu o incentivo que faltava à kunoichi para procurá-lo. Misturando-se à terra que constituía a parede que ela mesma criou, atravessou para o lado onde a chuva dominava e rapidamente seguiu em direção ao local onde antes estavam acampados.


Ao chegar, viu Sasuke, sentado sob um tronco oco, completamente encharcado, sem se preocupar em pegar algum resfriado, ou coisa muito pior. Aquilo era uma irresponsabilidade e Sakura, como ninja médica responsável pela equipe viu-se na obrigação de adverti-lo.



- Uchiha Sasuke! — seu tom de voz era muito parecido com o de Tsunade, quando estava nervosa — O que pensa que faz aqui, no meio da chuva? Por que não procurou um abrigo?



Ele permaneceu em silêncio, sem mover músculo algum. Sakura ainda chamou algumas vezes, em vão. Permitiu-se acreditar que o barulho da chuva impedia sua voz de chegar até ele. Cautelosamente, caminhou em direção ao moreno que tanto mexeu com seu coração anteriormente. Ele estava com a cabeça abaixada, as mãos apoiados nos joelhos. E fosse antes, Sakura teria vontade de abraçá-lo e protegê-lo, mesmo que não quisesse. Entretanto, naquele momento ela nada mais era que uma irritante para ele. E foi rejeitada, não conseguia esquecer aquilo. Toda a candura e alento desapareceram de seus olhos, que tornaram-se frios novamente. Não falaria com ele, que ficasse na chuva até o amanhecer e adoecesse... e... morresse também! Não queria mais ter preocupações com uma pessoa que não era digna delas. Virou o corpo rapidamente e percebeu que ele estava lá, de pé, frente ao seu corpo, agora também molhado. Sakura não conseguiu desviar os olhos dele, mas não demonstrou que aquilo estava realmente mexendo com ela. Era como se eles pudessem enxergar sua alma, descobri-la nos mais oculto dos lugares. Ainda assim, não queria se sentir mais forte que ele. E tentava de todo o custo.



- Quatro horas, vinte e sete minutos e alguns segundos... — ele não parava de encará-la, mas sabia que aquilo não a intimidaria.


- Está falando de que?


- O tempo... o tempo que você levou para vir atrás de mim. Está melhorando sua marca, Sakura. Quem sabe um dia eu acredite que você não sente mais nada por mim.



A jovem sentiu uma vontade insana de socá-lo, de feri-lo... queria ser forte o suficiente para ensinar-lhe uma lição, das grandes. Mas contra aqueles olhos... não o sharingan, mas às duas pedras ônix que tomaram conta dos olhos dele... contra elas nada podia fazer, pois eram sua fraqueza, ainda enxergavam-na como uma garotinha. Mimada. Chorona. Apaixonada. Não adiantava debater com ele, o máximo que poderia fazer, era ignorá-lo.


E foi isto que fez, saiu sem dizer palavra alguma. Alguns passos e sentiu a mão dele segurá-la, de maneira quase gentil.



- Por que está fazendo isto comigo?



Sakura sequer dirigiu o olhar para ele, retirou delicadamente a mão do rapaz e continuou seu caminho. Seria suficiente.


Mas ele insistiu, novos passos e seu braço era novamente apertado, desta vez de maneira não tão gentil. A chuva gelada vinha sem dó de encontro à pele dos dois, querendo puni-los por estarem testando os limites um do outro.



- Não faço nada com você, ou para você Sasuke.


- Sakura... eu vi o modo como você trata o Neji.


- E o que isto tem a veer com você?



Ele segurou os dois braços dela agora, puxando-a para perto de si.



- Devo dizer que ele é uma cópia patética minha... não sabia que você se conformava com tão pouco.


- Sasuke... seja menos egocêntrico, o mundo não gira em torno do seu umbigo. Muito menos eu.


- Então você chama aquela cena de mais cedo como?


- Que cena?


- Você e ele... você fingindo que desconhecia uma ridícula manifestação de chakra do tipo água... e também têm andando o tempo todo na Vila juntos... você pensa que não dá para perceber isto?


- Não te devo explicações. Mas Neji e eu estamos trabalhando juntos. E o que ele tem para me ensinar, absorvo com gratidão. O contrário também é válido.



Sasuke viu nos olhos dela que era verdade. Eles entendiam e compreendiam um ao outro, ainda que naquela situação. Largou os braços dela, deixando que fosse.



- Patética.



Foi demais para ela. Antes que ele terminasse de falar, seu rosto tinha sido atingido por um dos famosos socos da kunoichi, mas desta vez carregado com todo o ressentimento que guardava dele até então. Não conseguiu desviar a tempo e sentiu seu corpo ser jogado de encontro a pesadas árvores, perfurando uma, duas, três, até encontrar repouso dolorido na quarta. Certamente tinha fraturado alguma costela e o rosto estava em estado deplorável. Sakura quando acertava com perfeição um daqueles, poderia matar. E foi com esta intenção que o fez, ainda que na última hora tenha retirado quase metade da força original. Ele permaneceu caído, não era o corpo doendo, mas sim o espírito magoado. Porém... quantos insultos ainda escutaria calada? Aquele soco poderia ser muito mais que um castigo. Seria o aviso de que ela já não mais pertencia a ele.


Quando procurou em volta, ela não estava mais lá.

Notas finais
E reviews, será que rolam?