Linhagens e Amizades

19 Capítulo 19 - A Herança que Nunca Pedi (Parte 2)


Notas iniciais
Gente, vou tentar colocar toda a parte 2 de uma vez, mas não sei se vai dar... espero que gostem...

(Essa parte da fic é narrada pelo Hiashi)



O clã seguia calmo. Mas esta calmaria era por im mais temida que os agitos normais, pois é tradicional uma falsa sensação de paz antes de apavorantes acontecimentos.


Não penso que seja algo icomum, na realidade, creio que posso definir com precisão o que acontecerá... e a situação infelizmente leva o nome de minha filha, Hinata.


Por anos tentei prepará-la, mas não existia maneira pronta para fazer com que perdesse a doçura na voz e os olhos cândidos... por que tinha de parecer-se tanto com ela?


Mesmo perdendo a mãe tão jovem, minha filha absorveu praticamente tudo de sua mãe: desde a aparencia até Às atitudes. E nada poderia atormentar-me mais que isto.



* FLASHBACK ON *



Hizashi me fitava curioso. Há dias que tinha notado meu comportamento estranho quando o assunto era minha posse. De princípio tentei passar a impressão a todos de ser apenas nervosismo passageiro, mas com o passar dos dias meu comportamento cada vez mais e mais angustiado tornava-me de certa forma agressivo.



- O que diabos deu em você, Hiashi?


- Me deixe em paz, isto não tem nada a ver com você.



E realmente não tinha. Mas a última coisa que queria era dividir minhas angústias com meu irmão gêmeo.


Há meses que minha carga de missões fora severamente diminuída, por pedido de meu pai, já que minha presença era necessária no clã: estava cada vez mais próximo o dia em que o herdeiro do clã tomaria posse e isto demandava uma intensificação considerável em minha já árdua rotina de estudos e treinos... mais intensificadas que em toda minha vida.


Na verdade nunca me queixei, muito pelo contrário. Tinha um senso de responsabilidade demasiado grande e uma consciência clara no que dizia respeito às obrigações para com o clã.


Mas naquele momento, meus pensamentos quando pairavam sobre esse assunto tornavam-se amargos e quase tortuosos.



- Não quero me meter em sua vida irmão, mas é óbvio que alguma coisa está tirando sua paz de espírito. Creio eu não ser este o momento correto para tratar todos no clã com esta aspereza.



Tive que reconhecer a razão dele. Estava sendo egoista pela primeira vez em minha vida. Mas realmente, não era aquela a minha vida?



- Você está certo... mas são coisas complicadas...


- Se você não quer se abrir comigo, ao menos procure alguém.


- Não é algo que possa ser discutido com alguém do clã — terminei por dizer, taxativo, para que a conversa terminasse.



Não surtiu bem o efeito correto, parece ter atiçado ainda mais a curiosidade dele:



- Tem algo que passa pela sua mente que não pode ser discutido nem comigo? Ora, ora... eu tinha dito aquilo prá você me contar logo de uma vez, mas que surpresa... na verdade você tem segredos pro seu irmão... mas agora vou provar que isso é apenas uma ilusão da sua mente... porque eu sei exatamente o que se passa...



Ele estava novamente blefando. Hizashi sempre me tratava como se fosse mais esperto que eu. Algumas vezes me sentia incomodado com aquilo, afinal, não ficava bem para mim ser visto como fraco, como o enganado. Porém, como aquelas brincadeiras eram apenas inocentes, nunca levei muito à sério. Aquilo acabaria dentro de alguns dias...



- Como assim? Você não tem nem noção do que está falando...


- Como não? Por um acaso, o motivo de seus ruídos incompreensíveis está passando agora mesmo... veja lá e me corrija, se tiver coragem para isto.



Mas não era necessário, porque meu coração pressentia sempre a presença dela. Era como se o ar me faltasse, o tempo parasse e nada mais no mundo importasse. E não eram emoções ruins, muito pelo contrário, ficava esperando todos os dias angustiado por sentir aquelas emoções. Sempre me orgulhei de ser comedido e cauteloso, mas Harin fazia-me perder qualquer controle.


Ela era uma das poucas Hyuuga de minha geração que não foi aproveitada para a academia ninja. Seu Byakugan era muito pouco desenvolvido e seu taijutsu era terrível. Na realidade, era a graciosidade em seus movimentos e sua doçura natural que não deixavam-na progredir. Mas ela foi corajosa ao aceitar suas limitações. Sendo membro da Bouke, Harin sabia de suas obrigações e limitações... e uma delas estava me perturbando dia após dia.


Desde pequenos sentia um forte sentimento de proteção para com ela. No dia em que recebeu o selo da Bouke, eu tinha cerca de sete anos. Gravei aquela imagem dolorosa em minha mente e prometi a mim mesmo não permitir que aquilo ocorresse quando fosse o líder do clã. Os gritos contidos de Harin naquele dia invadiram meus sonhos por noites seguidas, mesmo sendo apenas uma criança, sabia que a dor que foi causada nela perpetuaria por toda sua vida. Ainda não sabia que aquela marca doía muito mais que um mero desconforto físico. Aquela era uma marca de divisão. E proteger Harin passou a ser quase que uma religião. Não permitia que qualquer um a magoasse ou fizesse sofrer, nenhuma piada ou comentário maldoso. Nos tornamos bons amigos... muito próximos até.


Porém quando fiz dezesseis anos, meus pais temeram que nosso relacionamento evoluísse para alguma coisa além. Mas naquela época eu não nutria qualquer sentimento que não fosse o de amizade, proteção. Harin era como um cristal que precisava de toda minha atenção e proteção para que não quebrasse. E quando me proibiram de vê-la, senti um desconforto crescente. Era complicado evitá-la, ignorá-la. Mas eram ordens... e seguir ordens sempre foi o que fiz de melhor. Não começaria a questionar a hierarquia da família naquele momento.


Tudo estaria bem, acho. Mas quando anunciaram minha posse, Harin veio cumprimentar-me, ignorando as ordens de restrição. Abraçou-me efusivamente e naquele contato eu senti quanta falta ela me fazia... o quanto minha vida estava sem cores desde que aqueles perolados únicos não estavam ao meu alcance. Mas ainda assim não conseguia entender o que significava. A única coisa que sabia era que estava atendencioso a contrariar minhas ordens, pela primeira vez.


Passamos a nos ver escondidos, mas apenas para conversar. Certo dia ela quis me mostrar uma dança cerimonial que vinha ensaiando há tempos. Não estava lá muito entusiasmado, gostava mais de conversar com ela... na verdade gostava mais de observá-la enquanto eu falava. Aquela era a única admiração que eu almejava. Ver nos olhos dela um certo tipo de orgulho das minhas pequenas conquistas. Era o suficiente para tornar meu dia perfeito. Mas ela fazia tanto por mim apenas com estas ações... o que seriam alguns minutos?



- Hi-Hi-Hiashi-sama, não faça essa ca-cara... se ... se... se estou atrapalhando... incomo...dando...


Sorri, divertido, era tão bonito vê-la gaguejar daquela maneira! Todas as vezes que estávamos juntos, ouvia-se mais que sussurros vindos dela. E isto era muito mais que qualquer um escutava. Harin era uma moça linda, de longos cabelos lisos que de tão azuis intensificavam aquele rosto singular, de traços finos, pareciam confundir-se com o perolado de seus olhos. Era impressionante como sendo tão bonita fosse tão pouco confiável.



- Deixe disso Harin... e quantas vezes já disse para não me chamar dessa maneira... parece uma velha... esse tipo de tratamento é desnecessário...


- Ma-Mas... os... outros... sempre o tratam...


- Os outros não são você, Harin.



Novamente, sua timidez manifestou-se num rubor intensificado que por vezes eu pensava se ela conseguiria manter os sentidos. Parecia até que eu falava algum absurdo. Mas a verdade é que para mim ela jamais seria como os outros. Harin era... bem, Harin era Harin.



- Vamos lá, quero ver essa dança que você tanto fala, mas sem música... vai ser um pouco cansativo...



Ela deu-me um sorriso tímido, o corado de seu rosto ainda bem intenso.


- Hiashi-sa... Hiashi-kun... o som... ele vem de dentro... vem do coração...



Não entendi o que ela disse, de início. Mas quando foi executando sua sequência de movimentos, tão firmes e distintos, mas que carregavam o toque único dela de delicadeza... pude compreender o que queria dizer... a severidade de alguns movimentos contrastavam com uma sequência singela e leve... era possível acompanhar a batida e a melodia... apenas com os gestos... foi a primeira vez que pude escutar meu coração falando comigo.


Era maravilhoso vê-la dançar... não queria que terminasse, nunca. A sensação era viciante, Harin parecia crescer perante meus olhos... parecia que estava vendo-a pela primeira vez... mas meu curto momento de contemplação foi interrompido pela fúria de meu pai, que havia descoberto nosso esconderijo.



- O que ela faz aqui? É assim que disperdiça seu tempo e nosso futuro, Hiashi?



Não aceitaria ninguém, nem mesmo meu pai, tratar Harin daquela maneira.



- Pai, não há perda qualquer. Creio que ainda escolho como passo meu tempo de folga. Não há qualquer atividade para ser realizada, dentro ou fora do clã.



Minha atitude surpreenderia qualquer um, e observei os olhos espantados de meu pai. Não posso dizer que pude fazer o mesmo com Harin, pois ela estava na mesma posição servil que tomava todas as vezes que aproximava-se de qualquer um: a cabeça baixa e as mãos esticas junto ao corpo, unidas apenas por um leve toque entre os dedos. Meu pai trocava o foco entre ela e eu, repetidas vezes. Decerto foi uma atitude desconcertante, não pude culpá-lo, mas tinha que deixar bem clara minha posição, afinal, não era isto que ele vinha tentando me ensinar nos últimos anos: demonstrar minhas decisões e sustentá-las?


Contudo, podia observar um pouco mais que uma leve confusão. Era como se meu pai quisesse esbofetear-me. E não duvido que o teria feito, mas era um homem que sabia como torturar sem precisar levantar um dedo. Sua voz era sua arma mais poderosa.



- Não tinha o objetivo de repreendê-lo, meu filho... mas sim à essa jovem... afinal, não fica bem para uma moça decente ser encontrada às escondidas com seu futuro cunhado.



Harin levantou a cabeça, num impulso descontrolado, seus olhos confusos fitaram os meus, como se fossem encontrar respostas, mas o que viu foram apenas mais dúvidas. Também não fazia a mínima idéia do que meu pai estava falando, mas tive a indesejável sensação de que aquilo tratava-se de mais que um simples blefe.



- Claro, ainda não foi divulgado, pois acabamos de decidir. Seus pais ficaram satisfeitos em sua união com Hizashi. Providenciaremos para alguns dias antes de sua posse. Harin está entrando numa idade avançada para arrumar um bom casamento fora do clã, e isto seria de muita utilidade... mas como nem ao menos isso foi capaz de fazer, já que nenhum rapaz ou família de interesse ao menos relevante nos procurou, a solução foi fazer a união com seu irmão...



Cada palavra dele atingia a nós como pequenas kunais encravadas dolorosamentes. Sabia que os olhos de Harin estavam pesados e que estava utilizando toda a força frágil que povoava seu corpo para não ceder. Mas por que aquilo me afetava? Parecia como uma traição.



- Por que Hizashi?



Neste momento senti que o momento de triunfo de meu pai estava concluído, pareciam as palavras que ele esperava que eu dissesse. Não podia esperar menos dele, afinal sua melhor característica era prever o que viria, vários movimentos antes.



- Ora, quem mais seria? Você?



Eu? Que idéia mais...


E num momento aquilo não soou tão mal assim. Pareceu até natural ao olhar para Harin e observar o rubor voltando à sua face. E se assim fosse... por que não a mim? Mas ele não me permitiu indagar por muito tempo, precisava exaurir todos os meus devaneios.



- Não haveria outra opção... seu irmão é membro da Bouke... assim como a mocinha aqui... Hizashi é o único rapaz da Bouke que ainda não tem compromisso com nenhuma garota no clã. E as outras moças são bem mais novas que Harin... seriam mais indicadas, mas realmente queremos evitar o constrangimento de permitir que a jovem aqui seja um estorvo a mais para seus pais. Além do mais... o objetivo da Bouke é servir à Souke. Seu irmão precisa ter filhos logo, para que eles sejam os protetores dos seus, quando for a hora certa de você tê-los.



Senti uma fúria crescendo em mim, mas não daria a ele o gosto da vitória, não de todo. Lamentei internamente por ter que fazer Harin sofrer com minhas palavras, mas agora enfrentá-lo era minha prioridade.



- Se assim decidiu, perdoe-nos pelo inconveniente. Não voltará a acontecer. Se me permite pai, vou me retirar.



Fiz uma leve reverência, abandonando Harin sob os olhares gélidos de meu pai e me dirigi o mais rápido que pude até à casa principal. Encontrei Hizashi treinando, como previ. Sua postura calma ao me encontrar não demonstrava que conhecia a situação armada por meu pai. O benefício de se ter um gêmeo é que praticamente pode-se ler a mente do outro. Pedi que conversássemos, da maneira mais formal que pude. Isto fez Hizashi doer-se um pouco, pois naquele momento não me dirigiria a ele como irmão, mas sim como futuro líder do clã. Era uma posição difícil de manter com meu próprio irmão, mas se era necessário, o faria sem pensar duas vezes. Relatei o acontecido e não observei qualquer alteração em sua voz ou atitude.


- E então, o que acha? — Perguntei ao final.


- Se assim foi decidido... você já sabe para quando foi marcada a data? Preciso pedir um afastamento para o Quarto...



Não sei de onde partiu aquela a atitude, mas a razão me fugiu completamente e agredi meu irmão da maneira mais forte que pude. Seus olhos me fitavam, aturdidos por completo. Aacho que nenhum dos dois esperava que a situação fosse ficar daquela maneira.



- Idiota! Vai aceitar assim, sem fazer coisa alguma?



Esperei uma reação, mas por pouco tempo. Hizashi jamais revidou qualquer golpe meu, não aqueles dados com intenção de terminar uma luta. Sua função era ser minha sombra e apoio, custasse o que custasse. Se naquele momento eu precisava esfolar a alma de uma pessoa, a dele seria a perfeita. Aquela posição de subserviência nunca me incomodou tanto como naquele dia.



- E fazer o que? Se o conselho assim decidiu, não há nada que eu possa fazer.


- E vai deixar que governem sua vida como...


- Como você fará quando assumir a liderança do clã? — Interrompeu-me ele. O que ele falava era verdade, não pude negar que todo aquele treinamento era sobre como "coordenar" o clã e as pessoas que a ele pertenciam... especialmente a Bouke. Fazer com que eles soubessem que lugar realmente deveriam ocupar.


- Mas Hizashi... e quanto à Harin... se não faz por você, ao menos faça por ela.


- Você quer dizer, fazer por você, não? Vamos lá Hiashi, pare de rodeios. Diga logo que você a quer, é bem mais justo para conosco.


- E se for este o caso? Você vê algum mal nisso?


- Não, não vejo. Na verdade, era um fato que apenas você não assumia. Ou você acha que nosso pai promoveu essa reunião "conveniente" apenas porque Harin está passando da idade para casar? Vamos... preciso crer que você é mais que isto...



Já sabia daquilo, mas vê-lo falar fazia tudo tão imbecil.



- Como vamos impedir isto?


- Vamos? Vamos quem?


- Ora... você e...


- Me dire desta, irmão. Isto é assunto da Souke.



E aquilo era a maneira dele me aconselhar, mas ao mesmo tempo me castigar. Sem o apoio dele eu estaria... sozinho.



- Acostume-se Hiashi... para ser líder você precisará abrir mão de algumas coisas.



E saiu, deixando-me com meus penhsamentos. Naquele momento amaldiçoei-me por dentro... como poderia ser digno de gerir o clã se não conseguia pensar numa maneira de me impor... de fazer com que todos ouvisse minha voz. Mas... ela valia à pena aquilo tudo?


Que loucura... claro que valia. A simples idéia de vê-la nos braços de Hiashi... me descontrolava. Mas será que ela pensava a mesma coisa? Não podia ficar com aquela dúvida, precisava saber, antes que qualquer coisa acontecesse. Quando a noite caiu pesada e silenciosa sobre os domínios do clã, fui o mais discreto que pude até a casa dela, surpreendentemente ela estava na varanda, contemplando as estrelas, numa atitude tão concentrada, que não notou minha aproximação furtiva. Fechei-lhe os olhos com as mãos, mas não houve espanto. Conhecíamos um ao outro e mesmo com poucos contatos, meu toque não era estranho para ela.



- Hi-Hiashi-sama...


- Não me chame assim, por favor...



Fitei-a, pesaroso. Parece que todas aquelas tardes agradáveis onde nos aproximamos... será que foi tudo ilusão... não tinha coragem de segurar mais aquilo.



- Harin-chan... por favor, me diga que você não concorda com essa bobagem toda...


- Hiashi... Hiashi-kun... não há o que concordar... ou... discordar... eu apenas faço aquilo que me é determinado... já sou tão inútil...



Abracei-a, abruptamente, de maneira sôfrega, mas ainda assim o mais carinhosamente que pude. Com ela ainda em meus braços, saboreei o cheiro de seus cabelos e sua pele penetrarem em mim e me dando a maior sensação de paz que já pude usufruir.



- Harin-chan... não faça isso... não parta meu coração...


- Hi-Hi-Hiashi... k-kun... não quero magoá-lo... não quero.... me perdoe... mas...



Eu sabia. A decisão tinha que ser minha. Não dela.



- Harin-chan... não vou deixar que isto aconteça a você. Que isto aconteça a nós.



E nossos olhares se cruzaram e o brilho que irradiava dela me encheu de forças.



- Harin-chan... você terá de confiar em mim. Peço que você não altere em nada sua rotina e siga como se concordasse com isto. No momento correto, as cosias acontecerão.



Desde este dia que não nos falamos. Apenas aqueles momentos em que contemplava-a passar pela frente da casa principal faziam meu peito apertar de vontade de correr até ela...


Mas aquilo teria fim, naquele dia.


À Noite, quando estava para me retirar até meus aposentos, observei que meu pai ainda trabalhava. Era minha única oportunidade de tê-lo com exclusividade, com alguma guarda baixa, em seu momento mais cansado do dia.



- Pai, posso falar-lhe?



Ele apenas sinalizou que entrasse.



Fechei a porta atrás de mim e permaneci de pé. Fitamo-nos em silêncio por vários momentos.



- Diga logo a que veio.


- Pai, vim comunicar-lhe que estou abrindo mão de meu cargo como líder. Não pretendo assumir o clã no dia de meu aniversário.



Não houve uma alteração, qualquer que fosse. Mas já aguardava por isto.


- E o motivo seria?


- Não preciso dar-lhe qualquer satisfação. Como membro da Souke, minha vida me pertence, não sou obrigado a aguentar os mandos e desmandos que vocês impõem à Bouke. Estou de partida, esta noite.


- Espero que não leve qualquer coisa que pertença ao clã.


- Não pretendo. Estou trazendo comigo apenas o que consegui como pagamento de minhas missões como shinobi. Nada será retirado que não me pertença.



Saí e comecei a arrumar minhas coisas, em completo silêncio. Já terminando, vislumbrei a figura de meu pai à soleira da porta.



- Você já conseguiu provar o que queria, mas saiba que não concordo com a sua maneira de se impor.



Não dei atenção e continuei fazendo mes preparativos. Irritado, caminhou até mim e fez-se notar.



- Não me ignore uma segunda vez Hiashi, muito menos me enfrente. Apenas esta vez, cederei às suas chantagens. Você é um bom filho e será um excelente líder. Mas nem os melhores homens são privados de fraqueza e você resolveu não ser mais forte quue a sua. Mas esteja atento Às minhas palavras, pois essa sua falsa ilusão de felicidade não durará muito. Você aprenderá da maneira mais dura que para ser o guia, deve-se abrir mão de coisas importantes. Vamos realizar a cerimônia na data marcada anteriormente. Acho que devo lhe dar parabéns, mas não me sinto à vontade cumprimentando um fraco. Não me impressionou Hiashi... mas ganhou meu respeito. Apenas não faça isto novamente.



Aquelas palavras soaram derrotitas, e estava tudo correndo conforme planejei. Jamais retroceder... ele caiu perante mim.



Nosso casamento foi tocante e singelo, assim como Harin, que parecia mais feliz que nunca. Tratava-me com uma dedicação ímpar e depois de minha nomeação como líder, a reverência que todos tinham por mim passou para ela... estávamos felizes e me sentia uma pessoa completa.


Quando soube da gravidez dela, foram... como dizer... momentos angustiantes e felizes... quando chegou a hora do bebÊ nascer, o parto foi complicadíssimo e temi pela vida de Harin e da criança... mas depois de uma luta incansável, fui informado de que minha mulher e filha passavam bem. Quando pude vê-las, observei o rosto triste de Harin...



- Algum problema Harin? Está sentindo dor?



Ela não me encarava, parecia desgostosa...



- Hi-Hi-Hi-Hiashi-kun... me perdoe...


- Por que diz isto?


- O bebê... é uma menina...


- Sim... linda e saudável... saiu-se muito bem, estou orgulhoso — Segurei suas mãos o mais ternamente que pude, ela estava cansada e percebi que muito abatida.


- Deveria... deveria ter-lhe dado um menino... como primeiro filho... para assumir seu lugar... para deixá-lo feliz.


- Pare com isto Harin... não poderia estar mais satisfeito. Nossa filha será forte e assumirá o controle da família, quando chegar a hora... e também teremos muito trabalho em manter os rapazes longe dela... já percebeu o quanto se parece com você?



Ela corou, então eu soube que estava tudo bem.



- Da próxima vez... será um menino. Eu prometo.



Não discuti, aquilo não era necessário. Mais tarde, fomos informados pelo médico que Harin estava proibida de engravidar novamente, pois um novo parto seria fatal. Harin nunca aceitou bem a idéia, mas conseguia demovê-la aos poucos. Quando Hinata estava prestes a fazer dois anos, anunciou-me, satisfeita:



- Prometo que desta vez será um menino!



Não fui contra, mas a cada dia sentia a insegurança crescer. Pensava em Hinata, ainda pequena e em como aquilo estava tornando-se uma obsessão para Harin... não perdeu a meiguice ou o zêlo, mas cuidar daquele bebê que crescia dentro dela era uma coisa que não poderia impedir. Com a aproximação do parto, pude perceber, mesmo ela não se queixando, que as dores custavam-lhe muito para serem escondidas. Evitou ao máximo alarmar-me e quando o fez, senti que o momento era crítico. Antes de entrar na área destinada à realização do parto, dirigiu-me um último sorriso:



- Recompensarei você... por causa de Hinata... virá um menino desta vez... tão forte quanto você.


- Preocupe-se em voltar para nós, precisamos de você.



E aquela foi a última vez que a vi com vida.



* FLASHBACK OFF *



Desde então tentei fazer cumprir minha palavra: Hinata seria tão forte quanto necessário... para honrar o sacrifício que sua mãe fez. Mas não deu certo... Hinata era tão... igual... tão preoicupada em doar-se em favor dos outros e esquecer-se de si mesma. Errei ao permitir que minhas emoções me dominassem. O correto na época seria proibir terminantemente Harin de ter filhos... ou talvez nem ao menos ter-me casado com ela... poderia estar feliz e... viva... poderia... Ah, se ao menos nosso primeiro filho tivesse sido um menino... não haveria necessidade de uma nova criança.


Hinata está em meu coração de maneira especial, de verdade ela representa minha maior conquista, a realização de meu maior desejo, mas juntamente com isso, minha maior perda. As palavras de meu pai na noite em que resolvi enfrentá-lo: que um líder às vezes precisa perder, abrir mão daquilo que mais preza. Harin foi o meu sacrifício, minha felicidade foi o sacrifício. Se o foi para mim e o clã sobreviveu. Para Hinata não poderia ser diferente.


Infelizmente.