Linhagens e Amizades
41 Capítulo 40 - Yin
Notas iniciais
Atenção: Conforme prometido e anunciado na semana passada: REVELAÇÕES
Todo o capítulo em Pov´s da Nayuri
- Pare de me olhar assim, está me dando voltas no estômago.
O caminho para a bendita cachoeira parecia mais distante que o suportável para mim. Aqueles olhar de pena que me interrogavam um “Como você agüentou?” já estavam me deixando levemente emotiva para o lado errado.
- Demo obasan...
“Obasan”...
Desde o primeiro momento que olhei para Naruto sabia que a sua aparência era idêntica ao do primo Minato. Por Deus, eles eram tão idênticos que mais parecia que o próprio Minato tinha se preservado dos efeitos do tempo e saído de sua alcova protetora para o mundo a fim de assustar-me usando os fantasmas mais recorrentes de minha mente. Entretanto, foi necessário ouvir apenas a primeira frase dele, para saber que seu coração, seu interior, era idêntico ao dela... Kushina.
Chegamos à tal cachoeira e eu tive a certeza de que aquele moleque nunca tinha visto uma Cachoeira... não como a minha.
Tirei as botas do uniforme e comecei a andar sobre a água, habilidades com chakra eram a primeira coisa que aprendíamos na família, já o fazia sem nem mesmo pensar há anos. Quase na metade do caminho, virei para trás e vi que ele ainda estava à margem:
- Você vem ou não?
Ele estava com aquele sorriso meio idiota da Kushina no rosto. No rosto do Minato.
Quando finalmente chegou onde eu estava, carregava a linda gema de minha irmã em suas mãos. Aquela pedra povoava as minhas lembranças dolorosamente...
“- Sua pedra... Onde está?
- Com meu filho... Ele precisará no dia que for reconstruir nosso país.”
Contudo aquele não era um destino que cabia a ele. Eu sabia disto no momento seguinte ao encontra-lo. O lar dele era Konoha e sempre seria, como o pai dele tinha assegurado. E o amor dele para com aquela gente conseguiu ser maior que o sentimento que deveria nutrir por sua esposa, por minha irmã amada. Ele preferiu selar um monstro no próprio filho, aproveitando-se de uma pré-disposição natural do corpo de um herdeiro da nossa linhagem para ter certeza de que aquelas pessoas não pereceriam.
Tomei a gema de Kushina nas mãos, certa de que era a minha oportunidade de dizer adeus mais uma vez, ainda que a proximidade com aquela parte dela me fizesse mais forte. Aquela despedida seria definitiva, não haveria mais volta para mim. Não conseguiria fitar minha irmã depois de trair seu último pedido.
- Isso que você segura é um condutor. Já sabe que temos duas correntes de chakra, certo? Não vejo necessidade de começar pelo básico. O seu chakra “normal” é do tipo vento, tal qual seu pai. O que você sempre ignorou foi a parte de sua mãe, que é devorada dia após dia por esta coisa que vive em você.
Apontei para o selamento na barriga dele e pude ver o olhar entristecido. Eu o acusava de matar a parte de uma mãe que até pouco tempo atrás desconhecia a existência. Era verdade, Minato encarregou-se de ter Kushina apenas para ele, não dividindo nem ao menos com o próprio filho o que ela ainda poderia lhe oferecer. Sacudi-lhe os ombros, com força para lhe chamar a atenção.
- Escute aqui! Você só não morreu por causa do meu sangue... do sangue de sua mãe. Da herança da nossa família. Eu lhe disse há poucos minutos que você não era digno de ser um Uzumaki e ainda não mudei minha opinião. Não com esta atitude de auto-piedade. Você viu a nossa história e sabe que o orgulho é a nossa força, proteger é o nosso dever, mas acima de tudo somos sobreviventes. E sobreviventes fazem o que é necessário para que sua situação não se altere.
Pela segunda vez eu senti aquele rapaz me abraçar... e na minha mente ele nunca tinha crescido. Sempre seria o “bebê da minha nee-san”, aquele que ela abandonou para me salvar, para cumprir o destino dela.
- Obasan... eu não vou desistir, esse é o meu orgulho! É o meu jeito ninja! Eu prometo que não vou deixar Konoha ser destruída como a sua casa foi!
“Minha casa... o que você sabe da minha verdadeira casa?”
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Flashback ON
- Ah não otousan! Eu quero fazer outra vez!
Meu pai por vezes virava os olhos pensando que eu não via. Mas sempre soube que a minha impaciência por aprender o deixava orgulhoso, mesmo que às vezes ele precisasse recorrer a um estoque de paciência que talvez estivesse reservado para ser usado com seus netos, bisnetos. Porque a cota das filhas, tenho absoluta certeza, era rapidamente consumida por mim.
- Nayuri, deixe de besteiras. Você já acertou E destruiu todos os alvos. Com o que gostaria de treinar depois disso? Acertar o vento?
Sorri com a idéia... mas eu pensava em algo mais prático.
- Yare... da outra vez você me deixou lutar com seus bunshins...
Eu vi meu pai suspirar, profundamente. Antes de me olhar sério.
- Faça você seus próprios bunshins e treine com eles. Vamos, é uma ordem.
Radiante fiz quatro bunshis que ficaram ao meu lado e já estava pronta para ordenar que corressem, quando ele me corrigiu:
- Acho que quatro é um número muito vergonhoso para alguém que está tentando impressionar a si mesma. Se quer um elogio, faça por merecer.
Aquilo era mais que uma esperança vã. Eu clamava por atenção dos meus pais, tentava de toda a maneira fazer com que eles não sentissem tanto a falta que minha irmã fazia. Em tudo, absolutamente tudo, sentia os olhares de comparação. E todos os meus triunfos só tinham sentido quando eu ouvia um “fez melhor que a sua irmã na sua idade”.
Não era inveja, nunca teria um sentimento tão mesquinho por Kushina! Eu amava minha irmã até mesmo mais que meus pais. Ela cuidou de mim desde... sempre. E mesmo quando se foi para viver sua própria vida, não consegui me irritar mais que duas semanas. Entendi que se ela me deixava o legado dela, deveria encarar como o maior dos presentes e a maior das obrigações. Porque tudo que eu via nela era nobre, de valor. Kushina era tudo que eu queria ser, meu maior exemplo. E agora eu tinha a chance verdadeira de ser tudo o que sempre quis. Era por isso que não reclamava da dose triplicada de treinamentos e já tinha adquirido uma resistência muito maior que a de shinobis que treinavam por uma vida inteira.
Afinal eu não era qualquer uma, era uma Uzumaki. O que significava que desde que cheguei a este mundo, estava destina a ver, viver e fazer parte da história de maneira grandiosa. E desde pequena eu tinha noção de que não era apenas uma hime ou uma líder shinobi. Por Kami, eu sentia como se o mundo fosse apenas um espectador, aguardando por mim para começar o espetáculo principal. E era a minha tarefa estar pronta o mais rápido possível.
Com um sorriso maroto, fiz mais de cem bunshins e ordenei que se dispersassem.
Devo confessar que estava exausta já no vigésimo golpe. Cada vez que um bunshin se desintegrava, era como se o dano que eu tinha me forçado tanto para causar tivesse me atingido com o mesmo furor que tinha sido aplicado. E ao chegar no trigésimo, não parecia mais tão fácil acerta-los. As poucas vezes que conseguia olhar para o local onde meu pai estava a expressão era a mesma: impassividade. Duas horas depois eu finalmente tinha dado conta de todos e permanecia estirada no chão com o peito em chamas apenas por respirar. Não havia uma única parte do meu corpo que não doesse monstruosamente e fechei os olhos apertados ao ouvir que meu pai finalmente se deslocava do local onde estava até o que restava de mim.
Quando abri os olhos, me dei conta de que já era noite alta. E quando a imagem da lua foi bloqueada pela do meu pai me olhando sem alterações, sabia que era a hora da lição do dia. Por mais que eu tentasse escapar daquele momento, ele sempre conseguia!
- Então Nayuri... está pronta para dizer onde errou?
Não falaria com ele daquela maneira, não derrotada. Forcei o corpo a responder uma última vez, ficando de pé depois de alguns segundos e fitando meu interlocutor com bravura.
- Mas por que raios toda a vez o senhor me obriga a dizer onde eu errei? Por que não dizer onde acertei, uma única vez?
Ele meneou a cabeça, pesaroso. Droga, era “aquele” olhar. A broca-mor estava vindo...
- Os acertos são óbvios Nayuri. Já os erros, apenas quem tem um espírito fortalecido o suficiente para aceitar a auto-crítica, apenas esses conseguem enxerga-los com a clareza necessária para corrigi-los. Você não lidera um povo, ou uma vila dando parabéns a todos. Mas reconhecendo as fraquezas que não podem deixar o corpo rachar. O mérito só vem depois da guerra filha... e é preciso sobreviver à ela para comemorar.
E por quê tinha que ser sempre tão... profundo? E tão correto, tão... “como você não aprendeu isso antes”?
- Novamente: está pronta para dizer onde errou?
Uma coisa que já tinha aprendido sobre meu pai: não mentir. Jamais. Balancei a cabeça negativamente, mas sem deixar de fita-lo. Minha mãe costumava dizer, nos poucos momentos que estava em casa, que éramos tão parecidos que em determinado dia acabaríamos nos matando por não saber lidar com os próprios defeitos refletidos no outro.
- Iie... não faço a mínima idéia.
Ele pareceu feliz com a resposta e me fez andar até à margem do rio, algo como dez metros. Rasgou um pedaço do próprio quimono e molhou na água gelada do rio, limpando meu rosto daquelas feridas.
- Nayuri, bunshins são uma arma de dois lados: um positivo e um negativo. Da mesma maneira que você aprende com eles, você sofre com eles. Foi como se você tivesse lutado com cem, mas apanhado por duzentos. Quando eles se desintegravam, os golpes eram absorvidos pelo seu próprio organismo. E à medida que te observavam lutar, agiam como você mesma: procuravam maneiras para não se deixarem acertar. Se você tivesse lutado com, digamos... vinte, seu estado seria menos deplorável e você poderia andar. Agora, a necessidade de ser a melhor, te fez gastar uma quantidade grande de chakra e se cansar ainda mais.
Droga... parecia tão óbvio. Eu sabia aquilo, por que não tinha me lembrado? Eu fui a melhor da academia, a mais nova a se graduar como chuunin... e estava com o objetivo de me graduar como jounin em no máximo dois anos. Mas quando meu pai falava, sentia vontade de pegar minhas kunais e voltar para a academia...
- Não vai mais acontecer, otousan.
Ele me entregou o pano, para que eu terminasse de me limpar e levantou:
- Com certeza... porque você vai repetir o treinamento em quinze minutos. E só voltará para casa quando derrotar todos os seus cem bunshins e conseguir caminhar sem parecer uma flagelada.
Meu olhar era incrédulo... aquilo tudo outra vez? Eu ainda sentia a dor todinha, toda ela... mas infelizmente meu pai nunca brincava. Já trilhava o caminho para casa, sabia que eu não o desobedeceria.
- Mais uma coisa. Jantamos em duas horas, se não aparecer, vá direto para sua cama e permaneça lá até o dia raiar.
Flashback OFF
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- Aqui. – Entreguei novamente a pedra de Kushina para Naruto absorta em meus próprio pensamentos – Como eu estava dizendo, isto é um condutor. Precisamente o de sua mãe. Essa pedra é feita do nosso próprio chakra, do nosso chakra principal. E eu não estou me referindo à essa coisinha insignificante do tipo vento que você tem. Mas à nossa verdadeira força, de onde vem o nosso poder.
Ele absorvia cada uma das minhas palavras e sabia que estava atento, mas também tentando captar alguma coisa em mim que não me pertencia, mas à mãe dele. Céus... era necessário apenas ele “ouvir a si mesmo” por alguns minutos.
- Então, o que você precisa saber é que as mulheres do clã tem essa corrente principal tão latente tão poderosa, que não conseguem dar conta delas sozinha. Então essa gema serve de um limitador, ela suga a maior parte do chakra e armazena em si. O tamanho da gema diz quão poderosa é sua detentora. A da nee-san... da sua mãe... é a maior que eu já vi em toda a vida. Meu pai sempre disse que o poder de Kushina era um fardo grande demais para ela mesma. – Apontei então a minha própria que tinha pouco mais da metade do tamanho.
Ele estava ansioso para me interromper com aquela notícia, excitado com a novidade:
- Anou, minha kaaza era tão forte assim? – E então eu pude ver algo que me lembrava a própria admiração que sentia por Kushina – Até mais forte que você, obasan? Da outra vez me pegou desprevenido mas... olha... aquele golpe foi bom... a Kaaza era ainda melhor?
Quase ri daquela pergunta. Era até injusto me comparar à Kushina. Eu tive seis anos de treinamento, enquanto que ela a vida inteira foi uma shinobi treinada nos preceitos de nossa vila... mais importante, nos de nossa família. Entretanto o Naruto não poderia saber. Eu era a história de todos, como disse a ele antes.
- Sua mãe não está viva hoje, apenas porque o corpo estava fraco pelo parto. E pela jornada grande de Konoha até à Cachoeira. Ela venceu sozinha um exército imenso da Névoa. Kiri caiu toda e levou anos para se recuperar.
A menção dele ter culpa no fato da morte da mãe trouxe dor aos olhos dele. Oras... ele nunca conviveu com ela. Não foi ele que a deixou para trás, para se esconder como uma medrosa. Não foi ele que preferiu obedecer a fazer o certo. Ele não tinha o direito de sentir auto-piedade.
- Não comece, ouviu bem? Eu já lhe disse: o orgulho. Você me perguntou se ela era forte, então aqui está minha resposta: Mesmo que você viva duzentos anos, não vai achar Kunoichi mais forte que sua mãe.
Naquele momento eu vi Minato me sorrindo abertamente. E depois indicou que ficaria em silêncio, para que eu continuasse. Estávamos ambos sob a água, com o barulho da minha casa enchendo meus ouvidos.
- E o que você precisa saber é que esta pedra sempre é enterrada com sua dona. No caso de sua mãe, ela fez o que achou que tinha que ser feito e não vem ao caso. O que importa é que isto pode salvar a sua vida. Se para nós, mulheres, isto serve como um limitador, para os homens tem a função contrária.
Naruto coçou a cabeça, sem entender.
- Quer dizer que essa pedrinha aí vai me fazer mais forte? É só usar no pescoço como você? Se for assim, eu tiro o colar da Obaasan e coloco a pedra da kaaza... ou então uso os dois juntos e...
Foi inevitável. Eu vi tantas vezes a menina Haruno destinar um daqueles “cascudos” nele e nunca entendi o motivo. Porém eles sempre pareceram eficazes, porque ou ele se calava, ou tomava alguma ação válida. Então eu o repreendi da maneira que achava necessária. Ele não se assustou e me deu o mesmo sorriso que destinava à Sakura já há alguns anos.
- Era só pedir pra calar a boca... – E me mostrou aquele sorriso novamente. O rosto de Minato e o sorriso de Kushina...
- Sem mais interrupções, ouviu? Escute bem, porque o que eu vou te contar decide se você vive ou morre.
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Flashback ON
Depois de três dias eu não ouvia mais o ruído de pessoas próximas ao esconderijo. Perdemos Mizuki e Mihana, que eram irmãs gêmeas... ficamos apenas Akemi e eu. Akemi provavelmente era a mulher mais idosa do clã sem filhos. Nunca se casara e foi por vontade própria. Todos diziam que ela era a escolha original de meu pai para desposar e que ela o amava muito. Quando meus pais se casaram ela jurou que não seria de mais ninguém, entretanto não se revoltou e permaneceu no clã, servindo ao seu amado como serva de suas filhas. Akemi era, a bem dizer, uma espécie de babá.
- Nayuri-sama... acho que podemos ir, não? Kushina-sama pode estar precisando de nós.
Pobre Akemi... já tinha perdido completamente as esperanças de rever minha irmã. Se ela tivesse sobrevivido, estaria ali conosco, segura. Teria se arrastado com a última de suas forças para nosso abrigo. Mas ela estava certa em uma coisa: era hora de sair e enterrar Mizuki e Mihana dignamente. Céus... eu tinha treze anos... e organizava em minha mente uma estratégia de remoção de corpos e reconstrução de uma vila. Aquilo era minha nova meta, minha nova obsessão.
Saí primeiro e observei a região por algumas horas. Tudo calmo, silencioso. Não parecia que há três dias um confronto sem igual tinha acontecido ali. Eu imaginava, assustada, o imenso poder de minha irmã? Por quilômetros, até onde a vista alcançava, a única coisa que eu via era o solo arenoso, sem nenhuma árvore ou planta. Tudo, completamente, devastado. Eu ainda sentia Kushina ali...
Foi então que eu vi o corpo dela, à beira do penhasco. Não tinha percebido antes, pois já estava coberto de poeira. O vento forte teria feito com que nunca mais a visse, se saísse pela manhã. Minhas lágrimas molharam o rosto de minha irmã, já sem cor, sem vida. Eu chorei, como a menina que ela tinha deixado em casa, cinco anos atrás. Chorei pela primeira e última vez por tudo o que tinha me acontecido. E foram horas de choro e de guarda baixa ali, completamente vulnerável. Peguei o corpo de minha irmã e levei para o esconderijo. Quando entrei foi a vez de Akemi chorar. Ainda mais que eu, Kushina tinha sido criada por ela, praticamente. Nossa mãe vivia tão ocupada e nosso pai estava tão preocupado com nosso treinamento shinobi que as “trivialidades” da vida de duas meninas acabaram por ter abrigo naquele coração bondoso.
Horas se passaram e quando eu vi Akemi colocando o corpo de Kushina junto ao das irmãs mortas, me adiantei:
- Não faça isso, não vou deixa-la junto com elas.
Akemi não me compreendeu, então prossegui:
- Não podemos ficar aqui, Akemi... receio dizer que por muitos anos não poderemos pisar novamente na nossa terra, nossa casa. Mas Kushina-sama era nossa líder e merece ser sepultada conforme as tradições do clã.
Ela assentiu, com força. E juntas cuidamos do corpo dela, vestindo o mais belo traje que encontramos nos guardados do esconderijo. Um tecido tão puro e tão branco que a deixava com a aparência de um anjo. Lembrei que meu pai disse uma vez que existiam propriedades de conservação únicas ali, para manter os alimentos apropriados para consumo durante um refúgio longo. Escolhi o melhor lugar, o mais arejado e mais próximo dos minerais daquela gruta enterrada. Akemi e eu fizemos uma prece silenciosa e então eu depositei o hitaiate dela entre suas mãos, numa última homenagem.
- Akemi, vamos. É bom nos deslocarmos à noite.
Peguei suprimentos necessários para alguns dias de viagem e alguns tesouros e dinheiro. Não sabia para onde iríamos, mas onde quer que fosse, precisaria me ocupar em deixar Akemi bem. Ainda carregamos os corpos das irmãs até a beira do precipício e ali enterramos. Juntas, unidas.
Dois dias e meio de viagem e chegamos num vilarejo que eu me lembrava ter visto uma vez com minha mãe. Era um local pobre, mas bastante acolhedor. Tão acolhedor que nos deixaram ficar ali sem nada cobrar. Comemos e bebemos. Eu tive meu primeiro banho em dias e uma cama decente para dormir. Como eu não queria dormir, nem me permitiria, deixei uma carta para Akemi, deixando com ela a maior parte dos tesouros, tendo o suficiente para necessidades imediatas e reuni algumas coisas para agüentar uma viagem que eu não poderia deixar de fazer.
Depois que enterrei Kushina, percebi que era minha obrigação fazer o mesmo com meus pais. Prestar respeito aos que vieram antes de você é uma das regras para ser um bom líder. E embora eu estivesse deixando Akemi, ainda havia uma terra, um futuro para nós. Eu me encarregaria disso.
Quando me aproximei da Cachoeira, já estava horrorizada com tudo que vi enquanto cruzava o País do Redemoinho. O cheiro daquele sangue não sumiria das minhas narinas jamais. Eu não teria tempo para enterrar todos... então fiz o que precisava ser feito: juntava uma quantidade de corpos e os incinerava, até que nada sobrasse... e oferecia uma prece para suas almas e pedia perdão por nossas falhas. Fiz isso por incontáveis vezes... até chegar em minha vila. E aqueles rostos conhecidos em decomposição, mostrando o horror de uma guerra sem precedentes foi demais para mim. Eu não podia simplesmente queima-los, ou joga-los numa cova comunitária. Por Kami, cada um deles me viu num momento de minha vida, alguns eram recorrentes no dia-a-dia.
Demorei um dia inteiro apenas cavando as sepulturas... outro dia removendo todos os corpos de maneira digna... e outro para cobrir os túmulos e de alguma maneira nomeá-los para que quer que passasse por ali soubesse que eram pessoas dignas que ali descansavam.
O meu inconsciente me dizia que isso era uma maneira de poder entrar nos domínios do clã já preparada para o que veria. Quando eu fui levada dali, a última imagem que tive foi de meu pai com a espada nas mãos gritando por minha mãe. Ao cruzar os portões eu fechei os olhos e desejei do fundo do coração que aquilo tudo tivesse sido uma imensa mentira e que ao abri-los novamente tudo seria como antes. Até ensaiei um sorriso, que desapareceu imediatamente ao ver toda aquela cena de horror.
Eu encontrei meu pai e minha mãe juntos. Ou o que sobrara deles, depois de tantos dias ao relento. Procurei a sombra do único carvalho que permanecera intacto e ali cavei com minhas próprias mãos o local de descanso eterno de meus pais. Uma a uma, cada leva de terra levava consigo uma promessa de reconstrução e de vingança. Eu repetia mentalmente os nomes daqueles que recordava como o mantra de minha nova vida. Ao depositar os corpos dos dois ali eu vacilei, precisava levar comigo algo que me lembrasse minha casa, que me lembrasse meu lar. Meu pai estava atrelado à espada como sempre e eu vi que aquela era a imagem de força dele que eu levaria comigo. Respeitosamente tomei a espada para mim. De minha mãe eu temi levar algo: não havia nada que me identificasse com aquela mulher de cabelos loiros. Os cabelos... tão sedosos e macios... sempre tão bem cuidados... e sempre presos por aqueles adornos caros e elegantes. Embora não me fossem úteis, seria uma parte dela que levaria comigo, algo que me lembrasse como reconstruí aquele local com a beleza que tinha.
Deixei o Redemoinho sem olhar para trás. Até porque, quando eu estava de partida senti a aproximação de um sem-número de pessoas... provavelmente a Névoa que vinha ocupar seu território. Angariei pouca coisa para minha viagem e desapareci dali, deixando a promessa para meus antepassados de que retornaria e honraria seus nomes, suas vidas e suas mortes.
Por anos eu vivi de povoado em povoado, comendo quando tinha comida, dormindo quando tinha algum nível de proteção. Por usar um severo uniforme shinobi, as pessoas me confundiam com um homem por muitas vezes, o que me foi proveitoso. Apenas assim não precisei matar mais que os necessários quando descobriam que eu era “apenas uma garotinha” e tentavam conseguir algo que não lhes pertencia.
Durante esse tempo eu descobri o que tinha acontecido com Konoha.... com o Hokage... mas nenhuma notícia do menino. Será que ele tinha morrido e Kushina não sabia? Não... ao menos o menino teria sobrevivido, para que eu pudesse cumprir minha promessa.
Nunca me distanciei de Konoha, sempre pelos arredores. Um dia, aproximadamente oito anos depois da tragédia na Cachoeira, um homem que recorrentemente deixava a vila num uniforme ANBU deixava o local sozinho. E pela primeira vez observei-lhe o semblante alterado, transtornado. Eu conhecia aquela face: era a expressão de alguém que tinha vivido o horror do sangue tal qual eu tinha.
Resolvi segui-lo para ver até onde ele iria. Às margens de um rio escondido dentro da floresta, o homem sentou e... chorou. E então eu pude ver que não era ainda um homem feito... deveria ter a mesma idade que eu tinha quando minha vida mudou. Destino ultrajante, com certeza.
Não me aproximaria. Assim como eu, ele sobreviveria. Já estava para me afastar, quando me alertei sobre uma nova presença. Um homem, agora sim, mais velho que eu com uma máscara escondendo a metade direita do rosto aproximou-se do jovem, que só então se deu conta da companhia. Fiquei por perto, talvez ele precisasse de ajuda.
- Ora, ora, ora... se não é o prodígio dos Uchiha.
Uchiha? Aquele nome não me era estranho... claro! A força policial de Konoha...
O rapaz estava com o olhar vidrado naquela figura... embora metade de seu corpo estivesse coberta, a outra metade em muito se assemelhava com ele próprio.
- Quem é você? – Estava com a espada pronta e ao aproximar-me melhor, observei que os olhos dele tinham um vermelho estranho...
O homem misterioso ergueu as mãos, mostrando que não estava desafiando-o para um combate.
- Acalme-se rapaz. Já não tem muito sangue de sua família nas mãos por uma noite? Pretende matar mais um parente?
Ele e eu ficamos incrédulos. Eu com toda a narrativa e o rapaz por não acreditar na afirmação de que o desconhecido fosse mais que isso.
- Quem é você? Vou perguntar pela última vez. Se sabe o que eu fiz, sabe também que não me importo em terminar.
O mascarado soltou uma risada que me gelou os ossos... e então o rapaz a frente dele baixou a guarda, fosse por cansaço ou por entrega. E quando eu percebi, tive que pegar uma kunai apressadamente e cravar na perna para não me prender naquele genjutsu.
- Meu nome? Você me conhece melhor que pensa... eu sou Uchiha Madara... só que este corpo patético não é meu. Pertenceu a um outro Uchiha que todos julgavam morto: Obito. Só que essa carcaça está inútil e eu preciso de um novo corpo... um corpo poderoso o suficiente para me permitir completar o destino que escolhi para mim. E você, Uchiha Itachi, acabou de se tornar a escolha perfeita. Vamos, não resista... é uma luta perdida.
Essas palavras foram ditas enquanto eu percebia uma luta entre aqueles dois que nada tinha a ver com armas ou golpes. Era apenas no olhar... naquele olhar amedrontador... de ambos.
Alguns incontáveis segundos depois e o homem mais velho caiu, derrotado. O rapaz ainda estava com os olhos vermelhos, que agora sangravam. Eu estava pronta para sumir dali, quando fui abordada por aquele rapazote, que para minha surpresa não estava mais com a mesma aparência. Estava mais alto que eu, mais sério ainda e nenhum pouco transtornado.
- Não é bonito espiar conversa alheia... Nayuri-chan.
Com a espada de meu pai nas mãos, avancei sem pensar duas vezes, mas foi um combate perdido. Não acreditava que um pivete daquele pudesse ser melhor que eu! Eu já sangrava em várias partes do corpo e pensava seriamente que não teria tempo de cumprir minhas promessas e apenas por isso eu não sucumbia de uma vez. Por fim, quando eu já precisava da ajuda da espada para me manter de pé ele pareceu “conformado”.
- Já é mais que suficiente. Você ainda tem muito que melhorar menina, mas ainda assim servirá.
Ele se aproximou de mim calmamente, como se eu não fosse sua inimiga e eu me senti incapacitada... Kami, eu estava num genjutsu... aqueles olhos malditos giravam loucamente. O rapaz que fora chamado de Itachi ergueu meu rosto com os dedos, obrigando-me a fitá-lo. Eu não tremia como imaginava estar tremendo:
- Por anos você procurou pelo responsável ao ataque da sua Vila... sem sucesso. Nenhuma informação, nenhuma pista que lhe desse a certeza de \"quem\" orquestrara tudo. Pois bem... você está frente a frente com ele. E então, o que vai fazer?
Eu me odiei por estar usando a maldita pedra que me impedia de invocar meu segundo chakra com a força que eu precisaria para me libertar daquele genjutsu. Eu só queria estar livre para destruir aquele maldito... como ele se atrevia a me confrontar daquela maneira? Até dois minutos atrás ele era um moleque chorando... um moleque que, segundo o outro homem tinha matado a própria família.
Um montro... tal qual o que me levou toda a vida.
- Eu vou matar você... é uma promessa. — Embora fossem apenas palavras, eu tencionava torná-las verdadeiras, não sabia como, mas o faria.
Ele sorria, como um demônio satisfeito com o ódio que vinha de mim.
- Isso pequena... liberte toda a sua raiva, porque você jamais vai fazer o que está dizendo. A partir de agora você me pertence.
Eu nada vi depois... eu tive uma a uma todas as minhas lembranças bloqueadas e jogadas num lugar inacessível para mim. Minha mente estava sendo reprogramada por aquele monstro... para que a partir daquele momento eu o servisse... exatamente como ele queria. A ele, somente a ele.
Uchiha Madara.
Flashback OFF
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Aquelas frases de impacto já não faziam mais sentido algum, era hora de demonstração, estávamos com pouco tempo.
- Escute aqui, eu vou fazer o inverso do processo de criação desta gema. Ela é gerada com o próprio chakra da recém nascida, sai de dentro de nós quando somos pequenas. Eu vou dar a você o poder da sua mãe. Todo ele, incondicional. Mas caberá a você segurar a Kyuubi.
Ele então se deu conta da importância da situação.
- Obasan! Você vai desfazer o selamento?
- Não Naruto... eu vou sobrecarregar você com chakra e poder. Se você perder a consciênia, a Kyuubi vai achar uma brecha para escapar. E você sabe que nem eu, nem ninguém pode segurá-la. Então eu te trouxe até aqui para que no ambiente do elemento da sua mãe as coisas ficassem mais fáceis. Kushina era do elemento água, assim como eu. Você vai ficar dentro de uma olha semelhante à do nosso último encontro e eu vou estar lá com você. Se for preciso eu te soco até você acordar, ouviu?
Novamente um sorriso confiante, ele não fazia idéia do que eu faria com ele.
- Certo! Vamos lá então!!
Invoquei o caixão d\'agua e peguei a pedra de Kushina, abri a jaqueta dele, rasguei-lhe a blusa e comecei a empurrar a pedra contra a marca do selamento. Droga, tinha que ser justo no mesmo lugar? Eu sentia a força dela ali, tão violenta e furiosa, anseando por libertação e eu pequena para conter aquilo tudo, soltei o corpo dele, obrigando-me mais uma vez a não pensar na dor que ele sentiria. E então eu comecei a sentir aquele vermelho dissolver e ser absorvido pelo corpo dele. à essa altura ele já estava com os olhos da Kyuubi e arqueava o corpo fortemente de dor. Eu não podia falar, não podia sequer abrir a boca. E pedi que Kushina o protegesse, porque eu não poderia naquele momento.
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Flashback ON
Dois anos se passaram e essas eram as únicas lembranças que eu tinha de minha vida. o resto era tudo um apagão, ou melhor: a memória de que todos os meus foram mortos por Konoha era o que me mantinha furiosa o suficiente para não me frustrar pela falta de lembranças . Madara-sama me abrigou como aprendiz e passávamos dos treinos aos deslocamenos constantes num piscar de olhos. Eu passei a admirar aquele homem que tanto demonstrava força... e que ainda assim se via obrigado a escnder-se no corpo de outro. Fosse quem fosse, era um sacrifício válido. A grandeza do ideal dele era muita para ser bloqueada por limitações de um corpo qualquer.
Certo dia Madara-sama me ordenou que fosse até o povoado próximo para conseguir suprimentos e também para receber informações sobre um tal Orochimaru de Konoha. Depois de saber do informante que o shinobi em questão estava em paradeiro desconhecido, praguejei, pois Madara-sama não ficaria satisfeito com aquilo. Coloquei novamente o capuz, ficava praticamente irreconhecível, exceto pelo hitaiate de minha vila, que ostentava com orgulho. Ouvi então uma voz energética me chamar, convincentemente.
- Nayuri-sama! Nayuri-sama!
Voltei-me para a voz, ninguém além de Madara-sama conhecia meu nome... já estava com uma kunai pronta para degolá-la em segundos. Mas aquele olhar tolo e gentil me fez crer que, quem quer que fosse, não era uma ameaça. ela se aproximou de mim exultante, com um... abraço...
Tudo que eu não tinha como máquina, como ferramenta. Aquela mulher nada me dizia, assim eu queria acreditar... mas quando eu vi que, além de ter os cabelos como os meus, ela carregava uma pedra, tal qual a minha, ainda que bem menor, me senti curiosa.
- Já nos vimos antes?
E pelas próximas três horas eu fiquei ali ouvindo aquela mulher falar de uma vida que não era a minha, de um sofrimento que não era meu. Aquilo tudo não poderia ser verdade. Eu senti vontade de matá-la por me dizer aquilo, por querer que eu compartilhasse de um sofrimento que não me atingia e por inventar coisas sobre mim. Por muito menos já tinha matado vários, apenas por não gostar de um certo olhar para mim. Mas à ela eu não consegui atingir... e uma imagem veio à minha mente: uma mulher tal qual eu era... tão parecida... mas ela sorria, como eu não me lembrava de ter feito. E algo em mim explodiu, corroendo toda aquela barreira que agora eu sentia que me escondia meus próprios segredos tão bem que não eram alcançáveis nem naquele momento. Mas agora eu era tomada pela minha própria necessidade de saber quem ela era, a razão do seu sorriso, mesmo com o olhar triste... eu sabia que ela estava morta, não sabia como! Forcei os olhos, segurando fortemente a cabeça, me obrigando a lembrar, a entender, a juntar os pedaços. por fim eu quase caí sobre meu próprio corpo. E dali não levantei por escolha... por vergonha.
A mulher me sorria nas lembranças e eu conseguia repetir o que ela me dizia
- Proteja o meu filho... proteja o Naruto.
Flashback OFF
Notas finais
A história da Nayuri NÃO termina aqui... mas convenhamos... eu não aguentava mais escrever por hoje... o caps ficou IMENSO. Espero suas opiniões no review. É muito bom ter todos por aqui!
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