Linha tênue
4 Capítulo IV
Notas iniciais
Duas semanas depois.
– Bom dia, queridos alunos. – Disse o professor de Literatura ao entrar na sala. – Começaremos um assunto muito, muito importante.
Elizabeth não deixou de dar uma risadinha e cochichar.
– Todos os assuntos para ele são importantes... – Charlotte riu junto com a amiga.
Um longo “psiu” veio do fundo da sala. Ao se virar para identificar a fonte, os olhos de Lizzie cravaram-se nos de Darcy, que a miravam com desdém e antipatia. A menina tornou a virar para frente e deu de ombros.
– Ele realmente acha que é o tal, não é?
Charlotte a olhou com curiosidade.
– De quem você está falando, Lizzie? – Cochichou.
– Do Darcy, é claro. De quem mais?
A amiga revirou os olhos.
– Quantos anos vocês têm? Cinco? Esta rivalidade se estende por mais de duas semanas, Lizzie. Os outros alunos já estão comentando... – Aproximou-se mais da amiga e abaixou o tom. – Que há alguma coisa entre vocês.
– É lógico que há algo entre nós, Charlotte. Uma aposta! E uma raiva tão forte que... – Observou o cenho franzido da amiga. – Oh! Eles acham que está... rolando algo entre a gente, é isso?
Charlotte assentiu.
– Mas isso é loucura! Eu não o suporto e, creia-me, o sentimento é recíproco. Que rapaz em sã consciência diria algo tão rude de alguém? E pior: pelas costas! – Sem conseguir se controlar, ela tornou a se virar para trás e o fuzilou com os olhos.
– Srta. Elizabeth, há algo no fundo da sala que queira compartilhar com os outros alunos?
A menina gelou ao ouvir a voz do professor.
– Hã... Eu só estava pensando se...
– Ela tentava me lembrar, professor, de uma conversa que tivemos outro dia acerca de Shakespeare. Seriam apenas boatos ou o Bardo era realmente um alter-ego de Francis Bacon? – Interveio Darcy. Alguns alunos apenas os olharam com confusão, outros começaram a cochichar. Elizabeth não se atreveu a olhar para trás novamente.
– Que discussão inteligente! – Respondeu o docente, aceitando a mentira com alegria. – Não é em vão que os dois são os melhores alunos da turma. Continuem com estas discussões saudáveis, estou animadíssimo para ouvir outras de suas teorias.
Após este momento, o professor tornou a ministrar sua aula como se nada tivesse acontecido.
– Hei! Por que você está vermelha? – Perguntou Charlotte com um sorriso peralta.
– Nem. Pense. Nisso. – Respondeu Elizabeth entredentes, corada de raiva e de vergonha. Qual era a de Darcy, afinal? Medindo forças com ela a todo momento e, de repente, sem nenhum motivo aparente, tomando-lhe as dores?
Ele era muito, muito confuso. E frustrante! Era impossível entender-lhe o caráter.
Assim que a aula acabou, Elizabeth esperou que todos saíssem.
– Pode ir na frente, Char. Logo te alcanço.
A amiga deu-lhe uma piscadela, mas Elizabeth revirou os olhos e esperou. Quando Fitzwilliam e Caroline eram os últimos, aproximou-se.
– Só gostaria de lhe agradecer. – Disse ela, estendendo uma das mãos em sinal de trégua.
– Caroline, poderia esperar lá fora um instante? – Os olhos dele estavam estranhamente sérios.
A menina tentou argumentar, mas Fitzwilliam estava irredutível. Fuzilando Elizabeth com o olhar, Caroline finalmente deixou a sala.
– O que quer falar comigo que ela não pode ouvir?
Ele somente suspirou.
– Ouça, esta rixa entre nós é muito, muito infantil. Ninguém está tirando proveito da situação e as pessoas já começaram a falar...
Elizabeth deu um sorriso cínico.
– Oh, entendo. Eu deveria ter imaginado! Bom, agradeço-lhe novamente a ajuda, mas não se atreva a repetir o gesto. Não o perdoarei.
Com o olhar penetrante, Lizzie recolheu suas coisas e saiu da sala pisando duro.
Charlotte sorriu novamente quando a menina a alcançou, mas mudou de ideia ao ver o humor da amiga.
– Boas novas? – Arriscou.
– Aquele cara é o maior babaca da face da Terra! Sério, Char, o que há de errado com ele? – Elizabeth ainda pisava duro. – Não sei o que quer, mas não vai conseguir nada sendo tão... tão... idiota!
A amiga passou-lhe um braço nos ombros.
– Calma, Lizzie. Pra que tanta raiva? Se ele não merece...
Elizabeth estava prestes a retrucar, mas uma mão em seu outro braço a impediu. Era Caroline.
– O que você quer? – Disse Lizzie, tentando ao máximo não ser muito rude. A outra apenas sorriu amarelo.
– Preciso da sua ajuda.
As duas entreolharam-se, surpresas.
– Minha ajuda? Para quê?
– Fitzwilliam está quase apaixonado, posso garantir-lhe. Creia-me, sei os sinais. – A moça levantou uma das mangas da camisa, onde uma fina linha vermelha pulsava. – Só precisamos fazê-lo reconhecer.
– É mesmo? E por quem?
O sorriso de triunfo de Caroline era quase insuportável de se ver.
– Por mim, é claro. Somos amigos há muitos e muitos anos e estamos neste processo há algum tempo, mas a aposta está tornando as coisas um pouco mais complicadas.
Charlotte levantou uma sobrancelha.
– A ideia da aposta foi sua, Caroline.
A outra fez um biquinho.
– Eu sei, eu sei, mas foi algo que sugeri sem pensar, sabe? Queria apenas um pouco de diversão. Agora que isto está realmente me atrapalhando, precisamos fazer algo a respeito.
Elizabeth a olhou longamente antes de perguntar.
– E o que espera que eu faça?
– Perca a aposta.
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Fitzwilliam chegou em casa completamente esgotado, sentindo uma frustração crescente dentro de si.
Elizabeth Bennet era a pessoa mais teimosa de todo o universo! Por que ela teimava em distorcer todas as palavras dele? Caroline tampouco ajudava, agarrando-se a Darcy em qualquer oportunidade que aparecesse. Ah, se ela não fosse irmã de Charles, Fitzwilliam a colocaria em seu devido lugar!
Ouviu risos na cozinha e decidiu verificar: ali estavam Jane e Charles, ambos contemplando um livro da universidade e fazendo piadas sobre as matérias. Quando finalmente notaram a presença dele, as reações de ambos contaram-lhe tudo que Fitzwilliam precisava saber: Charles desenrolou as mangas da camisa, escondendo os pulsos tão logo possível; Jane, entretanto, mostrou-se completamente passiva à inspeção dele.
É claro que deveria pesquisar um pouco mais, porém sua intuição dizia-lhe que seu amigo estava se afundando rapidamente em areia movediça.
Despediu-se de ambos e foi para seu quarto pensar. Apesar do quanto a detestava, Darcy precisaria consultar a opinião de Caroline.
Argh! Que dia terrível!
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