Linha tênue (ShinoKiba)
2 Capítulo 2
Notas iniciais
De todas as armas do mundo, agora sei que o amor é a mais perigosa, pois eu fui mortalmente ferido.
(Orgulho e Preconceito)
– Você demorou – Shino disse, logo que sentiu a inconfundível presença. Não havia cobrança em sua voz, só saudades. Como Senju Tsunade previu ao iniciar seu tratamento, que combinava medicamentos e terapia, o tempo sozinho ajudou, e muito, no processo de catarse pelo qual passou.
— Desculpa – Kiba acomodou-se ao seu lado, a cabeça pousada em seu ombro. – Foi duro, mas entendi que você necessitava desse tempo.
Sempre admirou aquilo no companheiro. Kiba sempre foi expansivo, o total oposto dele, quase sempre agia por impulso, entretanto jamais invadiu seu espaço pessoal sem que tivesse um bom motivo para fazê-lo. Como acontecia agora.
— Obrigado por entender. Por não desistir de mim, da gen...
— Oe, pode parar, maldito! E não me agradeça – empurrou-o de leve, quebrando o mal-estar que os rondava nos últimos nove meses – Esqueceu que sempre fomos um time?
— Desculpa. – Shino pediu, depois levou a mão alheia até os lábios e deixou nela um beijo casto.
Estava feliz por Kiba insistir (de novo) em invadir seu "retiro", aquela era a segunda vez, após os nove meses da separação de seus corpos, embora não de suas almas. Foi o maior tempo que passaram longe um do outro desde que se conheceram, há quinze anos.
– Além do mais, sou foda ‘pra caralho, sua vida seria muito sem graça se eu não tivesse entrado nela.
E lá estava ela. A autoestima que se destacava na personalidade dele e que Shino tanto amava.
— Eu sei. – Shino fechou os olhos.
De fato sabia.
Ainda era capaz de ouvir os sons das gargalhadas, do agora esposo, ecoando pelo ginásio onde o viu pela primeira vez. Foi amor à primeira vista, o Aburame era um ano mais velho, estava entregando um atestado médico ao professor de educação física, pois não participaria das suas aulas devido um problema de saúde. Kiba havia acabado de cair com bunda no chão, Ele e Naruto, realizavam um exercício em dupla e pareciam ser muito íntimos. Shino ficou hipnotizado pelo jeito espirituoso do garoto, enquanto o sensei chamava a atenção dos dois por atrapalharem sua aula. Daquele dia em diante nunca mais deixou de observá-lo.
E de sentir ciúmes também.
No início do namoro era um sentimento sutil, até bonito. Kiba gostava. O que o incentivava a continuar. Um olhar enviesado para um, uma ameaça velada para outro, sua aparência sombria ajudando a afugentar os que eram seduzidos pelo jeito folgaz do seu namorado. Quando Kiba entrou na universidade foi mais complicado manter-se à espreita. Cidades diferentes, faculdades diferentes, amigos diferentes, ameaças diferentes... mas nada que alguns encontros ao acaso (geralmente em vielas estreitas) com rapazes aleatórios, que ousaram aproximar-se dele, não resolvessem. Há cinco anos, quando se casaram, demarcou seu território. Foram os anos mais incríveis do relacionamento, Todavia também foi onde o sentimento sutil e até bonito, revelou-se não tão sutil, nem tão bonito assim.
No entanto, Kiba continuava gostando, e Kiba era só o que importava…
— Lembra quando me trouxe aqui pela primeira vez? – Seu esposo interceptou seus pensamentos, trazendo-o de volta. Estava entrando numa zona perigosa. A psicóloga já havia dito que vez ou outra poderia acontecer. — Foi bem difícil de convencer a mamãe, né? Se não fosse pelo seu pai.
Shino olhou para a imensidão do mar a frente, estavam sentados na mureta da varanda, como costumavam fazer antes de tudo mudar:
— Como poderia esquecer?
A casa de veraneio de sua família era o santuário do casal. Nela viveram momentos inesquecíveis, em especial a primeira vez deles e a lua de mel. Contudo, também foi naquele santuário que ambos compreenderam que havia algo errado consigo, quando ele, ao direcionar seu ciúme para Naruto, machucou Kiba sem querer, ao que, o Inuzuka entrou na frente do melhor amigo para defendê-lo de seu ataque de fúria. O primeiro que saiu do seu controle, o primeiro a ter plateia, o primeiro que deixou rastro, o primeiro que atingiu diretamente quem mais amava.
A linha tênue entre o saudável e o patológico ficava visível.
Kiba parou de gostar, e Shino entendeu que precisava parar.
Minutos se passaram sem que palavras precisassem ser ditas, já tinham dito todas possíveis. Kiba já cochilava quando Shino o abraçou mais forte, nada possessivo, somente para se certificar que ele estava ali, que não se tratava de um delírio ou uma aparição. Jamais o machucaria por vontade. No dia em que o viu sendo amparado por Naruto, percebeu que seu TOC tinha alcançado níveis desconhecidos até para si. Foi a partir daquele evento que tomou a decisão mais difícil e acertada de sua vida. Partiu dele a decisão de separação. Com a ajuda do pai procurou tratamento, descobriu que alguns estudos relacionam o amor patológico a padrões do seu transtorno obsessivo compulsivo, o qual já havia sido diagnosticado na sua infância e já fazia tratamento antes. Decidiu que amar de maneira saudável era a única opção para ele, para os dois, para todos ao seu redor. No começo teve inúmeras crises de ansiedade, pareciam de abstinência, por diversas vezes desejou largar tudo e retornar ao aconchego do lar, mas Kiba não merecia um amor doente. Entender que amar não é ser dono era uma lição desagradável, mesmo para ele sendo professor. Era como nascer de novo, e ele queria renascer.
— Kiba...
— O que foi?
A voz do esposo era temerosa, foram meses tentando aquela aproximação e esperando aquela resposta, que só agora Shino sentia-se capaz de lhe dar. Ainda tinham tantos sonhos e planos juntos, todos estavam somente os aguardando para se tornarem reais.
"Não há nada o que temer". Seu pai lhe dissera mais cedo, ao lhe dizer que Kiba viria.
Kiba tinha razão, e vê-lo feliz era o que mais importava…
Shino respirou fundo, agora estava na hora de caminharem juntos novamente.
— Estou preparado para voltar para nossa casa.
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