Linha tênue
1 Aquilo não significava nada para eles.
Notas iniciais
Kagura sequer suportava ouvir o nome daquele sadista, e ao escutar de Gintoki que o vice-comandante e o capitão da primeira divisão da Shinsengumi estariam vindo ao Yorozuya para jantar; ela quis simplesmente fugir. Correr para qualquer lado de Kabukichou seria uma ótima ideia, afinal, até passar fome parecia melhor do que jantar com aqueles dois.
Shinpachi explicou algo sobre ser o pagamento de uma aposta, eles trariam comida e bebidas. A menina jurou com todas suas forças que não encostaria sequer um pedaço do que trariam em sua boca, poderia estar envenenado ou pior, recheado de maionese, aqueles dois tinham sérios problemas.
— Mas Gin-chan, você não gosta deles! — revirava-se no sofá, dramatizando. — Não faz sentido deixar que logo aqueles dois venham aqui!
— É, eu realmente não gosto deles. — cutucava o nariz. — Mas foi uma aposta, eles perderam, e tem saquê envolvido nisso. Não podemos desperdiçar! — acariciou a cabeça da ruiva com a mesma mão usou para limpar o nariz. — Agora vá tomar um banho Kagura-chan, você tá fedendo.
Kagura enrolou durante o banho, demorou muito mais do que deveria e tudo para não ter que receber a adorável visita que estava para chegar. Saiu do banheiro entre o vapor da água quente, escutando Gintoki discutir com Hijikata sobre a nojeira que fazia com a maionese que trouxera, teve certeza então que a visita não era uma pegadinha. Ela decidiu se trocar no quarto do samurai com quem dividia a casa, era o mais próximo e não teria que passar pela sala vestida apenas com a toalha, havia levado suas roupas, escolhendo a típica qipao vermelha com fendas entre as pernas.
Terminava de abotoar a gola quando ouviu aquela voz tão irritante e conhecida.
— Oi danna, é aqui o banheiro? — perguntou abrindo a porta.
Sougo pode ver Kagura terminando de se trocar, ela pareceu não se importar com a presença dele. O sadista sorriu torto, podia jurar que ela estaria em outro lugar aquela noite, pelo menos agora teria alguém com quem se divertir.
— Boa noite.
— Aqui não é o banheiro seu idiota, tente a porta da esquerda. E seja lá o que for fazer, não entupa nossa privada, sim? — passou pelo rapaz esbarrando os ombros.
— Sou sua visita hoje China, me trate dignamente. — fingiu ofender-se.
— Oh, claro, como quiser! — segurou-o pelo cabelo direcionando até o banheiro, sua intenção era enfiar sua cara na privada e dar descarga, mas Gintoki e Shinpachi apareceram para separá-los.
— Não foi uma boa ideia juntar a Kagura-chan e o Okita-san aqui no Yorozuya! — o quatro-olhos gritou afobado segurando o policial mais novo.
— Patsuan, apenas mantenha-os afastados! — Gintoki disse entre os chutes e socos da ruiva no colo, era como controlar cães nervosos na coleira.
Hijikata limitou-se a suspirar com aquela confusão nos primeiros dez minutos depois de sua chegada, quando Sougo e Kagura se encontravam era difícil alguém sair ileso da brincadeira saudável deles, mas pelo menos assim o vice-comandante ganhava uma folga de sempre fugir das artimanhas do outro policial.
Sem delongas, o samurai de permanente natural abriu uma garrafa de saquê e se serviu, até mesmo Shinpachi decidiu esquecer seu papel de personagem certo que sempre finaliza as piadas para beber. Os homens se divertiam como nunca, Sougo não havia bebido ainda, somente por achar muito mais interessante irritar alguém que comia tudo sem se importar com sua volta.
Kagura devorava todo o arroz da panela, parando hora ou outra para cuspir no sádico sentado em sua frente. Mesmo estando sentados todos na mesma mesa, três bebiam e falavam coisas desconexas e os outros dois mantinham a constante de troca de elogios de sempre.
— Você vai ficar tão gorda que nem mesmo o Sadomaru vai te aguentar nas costas. — arriscou-se estendendo o braço para pegar uma colherada da panela de arroz, levando um tapa na mão quase que de imediato.
— Quem você está chamando de Sadomaru, seu sádico estúpido? — respondeu de boca cheia. — Não compare o meu Sadaharu com seus insetos, e o único gordo aqui vai ser você quando eu encher sua cara de porrada e ela inchar!
Os dois retribuíram uma careta, virando o rosto por fim, evitando um ao outro. Sempre fora assim e sempre seria, eles nunca se suportariam.
Gintoki e Hijikata levantaram a mesa aos ares iniciando uma briga de bêbados, Shinpachi só pode pensar em proteger sua garrafa de saquê, e com isso, ele entregou-a para Kagura antes de cair sussurrando o nome de Otsuu-chan juntamente a conotações sexuais. A yato revirou os olhos segurando a garrafa enquanto assistia seu pai de consideração e o outro ladrão de impostos rolarem pelo chão sem rumo. Num único movimento, ela simplesmente ergueu a garrafa e deu algumas goladas não se importando com seu redor.
— Fedelhas menores de idade não tem permissão para tomar bebidas alcoólicas. — ele tomou a garrafa das mãos dela, impedindo que bebesse tudo.
Sougo surpreendeu-se ao sentir a garrafa leve, havia muito menos saquê ali do que quando lhe fora entregue. Ele a encarou em desaprovo.
— Eu estava com sede, não enche! — soluçou ao falar, aproveitando para enxugar a boca com as costas da mão e jogar-se no carpete a fim de assistir qualquer coisa que estivesse passando na televisão.
Sougo mirou a garrafa de vidro vazia atirando em Hijikata, quebrando-a em sua cabeça, colocando ele e Gintoki para dormir em apenas um movimento. Em outras palavras, ele havia matado dois coelhos em uma cajadada; ou pelo menos esperava que houvesse de fato matado.
Kagura encontrava-se estirada no chão, com as pernas largadas pouco ligando se seu vestido fosse aberto. Na cabeça dela isso não importava por estar usando calcinha. Não que isso incomodasse o policial sádico, mas evitou olhar naquela direção sentando-se no sofá com a cabeça inclinada para trás.
— Pelo jeito vou passar a noite aqui, ei China, arrume um futon e um banho pra mim! — ordenou com o tom habitual.
A ruiva claramente não estava no seu melhor humor, talvez a bebida não tivesse apenas matado sua sede. Ela o procurou com o olhar, encarando mortalmente aquele sadista folgado. Kagura levantou batendo os pés, voando em direção ao policial de pulso fechado e por milímetros ele não se feriu.
— Você vem na minha casa, encher o meu saco, comer da minha comida e ainda acha que tem o direito de se sentir bem recebido, huh?! — ele havia conseguido mesmo tirá-la do sério e tinham apenas trocado palavras naquela noite, nada físico. — Eu te odeio sadista ladrão de impostos, vai embora! — Kagura variava entre soluçar e gritar expondo toda sua raiva.
Sougo riu torto, dessa vez havia exercido sua meta e nem sequer havia se esforçado para isso. Era difícil de admitir, mas gostava de brigar com ela. Existiam poucas pessoas que o suportavam lutando sério e menos ainda, eram as que lhe traziam um verdadeiro desafio, talvez fosse unicamente isso que o prendia aquela garota. Mesmo sendo o mais velho, se rebaixar a maturidade daquela pirralha apenas para desfrutar de uma boa luta; Kagura o entretinha como ninguém podia imaginar conseguir.
Quando Sougo se deu conta, estavam rolando pelo chão da casa de aluguel, desconfortavelmente tendo suas costas jogadas contra o que estivesse por lá. Ela o agredia entusiasmada e ele concentrava-se em acertar aquele rosto perfeito e sensível ao sol dela. O único e exclusivo interesse de ambos eram si mesmos, enquanto garantissem que sairiam com cortes e marcas roxas ao longo do corpo nada mais lhes importaria. Inclusive a mobília quebrada.
Num chute calculado, Kagura tentou o acertar entre as pernas, não esperando que ele desviasse de forma que seu pé se prendesse no bolso da calça dele. Achando aquela máscara de dormir bizarra que sempre o via com, uma ideia louca se passou pela cabeça da menina a fim de provocá-lo.
— O que você está fazendo? Eu vou ter que mandar esterilizar se você colocar isso aí! — gritou retorcendo a cara de nojo.
Esticando a máscara para que passasse seus ombros, a ruiva ajeitou a máscara em seu busto como se fosse um sutiã. Era uma cena cômica afinal, Kagura estava bêbada com a máscara presa em seu peito esforçando-se em fazer insinuações com aquilo, Okita sentia apenas que iria vomitar. Nela.
— China, o dia que você ter peito de verdade eu te deixo usar isso aí, mas te garanto que esse dia não é hoje. — murmurou elevando o tom de voz, começando a de fato se irritar profundamente enquanto perseguia-a envolta do sofá, fazendo papel de idiota.
— Você nunca viu pra dizer que não tenho! — revidou rindo.
E ela estava certa, afinal.
O policial passou a correr atrás dela até alcançá-la, jogando-a na parede com força e pronto para arrancar sua máscara a contra gosto. Kagura podia não estar tão sóbria quanto imaginava, mas sabia que faria de tudo para irritá-lo, a estranha relação que eles tinham era baseada nisso, no ódio alheio e apenas isso. Sougo segurou o rosto da menina mantendo sua cabeça bem apertada contra a parede, uma forma de garantir que ela se machucasse também. Estavam próximos quando ele conseguiu alcançar a máscara no busto dela e começou a puxar para cima.
— Fica quieta, vadia! — reclamava encurralando-a com as pernas, ela parecia não estar numa posição agradável, mas essa era a intenção.
— Você não escova os dentes?! Não sou obrigada a aguentar seu bafo, sai daqui! — empurrava-o enquanto ele ainda tentava tirar sua máscara do seu peito, estavam próximos demais.
— Você fala como se não estivesse com bafo de arroz e saquê. — sentiu uma veia saltar, Kagura estava mesmo o tirando do sério.
No meio daquela competição deles de quem se apertava mais, Sougo enfim conseguiu tirar sua máscara da yato, mas a proximidade deles fez com que seus rostos se encontrassem. Ele não se importou, não havia sido nada demais e finalmente havia tirado o que era seu da posse dela.
— Voc-cê... — ouviu a ruiva murmurar abaixada com a mão na boca.
Sougo levantou-se chutando a bunda dela uma última vez antes de sair do cômodo, havia se cansado, estava tarde e alguém precisaria estar no Shinsengumi quando amanhecesse para acusar o comandante de ter passado a noite fora. Uma pena as coisas não terem saído como desejava. Num segundo estava em pé deixando o quarto e no outro estava no chão suportando um monstro gritando em seu ouvido.
— Sádico nojento! Não acredito que sua boca relou na minha, seu porco, vou chamar o Gin-chan! — Kagura o imobilizava sentada em sua barriga, o puxando pela perna.
Sougo revirou os olhos se deixando levar pelo momento de fúria da pequena. Então havia sido isso que a incomodou quando levantaram, e ele achando que poderia voltar para casa cedo.
— Não acredito que você ainda não tinha beijado antes. — resmungou enquanto ela trocava as posições, dessa vez puxando seu pescoço para trás.
— O problema não é o beijo, é você mesmo, seu porco não encosta em mim!
Okita Sougo a encarou de soslaio com a cabeça por baixo da coxa dela, e realmente, Kagura não estava se importando se aquilo tivesse sido um beijo — não havia sido —, ela estava nervosa dele ter encostado em sua boca e era apenas isso. Aquilo o chamou a atenção, sempre soube que ela não era como outras meninas normais, só não imaginava que até uma situação como essa ela pudesse ignorar com facilidade. Ele sorriu ainda sendo esmagado pela perna dela contra o chão, tivera uma ideia brilhante.
— China, você deveria agir mais como uma menina. — comentou vendo-a fazer cara feia.
— Huh?! Cala a boca! — soluçou. — Eu sou uma linda dama e a heroína mais fofa da Jump! — afrouxou por um instante seu braço e foi o suficiente para que o policial retomasse sua posição como dominador.
— Você é uma tábua e para piorar nem se veste bem.
— Eu te disse para calar a boca, sim? — acertou-o com um soco no nariz mesmo estando por baixo.
Sougo não se preocupou em limpar o filete de sangue que escorreu, estava entretido com a menina debaixo de si. Havia perdido as contas de quantos socos trocaram, e quantas vezes viram o outro sangrar, ela era certamente diferente. Em sua cabeça mulheres seriam sempre masoquistas esperando algum sádico para lhe ensinarem bons modos, não entendia o porquê de Kagura não se encaixar nessa categoria. Não importava o quanto tentasse, não conseguia adestrá-la.
Ele se aproximou sorrindo sadicamente, e beijou-a sem qualquer explicação. Estava fazendo aquilo somente para irritá-la, Kagura nunca devia ter dito que sentia nojo da boca dele.
Passou a fitá-la piscando sem entender, seu rosto tinha um tom levemente róseo, misto da bebida e talvez do que Sougo acabara de lhe roubar. A ruiva fez menção de abrir a boca para reclamar, mas mais uma vez ele lhe tomou os lábios interrompendo qualquer que fosse sua fala. Pressionou um pouco mais dessa vez, até que ela começasse a se debater.
A yato podia ser inclassificável como mulher, mas era previsível e ele mais do ninguém sabia qual seria o próximo golpe dela.
— Me larga! — mais uma vez ele se pressionou a ela. — Sadis... — outra vez. — Nojen... — e outra vez.
Se fosse possível ela estaria o espancando até sua cabeça abrir agora, mas só se fosse possível. Sabia o porquê daquilo, sabia exatamente que o plano dele era fazê-la sentir nojo e que havia concluído seu objetivo com sucesso, só não entendia a razão de fazê-la correspondê-lo.
Ele não a deixaria falar e muito menos soltar-se, então se aquilo se tornasse uma competição, ela não iria perder. Kagura não tinha experiência alguma nesse jogo, mas não usou essa desculpa a seu favor e quando o policial menos esperou, ela se pendurou em seu pescoço trazendo-o mais para baixo. Sougo impediu que ela tomasse controle da situação prendendo-a com sua perna, não deixaria que outra pessoa o dominasse. Quando notou estava debruçado nela e não mais apoiado sobre a mão. A ruiva não queria lhe ceder passagem para explorar sua boca, era tão teimosa, puniu-a puxando seu lábio inferior em uma mordiscada, ela não pareceu gostar daquilo, mas havia finalmente deixado que suas línguas se encontrassem.
Foi o exato instante em que o sadista sentiu que deveria aprofundar aquilo que faziam. Suas mãos que antes apenas a cercavam guiaram aquele corpo esguio até seu colo, Kagura rondou suas pernas enroscando-o mais a si mesma. Não que ele precisasse disso, mas sequer pedira permissão para passear com as mãos pelo corpo dela. Agarrava a coxa dela tão intensamente, que era visível o local ficando avermelhado.
— Não adianta competir comigo, nessa briga eu sempre irei ganhar. — sussurrou contra o ouvido da menina, aproveitando para mordiscá-la ali também.
— Eu vou contar para a Shinsengumi inteira que o capitão deles anda se aproveitando de garotinhas indefesas! — puxou-o pelo cabelo o fazendo encará-la.
Ambos estavam ofegantes e mesmo ela estando enrubescida devido à posição constrangedora, não recuou, continuaram afrontando um ao outro com o olhar, aquilo não tinha qualquer significado para eles exceto de que precisavam provar de alguma forma que eram melhor que o outro. Dizem existir uma linha tênue entre o amor e o ódio, e a deles havia se rompido naquela noite. Okita sempre a levaria muito a sério, não importava se houvesse certa diferença entre suas idades, e muito menos se ele tivesse que entrar no meio de crianças catarrentas para discutir com ela, Kagura não podia ser subestimada.
— E desde quando você é uma garotinha indefesa?! — jogou-a chocando sua costa contra o carpete. — Você beija mal China, tem muito que aprender ainda. — levantou sem perder o contato visual, a ruiva podia estar louca, mas jurou tê-lo visto sorrir antes de deixar o quarto.
Ele sabia que aquela primeira vez deles não seria a última, e mesmo não admitindo, todo aquele ódio significava algo bem maior para os dois.
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