Assim que voltou à mesa, Elizabeth percebeu que todos evitavam seu olhar. É claro que eles tinham escutado tudo, não havia sido uma cena muito discreta... Porém, agradeceu silenciosamente por fingirem que nada tinha acontecido. Tentou se distrair e entrou novamente na conversa.

Em algum momento, porém, seu olhar e o de George se encontraram. Ele parecia agradecido.

Era como se um peso saísse de seu peito. Tinha valido a pena.

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Depois daquela cena, as interações entre Lizzie e Darcy diminuíram drasticamente, a ponto de não haver nenhuma. É claro que Elizabeth se arrependia de ter feito uma cena. Também sabia que Darcy se arrependia – muitas vezes seus olhares se encontravam, uma expressão de culpa em seu rosto. Apesar de todo o desprezo, os dois eram humanos, afinal de contas.

O problema era que os dois eram muito mais teimosos do que o normal. Lizzie tinha pensado várias vezes em falar com ele e se desculpar pelo ocorrido; afinal de contas, ele estava certo. Ela não tinha direito de se intrometer em um assunto privado... E, pensando bem, Darcy tinha sido bastante cavalheiro em fingir que tudo estava bem e se retirar da presença de todos, sem expor George por seja lá o que ele tivesse feito.

Lizzie já não achava a sua conduta a das mais corretas. Se estivesse no lugar de Darcy, talvez tivesse agido da mesma forma... Mas quando se armava de coragem para poder pedir desculpas, uma pontinha arrogante de seu ser lembrava de todas as vezes em que ele a havia ofendido ou em que havia sido um idiota, e sua culpa ficava consideravelmente menor. Darcy não merecia tanto de sua compaixão.

Quando percebia que Darcy tinha criado coragem para falar com ela, Lizzie sempre agia do mesmo jeito: ignorava o rapaz com todas as suas forças. Sabia que, se ele realmente chegasse a se desculpar, não teria coragem de manter seu desprezo por muito tempo... E como precisava daquilo! Seu orgulho era a última coisa de que abriria mão. Se Darcy era fraco o suficiente para abrir mão do dele... Paciência.

Com o passar do tempo, com a presença de George no grupo, Darcy já não aparecia tanto quanto antigamente, e Lizzie era muito grata a isso. Inclusive, sentindo uma certa empatia pelo rapaz e sabendo que Darcy não era lá uma pessoa exemplar, Lizzie tomava partido de George e os dois criavam uma amizade muito além das expectativas. Ele era um rapaz muito gentil, muito educado, sabendo sempre como se portar quando conversava com Lizzie ou com Lydia, duas almas tão diferentes quanto a água e o vinho. Também era muito inteligente, e a garota se via cada vez mais fascinada e entretida pelas longas conversas que tinha com ele.

Sem Darcy no grupo, logo Caroline também passou a aparecer menos. Só Charles continuava a ser uma presença constante, o que deixava Elizabeth extremamente contente. Jane e o rapaz já pareciam estar entrando em algum tipo de relacionamento mais sério, embora ambos fossem muito reservados e tímidos para tal e sempre se preocupassem em cobrir as marcas quando estavam em público. Se Lizzie não soubesse deste detalhe, talvez não tivesse percebido o nível de intimidade entre os dois. Só rezava para que Charles e Jane tivessem plena certeza dos sentimentos que havia entre eles.

Com o tempo passando tão rápido, logo chegaram os vestibulares e as aprovações. Lizzie conseguiu entrar na mesma faculdade de Jane para estudar literatura; Darcy e Charlotte conseguiram bolsas para estudar direito na mesma faculdade de Collins; Caroline foi junto, mas para estudar moda. E Collins finalmente foi embora, frustrado por não ter conseguido ganhar o coração de Jane. Mas quem poderia culpá-lo? Competir com Charles era algo impossível, afinal de contas...

Com o futuro certo pela frente, Lizzie se sentia cada vez mais animada e, com o ano letivo já acabado, a existência de Darcy havia se transformado em apenas uma distante lembrança em sua cabeça.

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Você: Char, preciso de um favor. Você acha que o livro “Teoria Literária”, de Huggens*, existe na sua biblioteca? Ele consta na bibliografia que o professor passou, mas são poucos exemplares aqui. Não consegui emprestar nenhum! =( .13:40

Char: Lizzie, não sei. Eu posso tentar verificar pra você quando voltar pra facul amanhã. Hoje estou estudando para Penal... Ugh. .13:45

Você: Haha. Boa sorte, Char! E muito obrigada. .13:46

Você: Ei, você vem pra casa esse final de semana? .13:48

Char: Infelizmente, não, Lizzie. Tenho um trabalho pra entregar semana que vem e meu grupo decidiu se encontrar pra fazer isso no fim de semana. Mas acho que talvez semana que vem? Eu te aviso e a gente pode combinar alguma coisa. .13:51

Você: Fechado, Char! Vou ficar esperando, hein? ;) Bom estudo!! .13:52

Char: Obrigada! Você também!! ♥ .13:53

Elizabeth bloqueou a tela do celular, se sentindo infinitamente feliz. Estar em uma faculdade era uma loucura: os professores eram muito mais críticos e exigentes do que os do colégio, mas era tão bom estudar algo de que gostava! Adeus, física! Adeus, química! Adeus, matemática...

Bom, não um adeus propriamente dito. Ela ainda tinha uma matéria de estatística para cumprir. Ugh.

Rolou na cama, abrindo mais um dos inúmeros livros que teria que estudar. Estava quase se concentrando na matéria quando ouviu um som bem baixinho vindo do quarto ao lado:

Sniff

Ficou levemente curiosa. Aquilo parecia alguém fungando... Ou alguém chorando? Mas tinha sido tão leve que talvez ela só estivesse ouvindo coisas...

Sniff.

Ah, não, alguém estava fungando ou chorando. Levantando-se silenciosamente, foi até o quarto ao lado, onde encontrou Jane segurando um papel como se sua vida dependesse daquilo.

— Jane? – Elizabeth ficou preocupada de imediato. Sentou-se ao lado da irmã na cama. – Jane, o que aconteceu?

A irmã sorriu. – Eu consegui, Lizzie. Vou fazer um intercâmbio na Inglaterra!

Elizabeth arregalou os olhos. – Meu Deus, que maravilha! Eu sabia que você ia conseguir! – Lizzie deu um abraço apertado na irmã, sentindo-se muito orgulhosa dela. Um intercâmbio!

Jane assentiu e mais lágrimas caíram. – Eu sei! Isso é tão maravilhoso, não é?

Elizabeth concordou com um aceno da cabeça, mas alguma coisa não parecia certa. Parecia até que Jane não estava chorando de felicidade, mas de... tristeza?

— Jane, você está feliz, não está?

— Claro que estou, bobinha. – A irmã deu uma fungada e um sorriso torto apareceu em seu rosto. Mais lágrimas desceram por suas bochechas. – Por que eu não estaria?

Elizabeth fixou o olhar no papel. Aquela era uma lista dos aprovados no intercâmbio e as cidades para que iriam. Dois nomes lhe chamaram a atenção:

Bennet, Jane – Bristol, Inglaterra

Bingley, Charles – Heidelberg, Alemanha

Oh.

— Charles… Ele também conseguiu?

Jane assentiu com a cabeça, desviando o olhar.

— Mas, se eu não estou enganada, vocês não tentaram para os mesmos lugares?

— Sim, mas acho que Charles deve ter mudado de ideia. – Jane deu uma fungada. – Acho que ele avaliou e Heidelberg pareceu ser uma opção melhor, na verdade.

Lizzie podia ver que a irmã tentava se alegrar por ter conseguido, mas ficava ainda mais triste por causa da situação.

— E ele não te falou nada?

Jane a encarou por um instante. – E por que ele deveria, Lizzie? Não é como se ele me devesse alguma coisa...

Lizzie passou os braços por cima dos ombros da irmã e a abraçou. – Mas tudo é perto na Europa, não é?

Jane deu de ombros. – Sim. Só que não importa. Meu intercâmbio é na Inglaterra. Não há motivos para eu ir para Heidelberg. Nenhum motivo.

O coração de Elizabeth se apertou ainda mais. Uh-oh. Alguma coisa não estava cheirando bem.

— Você poderia visitá-lo? Afinal, até onde eu sei, vocês são bons amigos...

Jane deu um sorriso exasperado. – Era só uma relação educada, Lizzie. Nada mais. – Os olhos dela se fecharam com força. – Afinal, que amigo conseguiria um intercâmbio e iria embora do país sem nem avisar ninguém?

Lizzie ficou perplexa. – O quê?

— Pois é, Lizzie. Recebi esse SMS de Caroline.

Caroline: Jane, que saudades! Como estão as coisas? .13:15

Caroline: Fico até triste de pensar que não nos veremos tão cedo. Você sabe, estou no primeiro ano da faculdade de moda e Charles passou em um intercâmbio na Alemanha!! Como ele já estava aqui, me visitando, decidimos organizar tudo prontamente para que ele parta este final de semana. O prazo é bem curto e ele já tem de se apresentar no programa na semana que vem... Sem o apartamento de Charles na cidade, não há muito motivo para eu voltar. Até pediria para ficar na sua casa, mas não quero atrapalhar a sua família! =( .13:16

Caroline: E parabéns! Soube que você também foi aprovada para o intercâmbio. Boa sorte, ma chérie!! .13:17

Elizabeth ficou enfurecida, mas tentou pensar em uma explicação mais lógica para tudo aquilo.

— Jane, Caroline disse que foi tudo muito rápido... Pelo jeito, não deu muito tempo de ele voltar para vocês conversarem...

— Lizzie. – A voz de Jane estava calma, apesar do choro. – Está tudo bem. Não estou chorando por causa dele. Estou chorando de felicidade! E mais uma coisa. – Ela deu uma sussurrada: – Não é como se ele não tivesse o meu número. Poderia ter me ligado. Ou mandado uma mensagem. Mas não somos nada, então por que ele deveria?

O coração de Lizzie quase parou ao ver a irmã tão triste daquele jeito. Ah, Jane...

Sem saber muito o que fazer, Elizabeth apenas abraçou a irmã de novo, deixando que ela chorasse copiosamente em seu ombro.