Linha tênue
13 Capítulo XIII
Notas iniciais
Depois do desfile, decidiram parar em uma lanchonete e tomar alguma coisa para refrescar. Que dia quente!!
Collins, é claro, tentou comprar alguma bebida para Jane, numa tentativa inútil de flertar com a prima, mas Elizabeth se interpõe e, com um olhar gelado para o primo, deixa bem claro que todas podiam pagar por suas bebidas, muito obrigada.
— Só estava querendo ser um cavalheiro! – Collins retrucou, parecendo um tanto ofendido.
— Em que século você acha que estamos, James? – Elizabeth respondeu à altura, não desviando o olhar do primo. – Agradecemos o seu gesto, mas, por favor, não faça isso de novo. Guarde seu dinheiro para ocasiões mais interessantes.
Os outros ficaram de queixo caído com a atitude de Elizabeth, mas o que ela poderia fazer? O comportamento do primo estava passando dos limites e, sabendo ler bem a irmã, podia dizer com certeza que Jane também estava começando a se sentir incomodada.
— Ah, primo, não se sinta ofendido. – Jane tentou amenizar, beliscando de leve as costas de Elizabeth. – Lizzie não disse isso por mal, eu prometo. Mas ela está certa: nossos pais nos dão dinheiro suficiente para pequenas saídas assim. Eu ficaria muito incomodada se você tivesse que pagar por nós. Mesmo assim, muito obrigada!
Elizabeth revirou os olhos, nem se preocupando em disfarçar enquanto se sentava à mesa. Jane. Sempre sendo uma santa... O problema é que o olhar do primo estava ainda mais encantado do que antes.
Em vez de jogar água na fogueira, é como se ela tivesse adicionado gasolina!
— Ei, Lizzie! – Lydia parou de cochichar com Kitty, que ria intensamente, e virou-se para a irmã. – Você sabia que parece uma velha quando fica revirando os olhos desse jeito? – E a imitou.
Elizabeth sentiu seu sangue ferver a princípio, mas vendo que até Jane ria de Lydia, deu de ombros e se permitiu sorrir. Era uma boa imitação, afinal de contas.
— Ora, ora. Vejo que estão se divertindo depois do desfile!
Lydia e Kitty pararam de cochichar e colocaram-se em pé de súbito, olhando maravilhadas para o jovem à sua frente.
Elizabeth revirou os olhos novamente, sem conseguir se conter. Era o maravilhoso George Wickham!!
— Kitty, Lydia, vocês poderiam ao menos me apresentar para o restante da mesa, não é?
As meninas sorriram ainda mais e, agarrando um braço do rapaz de cada lado, passaram a arrastá-lo ao redor da mesa, apresentando cada pessoa.
— Essa é a minha irmã, Jane...
— Essa é a minha prima, Lizzie...
— E esse é o nosso priminho, James!
Elizabeth quis gargalhar com a careta que Collins fez depois de ser chamado de priminho, mas se controlou logo ao perceber que o rapaz, George, falava com ela.
— Então, você é Lizzie! Sabia que Lydia não para de falar de você? – Ele deu um sorriso brincalhão.
Elizabeth fuzilou a irmã com o olhar e deu um sorriso forçado: – Espero que ela tenha falado apenas coisas boas.
— Ah, sim! Não se preocupe. Sua irmã a admira muito! Me contou como é inteligente, sensata, controlada...
Olhando para Lydia, ela conseguia traduzir exatamente o que sua irmã tinha dito para ele: nerd, chata, mais chata ainda...
— Oh, obrigada, Lydia! – Ela se virou para Wickham e deu um sorriso perverso. – Lydia também tem várias qualidades, sabia? É espontânea, animada, extrovertida...
Explosiva, impulsiva, fala que nem um papagaio...
Foi a vez de sua irmã a fuzilar com o olhar e Kitty e George rirem.
— Posso ver que a personalidade é algo de família. – Ignorou o modo como as duas franziram o cenho e olhou em volta. – Acho que não tem problema em me sentar com vocês, não é? Adoro o que faço, mas nesse calor... – Como se quisesse dar um exemplo, abriu um pouco mais a gola da camisa que estava usando, dando uma pequena amostra do peitoral definido que deveria haver debaixo de tudo aquilo.
Elizabeth tentou não olhar... Mas, infelizmente, ela não era cega. Sentiu seu coração acelerar um pouco. “Apenas um pouco”, disse para si mesma.
O grupo começou a conversar animadamente sobre vários assuntos. Lydia e Kitty dominavam a conversa; porém, com as poucas palavras que trocaram, Elizabeth percebeu que George parecia ser um rapaz sensato e gentil.
“Ah”, pensou, “tão diferente de certos rapazes que existem por aí...”
Não havia nem terminado de pensar nisto, a porta da lanchonete se abriu e um trio bem conhecido apareceu. Elizabeth teve de dominar a vontade de bater a cabeça na mesa e grunhir.
“Quando se fala no diabo...”
— Ei, Charles! – Jane acenou e Elizabeth a encarou. Por que estava fazendo isso com ela? Ela e Charles se viam todos os dias! Não podia fingir que não os tinha visto?? Mas a irmã a ignorou completamente e ofereceu um sorriso amigável aos três recém-chegados. – Vocês também estavam no desfile?
Antes que Charles pudesse responder, Caroline se adiantou e puxou uma cadeira. – Ah, sim! Mas que calor infernal nesta cidade! Que falta a brisa da minha cidade-natal não me faz!
Charles logo puxou uma cadeira e se sentou perto de Jane. – Ah, ela está toda afetada por causa do calor! Que mal um solzinho faz, hein? – Elizabeth percebeu que ele deslizou as mãos por entre a cadeira e fez um carinho na mão de Jane, que ruborizou levemente e sorriu. – Faz bem pra saúde.
Lizzie percebeu que sua irmã queria responder, mas algo a fez levantar o olhar, inquieta. Ela varreu os olhos na mesa e percebeu que todos faziam o mesmo.
Todos os olhos estavam cravados em Darcy, que não havia se sentado e, ao invés disso, continuava em pé, encarando fixamente George, que retribuía o olhar com um certo embaraço.
— Erm... Will, que coincidência! – George disse em uma voz neutra, mas Elizabeth percebia que o rapaz estava completamente desconcertado.
Um silêncio constrangedor continuou pairando sobre eles. Sentindo que todos ficavam desconfortáveis, Elizabeth perdeu a paciência.
— Darcy, há uma cadeira ali, você não quer-
Ao ouvir o som de sua voz, a cabeça de Darcy virou de súbito para ela, uma expressão mista de curiosidade, surpresa e... algo mais que Elizabeth não conseguia identificar. Agora ele parecia muito mais incomodado em vê-la ali.
Mais até do que ao ver George, seja lá o que tenha acontecido com os dois.
— Darcy? – Lizzie perguntou, inclinando a cabeça e o olhando com curiosidade. Isso pareceu tirá-lo do transe.
— Ah... Erm, muito bom ver a todos. Eu... vou cumprimentar o balconista, ele é um conhecido e... – Parecendo distraído e sem perceber muito o que estava fazendo, Darcy mal terminou o que estava falando, virou-se e distanciou-se da mesa.
Mais um silêncio reinou entre todos por algum tempo, até que Lydia decidiu quebrá-lo praticamente se pendurando nos braços de George e tecendo todas as suas qualidades para os demais. Elizabeth, porém, só conseguia olhar para as costas de Darcy, agora encostado no balcão e, estranhamente, sem falar com ninguém.
Ficou se debatendo se deveria ir atrás dele e tentar entender o que havia acontecido, por que ele a havia olhado daquele jeito... Talvez Caroline fosse a pessoa certa para tal, mas a menina não parecia ter se tocado, tão ocupada que estava em olhar com reprovação para o comportamento de Lydia e Kitty. Soltando um leve suspiro, Elizabeth discretamente se levantou da mesa e, murmurando um “com licença” bem baixinho, foi até o local em que Darcy havia se acomodado.
— Que diabo foi isso? – Ela sussurrou, olhando-o exasperada.
Darcy continuou olhando para frente e não respondeu.
— Eu perguntei, que-
— Eu te ouvi da primeira vez – ele respondeu com aspereza. – E, sendo bem franco com você, não é da sua conta!
— Ah, agora as garras aparecem! O rapaz tão distante e tão educado é só uma farsa, hein? – Um sorriso perigoso brinca em seus lábios. – Talvez você devesse parar de ficar fazendo esses joguinhos e ser honesto uma vez na vida! – Ela aperta os lábios em linha fina, tentando se segurar, mas incapaz de evitar que as palavras saiam de sua boca logo em seguida: – Por que você tem de ser tão rude? O que o mundo fez pra você? O que eu fiz pra você? O que George fez pra você?
A cabeça dele se vira para ela com tanta velocidade que Elizabeth se pergunta como ele não tinha ficado tonto. O olhar dele é duro. – Você não é minha amiga, não é minha parente. Você não é nada para mim; portanto, não aja como se me conhecesse. Não me diga o que devo ou não fazer. – Ele aperta os dedos contra o balcão, olha para baixo e respira fundo três vezes. – Já sei que não nos gostamos e respeito isso. Então, por que não vai entreter seus amigos, incluindo o maravilhoso George, e para de me atormentar?
Ele se levanta e deixa uma nota na mesa, saindo logo em seguida. Elizabeth olha para trás, mas os outros parecem estar muito entretidos para prestar atenção no que aconteceu. Apesar das palavras rudes, toda a conversa tinha se passado num sussurro, afinal de contas. Sem conseguir se conter, ela segue Darcy para fora da lanchonete.
— Por que você não para de ser covarde e me fala as coisas na cara de uma vez? – Ela diz em voz alta assim que o vê. – Sei que o nosso desgosto é mútuo, mas não precisa ser tão desrespeitoso, tão arrogante! Não sei o que George fez de tão terrível para você, mas não pode ser uma pessoa civilizada e agir como tal? – Ela cruza os braços e o encara.
Ele, para seu desapontamento, apenas dá de ombros e continua andando.
Sentindo a fúria encher seu peito, Elizabeth continua, sem se incomodar com todas as pessoas olhando ao redor: – Se você não fosse tão arrogante, tão metido, tão desagradável, alguém poderia gostar de você! Até eu poderia gostar de você! Mas com essa atitude? – Ela dá uma sonora gargalhada e o fuzila com o olhar. – Eu tenho pena da pobre criatura que se apaixonar por uma pessoa tão mal-educada! Parabéns, Darcy! Você conseguiu fazer com que eu tenha ainda mais desprezo por você! – Sentindo-se sem ar, ela vira e entra de novo na lanchonete, sem olhar para trás.
Dentro da lanchonete, ela vai direto para o banheiro e deixa que as lágrimas finalmente caiam. Como Darcy conseguia ser tão idiota?
Do lado de fora, Darcy senta-se em um banco e deixa que uma expressão de dor tome conta de seu rosto. O rapaz revive todo o diálogo com Elizabeth, o coração disparado, suas mãos trêmulas...
Se você não fosse tão arrogante, tão metido, tão desagradável, alguém poderia gostar de você! Até eu poderia gostar de você!
Sente que perde o ar e, incrédulo, olha para seu pulso, que começa a queimar na mesma intensidade das batidas de seu coração.
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