Linha de sangue do Shinju
1 A arvore da infortuna
Era um dia de verão no antigo reino de Kuketsinstoo governada pela longa linhagem da nobre família Ootsusuki, sendo os atuais, respectivamente, rei e rainha Hauron e Amurabi Ootsusuki. Neste dia de calor ameno e de muito sol, seus filhos, os pueris príncipes, Kaguya e seu irmão mais velho Tekinamaru corriam e brincavam no jardim do palácio imperial com outra criança, o filho do treinador de Tekinamaru, que exclama
Koomesko : “Tekiná”, você não vai me pegar?
Tekinamaru: Eu sou muito rápido e forte, como o meu pai, nem você, nem kaguya ou qualquer outro pode fugir de mim!
Koomesko que estava um pouco distante de seus dois amigos sai correndo, dirigindo-se à parte posterior do jardim, que se estende por detrás do suntuoso palácio — donde seus pais e sua família comandam todas as ações de sua grande nação. Nos confins do imenso jardim situa-se a maior de todas as árvores do reino, tida como a maior de todo o mundo conhecido, cujo tamanho impõe sua superioridade e exuberância a todos que se aproximem dela. Koomesko pensa que lá deve haver algum bom esconderijo para se abrigar e surpreender seus amigos. A garota que estava atrás de ambos, pára e os interpela.
Kaguya: Kaguya, vocês não devem entrar aí... vocês nunca ouviram as profecias do vovô, da vovó, dos sábios do reino sobre essa árvore e esse local?
Koomesko: Ahh, Kaguya-kun você não tá com medo, né?
Tekinamaru: É, Kaguya, lembre-se que eu, o grande Tekinamaru, futuro rei de Kuketsinstoo, posso derrotar qualquer inimigo! Você não precisa temer nada...
Kaguya: Ok... tá bom...
Os garotos prosseguem em direção às arvore. Enquanto isso, de uma sacada alta do palácio, a rainha e mãe das crianças, Amurabi, acompanhava distantemente a diversão de seus filhos, e se dirige a seu marido, o rei Hauron.
Amurabi: Hauron, nossos filhos estão se dirigindo próximo à grande árvore. Foi muita imprudência sua retirar a supervisão do Zeiyujin...
Hauron: Amurabi, minha amada rainha, Zeiyujin fez um bom trabalho treinando Tekinamaru, ele apesar de ter apenas 10 anos já é um garoto muito forte para sua idade...
Amurabi: Mas se agora você se considera como aquele que deve treinar seu filho, por que você não está lá embaixo com ele?? ... Súditos localizem e ordenem Zeiyujin para que vá ao encontro de meus filhos, imediatamente!
As súditas que se encontravam próximas ao cômodo do palácio onde o casal real arguiam já iam atender a ordem da rainha, quando o rei num ímpeto se levanta, com um brusco movimento, e se manifesta gravemente.
— Amurabi! Você pretende passar por cima de meus mandamentos?
Amurabi hesita um pouco em responder, mas prossegue.
— Não... Não, de modo algum, meu rei... só me preocupa a segurança de meus filhos...
Hauron: seus filhos também os são meus, eu sou o treinador de Tekimaru e confio em suas habilidades, nada irá agredir meu filho e ele é capaz de garantir não apenas a própria segurança, como a de Kaguya e de seu amigo também. Garanto-lhe que nada acontecerá a eles.
Amurabi: Mas e as profecias sobre aquela árvore??
Hauron: Que? Que aquela árvore pode trazer “tanta sorte quanto desgraça”? Isso é o que diz a profecia dos velhos? Hahahaha... o que uma árvore pode fazer? Antes fosse um dragão, monstro ou demônio...
Amurabi: Hauron, meu amado rei, você não deveria zombar de sabedorias milenares...
Hauron: Mais uma vez, você, mulher, mostra porque nós, os homens, devemos governar o mundo! Vocês são fracas e têm medo de profecias velhas que nunca se realizaram ou realizarão! Que desgraça pode acometer um reino prodigioso como o nosso? Olhe quantas obras, quantas terras, quantos fortes e bravos guerreiros nós construímos? Lembra-se de quão pequeno era o reino antes de eu chegar ao poder? Não vê como liderei nosso exército e sobrepujei famosos generais e guerreiros em batalha? Veja, tudo ao nosso redor: é fruto disso! Por maior que seja essa árvore, nosso reino é muito maior, EU sou maior, e meu filho também o é! Você não tem, oras, com o que se preocupar...
Hauron sai da sala, ele estava à espera de encontrar alguns de seus generais, em uma outra grande sala longe dali onde até então estavam ele e sua esposa, ainda que dentro do palácio. As súditas que os acompanhavam no quarto murmuram, reatestando tudo o que o rei disse. A rainha fica calada, reclusa, timidamente retorna à varanda para ver seus filhos, mas já não pode mais vê-los, estão longe, detro da floresta da grande árvore. Ela apenas deseja “que nada mesmo lhes aconteça, Tekinamaru, Kaguya!”. Hauron entra no outro grande saguão, onde está cercado de homens, todos armados e trajando suas vestes samurais.
Hauron: 1000 mortos... todo o nosso batalhão foi derrotando pelo império do ocidente... mas como? nós somos invencíveis!
General Tsemim: Perdoe-nos, por nossa falha, nobre rei Hauron...
Hauron: Mas nós, nós vencemos as primeiras batalhas...
General Tsemim: mas cada vez mais e mais navios carregados de guerreiros chegam, eles contam com armas e técnicas que nunca vimos antes...
Hauron: Desculpas! Você pretende me dar desculpas por sua derrota? Achas que seu clã, ou que seus filhos, se orgulhariam de ver esse papel patético ao qual está se prestando? Honre a sua espada e sua família, volte ao campo de batalha com todos os homens que quiser e derrote o inimigo de uma vez por todas! Volte vivo e em segurança apenas se for para me dar notícias de vitória, do contrário, eu mesmo mancharei minha espada com seu sangue! Ou se preferir, não me obrigue a manchar minha espada com seu sangue, velho amigo, e morra em campo de batalha!
General Tsemin: Sim, senhor! Honrarei meu clã, meus filhos, meus homens, meu reino e o grande rei Hauron com minha espada, meu sangue, e minha vida se necessário, não importa o quão grande seja nosso adversário, nós venceremos!
Hauron: Assim que gosto de ouvir, velho amigo!
Hauron se retira e, ao sair do saguão, bate fortemente a porta, o estrondo se faz ouvir por todo o interior do palácio. Logo na saída encontra um velho já meio corcunda.
Ancião Zentchisky: Meu nobre rei Hauron, acha mesmo que essa tentativa de imprimir sua força ao povo poderá se alongar por muito tempo?
Hauron: Do que está dizendo, velho?
Ancião Zentchisky: de fato é muito bonito e tranquilizante dizer aos homens, e aos súditos, que nosso exército é forte e cheio de honrarias, mas o que se tem visto são sucessivas derrotas... esse seu espírito levará nosso país à desgraça.
Hauron: O que o senhor entende de guerra para me dar conselhos?
Ancião: Posso ser um pobre e pacato velho, mas vivi muito, e vi muitas guerras, contendas e derramamento de sangue, gostaria de não ver mais, mas se você o quer, verá o sangue escorrer, inclusive sangue dos seus.
Hauron: Eu gosto mesmo de derramar sangue, se você não fosse um velho, um súdito de meu país, e um homem absolutamente incapaz de se defender, estaria derramando o seu sangue, por dizer tantas besteiras; se o senhor não se ofende, é claro.
Ancião: de modo algum, Hauron, você tem mentido e tentado enganar à nação sobre a inevitável derrota que se anuncia. Não há porque levar a sério o que diz. Mas você deveria levar a sério o que diz esse pobre e morimbundo ancião, marcado por tantas rugas do tempo: uma nação de jovens que não ouve aos mais velhos, não durará mais do que sua própria beleza e jovialidade.
Hauron: Gostaria eu que os deuses nos tivessem feito contemporâneos, Zentchisky, e de tê-lo encontrado nos idos de sua juventude, para que tivéssemos lutado e que morrese honrosamente sob minha espada; para que eu não tivesse de ouvir de um velho senil, como você agora é, tamanha blasfêmia... Saiba que a força da juventude vencerá as velhas idéias e mudará o mundo, liderados pelo meu reino, é claro!
Os dois se afastam e seguem seus rumos. Enquanto isso, nos confins do jardim imperial que se misturam a uma densa floresta, Komeskoo adentrando a mata se aproxima das raízes da grande árvore, seguido, logo atrás, por Tekinamaru, e este, por sua vez, por Kaguya. Até que param de correr quando avistam uma enorme cobra branca enrolada numa das raízes da Grande Árvore. Como se não bastasse, para surpresa de todos a cobra fala.
Cobra: Mas como assim, agora há humanos que se atrevam a se aproximar do “Shinju”.
As crianças ficam por um momento perplexas e paralisadas, apenas Kaguya sussurra algo.
Kaguya: Shin... ju...?
Koomesko também se pronuncia.
Koomesko: Ka-kaguya-kun, vc tinha razão...
Tekinamaru: Ora, Koomesko, não seja covarde, é impossível uma cobra falar, isso deve ser algum truque do meu pai querendo pregar uma peça na gente... Vamos lá, quem quer que seja e onde quer que esteja aí, eu o príncipe de Kuketsinsto exijo que você apareça e diga seu nome.
Cobra: Ora, apenas o que aqui há é uma velha serpente, mas se quiser saber meu nome, direi; me chamo Orochi.
Tekinamaru: Olha essa fantasia tá boa, mas não tenho tempo pra esse tipo de brincadeira... vamos logo, se revele!
A serpente permanece parada. Ao que o príncipe se irrita. “Já chega!”. Sacando sua espada, ele a arremessa em direção à serpente, que tenta se esquivar, mas é atingida na ponta de sua cauda, que começa a sangrar. Koomesko comenta.
— Não é possível... essa cobra gigante que fala... é mesmo... real!!!
Tekinamaru: Um monstro desses deve ser destruído... esse será o meu primeiro grande feito como príncipe!
Tekinamaru prepara-se para atacar à serpente e parte em sua direção. Ao que Kaguya exalta: “Não, irmão!” Mesmo a irmã pedindo para ele não atacar, visto o colossal tamanho da serpente, ele não hesita, mas com um único movimento é a cobra que o enrola em seu corpo, imbobilizando-o. Koomesko decide também atacar o monstro, mas Kaguya se põe entre ele e o gigante animal que aprisiona seu irmão.
Koomesko: Mas o que é isso Kaguya? Tenho que ajudar seu irmão.
Kaguya: Você não vê Koomes-kun?
Koomesko: O quê?
Kaguya: Orochi, a cobra, poderia com aquele mesmo movimento mordido mortalmente o Tekina, mas ela não fez isso, ela não quer nos atacar, nós também não deveríamos ter atacado ela. Desculpe, senhora Orochi.
Orochi: Ó, ao menos um desses patéticos humanos têm cérebro... depois dizem que nós animais que somos “Burros”... Ah, e o certo é senhor Orochi, ok?
Kaguya: Oh, me perdoe, cobra branca!
Tekinamaru: Eu só posso estar mesmo louco, isso não é possível...
Koomesko: Eu também já não entendo nada...
Orochi: Irei soltá-lo, principezinho, mas desde que não volte a querer me atacar, na próxima, não serei tão gentil...
Orochi se desenrola do corpo do príncipe, soltando-o, e prossegue seu discurso, e as crianças o ouvem atentamente.
— Ao menos são corajosos, isso tenho de reconhecer, até mesmo essa garota, por me defender, por isso, por serem virtuosos que darei-lhes uma segunda chance... Interesso-me por homens virtuosos... Mas sobretudo são corajosos por se aproximarem desta árvore... Não sabem dos perigos que ela representa?
Tekinamaru: Minha irmã tentou alertar-nos...
Orochi: vejo que a garota é mesmo a mais inteligente dos três... pois bem, saibam que eu só atingi este tamanho e só possuo a habilidade da fala, graças a essa árvore, ela é capaz de alterar o destino de quem quer que se aproxime dela, quanto mais você se aproximar, mais você será tocado e alterado pelo poder dela, vários animais vivem aqui, e, assim como eu, também desenvolveram habilidades surpreendentes... Conseguem ver lá no alto da árvore?
As crianças inclinam sua cabeça o máximo possível para trás, para tentar enxergar o topo.
Orochi: Sei que é difícil, ainda mais daqui, para crianças como vocês...
Kaguya: Eu vejo! Vejo uma intensa e estranha luz vermelha, brilhando em meio a toda essa imensidão sem fim de folhas verdes...
Koomesko e Tekinamaru: Ah! Agora eu vejo!
Orochi: Aquilo é o lendário fruto do Shinju, que só surge um uma vez a cada mil anos. Ele está quase maduro, o que significa que daqui alguns anos ele estará pronto... e quem o conseguir, quem se alimentar dele, obterá muito do poder sagrado do Shinju.
Tekinamaru: Mas se ela já está tão colorido e vibrante pra quê esperarmos?
Koomesko: O que quer dizer Tekina-kun?
Tekinamaru: Eu subirei esta árvore e pegarei aquele fruto pra mim!
Koomesko: O que está dizendo Tekina? Isso não é uma cerejeira como as que a gente sobe, é enorme... e muito perigoso.
Tekinamaru: e você acha mesmo que uma coisa tão incrível dessas seria fácil de pegar?
Kaguya: Tekinamaru, você não pode estar falando sério, isso é completamente fora do possível.
Tekinamaru: Já chega! Estou cansado de vocês sempre duvidarem de mim, eu sou o Grande Tekina, estou predestinado a ser mais do que o papai ou qualquer outro homem que já pisou a terra! Agora mesmo aquele fruto será meu.
Tekinamaru começa a subir a árvore.
Kaguya: Você não precisa provar nada pra ninguém, Tekina, volte aqui!
Tekinamaru: Eu não vou receber ordens de você, pode ser minha irmã, mas não passa de uma mulher, uma mulher jamais deve contrariar um homem!
Koomesko: Tekina-kun não é hora pra esse tipo de coisa...
Tekinamaru: Você pode ser meu amigo, Koomes, mas você é apenas filho de um soldado, não ouse ficar no caminho da família real.
Koomesko: Tekina, pare!
Tekinamaru ignora os dois e segue, ao que orochi se pronuncia.
Orochi: Parece que o garoto está mesmo irredutível, se você quer mesmo tanto o fruto eu posso levá-lo até lá...
Tekinamaru: esse deve ser um feito meu e só meu, não haveria honra alguma, eu não seria merecedor caso você me ajudasse!
Tekinamaru prossegue sozinho. Kaguya, aflita, em baixo, junto da cobra e de seu amigo ,interpela o animal.
— Não tem como você segui-lo, só por segurança, Orochi?
Orochi: É claro, garota, não gostaria que nada de mal acontecesse ao futuro rei destas terras.
A cobra segue o garoto, mas mantém alguma distância para não ser percebido, com o tamanho do animal, ainda que de longe, só bastaria que o garoto virasse os olhos para perceber. Mas ele não vira, e não é por medo da altura, seus olhos estão fixos em seu objetivo. Passam-se algumas horas, o sol já ameaça querer se pôr, Tekinamaru chega ao topo, onde está o fruto.
Tekinamaru: Finalmente, o dia está quase terminando, estou muito cansado e com sede, mas cheguei, conseguirei isto para mim.
Ao que o garoto ouve um barulho, e vê entre as folhas surgir a serpente, Orochi.
Tekinamaru: Ah você veio até aqui? Não entendo...
Orochi: Não entende o quê?
Tekinamaru: Se este fruto é tão cheio de poderes e você pode tão facilmente pegá-lo porque nunca o pegou?
Orochi: Porque eu não o quero!
Tekinamaru: Não o quer? Mas com isso você poderia ser mais poderoso do que é, poderia quem sabe se transformar num humano...
Orochi: Mas eu não quero nada para além do que já sou.
Tekinamaru: Pois está bem, eu quero mais e vou pegar esse fruto pra mim...
Orochi: Foi você quem não entendeu nada...
Tekinamaru: Do que está dizendo, cobra-falante...
Orochi: você raciocinou tudo e não fez a pergunta certa.
Tekinamaru: Que pergunta?
Orochi: Vou considerar essa como a certa... e eis sua resposta: “Porque eu deixaria você vir livremente até aqui?”
Tekinamaru: Você me responde depois que eu pegar...
Tekinamaru, à medida que falava estende sua mão para pegar seu fruto, mas tanto o estender de sua mão, como sua frase não são concluídos. A ponta da cauda da serpente, pelo outro lado, pelas costas de Tekinamaru, se prende em um de seus pés, proibindo-o de se mover.
Tekinamaru: Mas o que é isso?
Orochi: Eu sou apenas um animal, desconheço presunção e ambição e odeio humanos, principalmente os como você, que querem tudo pra si, tudo o que tenho e sou devo à esta árvore e não permitirei que fique com uma parte sequer dela. Vê esta cauda que você mesmo feriu, ela será também a arma da sua derrota, sua e da sua ambição!
Antes que Tekinamaru pudesse dizer algo ou reagir, ele é lançado pelo pé do alto da árvore, a cobra apenas contempla tudo de lá de cima. Lá embaixo, os dois que ficaram conversam.
Koomesko: Kaguya, você que parece ter melhor visão, consegue enxergar algo?
Kaguya: Não, há um tempo não vejo meu irmão ou sequer a cobra, o brilho do fruto é intenso que ofusca tudo em meio às folhas verdes...
Quando de repente, ouve-se um forte estrondo, um pedaço de um galho gigantesco cai sobre Koomesko, que estava ao lado de Kaguya.
Kaguya: Koomesko...
Ao que a princesa percebe que ao lado também está o corpo de seu irmão, morto. Kaguya grita e sai correndo. Sua mãe que ficou o dia todo na área externa do palácio olhando para o Jardim, logo vê sua filha saindo dali, ela consegue ver a compleixão de sua filha que parece abalada e chorando. Amurabi vai desesperadamente ao encontro de sua filha.
Amurabi: O que aconteceu filha?? Onde estão seu irmão e o outro?
Kaguya: Mamãe, mamãe, chame os médicos, venha comigo por favor... eu não sei o que aconteceu.
Logo os médicos vêm, eles, Amurabi e Kaguya chegam ao local do acontecido, e se deparam com os dois corpos caídos. Os médicos confirmam a morte do príncipe, e o outro, embora muito ferido, ainda está vivo. Mãe e filha choram inconsolavelmente.
Fim do capítulo 1.
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