Linha de Colisão

1 Correção de Pratos Sujos


Capítulo I — Correção de Pratos Sujos

Por Carolina

Pais.

O mais difícil de ser professora de ensino médio com certeza é ter que lidar com pais insuportáveis, e, quando se trata de uma escola particular de elite num bairro nobre, aqueles que acham que pagam seu salário.

— Eu não pago seu salário todo mês pra você atrasar na correção de uma prova idiota. — Lembro do que fui obrigada a ouvir horas atrás de um dos pais.

Quase dei uma risada debochada na hora, mas o surto que tive ao comprar em dezoito vezes um iPhone, há três meses, me vem à cabeça. “Eu preciso pagar minhas contas”, era o que se repetia em looping na minha cabeça.

É, eu estou mesmo com as correções das provas atrasadas, mas minha vida tem sido tão turbulenta nesse último mês que preparar aula já podia ser considerado muita coisa nas minhas condições, e disso eu não tive como fugir.

Não estou falando que ser professora é o que eu mais odeio na vida, na verdade é tudo que eu sempre quis, mas no momento eu só estou enfrentando as dificuldades da minha profissão. História é minha paixão, mas ser professora de História numa escola onde a exigência é altíssima não tem espaço para dias ruins, menos ainda para um mês inteiro. E, antes que eu levasse um esporro do diretor, o coordenador da disciplina me lembrou que eu precisava fechar as notas de todas as minhas turmas até segunda-feira. Hoje é sexta, então tenho apenas dois dias para corrigir e lançar a média de mais ou menos 90 alunos.

Quando chego no prédio, passo um tempo dentro do carro na garagem, adiando minhas obrigações por alguns segundos. Pego o iPhone na minha bolsa e dou uma olhada nas notificações do meu whatsapp. As últimas mensagens me chamam atenção.

Bruno: Carol, vc se importaria em mandar o resto daquele Armani Code?

Solto uma gargalhada debochada, extremamente irritada. O que as pessoas estão tomando hoje? Meu ex namorado, que terminou um relacionamento de dois anos comigo depois de ter admitido que estava tendo um caso há seis meses, pediu pra eu devolver pra ele um perfume caríssimo que fui eu quem dei de presente pra ele. Releio a mensagem para ver se tem algum indício de brincadeira, mas não tem nada, então decido ignorar. Minha mãe pergunta como estou, eu respondo com um áudio dizendo que está tudo certo e pergunto como ela está. Vejo três mensagens do meu colega de apartamento e clico.

Rafael: teu namorado deixou um bagulho pra vc aqui

Rafael: eu trouxe uns amigos pra cá, beleza?

Rafael: amanhã quando cê chegar vai estar tudo limpo, prometo

Passo a mão no rosto e gemo de frustração. Que diabos Bruno tinha deixado pra mim? E por que o filho da puta do Rafael tinha chamado amigos pro nosso apartamento sem me consultar antes? Rafael, meu colega de apartamento, não faz uma resenha com um ou dois amigos, como uma pessoa normal, ele curte muito barulho, nunca chama menos de seis amigos pra casa e é extremamente desorganizado, de uma maneira totalmente irritante.

Reparo no uso do “namorado” e reviro os olhos, mas ele não tinha como saber. Meu relacionamento com Rafael é quase que apenas profissional, porque mesmo depois de seis meses dividindo o mesmo teto tudo que eu sabia sobre ele eram suas manias infernais e que era professor de Física na mesma escola que eu. Fernanda, também professora da escola, tinha um apartamento recém-desocupado num bairro próximo, mas longe o bastante pra evitarmos nossos alunos nos fins de semana.

Eu estava desesperada procurando um apartamento novo, o anterior possuía instalações muito antigas e tinha um novo vazamento a cada três dias. Quando Fernanda soube que eu estava procurando, imediatamente me fez uma proposta, mas estava muito fora do meu orçamento. Eu não planejava morar há quinze minutos de caminhada da praia, só queria um apartamento decente. Um dia, Rafael ouviu nossa conversa na sala dos professores e mostrou interesse em dividir o apartamento comigo, que, por acaso, tinha dois quartos. Essa foi a primeira vez que ele fez a proposta ridícula para que dividíssemos o apartamento, e depois do meu “não” incisivo na mesma hora, ele passou a tentar me convencer todos os dias.

Foi até engraçado. Todos os dias, Rafael deixava um envelope pra mim na sala dos professores com um papel listando os cinco motivos pra eu dividir o apartamento com ele. Ele usou de todos os artifícios possíveis, desde o apartamento incrível que teríamos numa região privilegiada do Rio de Janeiro, o que certamente é caro, até a apelação de cozinhar pra mim todos os dias, destacando que era um ótimo cozinheiro. Apenas aceitei depois de três semanas, no dia em que um buraco se abriu no teto do meu banheiro enquanto eu estava tomando banho. Cheguei na escola estressada, e assim que o vi concordei com o plano mais louco da minha vida: Morar com um cara que praticamente não conhecia. Mas, na medida do possível, tirando todas as manias que odeio dele, convivemos bem, ainda que todas as nossas conversas se resumam a coisas relacionadas a casa.

Me demoro um pouco dentro do carro porque sei que vou me estressar quando subir. Ao meu lado, na outra vaga do nosso apartamento, está a enorme Tucson 2020 grafite do Rafael, o que faz com que eu me lembre que ele está lá em cima cheio de gente. Com uma careta, me movo para fora do meu velho Nissan March 2012 preto. Sempre que vejo os dois carros juntos tenho a sensação de que o dele está engolindo o meu, como se fosse um tubarão engolindo um peixinho. Dessa vez, entretanto, eu era quem estava preparada para engolir meu colega.

Assim que saio do elevador no 7º andar escuto a cantoria vinda do meu apartamento e o barulho de violão. Ótimo, isso é tudo que alguém precisa pra corrigir provas. Me aproximo contra vontade das vozes cada vez mais altas e desafinadas. Pelos meus cálculos, tem cerca de seis pessoas no apartamento.

Merda.

Quando abro a porta, a música não para, ninguém parece notar minha presença. Dou de ombros e, depois de trancar a porta e mais uma vez não ser notada, vou até a cozinha sem falar com ninguém. A pia chama minha atenção, porque está extremamente cheia, diferente de como a deixei na hora em que saí, e o entorno está lotado de mais louças ainda, além de caixas e caixas de pizza vazias na bancada. Dou graças a Deus por esse apartamento ter a cozinha separada da sala, porque estou visivelmente puta. Me aproximo do caos que está a pia para começar a resolver, porque com a cozinha neste estado não tenho condições nem mesmo de preparar algo pra comer. Quando pego na esponja, ouço Rafael se aproximar.

— Merda, eu pensei que fosse dormir no Bruno hoje. — Ele diz, parecendo envergonhado. — Me desculpa por isso, Carolina, deixe isso aí, eu vou limpar amanhã.

Largo a esponja e viro em sua direção, que me encara nervoso, passando a mão nos cachos castanhos claros bagunçados.

— Bruno veio aqui hoje? — É a primeira coisa que pergunto, ignorando tudo que ele disse.

— Veio, te mandei mensagem avisando, não sei se viu.

— Vi. — Respondo, dando de ombros. — O que ele queria? Que horas foi isso?

— Umas cinco e meia. — Diz. — Cheguei em casa umas quatro e fui dormir, aí Cláudio interfonou perguntando se ele podia subir. — Assinto, fazendo um sinal para que ele prossiga. — Ele chegou com uma mala e pediu pra eu te entregar, deixei na sua cama. — Ele conta, e então para, parecendo se dar conta do que estava acontecendo. — Vocês terminaram. — Conclui. — Por isso ele pediu pra eu entrar no seu quarto pra procurar um perfume. — Ele sussurra mais pra ele do que pra mim, mas ouço bem.

— É o quê? Você pegou algum perfume no meu quarto pra dar pra ele? — Pergunto, puta, e minha reação só aumenta quando volto a ouvir os amigos dele voltando a cantar aos gritos.

— Não, eu não ia ficar fuçando suas coisas. — Ele responde, como se fosse óbvio.

Relaxo os ombros.

— Pois é, nós terminamos.

— E como você está? — Ele pergunta, me observando com preocupação.

Estudo sua expressão. Seria impossível não notar que Rafael é um cara bonito. O cabelo castanho claro cacheado está maior que o habitual, o que dá um toque de bagunçado, e pela primeira vez noto que seus olhos são bem bonitos, num tom de mel esverdeado. A barba é bonita, bem desenhada e bem aparada. Seus braços são fechados de tatuagens, nenhuma colorida. Ele está de calça de moletom cinza, e a camisa branca parece ter sido engolida por um leão raivoso, extremamente amarrotada. Ele continua me encarando, franzindo a testa, e por um momento esqueço da pergunta.

Como estou com o término, claro.

— Já tem quase um mês. — Viro novamente para a pia, e então lembro que estou com raiva. Os gritos vindos da sala e a louça enorme na pia e fora dela, ótimo.

Dou meia volta, me colocando de frente pra ele de novo.

— Você não pode concluir baseado em nada que vou dormir fora e fazer o que bem entender em casa, nós dividimos o apartamento, eu também moro aqui.

— Desculpa. — Ele passa a mão no cabelo, com uma careta de culpa. — Você não veio pra casa nas outras sextas. — Ele lembra. — Se tem mais de um mês... — Ele parece fazer um cálculo mental, estranhando.

Reviro os olhos.

— Não queria que me fizesse perguntar. — Confesso, virando novamente para a pia e começando a organizar a louça. — Ia pra casa do meu irmão ou de uma amiga minha.

— Você não tem que fazer isso, Carolina, só deixe aí que amanhã eu limpo. — Ele se aproxima, se colocando ao meu lado e desligando a torneira da pia.

— Qual é a necessidade dessa merda, aliás? — Pergunto irritada, apontando para o monte de louças. — Eu preciso fazer alguma coisa pra comer, não tenho condições de usar a cozinha nesse estado.

— Ainda tem pizza. — Ele aponta para as caixas de pizza na bancada, como se aquela fosse a solução para meus problemas. — Pode comer o quanto quiser.

Reviro os olhos e caminho desconfiada até a bancada. Dou uma olhada nas caixas e pego um pedaço da pizza de calabresa acebolada. Na primeira mordida, gemo de prazer. Rafael relaxa os ombros, antes um pouco tensos, e abre um sorriso irritantemente bonito demais, que a princípio me parece um pouco tímido. O barulho do violão e da cantoria voltam a soar, e, ainda com a pizza na boca, lanço um olhar matador para Rafael.

— Eu tenho que corrigir mais de noventa provas e lançar minhas médias no sistema da escola. Eu só queria que você tivesse sido razoavelmente sensato e me perguntasse se estava tudo bem fazer uma festa aqui hoje.

— Isso não é nem de longe uma festa. — Ele franze a testa.

— Foda-se. — Digo, de boca cheia.

— Desculpa, prometo que em uma hora está todo mundo em casa.

— Não precisa disso, não ligo que fiquem. Mas se puderem parar de tocar eu agradeço, porque, como falei, tenho trabalho pra fazer.

— Faltam muitas? — Ele pergunta.

— Todas. — Digo, forçando um sorriso debochado enquanto engulo um pedaço de pizza.

Rafael ergue as sobrancelhas e murmura um palavrão, então morde os lábios e fica quieto por alguns segundos, parecendo processar alguma coisa na mente.

— Não tenho compromisso amanhã, posso fazer as médias pra você e lançar no sistema da escola enquanto corrige as outras provas. — Ele oferece.

Olho para Rafael surpresa, mas nego com a cabeça.

— Por favor, deixa eu te ajudar, me sinto um idiota por ter chamado meus amigos pra cá sem te perguntar antes. Preciso fazer alguma coisa pra me redimir. – Ele protesta.

— Isso não é o suficiente? — Pergunto, apontando para o outro pedaço de pizza que peguei na caixa.

— Por favor. E eu meio que curto fazer contas, é uma terapia pra mim.

Faço uma careta.

— Professores de física são bem estranhos. — Faço uma careta. — Tudo bem, não estou em condições de recusar ajuda. — Me rendo, arrancando mais um sorriso dele.

E mais uma vez é um sorriso bonito.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.