Linha alternativa
2 Episódio 2: Elucidação
Notas iniciais
Acordei em um pulo, reprimindo um grito. Sentei ereto e arregalei os olhos. A noite passada havia sido muito surreal para eu acreditar que realmente tinha acontecido.
Olhei atentamente ao redor e reconheci o que meu quarto. Sentei na beira da cama e apoiei a cabeça nas mãos, tentando chegar à uma conclusão. Eu precisava descobrir o que fazer sobre ter visto um fantasma e ter escutado uma conversa estranha entre o diretor e o professor de fotografia da Max.
̶̶̶̶ O que diabos está acontecendo? – Perguntei em voz alta, levando a mão até a testa para checar minha temperatura. Eu podia estar delirando.
Procurei pelo meu celular até encontrá-lo em baixo da cama. Não me questionei o motivo dele ter ido parar lá, apenas procurei Warren em meus contatos e mandei uma mensagem a ele.
“Warren, vá para a cafeteria, mas é tipo... já!”
“O que aconteceu?” Revirei os olhos para o seu questionamento.
“Faz o que estou falando te encontro lá.”
Não esperei pela resposta e corri até o banheiro. Apesar de estar chocado com a aparição de um fantasma no meu quarto, o ato de tomar banho sempre me acalmava e me ajudava a organizar os pensamentos. Alguns garotos já estavam no corredor, como de costume. A maioria estava pronta para as aulas, mas alguns ainda pareciam semi-acordados, encostados nas paredes de cueca.
Enfiei-me na primeira cortina desocupada e liguei o chuveiro. A ducha de água quente relaxava vagarosamente os meus músculos, fazendo-me perceber o quanto eu estava tenso. Escovei os dentes e deixei a água escorrer por alguns segundos, trazendo-me calmaria. Ao terminar o banho, amarrei a toalha na cintura e corri até o quarto, deixando que os pequenos detalhes que eu gostava de reparar para trás.
Vesti uma camiseta estampada, uma das minhas preferidas que, carregava consigo, uma enorme frase em português. O “Você não devia entender isso” destacava-se no tecido escuro. Coloquei minha calça jeans preferida e um casaco por cima. Coloquei o sapato e me olhei no espelho. Sentia-me pronto para reiniciar a corrida.
Fui diretamente para a cafeteria, deixando a mochila no dormitório com a certeza de que voltaria para pegá-la antes do início das aulas. Esperava encontrar Warren já lá, minha impaciência não me deixaria esperá-lo por mais que dois minutos.
Blackwell tinha uma cafeteria, mas a grande maioria dos alunos preferia descer até a praia para visitar uma pequena lanchonete chamada “Duas baleias”, já que os preços de Blackwell eram um absurdo.
Era um local muito grande, várias mesas longas de madeira revestidas de mármore ficavam verticalmente localizadas para os alunos se sentarem, à direita a tia da cantina, juntamente com a mulher do caixa distribuíam os lanches, as paredes eram vermelhas iguais ao lado de fora e o revestimento do chão era branco.
A cafeteria costumava ficar mais cheia depois das nove da manhã quando os alunos obrigatoriamente precisavam estar totalmente despertados e prontos para mais um dia intenso de estudos. Warren estava solitário, sentado em uma das últimas mesas do local. Um pedaço de pão descansava pacientemente em uma de suas mãos, ele parecia extremamente sonolento.
̶̶̶̶ Warren! – Coloquei as duas mãos sobre a mesa enquanto me acomodava no imenso banco, ele arregalou os olhos em um sobressalto.
̶̶̶̶ Bom dia para você também. –Ele falou com a voz totalmente desunificada por causa do sono.
̶̶̶̶ Você não acredita no que aconteceu ontem à noite. – Falei, com as sobrancelhas arqueadas e com a voz um tanto quanto tremida.
̶̶̶̶ O que? – Ele não demonstrava curiosidade.
̶̶̶̶ Olha, sei que isso pode parecer loucura, mas ontem a noite tinha um fantasma no meu quarto e ele me guiou para fora. Eu surpreendi Mark Jeferson e o diretor falando sobre o Nathan e sobre jogar pessoas em algum lugar, algum lugar horrível. – Eu falei de forma rápida, em um sussurro. Warren me olhou como se eu fosse louco.
̶̶̶̶ Você deve ter sonhado ou esquecido de tomar seus remédios. – Um leve sorriso dominava seus lábios irônicos.
̶̶̶̶ Eu juro! Eu até ia te mandar uma mensagem, mas aí a fantasma praticamente me obrigou a segui-la.
̶̶̶̶ Ela te obrigou a segui-la? – Ele serrou os olhos mais ainda afastando o corpo da mesa.
̶̶̶̶ É! Ai eles tavam falando do Nathan e tudo o mais... – Eu praticamente supliquei pra que ele acreditasse em mim.
̶̶̶̶ Eu tenho que ir ali, acho que ouvi a Mrs. Grant me chamando... – Ele levantou e quase foi se afastando quando agarrei seu braço antes que fugisse.
̶̶̶̶ Acredite em mim, Warren, por favor! Eu sei que parece loucura, mas cara, aconteceu, eu juro!
̶̶̶̶ É... Sim, realmente aconteceu, mas eu tenho que ir ver a Mrs. Grant agora. Nada pessoal. – Ele olhou de esguelha para a porta, como se tivesse calculando quanto tempo ele demoraria para correr até ali e fugir de mim e do meu cérebro perturbado. Continuei segurando seu braço.
̶̶̶̶ É sério, acredite em mim. –Olhei implorando com os olhos para que ele acreditasse. Warren olhou ao redor então sentou-se novamente.
̶̶̶̶ Tudo bem, digamos que seja verdade. – Eu assenti com a cabeça. – O que ele disse exatamente?
̶̶̶̶ Ele disse que precisa achar alguém, e que tem uma criatura e que essa criatura nunca está satisfeita. E ela só ficará quando acharem esse tal alguém.
̶̶̶̶ Okay, mas o que nós vamos fazer? Interrogar o diretor em cima dessa história?
̶̶̶̶ Eu não sei, mas eu sei que aquele fantasma não apareceu para mim por acaso do destino, tem algum motivo, e eu vou descobrir o porquê. – Bati algumas vezes em minha testa tentando pensar no que fazer. E, de repente,deparei-me com um pedaço de papel em uma coluna não muito distante. Levantei-me rapidamente e fui buscar seja lá o que fosse. Era um cartaz de desaparecido, estampado uma garota de nome Rachel Amber. Warren me seguiu e observou o papel, com um sorriso de lado, meio entristecido.
̶̶̶̶ Ela era muito bonita. – Ele disse, inclinando-se acima do papel.
̶̶̶̶ Warren... – Eu gaguejei um pouco. – Veja a tabela de desaparecidos de Arcadia Bay! – Ele pegou o notebook rapidamente, nos sentamos novamente. Enquanto eu esperava, senti que aquilo era uma pista.
̶̶̶̶ Nossa! – Sua expressão mostrava surpresa e temor. Ele virou o monitor para mim. – Mais de cem pessoas desapareceram apenas nesse mês! Em sua maioria, garotas. Coloquei a mão na boca um pouco surpreso pelo resultado.
̶̶̶̶ O que diabos está acontecendo? –Cochichei com medo. Aquilo para mim era a prova definitiva de que eu não estava ficando louco, e por alguma razão e de alguma forma eu realmente vi um fantasma ontem.
̶̶̶̶ Isso pode ser uma coincidência...
̶̶̶̶ Não, isso não é coincidência. Acredite, eu iria amar se fosse.
̶̶̶̶ O que fazemos agora? – Ele soltou uma grande quantidade de ar pela boca.
̶̶̶̶ Você é o gênio aqui.
̶̶̶̶ Poderíamos chamar a polícia. – Minha risada saiu carregada de desespero, mesmo a intenção sendo carregá-la na ironia.
̶̶̶̶ E o que a gente vai falar? Que eu vi um fantasma? – A ideia parecia tão absurda que eu até comecei a gesticular com os braços. – Ou que tem muita gente desaparecendo?!
̶̶̶̶ Calma cara, isso não é o fim do mundo.
̶̶̶̶ Tudo bem, desculpa. É que eu duvido que eu nunca mais vá vê-la. – Warren elevou a mão direita até o queixo e se pôs a pensar.
̶̶̶̶ Vou tomar meu café. Já venho. –Levantei-me e fui até a moça do caixa.
̶̶̶̶ O que você vai querer? – Ela demonstrava cansaço e apatia. Sua voz era mole e chegava a dar sono.
̶̶̶̶ Um café forte e um misto quente.
̶̶̶̶ Forte? Vejo que você gosta mesmo do negócio. – Ela deu um meio sorriso.
̶̶̶̶ É, acho que está no sangue. – Os lanches ficavam prontos e descansavam em uma espécie de vitrine, que os mantinha aquecido. Paguei e voltei para um Warren que estava perdido em pensamentos juntamente com seu notebook. Rezei para que aquele café não tivesse gosto de chá, como alguns outros. – E então?
̶̶̶̶ Olhe, veja se você reconhece alguma dessas. – Ele apontava para algumas fotos no computador. Visualizei atentamente, olhando cada detalhe e tentando ver se alguma das garotas me recordava algo.
̶̶̶̶ Essa! – Apontei assim que reconheci o fantasma em uma das fotos. Ela tinha cabelos vermelhos, cacheados e algumas sardas pelo rosto. Ele clicou duas vezes na imagem e logo as informações apareceram.
̶̶̶̶ Emily Costa Dias. – Ele começou a ler. – Dezoito anos, cinquenta quilos, um e quarenta e cinco de altura. – Dei de ombros e Revirei os olhos para as informações que não eram tão importantes. – Estudante de artes na Blackwell, aluna exemplar. Possui uma cicatriz no joelho. Nacionalidade brasileira.
̶̶̶̶ Tá, isso é suficiente para mim! – Exclamei assim que ouvi o ultimo dado.
̶̶̶̶ Nossa, ela é brasileira também. – Voltei para meu misto e comecei a devorá-lo enquanto tomava goles daquele café fraquinho.
̶̶̶̶ Meu Deus! Será que ninguém sabe fazer um café nessa cafeteria? – Murmurei em português.
̶̶̶̶ Estou começando a acreditar em você. Isso é assustador pra cacete. –Warren falou encarando a tela do notebook.
̶̶̶̶ Acho que já está na hora das aulas. Vejo você na aula de química. – Despedi-me, quase engolindo o pão inteiro.
Voltei para o meu dormitório, focando em pegar a mochila que tinha, estupidamente, deixado lá. O velho Samuel estava sentando em um dos bancos e tranquilamente alimentava alguns pássaros que ficavam na região. Ele divergia do restante das pessoas por acreditar em espíritos animas e coisas relacionadas ao sobrenatural. Eu me sentia calmo com sua presença e também sentia-me confortável ao conversar com ele.
̶̶̶̶ Oi Samuel.
̶̶̶̶ Ah, olá pequeno Guilherme. – Uma das coisas que eu mais gostava no Samuel é que ele era um dos poucos que falavam meu nome corretamente, os outros quase enrolavam a língua para tentar reproduzir o som, coisa que me fez adotar o apelido Gui.
̶̶̶̶ Tudo bem com você? – Perguntei, tentando achar o momento certo para entrar no assunto.
̶̶̶̶ Sim, apenas estou dando comida aos animais, eles vêm todas as manhãs para poderem se alimentar.
̶̶̶̶ Sim, elas parecem adorar quando você as alimenta.
̶̶̶̶ Sei que você não está aqui por causa dos pássaros, então, o que você gostaria de me perguntar? – Fiquei meio surpreso por ele ter notado que eu não estava ali apenas de passagem, mas não dei bola no momento.
̶̶̶̶ Você conheceu uma garota chamada Emily? Ela era brasileira também e desapareceu há algum tempo.
̶̶̶̶ Sim, eu era muito amigo da Emily, ela era uma garota muito atenciosa e destemida.
̶̶̶̶ Sério? Você soube algo dela?
̶̶̶̶ Não, ela simplesmente desapareceu, igual a Rachel. – Eu demonstrava animação, ele, por sua vez, demonstrava decepção.
̶̶̶̶ E as autoridades? O que elas disseram sobre a investigação?
̶̶̶̶ Nada, eles simplesmente desistiram de procurar. Duvido muito que tenham começado.
̶̶̶̶ É só isso?
̶̶̶̶ Não, não é só isso, mas não posso explicar o que realmente aconteceu com ela, no entanto, posso te indicar o caminho. Você já ouviu falar do livro “A coruja, a borboleta e a corça”?
̶̶̶̶ Não, por quê?
̶̶̶̶ Acho que esse livro pode ser muito... Revelador. – Ele falou com um sorriso enquanto balançava a cabeça, parecia escolher bem as palavras.
̶̶̶̶ Você acha que ela pode ter sido morta por aquele tal lobo? – Os noticiários não falavam de outra coisa a não ser do estranho lobo cinza que estava aparecendo aos arredores da baia.
̶̶̶̶ Não, eu não acho. As pessoas às vezes ficam assustadas pelo exterior quando na verdade o verdadeiro monstro é aquele que vive dentro de nós.
̶̶̶̶ Ele é um lobo, Samuel. Ele age por instinto, não que ele seja um monstro, é apenas o jeito que ele tem de viver. – Ele deu uma leve risada como se estivesse discordando.
– É do intuito das corujas apenas observar e alertar, mas mesmo assim eu conheci uma que tem mais coragem que vários leões.
̶̶̶̶ Eu odeio corujas.
̶̶̶̶ É engraçado ouvir você dizer isso. — Ele riu levemente.
̶̶̶̶ É sério, elas ficam na escuridão apenas observando, como se fossem verdadeiras intrometidas. Só de pensar naqueles olhos me fitando fico arrepiado.
̶̶̶̶ Corujas alertam o perigo, quando você ver uma tenha certeza que algo ruim irá acontecer, mas elas também são guias, pois não são afetadas por ilusões. Quando as trevas parecerem tão densas a ponto de ofuscar sua visão, apenas as siga, elas mostrarão um caminho seguro. – Fiquei pensativo por alguns segundos e dei de ombros. Despedi-me do velho Samuel e corri até o dormitório, apanhando minha mochila e materiais.
Ao seguir para a aula de inglês, deparei-me com a imagem do Diabo e da infelicidade. Victoria Chase me esperava na porta, como sempre, para zombar de mim como de costume.
̶̶̶̶ Ora, ora, ora. Vejamos o que temos aqui, se não é o macaquinho de Blackwell... Não está na sua hora de comer banana? – Courtney e Taylor riram.
̶̶̶̶ Será que dá para me deixar passar? – Segurei-me para não provocar uma briga. Ela fez uma péssima imitação de macaco e fechou a cara pra mim.
– Por que você não usa uma de suas estripulias e dá o fora daqui? Ou pode usar seu talento nato para achar outro caminho para a sala. – Sua cara de nojenta me dava nos nervos, desde quando a vi impedindo a Max de entrar no dormitório. Eu, com certeza, não tinha chance com aquelas três, aliás, eu não tinha chance contra ninguém naquela escola.
̶̶̶̶ Por favor, será que dá para sair do meu caminho? — Supliquei de uma forma um tanto quanto arrogante.
̶̶̶̶ Deixe-me pensar... NÃO. – Ela e as outras duas hienas voltaram a rir.
̶̶̶̶ Okay, eu nem queria estudar mesmo. – Dei de ombros.
̶̶̶̶ Claro que não, agora suma daqui. Essa sua cara de pateta está me tirando do sério. – De repente, a porta se abriu e o professor apareceu.
̶̶̶̶ O que está acontecendo aqui?
̶̶̶̶ Nada, eu apenas estou passando o tempo. – Victoria respondeu sorridente.
̶̶̶̶ Então vá passar o tempo em outro lugar. – Ele as empurrou levemente.
Abri um sorriso por aquela vez eu não precisar perder a aula, segui até ser barrado na porta pelo mesmo professor.
̶̶̶̶ Desculpe você está atrasado, então não pode entrar. – Ele bateu a porta e voltou para dentro. Nem tentei contestar, apenas desisti e voltei para o dormitório.
Tirando esse evento, o dia foi um daqueles que passou como uma bala. Eu não consegui prestar atenção em nada do que estava sendo explicado já que maioria dos alunos apenas falavam sobre fofocas do que aconteceu ontem. Era meio impossível não pensar na Max, já que todos ficavam falando daquilo sem parar.
O sinal tocou anunciando o fim da aula e eu e o Warren voamos para o carro para podermos ir visitar a Max e a menina de cabelo azul. O carro do Warren também era azul, o modelo pra mim era indiferente, pois eu não conhecia muito sobre carros. Enquanto ele dirigia, eu deixei meus pensamentos voarem pra longe de mim.
–Você gosta da Max? — Warren perguntou um pouco tímido.
– Que tipo de pergunta é essa? — Olhei surpreso.
–Você gosta dela? — Ele levava um semblante triste.
–Warren...
–Apenas responde, você gosta dela? — Ele interrompeu.
–Sim, olha, eu gosto da Max.-Warren ficou sem falar nada e apenas mordia o lábio inferior como se andasse pensativo. — Tudo bem? — Perguntei um pouco acanhado.
–Sim, claro, eu acho que vocês formam um lindo casal juntos. -Nem precisava comentar o quanto era triste vê-lo falando daquela forma, eu sabia que ele também gostava da Max, mas mesmo assim ele não demonstrou me ver como um oponente pelo amor dela.
–Vamos apenas não falar sobre isso, ok?
–Por mim está ótimo.
A viagem seguiu em silencio até pararmos na frente daquele imenso hospital. Minhas mãos tremiam e eu sentia minha testa completamente suada de preocupação, Warren parecia estar apenas um pouco menos nervoso do que eu.
Entramos no prédio e logo de cara encontramos Max, sentada ao lado de uma mulher que estava vestida igual a uma garçonete. Max ainda estava com a mesma roupa do dia anterior e parecia anestesiada, ela não estava chorando, mas também não parecia estar calma. Meu coração estava a um milhão por hora enquanto eu a observava, sentia como se borboletas estivessem voando dentro do meu estômago enquanto sentia minha temperatura subir.
̶̶̶̶ Gui! – Max se levantou e veio ao meu encontro se jogando em meus braços. Nesse momento eu quase desmaie de emoção, aquele abraço que eu me encontrava era forte e quase como um pedido de socorro – A Chloe, ela está muito mal!
̶̶̶̶ Não se preocupe Max, eu estou aqui, ok? Nada de ruim vai te acontecer! – Retribuí o abraço enquanto quase chorava junto com ela.
̶̶̶̶ Eu te amo! – Ela disse aos prantos. O tempo literalmente parou após ela ter dito aquilo, um sorriso misturado com choro tomou conta do meu rosto enquanto eu apenas falava, “Eu também te amo Max”.
̶̶̶̶ Vamos! – A sacudidela do Warren fez-me voltar a prestar atenção e perceber que tudo aquilo estava na minha cabeça. Olhei ao redor e abaixei a cabeça para dispersar a timidez.
Warren me puxou e nos aproximamos das duas. A mulher estava quieta e com um papel na mão o qual usava para enxugar as lágrimas enquanto Max estava com os cotovelos sobre seus joelhos e um pouco inclinada para frente.
̶̶̶̶ Como a Chloe vai? – Warren falou com certa naturalidade. Ambas se viraram para nós com aquelas caras de “Quem são vocês?”.
̶̶̶̶ Mal, mas ela pode ficar bem. E vocês são amigos da Chloe? – A mulher falou um pouco abalada, mas tentando se mostrar feliz ou no mínimo estabilizada.
̶̶̶̶ Ela vai, Joyce. – Max se aproximou e deu-lhe um abraço.
̶̶̶̶ Não, somos apenas estudantes de Blackwell, ficamos preocupados com que aconteceu. Foi horrível.
̶̶̶̶ Esse é o Warren, Joyce. – A morena disse intervindo na conversa.
̶̶̶̶ Prazer, Joyce Price. – Ela esticou a mão para cumprimentá-lo – E você? – Ela olhou curiosa para mim.
̶̶̶̶ Guilherme. Guilherme Silva Soares. – Falei rapidamente, escondendo minha timidez e também a cumprimentando.
̶̶̶̶ Um nome bem diferente, você é estrangeiro? – Ela deu um pequeno sorriso.
̶̶̶̶ Sim, eu vim do Brasil.
̶̶̶̶ Oh, minha ideia de brasileiro era um pouco diferente, mas... Foi bom te conhecer. – Ela desconversou no final. Olhei timidamente para Max e pensei em cumprimentá-la, mas sem sucesso.
̶̶̶̶ Como a Chloe está? – Ele indagou outra vez.
̶̶̶̶ Os médicos disseram que ela está estável, mas ainda não pode receber visitas. – Joyce falou passando o papel em seus olhos borrados de maquiagem.
̶̶̶̶ Que barra... – Warren se acomodou em uma das cadeiras ao lado de Joyce deixando a cadeira ao lado da Max vazia. Resolvi não desperdiçar a oportunidade e fui calmamente me aproximando, a garota voltou a pose inicial e ficou pensativa, ela não parecia nem mesmo notar minha aproximação. Sentei-me rapidamente ao lado dela e tentei não cometer gafes.
Aquela era a sensação mais intensa que eu já senti, a minha vontade era de abraçá-la e senti-la perto de mim, e aquela sensação de estar tão perto dela fazia meu coração bater ainda mais forte. Levantei minha mão muito cuidadosamente e tentei colocá-la sobre os ombros dela, fazendo aquele velho e clássico gesto de conforto entre amigos. Engoli seco e continuei a me aproximar com um muito medo da possível reação, assim em um minuto minha mão pairava sobre sua jaqueta que tinha uma malha fina e muito suave, era quase como se estivesse tocando em sua pele, assim quem sentiu o toque Max virou-se lentamente para mim com sua cara de tristeza, seu olhar se encontrou diretamente com os meus fazendo aquela pausa entre suas palavras e seu olhar se tornasse uma eternidade, uma eternidade que eu não queria que acabasse.
̶̶̶̶ Você está bem? – Ela perguntou mudando sua feição.
̶̶̶̶ H-h-um? – Gaguejei.
̶̶̶̶ Você está vermelho. – Completou.
̶̶̶̶ Sim, estou melhor com Max, e Chloe. – Nem mesmo eu havia entendido o que tinha dito, o que a fez pedir para que eu repetisse.
̶̶̶̶ Eu es-tou ó-ti-mo. E você?
̶̶̶̶ Eu estou bem. — Ela fez uma cara de estranhamento.
̶̶̶̶ Que bom. – Retirei minha mão rapidamente e virei-me para o outro lado evitando contato visual. Eu fiquei um bom tempo pensando em sair dali voando e nunca mais aparecer, até que percebi que havia esquecido de respirar. Fiquei ofegante por uns momentos e após me recuperar puxei assunto outra vez. ̶̶̶̶ Onde estão seus pais? – Eu ainda estava de cara virada e tentava diminuir minha timidez.
̶̶̶̶ Eles não estão aqui, estão em outra cidade. – O doutor passou pela porta e veio em nossa direção interrompendo minha próxima pergunta.
̶̶̶̶ Doutor? – Todos se levantaram com minha exceção.
̶̶̶̶ Olha, vocês terão que ser fortes... — Assim que ele disse essas palavras eu saquei o que tinha acontecido.
̶̶̶̶ Não... – Joyce se afastou até encostar na parede, e começou a chorar.
̶̶̶̶ Nós tentamos de tudo, mas ela não resistiu e faleceu há alguns minutos. -Ele olhou para baixo com uma cara de culpa.
̶̶̶̶ Não! – Max entrou em negação também, se encolhendo perto de uma parede e chorando. Corri para seu lado trocando toda minha timidez pela dor de vê-la sofrer.
̶̶̶̶ Desculpe-me, Max. Talvez eu pudesse... – Sentei-me ao seu lado e lhe dei um abraço bem forte e apertado enquanto Warren tentava consolar Joyce que estava aos berros.
̶̶̶̶ Chloe por quê? Não, por favor, não! – Max continuava enquanto me abraçava o mais forte que podia.
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