Linha alternativa

5 Episódio 5: Volta à realidade


Notas iniciais
e-e, sei que demorou, mas esse capítulo foi difícil e sofremos várias anomalias que atrasaram o capítulo, e vou explicar o que aconteceu. 1- Nossa beta está um pouco enrolada, não pode betar, então eu betei por mim mesmo, então desculpa se contiver erros no texto. Espero que entendam e por favor os aponte, assim poderei corrigi-los. 2- Esse capítulo ficou muito grande, assim, toda a ação ficou para a outra parte, então, me desculpa se esse capítulo não for tão fenético quanto os outros, mas prometo que vou compensar isso nos próximos. 3- Estava com muita preguiça. Logo, não poderia escrever, então, me desculpem. É isso, comentem e espero que gostem da leitura, tivemos várias mudanças da ideia original nesse capítulo então espero que gostem. e-e

Entrei no quarto do Warren que, como era de se esperar, estava bagunçado e cheio de coisas geeks. As paredes eram azuis, assim como seu edredom. Algumas mini espaçonaves estavam hasteadas por uma linha e, no chão, havia um grande e lindo carpete com a estampa de um cubo mágico.

̶̶ Não pode ser! – Ele exclamou, enquanto lia algo na internet.

̶̶ Warren... É a hora daquela conversa séria. – Achei que eu precisaria ser sincero com ele antes de começarmos. Tentei sentar na cama quando ele me parou com a mão.

̶̶ Ok. E não! – Ele me empurrou levemente. – É melhor você sentar aqui! – Completou, puxando um banco. Dei de ombros e sentei-me.

̶̶ Então, isso vai ser bem difícil. – Respirei fundo. Se eu já tinha sido, indiretamente, chamado de louco por ele apenas com a história da Emily em meu quarto, essa coisa de voltar ao tempo seria pior. Ele me fitava, curioso.

̶̶ Anda logo, Gui!

̶̶ Eu já disse, mas vou repetir a novidade. Eu posso voltar no tempo! – Como eu já tinha jogado essa história no ar mais cedo, achei que seria mais fácil dele acreditar.

̶̶ Então você estava falando sério. – Ele mudou sua expressão para apatia. – Achei que fosse só uma piada interrompida pelo professor da Max. – Ele voltou-se para o computador, meio desinteressado.

̶̶ Eu estou falando sério. – Quase gritei. Ele me encarou por um momento e logo percebeu que a minha cara não era das melhores. Eu estava jorrando frustração.

̶̶ Certo. Vamos fingir que você realmente tem esses poderes, e daí?

̶̶ Agora vem a parte que as coisas realmente começam a ficar esquisitas. – Respirei, apoiando a testa na mão. – Hoje à noite, um fantasma vai aparecer pra mim.

̶̶ Como assim “um fantasma”?! – Seus olhos estavam arregalados.

̶̶ Eu sei que parece loucura, mas, Warren, vai acontecer. O nome dela é Emily e é uma das várias pessoas que está desaparecida. – Enquanto falava, gesticulava com as mãos na tentativa de passar seriedade.

̶̶ Cara, você já pensou em ir a um psicólogo ou algo parecido? Existem pessoas especialistas para cuidar de casos assim. Uns médicos, sabe?

̶̶ Eu posso provar! Abra a lista de desaparecidos da Arcadia Bay, tem milhares apenas nesse mês! – Warren voltou-se para o computador e abriu o link com a tal lista.

̶̶ É uma cidade pequena, Gui. Nada de mais acontece aqui. – Virou o notebook para que eu desse uma olhada.

Mágica ou misteriosamente, não havia desaparecido algum. Todos os nomes haviam simplesmente evaporado da página.

̶̶ Mas isso estava cheio ontem... quero dizer, amanhã. – Ele parecia confuso, eu mais ainda.

̶̶ Amanhã?!

̶̶ É, eu tinha vivido até amanhã, só que... Eu simplesmente acordei na aula de ciências novamente, como se tudo fosse um sonho.

̶̶ Já parou para pensar que talvez tenha sido um sonho? – Ele reafirmou, preocupado. Neguei com a cabeça enquanto pensava sobre os desaparecidos.

̶̶ Espera, a Rachel está desaparecida, não está?

̶̶ Sim, ela está. – Ele liberou uma expressão igualmente confusa enquanto chegava ao ponto que eu queria. – Ok, isso é realmente estranho, mas o resto pode ter sido apenas um sonho.

̶̶ Não, Warren. Eu senti cada minuto daquilo, era real, eu juro. A Chloe, eu a vi morrer... Eu vi a Max chorado, eu até sonhei. Eu sonhei, cara. Eu sonhei acordado dentro de um sonho?! – Levantei uma das sobrancelhas. – Como isso é possível? – O estresse me alcançava aos poucos, levantei-me da cadeira com uma vontade gigantesca de gritar.

̶̶ Gui, você está se ouvindo? Você tem que se acalmar!

̶̶ Tudo bem, vou me acalmar. Vou respirar bem fundo... – Fiz assim como falei e passei a mão sobre o rosto, tentando recuperar meu raciocínio. – Olha, se eu estiver louco, a Emily não vai aparecer pra mim hoje à noite. Tudo que aconteceu no meu sonho está acontecendo novamente, então se eu estiver louco, ela não irá aparecer.

̶̶ Eu não estou entendendo mais nada. – Ele bufou e voltou-se para o computador, levantando as mãos em sinal de desistência.

̶̶ Nem eu, Warren.

̶̶ Você jura que não está tentando fazer uma dessas piadas de brasileiros? – Eu dei uma risada rouca, quase maníaca.

̶̶ Eu juro. Olha nos meus olhos, cara. Parece que eu estou bem? Eu desmaiei em cima de sangue no meio do pátio depois de ter quase me matado tentando salvar a Chloe. – Eu estava muito agitado e meu coração palpitava de tanta adrenalina. Ideias iam e vinham, sem parar, todas desconexas e confusas.

̶̶ Vamos começar do início. Conte-me tudo que aconteceu. – Sentei-me novamente e, depois de me acalmar, contei tudo nos mínimos detalhes.

(...)

Acordei em um sobressalto e, assim que recuperei meus sentidos, reparei que estava no quarto do Warren. Meu coração estava acelerado e eu me sentia estranho. As coisas estavam apenas avançando, voltando e eu acordava e desmaiava diversas vezes durante aqueles dias.

Assim que elevei meu rosto, pude ver no reflexo do espelho um vulto sentado no sofá. Gelei. No fundo, eu sentia que era Emily. A pele dela ainda emanava a mesma sensação da última vez, só que agora estava ainda mais forte. Virei-me vagarosamente, parando ao encará-la. Olhei para o lado e vi Warren dormindo em cima de vários livros de geografia e aquecimento global.

̶̶ Warren! – Joguei-me de joelhos ao lado da cama enquanto o chacoalhava, tentando acordá-lo. Não obtive sucesso, era como se ele estivesse morto.

̶̶ Fique quieto! – Uma voz moribunda, fraca e chorosa esperneou. Era Emily, que parecia bem assustada. – Ela está vindo, você vai revelar nossa localização.

̶̶ Emily, eu sei sobre Arcadia Vil! – Tentei falar mais baixo. Virei-me pra ela e fui me aproximando com a mão na frente do corpo. – Onde fica?

̶̶ Aqui. Ela está aqui! – Novamente ela atravessou a porta, indo para algum outro lugar.

Dessa vez não hesitei em segui-la. Saí do quarto e notei que as coisas estavam mais cinzas que da última vez, além do céu estar escuro, sem estrelas ou a lua. Segui até a saída e cheguei ao mesmo ponto, na virada do dormitório de Blackwell, mas não havia ninguém. Estava silencioso, enquanto um fantasma de cabelos que cobriam o rosto, apontava-me para a porta do diretor.

Apressei-me e coloquei meu ouvido sobre a porta. Lá dentro, eu pude ouvir alguém sussurrando algo. Algo em... Élfico? Élfico era uma linguagem falada em um jogo eletrônico chamado Grand Chase, o qual eu era viciado. Claramente era parecido com uma das frases que Lire, a arqueira do jogo, dizia. Mas eu não pude distinguir qual era.

Algo se aproximava, não uma pessoa. Algo maligno, perigoso, de alma fria que fazia todo o chão se transformar em gelo. Minha respiração ficou ofegante e, do nada, alguém sussurrou em meu ouvido.

̶̶ A coruja. Ela é a resposta! Só ela pode fugir de Arcadia Vil! – Depois de prestar atenção, corri para o meu dormitório, adentrando o quarto e me jogando em baixo das cobertas. Eu sentia que precisava dormir para fugir, eu precisava adormecer antes que a criatura me achasse ali.

Alguém se aproximava, não uma pessoa, algo maligno algo perigoso, algo que tinha uma alma fria que fazia todo o chão se transformar em gelo. Minha respiração ficou ofegante do nada e a alguma coisa sussurrou em meus ouvidos algo como:

Ouvi seus passos no corredor, ela se aproximava, lentamente, como que se deliciando com o meu medo. Preguei meus olhos e comecei a oras, eu sabia que não daria tempo de dormir, não com toda aquela tensão. Encobri-me completamente e continuei a orar, enquanto pedia aos céus eu acordasse.

̶̶ Por favor! – Clamei.

A criatura abriu a porta, fazendo um rangido estridente e velho enquanto seus passos davam o indício de que ela estava cada vez mais próxima da minha cama. Minha respiração acelerou ainda mais e eu só pedia para acordar, eu piscava compulsivamente meus olhos, como se tentasse sair de um sono, mas parecia inútil.

Ela então parou, esperando o momento certo para dar o bote. Eu senti que era o meu fim, talvez eu fosse desaparecer que nem aquelas pessoas, talvez era o que tinha acontecido. Ela tocou o meu edredom e puxou-o vagarosamente.

̶̶ Como você veio parar aqui?! – A voz de Warren me despertou. Abri os olhos e contemplei, com alegria, a luz da manhã. Respirei fundo e coloquei-me sentado. – Como você veio parar aqui? – Ele repetiu a pergunta, claramente preocupado.

̶̶ Não sei. Acho que vim andando. – Warren estava totalmente desconfiado da minha sanidade, se eu contasse a experiência da noite passada, com certeza ele afirmaria com maior convicção que eu estava insano.

̶̶ Certo. Eu fiquei preocupado, você não parece nada bem. – Dei de ombros e abaixei a cabeça.

Eu não sabia mais o que falar. Minha mente voava e eu parecia apenas estar entre duas realidades, como se eu estivesse vendo uma fita onde eu, mesmo torcendo para que ela mudasse, ia exatamente onde minha mente mandava. Era como se eu estivesse refém do meu próprio corpo.

̶̶ Obri... – Uma mensagem apitou em meu celular.

–Ok. Eu fiquei preocupado, você não está nada bem.

̶̶ Obri... – Uma mensagem chegou em meu celular, fazendo-nos desviar a atenção.

“Está desocupado agora?” Era Mark Jefferson, provavelmente me cobrando sobre o café da manhã.

̶̶ Quem é?

̶̶ É o Mark, eu marquei de tomar café com ele. – Warren lançou mais um de seus olhares desconfiados. – Ele quer saber mais sobre o Brasil e eu concordei em falar, só isso. – Respondi-lhe.

̶̶ Sei... – Ele deu um sorriso maléfico. – Não se esqueça dos nossos planos pra hoje à tarde antes da aula da Mrs. Grant. – Foi retirando-se do local.

̶̶ Planos?

̶̶ Sim, nós íamos assistir Planeta dos Macacos juntos hoje, não íamos?

̶̶ Sim, claro. Hoje à tarde! Nós vamos nos entupir de pipoca até que não nos aguentemos mais de tanto sódio.

̶̶ Esse é o espírito! – Fez um sinal positivo com a mão enquanto seguia para a cafeteria.

Levantei-me e peguei o que precisava para um banho, seguindo pelo corredor. Quietamente, sem pressa. Como era de se esperar, as pessoas estavam exatamente nas mesmas posições, confirmando minha teoria de ter voltado no tempo.

Tomei meu banho e decidi dar-me ao luxo de vestir o mesmo look pela segunda vez. A mesma calça, camisa e jaqueta. Era como se eu estivesse vivendo um déjà vu infinito. Depois de estar pronto, lembrei-me que deveria responder a mensagem, a demora devia ter feito Mark pensar que eu o tinha ignorado.

“Desculpe a demora. É claro que estou desocupado.”

“Venha para a entrada, posso te dar uma carona”. Ele respondeu logo em seguida. Respondi uma confirmação e segui.

Aquela história de café da manhã ficava, a cada minuto, mais insinuativa, mas, mesmo assim, decidi não dar bola.

Quando cheguei à grandiosa entrada de Blackwell, pude ver o professor de Max encostado num carro de novo modelo. Ele brincava com as chaves do veículo e batia o pé na calçada de pedra, como se estivesse entediado com a minha demora. Quando me viu, abriu um sorriso, expondo os dentes brancos e perfeitos, depois acenou. Acenei de volta, tentando ser cortês e, de certa forma, educado. Cumprimentei-o com um aperto de mão, apesar de ter notado que ele abrira os braços, como em um pedido de abraço. Ele corou e coçou a nunca, abrindo a porta pra mim, o que deixou tudo mais sugestivo. Ignorei novamente esses sinais e entrei no carro que estava minuciosamente limpo e organizado. Puxei o cinto e o coloquei, encostando-me mais na poltrona de couro.

̶̶ Confortável? – Questionou Mark, olhando diretamente pra mim. Eu assenti com a cabeça e desviei o olhar. Todo aquele contato visual e a maneira como ele me encarava, deixava-me constrangida.

Ele ligou o motor, deixando a academia cada vez mais distante. Durante o caminho, os nossos olhares se cruzaram diversas vezes, e eu podia ver um brilho em suas orbes todas as vezes que me fitava. Eu tentava sempre disfarçar e iniciar uma conversa, mas não sabia o que dizer.

Se já não bastasse o clima estar estranho, o silêncio deixava tudo mais aterrador. Quando chegamos à lanchonete, Jefferson novamente abriu a porta para mim. As pessoas nos olhavam de forma estranha, mas ele não parecia se importar. O tilintar da porta a abrir anunciou a nossa chegada ao estabelecimento. As garçonetes nos cumprimentaram e Mark sorriu pra elas, fazendo-as se derreterem por dentro.

̶̶ Perdoe-me, mas preciso ir ao banheiro. Vá fazendo seu pedido. – Disse, levantando-se. Curiosamente, ele pegou um celular antes de entrar no banheiro, o que me fez pensar que aquela história de precisar usá-lo era apenas uma desculpa para ligar para alguém.

Eu o obedeci e sentei-me em uma das mesas do fundo. Olhei pela janela, esperando ser atendido. Ali havia uma vista privilegiada para o oceano, para a límpida e clara água que banhava a areia dourada. Nunca tinha parado para notar a grandiosidade do mar. Pensei em passar ali para tirar umas fotos e mostrar à Max, mesmo que as minhas fotografias fossem imensamente inferior às dela. Uma mulher loira que aparentava estar na casa dos quarenta veio em minha direção, trazendo um bloquinho de folhas e um lápis.

̶̶ Olá. Bem vindo ao Duas Baleias. Posso anotar o seu pedido? – Sorri.

Era difícil encarar uma pessoa que você conheceu chorando. Talvez pelo fato de eu ter voltado no tempo, ter salvo a vida da filha dela e então vê-la muito feliz. Mas esse tipo de coisa é super natural, todo mundo passa por isso.

̶̶ Oi Joyce, como está?

̶̶ Pelos céus, como diabos você sabe meu nome? – Ela colocou a mão na cintura.

̶̶ É... Pelo seu crachá, eu acho. – Sorri, feliz por ter pensado rápido.

̶̶ Ah sim, eu vivo tanto com esse uniforme que me esqueço do crachá! – Ela riu também.

̶̶ E como vai a Chloe?

̶̶ Você conhece a Chloe? – Ela demonstrou surpresa.

̶̶ Sim, eu... Sou um amigo das antigas, sabe? Acho que sou tão antigo que nem ela se lembra, mas sinto como se a conhecesse há dois dias ou três, depende. – Abri um sorriso enorme enquanto usava aquelas frases típicas de filmes.

̶̶ Eu não entendi nada do que você falou, mas fico feliz em saber que a Chloe tem amigos normais.

– Normais?

̶̶ Sim. As últimas amizades dela têm sido desastrosas. Ela tem se tornado rebelde e coisas do tipo, fico feliz em saber que a Max está de volta. Principalmente depois do que aconteceu com a Rachel.

̶̶ Chloe era amiga da Rachel Amber?

̶̶ Oh, sim. As duas eram inseparáveis, de vez em quando elas passavam tanto tempo juntas que pareciam a mesma pessoa. – Riu vagarosamente.

̶̶ Ei, você saberia algo de uma garota chamada Emily? Ela estudava em Blackwell.

̶̶ A brasileira? Oh, sim. Ela vinha aqui todos os dias e pedia um café bem forte, mas sempre reclamava que era fraquinho. Logo ela me ensinou a fazer um muito forte. Sinceramente, não sei como ela suportava tomar algo como aquilo.

̶̶ Eu sou brasileiro também. – Comentei.

̶̶ Sério? Essa parece ser a temporada de brasileiros em Arcadia Bay. Muitos deles têm vindo pra cá ultimamente, mas sempre desaparecem ou são assassinados brutalmente. – Ela parecia desapontada.

̶̶ O que a polícia diz sobre esses assassinatos?

̶̶ Eles dizem que foi ataque de animal selvagem, então colocam a culpa nesse tal lobo cinza que dizem estar ao redor da Baía, mas eu não acredito nessa teoria.

̶̶ Há quanto tempo esse lobo aparece por aqui?

̶̶ Não sei, mas acho que desde que Blackwell foi inaugurada. O lobo só foi encontrado anos depois, mais ou menos na época que Emily chegou aqui, mas chega de papo. Você deve estar faminto! – Novamente levantou o caderno para anotar o pedido.

Como não havia muito o que pedir, optei por um café bem forte e torradas. Continuei olhando o mar enquanto esperava o professor. Tentava pensar sobre a teoria do lobo.

̶̶ Desculpe se demorei muito. – Sua voz grossa soou atrás de mim, enquanto sentava-se à minha frente e chamava Joyce com a mão.

̶̶ Não sabia que estava com este jovem! – Ela disse, dando um pequeno sorriso.

̶̶ Oh, sim. Ele é um aluno de Blackwell e estou fazendo uma pesquisa sobre o Brasil e ele está me ajudando. Quero apenas um café.

̶̶ Certo, logo está tudo pronto. Esperem um pouco, cavalheiros. – Ela virou as costas e foi direto para uma porta azul, a qual tinha uma plaqueta indicando ser a cozinha.

̶̶ Então, o que gostaria de saber? – Fui direto ao ponto.

̶̶ Você tem se adaptado bem à Blackwell? – Ele se inclinou um pouco pra frente, aproximando-se de mim.

̶̶ Um pouco, mas é difícil estar em um país novo, principalmente porque ninguém fala português e o café é um horror. Todos rasgam um pouco de espanhol, mas, pelo amor de Deus, português é totalmente superior. – Sorri. Adorava estar compartilhando um pouco da minha indignação sobre aquele projeto de cópia do Latim.

Joyce apareceu logo que terminei, trazendo nossos pedidos. Ela colocou tudo sobre a mesa e voltou ao balcão sem dizer nada. Peguei ao café e dei um gole, sentindo-me em casa.

̶̶ Isso que é café! – Exclamei.

̶̶ Você é um rapaz muito diferente, sabe. Parece-me que tem muito talento. O que você quer ser quando... quero dizer, o que você quer fazer pelo resto da sua vida? – Ele cortou o assunto, enquanto tomava o café.

̶̶ Eu não sei, acho que quero ser químico, mas não tenho muita fé que sou bom nisso.

̶̶ Você não gosta de fotografar? – Ele pendeu a cabeça para um dos lados.

̶̶ Eu as acho legais, mesmo odiando ser fotografado. Gosto de tirar algumas fotos, casualmente.

̶̶ Que tipo de fotos? – Ele sempre era objetivo e curto nas perguntas, por algum motivo, soava-me que ele não queria que eu ficasse calado. Assim que eu terminava uma frase, ele indagava por outra, sem pausa.

̶̶ Borboletas. Escarlates, para ser mais exato, elas me fascinam. – Lembrei-me da anotação da borboleta, dessa vez eu poderia fotografá-la, já que sabia que ela estaria lá. Fiz um bloco de notas mental para lembrar-me de passar pelo dormitório.

–Borboletas? Um pouco peculiar. Nunca havia visto alguém com fascinação por borboletas.

̶̶ Elas simplesmente são demais, sabe? Aquele contraste do sangue com o preto é como acontece nas fotos, a escuridão se tornando algo vívido. Algo para ser apreciado, violento e que passa a sensação de luto e agressão. É indescritível. – Sorri, orgulhoso.

Depois dali passamos um bom tempo conversando sobre assuntos aleatórios e, depois de um tempo, Mark começou a falar mais e logo ríamos como dois idiotas. Era divertido finalmente estar falando com alguém além do Warren, mesmo sendo estranho e muito insinuativo.

̶̶ Então você detesta chá?

̶̶ Sim, odeio. É tão sem graça... Já minha mãe, adorava! Ela quase me obrigava a tomar aquela porcaria. Todo domingo ela fazia uma xícara e sentava-se ao lado da janela, a fim de observar as pessoas andando na rua, enquanto bebia. Ela sempre tinha aquele... – Um nó forte veio de maneira repentina, por algum motivo, eu sentia vontade de falar com Mark sobre o assunto, mas assim que me lembrei que ela morreu, tentei desconversar. – Bem, ela...

̶̶ Pode falar, eu gostaria de ouvir. – Ele pareceu se interessar pela história da minha mãe e aquilo foi a parte mais estranha de toda a conversa. Os olhos dele brilhavam e sua voz carregava uma preocupação descomunal para o tempo em que nos conhecíamos. Aquilo era estranho, mas era reconfortante saber que alguém além de mim se importava. Ele engoliu em seco enquanto eu pensava no que estava acontecendo. – Tudo bem? – Ele novamente pendeu a cabeça ao me ver perdido em pensamentos.

̶̶ Ah, claro. É que... escuta. Posso fazer uma pergunta pessoal? – Inclinei-me sobre a mesa como ele estava antes, então o encarei com uma feição séria.

̶̶ Sim, estou aqui para responder-te.

̶̶ Você está afim de mim? – Eu precisava saber, mas não queria feri-lo. Caso ele se ofendesse muito, eu usaria meus poderes para resolver a situação.

Ele se engasgou com o gole que tomava durante a pergunta e logo tossiu várias vezes antes de rir um pouco para responder.

̶̶ O que? Claro que não, eu... – Ele riu um pouco mais. – Eu sei que essa manhã foi, provavelmente, a manhã mais insinuativa e louca que você já teve, mas eu só queria passar um tempo com você porque você me parece um bom menino. Eu sou comprometido! – Argumentou. Encarei-o com aquela cara de malícia ao pensar em quem era o seu par. – Com uma garota, eu juro! – Ele riu.

Ele abaixou a cabeça e ficou meio tímido. Pela primeira vez desde aquela manhã, ele parecia envergonhado e não parecia ter vontade de manter contato visual comigo. Senti pena pelo jeito como ele ficou.

̶̶ Olha que comovente. Professor e aluno! – Nathan Prescott apareceu do nada e sentou-se de maneira atrevida ao lado de Mark, encarando-me. Seus olhos eram intimidadores e, confesso, por saber que ele tinha uma arma, senti medo.

̶̶ Nathan, eu... – Mark tentou explicar-se sobre alguma coisa.

̶̶ Calma, professor. Eu só estou me enturmando com o meu novo colega. – Sua voz demonstrava desdém, mas abriu os braços em sinal de paz. Ele sempre estava escolhendo bem as palavras, o que passou um ar de segredo. Todos olhavam para nós, curiosos, enquanto um silêncio tomou conta do lugar.

̶̶ Nathan... – Mark sussurrou algo em seu ouvido, que deixou o garoto irritado.

̶̶ Então este... Este... Ele tomou o meu lugar? – Ele olhou pra mim com certa repulsa. Estampei confusão em meu rosto.

̶̶ Nathan, acalme-se, por favor. Eu estou com o Guilherme apenas para... – O professor tentou se desculpas, mas foi interrompido pelo Prescott, cada vez mais irritado.

̶̶ Apenas para o que? Tem a sala de aula, tem a escola. Se quer saber algo sobre ele, por que leva-lo para uma lanchonete? Por que parecem ter intimidade, heim? – Ele começou a gritar. Podia ver as veias de seu pescoço salientes e seu rosto ficando vermelho por conta da raiva.

As pessoas continuavam com os olhos pousados em nós, e eu encolhia-me no meu assento. Joyce interviu, pedindo educadamente para que saíssemos para evitar mais confusões. Eu não me sentia bem com aquilo tudo, então fitei a minha mão e a levantei, no mesmo instante uma mensagem chegou ao meu celular, enquanto éramos expulsos do lugar.

“Hey, Gui. Será que poderia nos encontrar agora? É a Max.”

“Oi, Max. Tudo bem? Claro que posso!”

“Ok, nos encontre na frente de Blackwell. Podemos ir ao Duas Baleias.”

“Eu já estou aqui. Será que poderíamos ir para outro lugar?”

“Sim, vamos passar aí pra te buscar, então.”

“Vamos?”

“Eu e a Chloe.”

Fiquei curioso para saber o que ambas queriam comigo. Mark brigava com o Nathan logo na minha frente e as coisas pareciam muito tensas. Voltei ao Duas Baleias e sentei-me rapidamente no mesmo banco em que estava.

̶̶ Escuta, eu já pedi... – Joyce veio, dando-me bronca. Ignorei-a e levantei a mão, esperando que o tempo voltasse.

Outra vez os poderes realmente ocorreram, vi tudo voltando para trás, Mark, Nathan... Minha cabeça não doía tanto quanto da primeira vez que usei, senti como se o limite do tempo tivesse sido aumentado, mas mesmo assim, os arames imaginários ainda incomodavam minha cabeça. Era uma dor forte, mas valia a pena, apertei minha mão e levantei-a mais, e então descobri que poderia voltar ainda mais rápido. Mas praticamente foi como se alguém tivesse dado uma pancada com um taco de beisebol em minha cabeça. Logo senti o limite. Minha visão ficou vermelha e foi um pouco difícil de parar. Logo o tempo voltou a correr.

– O seu nariz está sangrando. – Mark me olhou preocupado, pegando num lenço de papel e o passando cuidadosamente pelas partes ensanguentadas. Conseguia sentir o gosto do fluído vermelho nos meus lábios, era de certa forma doce.

̶̶ Obrigado! – Agradeci a ajuda. – Olha, tenho que ir encontrar com umas amigas e o Nathan está vindo aí. Tudo bem se nos falarmos mais tarde? – Fui levantando-me.

̶̶ Sim, claro. Sem problema. Quer uma carona? – Ele se ofereceu para me levar de volta.

̶̶ Acho que você vai precisar falar com o Nathan. Acho que posso voltar sozinho. – Decidi ir à Blackwell para me encontrar com a Max. Assim quando a mensagem chegasse ao meu celular, eu poderia aparecer de surpresa.

̶̶ Nathan? Por que ele viria aqui? – Perguntou confuso. No fundo, senti que a pergunta real era: como diabos você sabe disso?

̶̶ Eu não sei. Só sei que ele chegará em breve. Tenho que ir, até mais, professor. – Despedi-me e coloquei-me a ir a pé para a escola.

Notas finais
Comentem, todo comentário é bem vindo. e-e esse episódio foi muito kawaiii e no futuro, talvez vocês entendam o porquê. XOXO-ServineHXP
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.