Linger
1 Do you have to let it Linger?
Dizem que o melhor amigo do homem é o cão.
Aquele animal de quatro patas, focinho molhado e olhinhos encantadores, que não importa o quanto você seja feio, pobre, maldoso, idiota, fracassado... Ele sempre vai te olhar nos olhos e abanar o rabinho pra lá e pra cá.
Mas e se eu disser que nunca tive um bichinho desses?
Meu melhor amigo sempre foi um Dragão.
Sim, isso mesmo! Um dragão.
Daqueles bem grandões e amedrontadores, que as criançinhas têm medo.
Daqueles que soltam fogo e voam com suas assas majestosas, aqueles vilões de fábulas infantis, que raptam a princesa e deixam-na trancafiada e infeliz, não importa o quanto ela seja linda, boazinha, generosa, meiga, gentil...
Se você pensa que esses aí não têm sentimento como os cãezinhos... Ah! Você se enganou!
O que vou lhes contar é uma historia verdadeira, aconteceu mesmo comigo, antes de eu aprender o que realmente importa para mim...
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- EU NÃO ACREDITO! TERCEIRA DERROTA CONCECUTIVA, SEU FRACASSADO!
Mais uma vez eu me descontrolava com o pobre Charizard encolhido em um canto da parede no ginásio de treinamento.
Ele, que mesmo sendo bem maior e mais forte do que eu, ainda se retraia, ficava com medo, abaixava a cauda flamejante e pedia desculpas com o olhar.
- Se você continuar desse jeito eu vou te trocar por um Chinchar! – E eu me virei, dando as costas para o meu melhor amigo, o primeiro Pokémon com quem eu comecei a minha jornada. O que eu queria afinal? Coloquei-o para batalhar contra um Blastoise de nível mais alto, como cobiçava que ele ganhasse? Não era mais do que justo o pobre Dragão perder, mas eu não sabia disso, era inexperiente, só queria a vitória a custo de tudo, até mesmo do sofrimento de meus amigos.
Quando o conheci, ele era um pequeno Charmander, medrosinho e indefeso, mal sabia soltar uma chama pela boca, e eu, com o meu jeito rigoroso e ambicioso, o treinei de maneira dura às vezes fazendo-o ficar a beira da morte, como na vez em que o fiz nadar na piscina com a cauda para cima para que ela não apagasse.
Mas ele sempre me amou, sempre esteve ao meu lado me apoiando e sendo como um melhor amigo. Quando eu me sentia esquecido, triste, pegava a pokébola em que ele descansava e pedia para que ele me levasse a qualquer lugar em suas costas, e ele voava para longe, até eu me acalmar, me animava, brincava comigo. Até mesmo quando eu o deixava de castigo por ter perdido, ele me ajudava, ele era o meu irmão.
- Char, você já deve estar no nível trinta e oito ou mais, será que está preparado para pegarmos mais uma insígnia?
E ele balançava a cabeça, sorrindo, me abraçava, sempre me apoiava, queria me fazer feliz e eu sorria mais com ele do que com qualquer Pokémon que eu tinha.
Mas o que não é o desejo de ser o melhor, de estar sempre por cima?
Isso me arruinou, me fez ser outra pessoa... E foi em uma batalha sem importância com um treinador experiente, uma derrota do Charizard, que eu apelei...
Charizard havia lutado bravamente com um Metagross uns cinco ou seis níveis mais alto que ele, estava esgotado e eu percebi isso, porém o outro treinador ia escolher agora um Sceptile, e eu decidi que o meu Dragão de fogo deveria pulverizar o próximo Pokémon como fez com o Metagross a tanto custo.
Tive a chance de trazê-lo de volta para a pokébola para que ele não perdesse, mas fui teimoso demais. Ele não agüentou três minutos e antes que pudesse usar seu lança-chamas para acabar com aquele Sceptile o mesmo conseguiu o nocautear com apenas um golpe.
E foi ai que o inferno começou.
De inicio eu apenas não o tirava mais da pokébola, havia esquecido o meu melhor amigo naquela esfera apertada, compacta, que o diminuía até eu não poder mais o ver. Mas com o tempo eu decidi que ele deveria pagar por ser tão perdedor. O levei ainda dentro daquela esfera para uma campina onde diversos Pokémons selvagens habitavam.
- Pode sair daí, – E eu o tirei da pokébola — seu fracassado inútil...
Ele me olhou preocupado, deve ter percebido que eu não era mais o mesmo, estava com um olhar cruel e vazio. O amigo dele, o mestre e mentor agora havia se tornado um monstro ambicioso demais para o seu próprio bem.
- Eu me cansei de você, te treinei com tanto esforço e você só me da derrotas... Se não fosse pelos meus outros Pokémons eu seria um fracassado como você!
Ele se encolheu como sempre fazia, fechando os olhos, rezando e esperando que aquilo fosse apenas mais uma bronca, no máximo uma surra.
- Sabe, eu já me decidi para que Pokémon o Eevee vai evoluir, e será para um Flareon, um Pokémon de fogo... Eu não preciso mais de você, seu lagartinho inútil...
Nunca vou me esquecer o que eu vi nos olhos dele naquele instante, aquele Dragão que todos pensam ser forte o bastante para raptar princesas e lutar com heróis armados agora estava chorando, a chama de sua cauda estava muito fraca.
Eu sai dali e não olhei para trás, ele sabia que não adiantava me seguir, joguei sua pokébola para trás, descartando-a para sempre.
Alguns dias se passaram, e o que eu pensei que seria uma vitória sem o meu Pokémon “perdedor” se tornou uma imensa derrota.
Meus outros Pokémons sentiram a falta do carismático lagartão, o Eevee não aceitou a pedra de fogo, fugia dela e corria de mim sempre que eu me aproximava dele, chegou a me morder a ponto de arrancar sangue de minha mão.
Nenhum deles estava batalhando pra valer, eu perdia diversas batalhas porque eles não me obedeciam. De inicio eu fiquei muito bravo, pensei em abandonar todos como fiz com o Charizard, mas como eu viveria sem ter como ganhar dinheiro nas batalhas?
Meses se passaram e meus outros Pokémons não estavam me tratando como treinador, muito menos como um amigo. Eu estava despedaçado, meu orgulho havia deslizado e se espatifado no chão no momento em que eu percebi que meus Pokémons tinham vergonha de mim, por eu ser tão ambicioso, tão frio e sem coração.
E então, me sentindo esquecido que triste eu, talvez por um reflexo, dirigi minha mão até o bolso onde costumava estar a pokébola do meu melhor amigo, mas ela não estava mais lá. O sentimento de tristeza cresceu quando eu me lembrei do rosto dele, dos seus olhos encharcados de lágrimas, e do que eu havia feito.
Comecei a me lembrar dos momentos bons, talvez isso espantasse a tristeza; Nosso primeiro vôo juntos, quando ele havia acabado de evoluir para um Charizard, todo desengonçado. Mas ele aprendia rápido, e em questão de segundos já voava majestosamente, nós rimos juntos ao percebemos que uma Charizard assim como ele voava próxima nos observando, ou melhor, observando ele.
Quando ele se encolhia em meu colo, ainda Charmander, por medo dos trovões e relâmpagos. Quando eu me encolhia ao lado dele, agora Charizard, quando Pokémons selvagens vinham em minha direção para me atacar.
Uma lágrima caiu de meu rosto, molhando parte da grama da campina, a campina qual eu havia abandonado o meu amigo.
If you, if you could return, don’t let it burn, don’t let it fade…
I’m sure I’m being rude, but it just your attitude.
It’s tearing me apart, It’s ruining everything.
A música que eu cantava para ele dormir quando ainda era um Charmander veio em minha mente, como tinha tudo a ver com aquele instante! Eu queria o meu melhor amigo por perto e as lágrimas caíam mais rápido a cada palavra que vinha em minha mente.
I swore, I swore I would be true, and honey, so did you?
Eu me levantei e comecei a caminhar lentamente de volta para casa, você já deveria estar em outro lugar melhor, quem sabe com outro treinador mais generoso... Mas como eu queria que você voltasse... Como eu queria te provar que poderia recomeçar e ser um bom amigo para você...
But I’m so deep. You know I’m such a fool for you.
You got me wrapped around your finger…
Do you have to let it Linger?
Cai ajoelhado no chão ao pensar que talvez você estivesse em perigo, soquei com força aquela grama. Grama, por causa de um Pokémon de grama eu havia te abandonado, como eu pude ser tão egoísta, você deu o seu melhor, isso era o que mais importava.
Do you have to, Do you have to let it Linger?
Não consegui me levantar, deitei ali mesmo, olhando para o céu o máximo que meus olhos encharcados de lágrimas deixavam, as estrelas desfocadas começavam a aparecer no céu, Pokémons perigosos poderiam aparecer de noite, mas o que importava? Fechei os olhos.
I was wrong, I was wrong...
Abri os olhos, eu não sabia o que era ao certo aquela estrela brilhante no céu, brilhava mais que as outras, bem mais. Fechei novamente os olhos com força, ainda chorando, abri novamente; aquela estrela de novo, dessa vez mais perto, parecia um pouco vermelha, não importava. Fechei os olhos, dessa vez eu não queria abrir mais, estava bom daquele jeito. Quente, eu sentia minha pele queimar devagar, aquele calor agradável que eu sentia quando estava perto do meu melhor amigo.
Meus olhos, ainda fechados, captaram a luz mais forte de uma chama possante balançando a minha frente, um rugido familiar me chamava, demorei para abrir os olhos por medo daquela sensação me escapar, mas foi a vez mais feliz que eu os abri em toda a minha vida.
- CHAR!
I Just wanna be with you! But I’m so deep...
You Know I’m such a fool for you!
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