A palavra retorno possui um peso aritmético para mim. No cálculo, retornar a um ponto de origem implica que o ciclo se fechou, que as variáveis estão sob controle. Significa que você sai, mas a equação garante que você estará de volta, sã e salva. Ou nem tão sã assim, se o seu cenário for tão bizarro quanto o meu. Mas você volta.

O retorno traz a segurança da familiaridade; o conforto de saber que o resultado da conta não vai mudar no meio do caminho. A gente só retorna para onde há acolhimento, como o ponto zero de um gráfico. Você não retorna para onde nunca esteve. Não há retorno para o que nunca existiu. Retorno só existe para o que ficou te esperando, pacientemente. E eu adoro essa previsibilidade.

— Você está pronta para voltar? — a voz de Evelyn me interrompeu, sem me olhar. Ela estava ocupada demais tentando não parecer preocupada. — Tem certeza de que está tudo bem, Amanda?

— Claro que está. — respondi enquanto revisava o material da mochila, também evitando contato visual.

— Amanda…

— Já sei. — abri um sorriso, encostando no sofá — Você acha que eu sou louca.

— Eu não disse isso.

— Mas é o que todos pensam. Minha mãe. Meu pai. O professor Carl. Até a Dra. Sarah Novak, com aquele caderninho de anotações que ela acha que eu não percebo...

-- Eu só me preocupo com você. Assim como todas essas pessoas.

— Se preocupa com o quê, exatamente? — inclinei a cabeça, observando o padrão da respiração dela. — Eu estou bem. Acredite em mim. Eu quero viver a minha vida normalmente e não basear o restante dela no que aconteceu.

Ficamos em silêncio. Podia ouvir o padrão errático dos pássaros lá fora e a frequência rítmica da respiração de Evelyn. Eu estava contando os segundos, esperando que ela desistisse daquela análise silenciosa.

— Você interrompeu o tratamento… — ela murmurou me fazendo sentir aquela pontada familiar de indignação.

— Médicos são como mercenários, Evelyn. Ou como dentistas. — Minha voz saiu mais fria do que eu planejava. — O modelo de negócio deles depende de você estar doente o suficiente para precisar voltar, mas nunca sã o suficiente para receber alta. Eles querem encher os bolsos, não organizar a minha cabeça. Acha mesmo que eu precisava de seis anos de aparelho nos dentes? Pois é, eu também não precisava de mais do que três meses naquela clínica encardida.

Me levantei em um movimento brusco, um impulso que meu corpo precisava para dissipar a estática da conversa. Joguei a mochila nas costas: braço esquerdo primeiro, braço direito em seguida. Estralei o pescoço, tombando a cabeça duas vezes para a direita, como o ponteiro de um relógio ajustando a hora.

— Só quero que saiba que estou aqui. Como sempre estive. — Evelyn se levantou, aproximando-se do meu espaço pessoal. — Não vou julgar suas escolhas, Amanda, mas vou sempre apoiar a que parecer mais... segura.

Ela tocou meu ombro. Senti o peso da mão dela e meu cenho franziu involuntariamente; eu já conseguia sentir as fibras do moletom desalinhadas sob a pressão dos dedos dela. Teria que desamassar aquele ombro assim que estivesse sozinha.

— Eu sei. Agradeço o cuidado. Você é especial pra mim, Evy. — Forcei um sorriso, um cálculo rápido para encerrar o contato físico, e dei um passo para trás. A mão dela caiu, e o equilíbrio foi restaurado. Ela sorriu de forma meiga, convencida.

— Então, vamos passar na cafeteria antes? Como nos velhos tempos?

— Na verdade... eu queria ir sozinha hoje. Não é nada pessoal. — Ajustei a alça da mochila. — Só preciso recalibrar meus sentidos fora daquele prédio gigante onde fiquei trancafiada por doze semanas.

— É justo! — Ela soltou um riso leve. — Nos vemos no campus, então. O Professor Carl vai ficar feliz em te ver.

— Vou ficar feliz em ve-lo também, ele me deve um livro do Strogatz*, espero que não tenha esquecido do que me prometeu.

— É apenas por isso que quer ver o seu professor favorito? — ela arqueou a sobrancelha, provocativa.

Sim. Porque mais seria?

— Ah... claro que não. É só um dos motivos — menti, com a facilidade de quem já decorou a fórmula do que os outros querem ouvir.

Evelyn riu e, antes que eu pudesse prever o movimento e recuar, ela me envolveu em um abraço repentino. Fechei os olhos por um segundo, sentindo o peso do corpo dela. Agora eu teria que desamassar o moletom inteiro.

— Estou feliz que está de volta — ela sussurrou. Eu também estava. Mas não pelo mesmo motivo que ela.

Evelyn saiu, deixando a porta entreaberta e seguiu na direção oposta à minha. Para ser sincera, não entendo todo esse entusiasmo com o meu 'retorno'. Não somos melhores amigas; somos apenas duas variáveis compartilhando o mesmo espaço físico. Ela entrou no curso um ano antes, e a proposta de quarto vago caiu como uma bênção, considerando que o período de calouros é um caos de imobiliárias entupidas e moradias precárias.

Minha escolha, porém, não foi um acaso. Foi um processo de filtragem exaustivo. Enquanto outros buscavam apenas um teto, eu escolhi meticulosamente cada anúncio no Facebook. Pesquisei a vida de cada anunciante: seus hobbies, os lugares que frequentavam, a probabilidade de terem bichos de estimação que pudessem ser um risco ao Peach... Eu odiaria ter que privar meu peixinho da luz natural por causa de algum bichano endiabrado. Foi nesse cruzamento de dados que encontrei a Evelyn. Ela era a única que se encaixava quase perfeitamente no cenário que eu projetei. Digo 'quase' porque ela é irritantemente preocupada e similarmente carinhosa. Ela parece minha mãe. E eu e minha mãe não temos uma relação de confiança, o que já diz muito sobre a nossa dinâmica.


Av Lothian Street — Edinburgh, Escócia.

As ruas estreitas, os bistrôs, o cheiro de café... Embora a multidão, que parece ser incapaz de processar uma trajetória em linha reta sem colidir com os outros; me cause um desconforto tátil, eu senti falta disso. As pessoas por aqui caminham com uma tranquilidade irritante, como se a única variável importante do dia fosse encontrar o lugar perfeito para sentar e consumir calorias que nem precisam tanto assim. A famosa Milha Real, que de realeza só tem o nome comercial, atrai turistas desesperados por capturar uma estética que eles mal compreendem, obstruindo o fluxo cotidiano de quem realmente pertence a este lugar.

Há um buraco na calçada, alguns metros à frente. Eu estava contando com o fato de que o teriam consertado nas minhas doze semanas de ausência. Para minha surpresa... não. A falha continua lá, me forçando a realizar uma curva à esquerda não planejada para desviar. É fascinante como o governo arrecada milhões de impostos todos os anos e é incapaz de resolver uma inconsistência geométrica simples em uma região de residências reais. Decepcionante.

George IV Bridge Street

Esta rua é mais barulhenta que a Lothian. É uma ponte elevada que se sustenta sobre trilhos de trem, exalando um cheiro onipresente de fumaça de chaminé. É uma estrutura velha, mas possui pubs interessantes e a proximidade estratégica com a Biblioteca Nacional. Observo três garotas entrando lá agora. Pergunto-me se elas pretendem realmente abrir um livro ou se a visita é apenas um cenário para alimentar o feed do Instagram com fotos 'conceituais' que exibem seus brincos de argola e suas Givenchy* de couro. Odeio redes sociais. Setenta por cento do que está ali é uma falsidade calculada; os outros trinta são crianças e idosos tentando ser autênticos e servindo de entretenimento cruel para o resto. A exposição digital é a forma mais moderna de suicídio da privacidade.

University of Edinburgh

Lá está ela. A universidade que mais se assemelha a um castelo de prisioneiros livres, todos tentando construir um futuro sobre pedras antigas. Edimburgo é uma cidade performática; nada aqui passa despercebido. Pelo menos não por mim.

E, por falar em perceber, sinto o peso de um olhar. Eu sei, poderia ser qualquer um, afinal, há milhares de estudantes convergindo para o mesmo ponto, e considerando que sou a 'Garota Hospício', como alguns 'colegas' me rotularam meses atrás, os olhares de curiosidade mórbida já eram esperados. Pois é, filhos da puta, eu não ia ficar privada da minha própria vida por vinte e uma semanas apenas para satisfazer o julgamento alheio. A ironia é que a pessoa que causou tudo isso foi muito bem amada. Por mim.

Ainda assim, há algo fora do padrão. Alguém está me encarando com uma intenção diferente. Viro o rosto e vejo um vulto encapuzado, de braços cruzados, encostado em uma bétula*. Ele me encara diretamente. Eu sabia. Não sou louca, por mais que tentem me convencer do contrário. Mas, em um piscar de olhos, ele se dissolve na multidão. Covarde. Talvez seja algum aliado dela.

Tento ignorar o batimento acelerado no meu peito e me concentro no som metálico dos meus chaveiros batendo na mochila enquanto ando. De repente, o ar é cortado pelo guincho violento de pneus e, em seguida, o som seco de metal contra metal. Algum idiota resolveu estrear o semestre dirigindo embriagado? Isso sim é uma performance.

Em minutos, o cenário muda: cones, fitas de isolamento e o brilho azul das viaturas. É impressionante a eficiência das autoridades quando se trata das primeiras semanas de aula onde podem mostrar serviço.

— Todos circulando, por favor! Façam o contorno pela rua lateral, esta área está interditada! — o policial berra, tentando afastar os curiosos que se alimentam da tragédia alheia.

Eu só queria seguir meu trajeto, a linha que desenhei mentalmente há seis meses. Agora, sou obrigada a cruzar o território do pessoal de Humanas. O que tenho contra eles? Além do fato de que a matemática é a única linguagem que realmente importa, eles se vestem mal e exalam um egocentrismo intelectual barato. São pessoas que fingem pensar na sociedade porque são incapazes de lidar com a precisão dos números.

Que desastre. Eu não mapeei a intensidade do sol daquele lado, não sei onde a sombra é mais densa ou quais árvores servem de marcos de distância até o campus. A quebra da minha rotina é um erro que eu não sei como corrigir agora. Se eu conseguir chegar à portaria sem um colapso, já será um lucro.

Notas finais
Glossário: *Strogatz - Steven Strogatz é escritor do livro “o poder do infinito” um livro de matemática. *Givenchy - Grife de luxo de botas de couro. *Bétula - Arbustos ou árvores pequenas ou de tamanho médio. Espero que tenham gostado, até o próximo capitulo :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.