A pequena delegacia de Pine Ridge estava silenciosa, o único som vinha do batimento rítmico da máquina de escrever de Connor. Ele estava concentrado em algo que parecia mais uma obsessão do que um trabalho qualquer. Seu olhar estava fixo em um arquivo que ele guardava como uma obsessão: o caso da morte de Emma, mãe de Lily. Embora o caso tivesse sido encerrado anos atrás, algo no ar ainda o incomodava. Mas o som da porta se abrindo interrompeu seus pensamentos.

Lily entrou, mais hesitante do que gostaria de admitir. Ela ainda não se sentia completamente à vontade com Connor, mas não podia negar que ele parecia ser a única pessoa disposta a ajudá-la a desvendar o mistério de sua própria família.

"Pronta para dar uma volta, Lily?" Connor perguntou, sem tirar os olhos do arquivo.

"Eu não estou aqui apenas para passeios", Lily respondeu, tentando esconder o medo que se escondia atrás de suas palavras. "Preciso de respostas."

Connor finalmente levantou os olhos, e, por um momento, seus olhares se cruzaram quando ele virou a cabeça lentamente em sua direção. Havia algo em seu olhar que dizia que ele entendia o peso que ela carregava, algo que ia além de uma simples curiosidade policial.

"Eu sei. E você vai encontrá-las. Mas primeiro, precisamos explorar a cidade. Não vamos encontrar nada aqui dentro." Connor pegou o casaco, colocou-o rapidamente e indicou a porta. "Vamos."

A cidade de Pine Ridge estava quieta, quase imperturbável, como se estivesse suspensa em algum lugar entre o tempo e o esquecimento. As ruas de paralelepípedos estavam cobertas de neve espessa, e as casas, embora vazias, pareciam resistir ao peso dos anos. Algumas luzes ainda estavam acesas, mas a maioria das janelas permanecia apagada, como se a vida estivesse se esvaindo daquele lugar, pouco a pouco.

Enquanto caminhavam pelas ruas desertas, Lily sentiu uma sensação de desconforto crescente. Ela estava com Connor, um policial que parecia ver o mundo de forma muito diferente de como ela via. Para ele, tudo parecia ser uma questão de lógica. Para ela, no entanto, cada esquina parecia esconder algo, algo que a perseguia desde que ela fugira, anos atrás.

"Você sabe que pode me contar o que está pensando, não é?" Connor perguntou, quebrando o silêncio que os cercava.

Lily olhou para ele. Ela não sabia exatamente o que o fazia mais estranho — o fato de ele ser um policial ou o fato de ele estar disposto a se envolver em algo tão pessoal para ela. "Eu só... sinto que não pertenço aqui. Mesmo depois de tanto tempo, ainda parece que a cidade me observa. Como se eu nunca tivesse saído."

Connor olhou para ela com uma expressão de compreensão. "Isso é algo com o que você vai ter que lidar. Pine Ridge nunca foi uma cidade fácil. E, pelo que sei, sua família tem uma... relação complicada com ela."

Lily sentiu uma pontada de raiva, mas tentou manter a calma. "Minha família? Você sabe algo sobre isso?"

Connor hesitou. "Eu sei que seu pai, Henry, trabalhou na floresta por muito tempo. E que... houve um acidente. Algo com uma árvore."

O nome de seu pai causou um frio ainda maior na espinha de Lily. Henry, sempre o homem forte, mas quebrado. Ela nunca soubera os detalhes do acidente. Sabia apenas que seu pai, anos depois, nunca mais foi o mesmo. Algo estava por trás daquela história, e ela não sabia o que.

14 de abril de 2022, Middle School

Era um dia frio de outono quando Lily conheceu Hannah. A escola estava vazia, exceto pelo som dos risos abafados que se espalhavam pelos corredores. As folhas de bordo, clássicas do outono canadense se espalhavam pelo pátio, e as cores quentes da estação contrastavam com o tom cinza e sombrio da cidade. Lily estava sentada no banco de madeira, com o rosto escondido por trás de um livro, tentando evitar os olhares curiosos dos outros alunos. Ela sempre se sentia diferente, como se carregasse um fardo invisível e inexplicável.

Foi então que Hannah apareceu. Ela estava com um sorriso fácil no rosto, como se o mundo fosse um lugar onde as pessoas não tinham nada a esconder. Seus cabelos afro-canadenses eram curtos e levemente encaracolados, e seus olhos tinham uma energia e uma doçura que parecia iluminar a escuridão ao redor. Ela se aproximou de Lily com a mesma naturalidade com que qualquer criança se aproximaria de outra.

"Oi, você está lendo o quê? Eu também adoro livros", disse Hannah com um sorriso largo.

Lily olhou para ela, hesitando. Ela nunca soubera como lidar com a abertura das outras pessoas, mas algo sobre Hannah parecia... segura. "Estou lendo sobre magia antiga. Coisas do tipo", Lily respondeu de maneira evasiva.

Hannah não se deu por vencida. "Eu adoro borboletas e coelhos. Acho que eles são mágicos de um jeito diferente."

Lily ficou confusa. "Coelhos?"

Hannah se sentou ao lado dela, ainda sorrindo. "Sim, eu os vejo como símbolos de recomeço. E as borboletas... Bem, elas mostram que podemos nos transformar, crescer, se libertar de tudo o que nos prende."

Lily, mesmo desconfortável no começo, sentiu algo suave se formar dentro dela. Algo que ela nunca tivera antes. Uma conexão genuína. Ali, naquele momento, ela soubera que estava encontrando uma amizade verdadeira, algo que talvez pudesse curar as feridas do passado.

07 de agosto de 2006: do acidente à partida

Henry estava suado e exausto, o frio cortante da floresta de Pine Ridge não fazia diferença. A madeira que ele cortava era pesada, e a lâmina da serra elétrica vibrava de forma violenta a cada movimento. Ele havia trabalhado como lenhador a vida toda, mas aquele dia parecia diferente. Algo estava fora do lugar.

Ele tentou ignorar a sensação de desconforto que lhe apertava o peito. Quando era criança, ele havia sido criado em um lar onde a violência física era normal, e por isso ele nunca teve um senso de segurança. Sempre se sentiu deslocado, como se estivesse predestinado a falhar.

A lâmina da serra, em um movimento rápido, cortou uma árvore que não deveria cair para o lado em que estava. O tronco caiu de forma descontrolada, atingindo-o com força. Henry caiu de costas no chão, a dor se espalhando pelo corpo. Ele estava sangrando, mas a sensação que mais o incomodava não era a dor física. Era o medo de que tudo estivesse se repetindo: ele estava mais uma vez preso, mais uma vez sem poder escapar do destino que o assombrava.

Lar, doce lar

Amélia estava em sua casa, a casa que ela chamava de "refúgio" de todas as coisas boas e ruins que haviam acontecido. As decorações natalinas estavam espalhadas por todos os cantos. Cada árvore, cada enfeite, parecia carregar um peso simbólico para a avó. Ela estava fazendo mais do que apenas preparar a casa para o Natal — ela estava se preparando para algo muito maior. Algo que ela sabia que estava por vir.

Ela pegou sua capa pesada e saiu para a floresta, em busca do que ela chamava de "matéria fresca". A neve cobria tudo ao redor, tornando a floresta ainda mais silenciosa. Mas havia algo lá fora, algo que ela sabia que precisava encontrar. Algo que, quando o tempo chegasse, ajudaria a completar o ciclo da família...

Longe de casa

Lily e Connor pararam diante de uma casa antiga. As janelas estavam quebradas, e o vento frio rugia, cortando as vidraças expostas. Lily se aproximou e olhou pela janela. Dentro, o que parecia ser o vestígio de um tempo que já não existia mais. Mas, ao olhar mais de perto, ela viu algo que a fez gelar: uma foto, emoldurada, de uma jovem Emma.

Ela virou-se para Connor, que estava observando-a com atenção. "O que significa isso?", ela perguntou, sua voz quase inaudível.

Connor hesitou antes de responder. "Eu não sei. Mas isso é só o começo."

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.