Lilian
4 O poder da aura
O negrume da noite era intenso, apenas iluminado pela lua que brilhava como um farol focando no rosto de Cam. Era como se todos os seus músculos estivessem congelados, paralisados e inertes. Se demônio tinha coração, ele também estava congelado.
— Ora, o que temos aqui… Cameron Briel, Ariane Alter e Lilian Garcez, ou devo dizer… Lilith?- disse Lúcifer em forma de gárgula. Ariane e Cam estavam estatelados e grudados ao chão.
— Lúcifer.- a voz do menino saiu rouca. — Você não tem mais nada para fazer aqui, os párias já foram derrotados.
— Ah, que pena. Seria tão maravilhoso receber o que eles teriam a me oferecer, mas não pense que eu vim pelos párias. — a gárgula olhou para o chão- Eu vim por ela.- apontou para Lilian.
O demônio cerrou os punhos e trincou os dentes.
— O que quer dela?
— Afirmar um antigo acordo. Acorde menina.- estalou os dedos. Lilian abriu os olhos.Se levantou meio cambaleante. Quando seus olhos pousaram em Cameron ela se assustou.
— Cam? É você?
— Lilian.- ele andou até a menina e segurou seu rosto entre as mãos.- Você está bem?
— Acho que não, estou vendo asas em você, provavelmente alguém me drogou…
— Haha!- a gárgula abriu os pequenos braços.
— MAIS QUE DIABOS É ISSO??!- Lilian gritou.
— Acertou em cheio.- disse Ariane ao longe.
— Com certeza alguém me drogou.
— Calma, logo vai entender tudo.- disse o menino preocupado.
— Achei que tínhamos um acordo, Lilith.- disse a gárgula
— Por que essa coisa está me chamando de Lilith? Pera, foi o mesmo nome que você me chamou quando nos conhecemos.
— Sim.- Cam abaixou a cabeça.- Logo vai entender tudo, meu amor.
— Vai sim. Até porque eu e você tínhamos um acordo e eu quero exigir o seu cumprimento.
— Do que você tá falando?- disse Cam.
—Há muito tempo atrás, a sua amada chamava-se Lilith, a descendente do demônio Lilith do submundo. Mas um belo dia ela conheceu um anjo chamado Cameron Briel e ficaram noivos, mas ele não poderia ser um anjo porque eu precisava que a Balança pesasse para o meu lado, para o inferno, então tive uma brilhante ideia: se Lilith, amor do anjo, o abandonasse ele ficaria desolado e se tornaria uma demônio pela tristeza em seu coração. Então, fui ao encontro dela e a ofereci um acordo: se ela deixasse o anjo Cameron e nunca mais voltasse a vê-lo eu não o mataria. Naquele momento ela cumpriu o nosso acordo, por isso quero saber, o que está fazendo com ele, minha querida? Quer matá-lo?
Cam não acreditava nos seus ouvidos. Era como se ele tivesse entrado em um mundo paralelo e tudo estivesse caindo e se despedaçando. Passara tanto tempo guardando magoa de Lilith, tanto tempo seu coração passara sofrendo e sucumbindo ao vazio até que ele mesmo não sabia se podia sentir até encontrá-la novamente. Tantos anos sozinho no mundo, se não fosse por Daniel, Lucinda e os outros anjos e demônios. Um sentimento de vingança cresceu em seu peito. Como ele tivera coragem de enganá-la?
— Você enganou Lilith! Sabe que não pode matar um anjo sem o consentimento dos céus.
— Mas para a minha sorte ela não sabia disso. — o rosto de pedra da gárgula sorriu maliciosamente.
— Seu filho da…
— Oops, cuidado com as palavras, lembre-se de que agora que você é um demônio e eu posso matá-lo.
Os olhos de Cam estavam totalmente negros novamente.
— Não tenho tanta certeza disso.
De repente, suas asas pareciam que tinham absorvido toda a raiva, pois agora elas estavam maiores e mais escuras e uma aura negra cobriu seu corpo assim como a fúria, a magoa, o ressentimento o dominavam.
Lilian se afastava devagar com medo. Ela não entendera nada do que aquela gárgula dissera, mas tinha impressão de que já conhecia aquela história antes, como se tivesse vindo para ela em um sonho, assim como Cam viera. Tinha se aproximado dele na Boate porque tinha a impressão de que já o conhecia antes e muito bem, por isso confiou nele totalmente, apesar dele emanar perigo, ela não se sentia ameaçada. Mas agora sim. Agora vendo-o daquele jeito a deixou com medo e apreensiva e ela não fazia ideia do que aconteceria a seguir.
— O que está fazendo, Cameron? — perguntou a gárgula.
— Uma coisa que eu tenho guardado dentro de mim há muito tempo. — a aura negra avançou em Lúcifer e o cobriu sufocando-o. As setas estelares no chãos flutuaram uma a uma, se direcionando para Lúcifer.
Nesse momento, Lilian começou a sufocar também e um sorriso apareceu na face horrenda da gárgula. A menina caiu no chão desesperada por ar.
— Lilian!- Ariane correu para ela. — Cam, Lúcifer está sufocando Lilian!- O menino mal a ouviu, estava cego, surdo e mudo pela fúria.
— Cam…- Lilian sussurrou quase sem forças, então desmaiou.
Dessa vez, o menino voltou a si. Ele olhou para Lilian e quando a viu desmaiada cessou o poder. Ele correu para ela.
— Lilian, Lilian, fale comigo- ele tentava acorda -la, mas ela estava entorpecida em seus braços.- Como isso aconteceu?
— Também tenho meus truques, Cameron.- Lúcifer ainda estava no chãos quase sem ar, mas o sorriso ainda não tinha deixado seu rosto.- Posso matá-la mais rápido do que você pode me deixar sem ar.
Lilian ainda estava desacordada nos braços dele. Ele fechou os olhos e apertou. A raiva agora se dissipava e a razão tomava lugar na mente do menino. Ele abriu os olhos.
— Que tal um acordo?
— Agora estamos falando a mesma língua.- a gárgula se levantou cambaleante. — O que você tem a me propor?
— Se você prometer nunca mais se intrometer na nossa vida, esquecer aquele acordo,nunca mais fazer mal a ela e nunca mais aparecer na nossa frente, eu prometo continuar sendo um demônio.
— Hummmm.- a gárgula acariciou a barbixa.- Acho que não tenho como recusar essa oferta, mas eu tenho ainda mais uma condição para aceitá-la.
— Qual?
— Quero o poder da aura.
Cam o fitou sério. Era isso ou ele nunca o deixaria em paz, nunca deixaria Lilian em paz. Ele precisava sacrificar seu poder para mantê-la segura. O menino levantou- se e se aproximou da gárgula.
— Pegue-a. É sua.
A gárgula sorriu, fechou os olhos e estendeu os braços. Nesse momento, Cam sentiu como se algo estivesse sendo tirado de dentro dele, devagar acariciando seus braços, dando adeus por entre seus dedos. De repente ele começou a se sentir fraco e caiu no chão. Ariane correu para ampará-lo.
— Ah… Que delicia, já sinto o poder dentro de mim.- ele parecia maior agora e mais poderoso.
— Então, estamos acertados?- Cam perguntou.
— Sim, meu caro demônio.- o sorriso de Lúcifer gelou a alma dos ex-estudantes da Sword and Cross. Agora o menino percebia que era exatamente o que ele queria: fazer Cameron ser um demônio para sempre.
— Agora vá embora e nos deixe em paz.
— Quem disse que eu ainda estou aqui?.- a gárgula deu um giro e sumiu deixando um rastro negro e sombrio no centro do antigo estádio onde os anjos caíram.
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