Lil' Touch
1 Capitulo 1
Ela tem o melhor sangue, as melhores notas e, pelo que dizem por aí, a melhor aparência. A mulher sentada na minha frente era a realeza mais sublime que poderia existir no mundo. Acho que essa seria a frase que colocariam em seu anual. Mas para mim, ela era uma teimosa irremediável, meu maior desafio. Assim que seus olhos se estreitaram, fui puxado de novo para a realidade. Coloquei a mão em cima da mesa, apoiando meu peso nela. ― Pô falar, está gostoso, não está? ― Mantive o meu sorriso sarcástico de sempre, esperando ela torcer o braço e admitir o óbvio. Mas assim que o par violeta focou em meu rosto, aquele olhar duro de sempre, tive vontade de erguer os braços pra cima e sacudi-la. ― Um desastre permanece um desastre não importa o que aconteça! ― A fuzilei com os olhos, pegando a faca que estava cravada na mesa de madeira. Joguei ela para cima, observando as voltas que dava antes que o cabo acabasse em minha mão. ― Você sabe que isso não fez sentido, não sabe?! ― Observa-la revirando os olhos não me acalmava, mas me limitei a fazer um bico, enquanto encostava o corpo no balcão em frente a mesa.
― Yukihira. Eu preciso falar com você sobre...― Acompanhei seu olhar, para ver o que a tinha impedido de continuar. Vi Hisako andando em nossa direção, carregando uma pilha de papéis consigo. Fechei os olhos, para que justamente eu não os revirasse como Erina tinha feito antes.O timing de Hisako em atrapalhar nossas conversas estava começando a me irritar seriamente. Coloquei a mão atrás da nuca, coçando-a para canalizar essa raiva. ― Deixa eu adivinhar, mais assuntos do comitê? Nossa, que surpresa. ― Esse não era meu normal, até eu admito isso. Mas fazia um ano que eu tentava vencer Nakiri em um Shokugeki após o outro. E ela quase nunca me dava uma resposta satisfatória. Respirei fundo, apertando a faixa branca em minha cabeça. ― Ei, Nakiri! Você não escapa da próxima vez, viu?! Nem que eu precise te amarrar e ameaçar com as minhas lulas especiais. ― Percebi que minha risada foi o suficiente para fazê-la congelar na cadeira e tremer com a ideia, e aquilo foi o suficiente para que eu guardasse minha faca e seguisse para fora da cozinha. ― ‘Té mais, Hisako!
Foi só pôr os pés para fora da sala que ouvi um discurso de pedido de desculpas familiar. Segui pelo corredor, até virar e ver um grupo não muito longe dali. Encarei Megumi do lado de fora de uma sala, abaixando-se repetidas vezes para se desculpar com algum grupo que provavelmente tinha esbarrado por estar correndo. Assim que ela me avistou, pareceu prender a respiração, prendendo os cadernos com mais força contra seu peito e correndo em minha direção. Escondi a mão nos bolsos, encarando-a com confusão. ― Ei Megumi, ‘cê sabe que hoje não têm a terceira aula né? Então pode ficar tranqui… ― Parei de falar assim que ela ergueu a mão em minha direção, seu corpo estava dobrado para frente e ela parecia tentar recuperar o fôlego perdido. Quando finalmente pareceu conseguir, ergueu o corpo, voltando a segurar os cadernos com ambas as mãos. ― O diretor Nakiri vai se aposentar! A escola está um caos, tem boatos rolando por todos os lados, mas o maior de todos… ― Ele olhou ao redor, como se estivesse para contar um segredo. Só que se era um boato, a maioria já não sabia? Mesmo assim inclinei meu corpo para frente, procurando fingir que estava entrando na dela. ― … é que a Erina vai assumir esse cargo. E o pior… ― Ela pausou a fala mais uma vez, diminuindo o tom da voz e se aproximando ainda mais. O que me obrigou a dar um passo para trás. ― … é que ao que parece, ela recebeu uma proposta de um vampiro de família nobre para que ela fosse sua parceira!
Nessa hora senti como se meu corpo fosse pressionado para baixo com mais força do que eu podia suportar. A voz de Megumi parecia estar muito distante para que eu conseguisse distinguir as palavras seguintes. Murmurei dizendo para que ela esperasse, embora não soubesse se foi com clareza, então dei meia volta e corri até a sala. “Yukihira. Eu quero falar com você sobre...”. Eu não tinha notado antes, mas seu tom não parecia debochado como normalmente. E ela nem mesmo tinha comentado sobre minha comida como normalmente fazia. Assim que cheguei na sala a encontrei vazia, tanto Hisako quanto Nakiri não estavam mais ali, e não tinha sinal de estarem por perto. Só parei de encarar a cadeira vazia quando ouvi Megumi atrás de mim com sua respiração pesada. ― Souma? O que foi? ― Com um suspiro pesado, voltei a enfiar minhas mãos no bolso da calça enquanto me virava para encará-la. Ela recuou um passo assim que viu meu rosto, colocando a mão em defensiva como se estivesse domando uma fera. ― Nada de importante. Vamos, de repente fiquei com fome. E ainda precisamos recepcionar os novatos. ― Não ouvi sua resposta. Aliás não ouvi boa parte do que acontecia ao meu redor pelo resto do dia, minhas respostas eram automáticas e os olhares atravessados direcionados a mim pouco me importavam. Só voltei a ficar alerta quando chegou a noite, a cerimônia de abertura iria ocorrer e logo após alguns comunicados importantes. Entrei no auditório, seguindo para o palco onde eu e mais nove alunos se sentaram em cadeiras enfileiradas. Ouvi algo sobre me sentar direito, mas continuei encostado de forma desleixada, com as mãos no bolso. Meu objetivo era um só e não passava muito dos 1,50m de altura. Assim que avistei Nakiri, fiquei a encarando até que ela me olhasse, embora tenha desviado logo em seguida. Fiquei encarando a multidão, sem ter um ponto fixo, tentando lidar com a irritação que fervia meu sangue sem que eu nem mesmo soubesse sua origem. ― ….hira. Yukihira… YUKIHIRA SOUMA! ― Dei um salto em minha cadeira, olhando para os lados enquanto tentava entender o que tinha acontecido. ― Presente!
Então ouvi risadas. Os que estavam ao meu lado apenas enfiava o rosto na mão ou desviavam o olhar de mim, enquanto uma multidão de novatos ria. Encarei a pequena mesa que tinha sido colocada no centro do palco para a cerimônia e vi uma Nakiri muito… puta da vida? Ela colocou a mão no microfone para abafar sua fala. ― Vem aqui seu cabeça de tomate podre! ― E então apontou para onde ela estava. Bufei ao dar o primeiro passo em sua direção. Primeiro ela quis me evitar e depois quase me ameaçava de morte para ir até ela? E a culpa ainda era minha. Assim que cheguei, a olhei de cima por alguns segundos, vendo sua expressão assumir um misto de confusão em meio a irritação. Então inclinei meu corpo em sua direção e aproximei meu rosto de seu ouvido. ― Sala 2-B depois da cerimônia. Se me der bolo eu conto pra todo mundo que te vi comendo senbei* hoje de manhã! ― Só tive tempo de vê-la encher o peito de ar para reclamar, então me virei para o microfone, dando uma batida de leve com o dedo indicador. ― Ahn, testando, testando. ― De repente o auditório ficou em silêncio, e pude observar pelo canto do olho Nakiri indo para o seu lugar, ao lado de seu avô e diretor da Tootsuki. Pigarreei, voltando a prestar atenção no que dizia. ― Bem, não tenho muito o que dizer, na verdade. Meu nome é Yukihira Souma, como já devem saber. Sou o primeiro assento da elite dos dez representando os vampiros. Caso experimentar uma derrota amarga, fiquem a vontade para me desafiar! ― Segui com meu discurso de forma breve, afinal não era bem meu forte aquelas cerimônias cheia de pompas. Mas assim que terminei, pude perceber pela expressão dos que estavam no palco que não era bem aquilo que eu deveria dizer. Mas ao receber um ‘ok’ do diretor, eu lhe dei um sinal ‘positivo’ e segui para o meu lugar.
O resto da cerimônia foi professores indicando os locais que cada um deveria ficar, e, obviamente, as regras da escola. E de todas a principal, que foi mais enfatizada do que qualquer outra: Era proibido consumir sangue humano fora das salas próprias para isso ou dos refeitórios. Quem o fizesse seria expulso imediatamente sem chance de argumentação. Essa regra foi levada tão a sério que foi aberta uma nova lei onde proibia menores de idade consumirem sangue fora dos locais indicados pelo governo. Isso criou um alvoroço no começo, mas logo foi bem recebido devido aos casos de vandalismo diminuindo consideravelmente. E isso serviu como um controle para os jovens que tinha os hormônios a flor da pele. Eu realmente não me importava com aquilo, apesar de ser um vampiro, nunca senti uma sede que pudesse me deixar fora de controle. Isso graças ao meu pai que me ensinou desde pequeno a direcionar toda energia extra para a culinária. E foi assim que sempre fiz. Assim que os alunos começaram a se retirar, me levantei da minha cadeira, procurando Nakiri pela multidão. Assim que a encontrei, ela já me encarava e pude perceber um pequeno suspiro escapando de seus lábios antes dela concordar discretamente com a cabeça. Com isso apenas coloquei as mãos atrás do pescoço para ir até a saída. Bem, até sentir alguém puxar meu blazer.
― Ei, Souma, para onde está indo? Nós temos que terminar de organizar o teste para os novos alunos que vai acontecer amanhã, esqueceu? ― Fiquei parado por alguns segundos, encarando Aldini com uma expressão que eu esperava não ser de quem tinha se esquecido completamente daquilo. ― Você se esqueceu completamente disso, não é desgraçado? ― Senti o punho se fechar com mais força para me prender, então num movimento rápido retirei o blazer e fui correndo até a saída. ― Foi mal Aldini! Cuide disso para mim! ― Pude ouvir alguns xingos antes de passar pela porta e descer as escadas correndo. Segui pelos corredores com pressa, apenas dando desculpas desleixadas pelas pessoas que acabava por esbarrar no meio do caminho. Assim que cheguei até a sala que tinha usado para cozinhar meu prato naquela manhã, abri a porta com força, encontrando Nakiri de braços cruzados e apoiando o corpo no balcão. ― E então? O que quer me dizer? ― Fechei a porta ao entrar, ainda respirando pesadamente por ter corrido. ― Mas o que é isso? Foi tirar o pai da forca, é? Não sou eu quem deveria perguntar isso? Afinal fui ameaçada para vir até aqui! Falando nisso, você tem coragem… ― A interrompi no meio da fala, atravessando a sala com passos largos para tampar sua boca. Vi seus olhos se arregalaram e suas pupilas dilatarem. Não demorei muito para soltá-la, me apressando para dizer algo. ― Você fala demais. Pelo menos fala demais as coisas erradas. Não foi você quem disse ter algo para me contar hoje mais cedo? ― Vi sua expressão ir de fúria para desânimo num piscar de olhos. Nesse ano em que a conheci já a vi de muitas formas diferentes, mas daquele jeito era a primeira vez. Vendo que o assunto era sério, assumi outra postura, me afastando um passo e cruzando os braços, esperando por uma resposta. ― Você já deve saber, não é? Afinal é o primeiro assento dos vampiros. Meu avô está pensando em se aposentar. ― Ela encarava o chão enquanto falava, embora eu pudesse ver claramente sua testa levemente enrugada, num esforço de não transparecer emoção alguma. ― Então quer dizer que o boato do noivo era verdade? ― Todo seu esforço para passar uma imagem madura foi por água abaixo quando escutou o que eu disse, seus olhos me encaravam e sua boca estava aberta num ‘O que disse?’ que não chegou a ser dito em voz alta. ― Algumas pessoas estão comentando que um vampiro pediu para ser seu parceiro. É verdade? ― Vi sua cabeça balançar negativamente, sua postura mudando para demonstrar o quão incrédula estava com aquele assunto. ― É sério isso?! A academia está passando por uma crise e você me pergunta se… Meu Deus Yukihira, não! Não que eu saiba pelo menos. Mas como eu sou a parceira em questão, acho que isso deve dizer algo, né? Agora põe essa cabeça de tomate podre para pensar direito e veja a gravidade da coisa aqui! ―
Cheguei a recuar um passo com suas palavras duras, mas não porque me importei com elas, mas sim porque Nakiri consegue ser bem explosiva quando quer. E ai de quem ficar no meio de sua fúria. ― Tá certo, tá certo! Não é culpa minha, okay? E você notou que tem um boato falso sobre você rolando pela escola? ― Novamente pude ver seu rosto suavizar. Ao que parecia o tópico anterior já não era mais um problema para ela. ― Não seria a primeira e nem última vez. Por que eu deveria me importar? ― Por algum motivo aquilo me irritou. Mas irritou de tal forma que não percebi minha cara fechada até ela me encarar de forma suspeita. ― Você deveria se importar, quando um parceiro é firmado isso dura pelo resto de sua vida. Não é algo sem importância. ― Ela piscou algumas vezes, e pude ver seu rosto mudar de cor, assumindo lentamente um tom rosado. Só então pareceu cair em si sobre a gravidade do assunto. Estalei a língua, levando uma mão até a cabeça para coçá-la. ― Está bem, está bem. E? Seu ‘vô quer se aposentar, qual o problema? Ele tá velho mesmo. ― Nesse instante a vi me metralhar com os olhos como de costume, então apenas sorri de canto enquanto desviava o olhar e dava um passo para trás. ― A situação é séria, Yukihira! Meu avô é o único capaz de dirigir a Tootsuki de forma justa, do contrário… ― Pude perceber seu rosto empalidecer. Nessa hora meu sorriso se desfez, ela não costumava a ficar tão tensa por pouca coisa. Aliás se tem algo que ela normalmente não aparentava estar, era tensa. Não importava qual situação, Nakiri se mantinha plena e sempre racional. Cruzei meus braços, respirando profundamente enquanto a encarava. ― E então?
― Não tem um ‘então’. É isso. A diretoria da Tootsuki ficaria completamente a mercê… Eu nem mesmo quero pensar. Mas isso não parece o tipo de coisa que meu avô faria. Ele zela e preza tanto a Tootsuki… ― Quase pude ver sua cabeça trabalhando nas possibilidades. Quanto tempo fazia que ela estava daquele jeito? Observando de mais perto, pude ver olheiras começando a se formar debaixo de seus olhos. E ela provavelmente nem teria notado, não do jeito que estava. ― Oi Nakiri. Por que não fala diretamente com o velho? Não é muito mais fácil do que agonizar? ― Seus lábios se contraíram, como se considerasse a ideia, mas não gostasse dela num todo. ― É, mas… Ele teria falado comigo. Eu até tentei abordar o assunto, mas ele desviava sem nem mesmo demonstrar qualquer intenção de voltar a falar sobre. É isso que me preocupa. Esse é um cargo de muito pode, se ficar nas mãos erradas… ― Naquele momento, sua voz parecer morrer lentamente até se findar. Seus olhos estavam arregalados, encarava o nada como se ali tivesse um monstro de sete cabeças. Aquilo me incomodou, mas apenas mudei meu peso para uma perna e apertei os braços cruzados. ― Que foi, Nakiri? Parece que viu Buda. ― Com minha voz, ela pareceu ter despertado de um pesadelo, a ponto e encolher os ombros. Pareceu que ia falar algo, mas logo fechou os lábios. Ela parecia aflita de uma forma que eu nunca tinha visto antes, nem mesmo sabia se já tinha ficado assim. Antes que eu pudesse perceber, minha mão estava em cima de sua cabeça, alisando os fios loiros. ― Se acalme. Não é como se você tivesse que carregar esse peso sozinha. Você tem a Hisako, Alice e todos os outros. E eu estou aqui. ― Não tinha reparado em como ela congelou, até sentir sua cabeça começar a tremer. Recolhi a mão no mesmo instante, enfiando-a no bolso. ― Opa foi mal. De qualquer forma, não se preocupe. Não deve ser algo feito de imediato, não é? Até lá eu vou te fazer me reconhecer e se arrepender de ter me subestimado, e então você vai implorar para ser minha parceira! ― Enquanto eu ria, ela pareceu despertar de um sonho, erguendo os ombros e preparando para despejar a sua indignação em mim. ― Vai sonhando com isso, cabeça de tomate podre! ― E então foi pisando com força até a saída da sala. Encarei suas costas até o momento em que porta se fechou atrás dela e no mesmo instante me virei em direção a janela que estava atrás dela há poucos segundos. ― Vai sair das sombras e dizer o que quer ou eu vou ter que te arrastar na porrada? ― Mantive meu tom calmo, quase indiferente enquanto encarava as cortinas imóveis. Então no meio do breu completo, surgiu um par de olhos rubros, me encarando como se analisasse bem a melhor forma de estrear o brinquedo novo.
― Sabe, eu não curto muito essas coisas de ficar bisbilhotando. Simplesmente não parece certo, né? ― Enquanto eu falava, lentamente desenrolada a faixa branca que sempre carregava em meu pulso. ― Ainda mais quando você vê que as pessoas claramente não querem ser incomodadas. Isso me emputece um bocado. ― Ao terminar, joguei boa parte do meu cabelo para trás, amarrando a faixa em minha cabeça e deixando evidente as olheiras que contornavam meus olhos. ― Se quiser saber de algo vem cá perguntar. Ou está com medo demais para isso? ― Franzi o cenho, resultado da minha melhor tentativa de sorrir com toda a raiva que fervia meu sangue naquele momento. Não precisei esperar muito, a pessoa parecia querer armar um show, então chutou com tudo o vidro da janela, adentrando o local no mesmo segundo. Nesse exato momento, o alarme da escola começou a apitar como louco. ― Bem, parece que discrição não é bem o seu for… ― Não tive tempo de terminar minha frase e bloquear o chute que me foi desferido na altura do rosto. Com uma mão parei o chute e com a outra agarrei a perna, me impulsionando para joga-la contra a porta. E assim o fiz, mas ela conseguiu se posicionar no ar de forma que seus pés amorteceram o baque. ― Julgando pelo peso você deve passar uma fome danada, né não? Ah qual é, vamos sentar aí, eu preparo alguma coisa para você. Que tal uma troca? Comida por informações? ― Seu rosto estava coberto assim como seu corpo, na verdade parecia muito com uma roupa de ninja, eu que não quis admitir na hora. Estava tão bem escondida que não consegui identificar qualquer traço que não fosse os olhos para reconhecer depois.
Acontece que a mutação na íris já era algo comum e não dava para dizer se era humano ou vampiro. Embora eu duvidasse muito que algum humano fosse burro de me enfrentar daquele jeito. Então ele não me conhecia, ou tinha algo na manga. Poderia estar atrás de Nakiri também. Meus pensamentos que desenhavam as diversas possibilidades foram interrompidos por… ah cara, aquilo era uma kunai mesmo? Consegui desviar sem muita dificuldade, mas assim que dei o último passo para desviar, olhei para baixo e vi aquele projeto de ninja se esgueirando, com uma faca gyuto** indo em direção nas minhas costelas flutuantes. Só tive tempo hábil para me abaixar um pouco, fazendo com ele entregasse a faca um pouco mais acima. Já dominado pela adrenalina, ainda mais com metade uma faca enterrada em mim, segurei seu pescoço com uma mão e o puxei para cima somente para joga-lo com toda força contra o chão. Ouvi um barulho parecido com engasgo, mas não me importei, afinal não tinha quebrado nada. Deslocado? Talvez. Mas nada tão grave que o mataria. ― Então, parece que eu sou seu alvo… ― Tossi, sentindo o gosto amargo do sangue na minha boca. Usei meu joelho para manter sua garganta presa enquanto minha mão ia até a faca. Tentei tira-la uma vez, mas arfei com a dor que parecia me atravessar por completo. Então na segunda tentativa puxei a faca, retirando-a por completo. Um ganido escapou entre meu dentes enquanto eu pressionada o ferimento com a mão livre. Precisei de alguns segundos para recuperar parte da minha respiração, mas aquilo não me impediu de jogar a faca para cima. A faca girou algumas vezes, fazendo gotas de do meu próprio sangue manchar meu rosto até que ela finalmente parasse na palma da minha mão. ― Voltando ao que interessa… Quem é você? E o que você quer? ― Aproximei a ponta da faca no único ponto que estava amostra, ou seja, seus olhos. Estava me aproximando lentamente de seu olho esquerdo quando ouvi e senti o prédio tremer por causa de uma explosão. Aquilo foi o suficiente para que ele me afastasse com um empurrão, se erguendo num salto acrobático estranho e indo em direção a janela quebrada. Praguejei em voz baixa enquanto tentava me recompor para impedi-lo. E conseguiria facilmente se eu não estivesse perdendo tanto sangue tão rápido. O meu máximo foi ficar de joelhos, mas ele já estava no parapeito da janela. Então segurei firme a faca, respirei fundo e a joguei com toda força que meu braço poderia ter naquele momento. Ouvi o barulho dela atravessando o ombro do intruso como se fosse manteiga. E logo em seguida ouvi seu grito de dor enquanto ele caia para o lado de fora da janela. Aproveitando a oportunidade, me forcei a ir até lá para ver se ele estava mesmo espatifado no chão. Mas para minha decepção nem gota de sangue tinha ficado para trás. Xinguei mais uma vez, só que sem a disposição de antes para seguir com a luta. Deixei meu corpo cair no chão e me encostei na parede, ainda pressionando o ferimento. ― Yukihir… ― Ergui a cabeça para ver de onde vinha aquela voz, que já estava meio distante. Encarei uma visão semi embaçada de Nakiri Erina estagnada na porta, me encarando como se eu já estivesse moribundo. ― Ah qual é, você estuda com vampiros, um pouco de sangue… ― Tossi, sentindo mais uma vez o gosto amargo na boca. Quem quer que fosse aquela pessoa, sabia exatamente onde mirar e o fez na intenção de me rasgar para deixar sangrar o máximo possível. Eu devo ter ficado uns bons minutos desligado, pois quando percebi ela tinha me deitado no chão e retirado o próprio blazer para tentar estancar o sangramento. ― Você é idiota? Aqui não é segu…
― Cale a boca! ― Nunca pensei que poderia ouvir uma combinação estranha de irritação e puro pavor em sua voz trêmula. E forçando bem meus sentidos que não estavam grande coisa, pude perceber que ela toda estava tremendo. Seus olhos estavam marejados e arregalados numa tentativa de impedir que as lágrimas saíssem de onde deveriam ficar. Fiquei sem reação por uns bons segundos, apenas a encarando sem saber o que dizer ou fazer. Então apenas bufei da mesma forma que sempre fazia quando discutíamos. Isso a fez piscar e me olhar atônita. ― Se está tão desesperada, por que não me dá um pouco do seu sangue? Isso sim iria ajudar. ― Minha voz foi diminuindo, o tom de deboche desaparecendo quando vi seu rosto se iluminar com a ideia. Como se fosse algo muito óbvio e o mais correto a se fazer. Então vi sua cabeça virar de um lado para o outro, até seus olhos se fixarem num caco de vidro, oriundo da janela quebrada. Ela esticou a mão para alcançá-lo e nesse pequeno intervalo com menos de um segundo, senti um pânico se instalar em mim de uma forma que eu nunca havia sentido. Segurei sua mão, sem perceber a que a minha estava manchando com meu sangue, antes que ela pudesse pegá-lo. ― Ei Erina! Ficou louca de vez? No dia que eu precisar que você se machuque por minha culpa, eu vou ser completamente inútil como parceiro! ― Meu gás de determinação começou a falhar, de forma que só consegui enxergar seu rosto borrado enquanto ela gritava alguma coisa. A última coisa da qual me lembro depois daquilo é de vozes se aproximando, e mais alguns baralhos ao fundo.
*Biscoito de arroz popular no Japão por ter uma consistência bem dura. É servido geralmente com chás.
**É uma faquinha de cozinha japonesa. [Por faquinha lê-se facão da porra.]
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